sexta-feira, 27 de março de 2015

O Concurso Lépine de 1927

Guarda queijo Camambert rotativo
Ainda hoje existe o Concurso Lépine, um concurso para invenções que teve a sua origem em França em 1901, no Parque de Exposições, em Paris. No início designava-se «Exposição de brinquedos e artigos de Paris» mas mais tarde e, fazendo jus ao gosto francês de pôr nomes pessoais em tudo, tomou o nome do seu fundador Louis Lépine (1846-1933).
Guarda Camambert para impedir o queijo de escorrer
Ficou célebre por aí terem sido apresentados um aspirador em 1907, um passador de legumes manual a partir do qual a empresa Moulinex se desenvolveu, a primeira esferográfica, o ferro de passar a vapor (1921), etc.
Centrifugador de salada
As décadas de 1920 e 1930 foram de grande desenvolvimento das Artes Domésticas pelo que não admira que tenham sido apresentados em 1927  tantas novidades ligadas à casa.
Protege garrafas metálico
Aqui deixo alguns exemplos que, vistos agora à distância, não deixam de ter graça.
Suporte para panos de cozinha

sexta-feira, 20 de março de 2015

O licor «Cae Bem» de Francisco Dias

Garrafa Licor Cae Bem
Francisco Dias era o nome do proprietário da fábrica de licores que, em 1931, estava estabelecido no largo da Portas do Sol, 6 e 7, em Lisboa. O edifício já não existe, sacrificado à necessidade de largueza e amplitude de visão do largo,  mas as fotografias da época mostram a suas grandes dimensões.
Fábrica de Francisco Dias à esq. Largo das Portas do Sol. Foto de Eduardo Portugal, 1939, Arquivo fotográfico da CML
A empresa, como então era moda, tomou o nome do seu proprietário «Francisco Dias» que em 1935 mudou a designação para «Francisco Dias, Limitada». Foi nesse ano que registou igualmente a insígnia que consistia numa estrela de cinco bicos, dentro de um círculo de onde saíam múltiplos raios, e tendo no centro as letras «FD» e que aparece nos rótulos da garrafas.
Um dos seus primeiros produtos, registado em 1931, foi o «Creme de Licor Cae Bem», de que finalmente consegui arranjar uma garrafa. Com uma imagem moderna, adequada à época, uma jovem de cabelo curto brindava com um cálice na mão, enquanto a outra se apoiava numa mesa sobre a qual se pode ver uma garrafa de licor. Seguiu-se, ainda em 1931, o «Creme de Anis Escarchado», em que o rótulo recortado mostrava um casal em traje de cerimónia, a brindar com duas taças, sobre uma fruteira gigante repleta de frutas.
Rótulo mais tardio do Creme de Licor Cae Bem © AMP
Em 1935 para além de uma «Aguardente fina» registou a marca «Chega-m’isso», um creme em que utilizava novamente no rótulo um casal a brindar, desta vez tendo a figura feminina um copo e a masculina uma garrafa na mão. A última marca detectada foi designada «Pretinha», não sendo explicitado de que tipo de bebida se tratava, mas produziu também um licor designado «Lutador» e ginjinha.
Rótulo Licor Lutador © AMP
Em 1944 o seu nome constava da lista de fabricantes de licores publicada pelo «Grande Anuário de Portugal» e o achado de um rótulo desta firma da década de 1950 mostra-nos que produziam então um «Creme Escarchado de Laranja» e que a empresa se situava ainda no largo das Portas do Sol.
Rótulo Fina Ginginha © AMP
No «Guia Profissional de Portugal», de 1964, pode ver-se um anúncio seu, como fabricantes de licores e xaropes mas tinha-se já mudado para a Travessa de S. Tomé, 7, em Lisboa. Existia ainda em 1971, de acordo com o «Informador Comercial e Industrial de Lisboa».

Esta empresa utilizou também garrafas com o seu nome em relevo no vidro. Refiro-me a uma garrafa com o feitio aproximado de uma guitarra, em que surge, na metade inferior, um círculo onde pode ler-se «Francisco Dias – Lisboa». No que respeita à utilização de garrafas figurativas comercializaram pelo menos o jogador que era representado com uma bola entre os pés e onde, na base, se identifica o nome Francisco Dias em relevo, enquanto na frente o rótulo mostra a marca «Chutador».
Garrafa figurativa
Esta firma lisboeta pode ser utilizada como exemplo na utilização de rótulos muito ingénuos, coloridos e divertidos que foi a característica visível mais marcante dos licores populares produzidos desde o final do século XIX e durante a primeira metade do século XX.

