Nos finais do século XIX e primeiro quartel do século XX foram publicados vários almanaques. A palavra almanaque vem do árabe al-manakh (1) que significa «lugar onde o camelo ajoelha», querendo portanto referir-se a um ponto de encontro. Um livro com essa designação apresenta um calendário do ano com as festas anuais, informações úteis, informações culturais, actualidades, charadas, etc.
O que este “Almanach das Senhoras” tem de diferente é que se trata de um almanaque feminino, escrito e publicado numa época em que as mulheres tinham ainda muita dificuldade em impôr-se na literatura. Foi um anuário fundado por Guiomar Torrezão (1844-1898), em 1871, e que se publicou até 1928. A sua acção valeu-me muitas críticas sobretudo da parte de escritores mais conservadores. Isso no entanto não impediu a colaboração de outros elementos do sexo masculino, como foi o caso de Rafael Bordalo Pinheiro que desenhou a capa de 1876/1877.
De entre as muitas colaboradores destaco também Maria Amália Vaz de Carvalho.
De entre as muitas colaboradores destaco também Maria Amália Vaz de Carvalho.
Quando morreu Guiomar Torrezão, seguiu-lhe a sua irmão Felismina Torrezão, como proprietária e Júlia de Gusmão como directora literária.
A publicação para o ano de 1923, é já da Parceria de António Maria Pereira e tinha como directora literária Maria O’Neill. Esta fazia parte do “Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas” fundado em Março de 1914, sob a direcção da médica ginecologista Adelaide Cabete (1867-1935), que havia já participado na criação da “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, em 1909, com Ana de Castro Osório.
Este número de 1922/1923 comemora também a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, feita pelos aeronautas portugueses Gago Coutinho e SacaduraCabral, em 1922, aquando das comemorações do Primeiro Centenário daIndependência do Brasil. O mesmo aconteceu com o “Almanaque Ilustrado do Jornal o Século” do mesmo ano, que na sua capa apresentava o avião dos dois heróis nacionais. A publicação para o ano de 1923, é já da Parceria de António Maria Pereira e tinha como directora literária Maria O’Neill. Esta fazia parte do “Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas” fundado em Março de 1914, sob a direcção da médica ginecologista Adelaide Cabete (1867-1935), que havia já participado na criação da “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, em 1909, com Ana de Castro Osório.
Voltamos ao “Almanaque das Senhoras”, que é muito interessante também no que respeita à sua publicidade, e de que apenas apresento dois anúncios. O primeiro de um produto para «emagrecer sem perigo» e um segundo, vanguardista, de um outro medicamento francês para regular os períodos menstruais.
Apesar de feminista este número presta homenagem a vários homens da sociedade portuguesa, com um pequeno texto e fotos. Saliento o dedicado a Felix Bermudes, autor de «João Ratão», do «Conde Barão» e da «Pérola Negra». Após o elogio a autora escreve:«Enfim não há ninguém que não tenha um senão; o de Felix Bermudes é caçar. Desejamos que uma lebre agonizante lhe lance um olhar que o comova e o convença a respeitar a vida dos animais. Estão será perfeito».
Contudo esta opinião não impediu de publicarem uma foto intitulada «Refeição de caçadores», enviada pelo colaborador Francisco Alves Ferreira e que representava o caçador de hipopótamos sr. Leonel de Lemos e os seus companheiros, na lagoa de Ingolome, «restaurando as forças com uma substancial refeição na qual não foi o acepipe menos apreciado uns saborosos bifes de hipopótamo, convenientemente regados, a ajuizar pelo bojudo garrafão que figura junto da improvisada mesa».
(1) Machado, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.