Bibliografia: Pereira, Ana Marques, Licores de Portugal (1880-1980).

segunda-feira, 9 de março de 2015

Centro de Mesa Veyrat. Um bom filho à casa torna.

Centro de Mesa da baixela Veyrat- Foto Vasco Cunha Monteiro, Cabral Moncada Leilões
Para quem gosta da história da mesa a notícia não pode ser ignorada. A chegada ao Palácio Nacional da Ajuda do centro de mesa da baixela de prata Veyrat é como o regresso do filho pródigo a sua casa.
Agora novamente sobre a mesa da sala-de-jantar vem completar o conjunto de quase 300 peças da mesma proveniência, de que fazem parte várias peças de mesa, um faqueiro e um serviço de chá e café. Este conjunto, designado  “prata de casamento”, foi provavelmente oferta de Victor Emanuel II, rei de Itália, pai de D. Maria Pia, e terá sido trazido por esta para Portugal aquando do seu casamento com o rei D. Luís I, em 1862.
Sala de jantar do PNA (Foto AMP)
Se as restantes peças se mantiveram no Palácio, o centro-de-mesa, mais valioso, foi entregue ao Banco de Portugal em 1903, para pagamento de dívidas da rainha D. Maria Pia, e leiloado em 1912. Em mãos privadas até ao final de 2014, foi readquirido pelo Estado e pode agora ser visto sobre a mesa da sala de jantar.
Centro de mesa Veyrat (Foto AMP)
O centro de mesa, em prata, apresenta as Armas Reais de Portugal e Sabóia, e é formado por um conjunto de 5 meninos (“Putti”) que seguram grinaldas de flores, de onde se suspendem três cestos encanastrados,  onde eram colocadas taças de vidro. O conjunto assenta sobre um plateau recortado.  
A baixela, de que o serviço faz parte foi feita por Augustin Pierre Adolphe Veyrat, com loja localizada na Rue de Malte, 20 , em  Paris. Era filho de um outro ourives francês Jean Francois Veyrat, a quem se seguiu no negócio em 1840, altura em que registou a sua marca. Em 1849 a firma tomou a designação Veyrat Fils.  

Fotografia antiga de  Henrique Nunes
Este tipo de centro de mesa tem a designação de “épergne”, uma palavra sem tradução para português. A palavra usada em inglês “epergne” significa «economia» e teve anteriormente a forma mais inglesa de «aparn». É uma corruptela do francês “épargne”, uma alteração que terá surgido em meados do séc. XVIII. Na 4ª edição do Dictionnaire de L’Academie,  de 1762, diz-se que esta era a forma antiga para «Tesouro Real», onde se colocava a prata do rei. 
Épergne feito por Thomas Pitts, V &A Museum, séc. XVIII
Passou depois a designar uma peça ornamental que servia de centro de mesa da sala-de-jantar constituída por vários cestos ou taças, geralmente destacáveis (é o caso dos dois cestos laterais do centro Veyrat) e que serviam para colocar flores, frutos, bonbons ou  doces. Eram geralmente feitos em prata, bronze ou outro metal e apresentavam um número varíavel de taças em vidro. Estes conjuntos podiam ser ornamentados por figuras (casos dos putti na baixela Veyrat).
Para não me alongar sobre o centro de mesa chamo apenas à atenção para o pormenor interessante do menino sentado num balouço florido, debaixo do cesto central, peça que podia ser trocada por um globo de cristal com tampa perfurada em prata, onde se podia colocar um pequeno peixinho.
Pormenor do aquário do centro de mesa Veyrat (Foto AMP)
A evolução dos centros de mesa é um assunto muito interessante, muito do meu gosto, mas que não pode ser desenvolvida num blogue. Para quem quiser saber mais pode ir ouvir a Drª Cristina Correia Neiva no dia 21 de Março, às 11,30, no Palácio da Ajuda.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Um prato de Bacalhau (quase) à Assis

Foto tirada do facebook do CNM
Há quase há dois meses recebi no meu mail uma informação sobre um almoço e workshop sobre o bacalhau à Assis, na Casa da Covilhã. Registei a data na minha agenda, mas como entretanto perdi o mail não consegui contactar a fonte. Da Casa da Covilhã ninguém respondeu ao telefone (fixo e portátil) e no facebook nada constava sobre este evento.
Fiquei desolada e a frustração foi de tal modo que nesse dia decidi improvisar um prato de bacalhau, a que chamei «quase à Assis».
Imagem da sala de jantar do CNM onde nasceu o bacalhau á Assis (foto do facebook do CNM)
Para quem não é da Covilhã talvez esta designação não lhe diga nada. A receita é uma variante do bacalhau à Brás e foi feita pela primeira vez por Henrique Assis, que na altura se chamava A-Si, há 82 anos. Era mais conhecido pelo «chinês» uma vez que era essa a sua origem. Eram outros tempos e um chinês na Covilhã era uma raridade.  Assis tinha sido trazido da China por um militar da zona da Covilhã e ali cresceu e constituiu família. Aprendeu a cozinhar comida portuguesa e esteve à frente da cozinha da antiga Pensão Floresta que se passou a designar Pensão Restaurante dos Skiadores. Foi também cozinheiro no Club União da Covilhã, um clube elitista frequentado pela melhor sociedade da terra. 
Henrique Assis e sua mulher Rosa Fortuna (foto retirada de folheto distribuído pelo filho)
Mas foi no Clube Nacional de Montanhismo (CNM), na Serra da Estrela, que durante um nevão, e utilizando os elementos que tinha à mão criou o Bacalhau à Assis (ou à A-Si), juntamente com sua mulher Rosa Fortuna.
Bacalhau à Assis cozinhado pelo próprio no dia de homenagem dos 80 anos de criação do prato, em 2012
Semelhante ao bacalhau à Brás é realmente uma inventona a que se adiciona cenoura ralada, presunto e pimentos. Os pimentos usados são os “morrones”. Pode parecer estranho mas faz sentido porque  me lembro que os morrones eram frequentes na Covilhã, trazidos de Espanha de contrabando e vendidos porta a porta, juntamente como os caramelos e os “melocotones”.
Henrique Assis em 2012 no almoço de homenagem no CNM
O bacalhau foi um sucesso que o seu autor repetiu. Lembro-me de o meu pai ir à pensão do Assis buscar este prato, que foi sempre muito apreciado na Covilhã, e de o trazer para casa numa marmita.  
Descobri hoje que o tal almoço sempre se realizou, tal como a comemoração dos oitenta anos da criação do prato, comemorado em 2012, no Clube Nacional de Montanhismo, que o viu nascer e de cujo facebook  retirei algumas fotografias.
A minha versão do Bacalhau à Assis
A receita está disponível na net e não vou repeti-la. Na minha versão (também tenho direito a inventar) as batatas às tirinhas não foram fritas mas cozidas em vapor no micro-ondas (6-8 minutos) e só depois as alourei na cebolada com o bacalhau. Acrescentei a cenoura ralada crua e no fim os ovos batidos. Não juntei os pimentos porque não tinha, mas vou fazê-lo da próxima vez para me aproximar da receita. Já não me lembro do sabor do antigo bacalhau à Assis da minha infância, mas o meu bacalhau (quase) à Assis, estava óptimo.
PS: Agradeço às minhas amigas covilhanenses Cilinha e Alda o terem cruzado comigo informações sobre este tema.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Outras Batedeiras

Regresso ao poste anterior para falar de batedeiras de ovos e bolos.
Os modelos são tão variados que podemos voltar a este tema vezes sem fim.
Hoje apresento dois modelos retirados de um relatório apresentado por José Pombinho Júnior sobre doçaria em Portel, que foi feito para a Exposição Histórica do Mundo Português, em 1940.
Para além das receitas de doces e panificação regionais nesse relatório eram registados os utensílios utilizados. Saliento os destinados a bater as massas para os bolos que são: o molho de varinhas de marmeleiro atadas e um batedor de madeira que consta de uma vara central, que se rodava entre as mãos, e que tem na extremidade 4 meias luas perfuradas.
Este último ainda me lembro de ser usado em minha casa na infância. 
Bibliografia:
Doçaria e Panificação Regional, Resposta de J.A. Pombinho Júnior, Portel, Câmara Municipal, 2007.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Objecto mistério Nº 45. Resposta: Batedeira para ovos

Os objectos apresentados falam por si, isto é, a etiqueta explica a função. 
Não sei precisar a época mas serão do final do século XIX ou início do século XX.
A doçaria portuguesa exige a presença abundante de ovos e batê-los foi sempre um desafio. Os inúmeros modelos existentes para esse fim revelam-nos que nenhum era satisfatório. Este foi apenas um dos tipos de batedores que antecederam a batedeira eléctrica que viria resolver este problema. 
O sistema de pistão foi usado com bons resultados noutros utensílios domésticos em especial para fazer café, técnica ainda hoje usada com sucesso por marcas tão modernas como a Bodum. 
Sem experiência própria, posso concluir que a raridade deste modelo de batedeira deve traduzir um baixo êxito na sua funcionalidade.