quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Objecto mistério Nº 57. Resposta: Caixa de pão

Quando olhei a primeira vez para ela pareceu-me logo um caixa de costura. Este formato é o mais habitual para guardar as linhas, agulhas e tudo o necessário para uma costura rápida.
Contudo a palavra «PÃO», feita numa placa de alumínio, não deixava dúvidas. À semelhança das palavras em prata aplicadas na tampa de caixas mais requintadas, muito usadas para jóias e outros fins durante a primeira metade do século XX, orientam-nos para uma utilização exclusiva.
Esta caixa tem ainda a característica insólita de ter um vidro central que nos permite ver o pão. Para o caso de nos esquecermos de que já não há pão.
Na realidade as caixas podem ser multifuncionais, mas existem formas específicas que se generalizaram para um determinado fim.
As caixas de pão apresentam múltiplas formas, sendo as mais frequentes as caixas rectangulares e as redondas, mas existem outras. Foram muito populares na primeira década do século XX as caixas semicilíndricas com tampas rotativas. São geralmente em metal esmaltado e mais tarde em plástico e em madeira. Extremamente práticas forma retomadas por designers no final do século XX utilizando novos materiais.
Também as caixas de costura apresentam múltiplas formas, mas as caixas semelhantes à apresentada costumam destinar-se a esse fim.
Já agora, para confundir um pouco, mostro uma caixa de costura semicilíndrica precisamente com o feitio de uma caixa de pão.
É precisamente para isso que servem as etiquetas: para identificar o conteúdo. Nestes casos não temos escolha. Alguém decidiu por nós.

domingo, 12 de agosto de 2018

Objecto mistério Nº 57


Trata-se de um caixa em madeira, com uma pega central, cuja base tem 27 cm por 13 cm.

A caixa alarga para cima e apresenta duas tampas móveis numa charneira, que abrem em posições opostas. No centro estas tampas não estão unidas mas apresentam uma parte horizontal com um vidro que permite ver o conteúdo.

Qual o nome e para que se destinava?

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Água fresca e capilé

Há precisamente 110 anos (3 de Agosto de 1908) a revista Illustração Portugueza publicava na sua capa uma fotografia de Benoliel. Duas figuras masculinas, humildemente vestidas, dedicavam a sua atenção a estas refrescantes bebidas, num dia quente de Verão. A imagem, à época comum, não mereceu desenvolvimento no interior da revista pelo que podemos apenas descrevê-la, ou diria melhor interpretá-la.
À esquerda o vendedor retira, com um canivete, a casca de um limão para tornar mais agradável a bebida. Transporta consigo uma bilha de barro com água e uma pequena mesa com três pés e asa metálica para mais fácil deslocação. Sobre esta, duas garrafas com a bebida de capilé, um açucareiro e um copo de vidro.
O cliente é um jovem ardina que transporta o saco dos jornais e tem um exemplar para venda na mão. Descalço, naquele dia de calor, aguarda ansiosamente a preparação da bebida, seguramente uma excentricidade para o seu fraco rendimento (ou uma encenação pedida pelo fotógrafo?).
A cor branca da fotografia faz-nos adivinhar um dia de calor intenso mas o local onde tem lugar a cena não é distinguível. Será provavelmente Lisboa onde esta bebida era também vendida em quiosques e em pequenas lojas de bebidas.
Outra fotografia da época mostra-nos uma loja no Largo do Camões onde ela era consumida, mas os locais de vendas de licores faziam desta uma das bebidas de grande consumo de Verão, comercializada por várias empresas.
Jornal O Século 1929
Quando a propósito do meu livro «Licores de Portugal» entrevistei o sr. Alípio Ramos, actual proprietário da Frutaria Bristol, na Rua das Portas de Santo Antão em Lisboa, contou-me que tinha trabalhado na Ginjinha Popular e que tanto a groselha como o capilé feitos com soda tinham grande saída[1]. Nessa época vários fabricantes produziam esta apreciada bebida, como o comprovam múltiplos rótulos chegados até hoje.
Alguns dos rótulos de capilé da minha colecção.
O quiosque de S. Paulo ostenta ainda hoje nos seus cartazes de vidro pintados a palavra capilé prova de que esta era também aí vendida, tal como acontecia noutros locais semelhantes.
Quiosque do Largo de S. Paulo em Lisboa
A bebida que toma o nome do xarope «capilé» é feita com uma calda com suco de avenca ou capilária (Adiantum capillus-veneris L.). 
A minha avenca, uma planta muito tradicional nos lares portugueses
No século XVIII Lucas Rigaud no livro «Cozinheiro Moderno» dá a receita de Capiler ou Xarope de Avenca[2]. Quanto às donas de casa era frequente confeccionarem elas próprias este xarope.
Rótulo de Capilé para uso doméstico.
Não vou dar a receita, embora isso sempre me prejudique[3] mas remeto-os para um blogue de grande qualidade chamado Outras Comidas, onde podem seguir o modo de confecção ao pormenor, com rigor como é apanágio do autor.



[1] Licores de Portugal (1880-1980). pp 141 e 279.
[2]Cozinheiro moderno ou nova arte de cozinhar, onde se ensina pelo methodo mais facil... / dado á luz por Lucas Rigaud. p. 427.
[3] Há dias num local de venda dos meus livros uma senhora perguntou-me se o livro Ginjinha Portuguesa tinha receitas. Quando respondi que era apenas história pousou rapidamente o livro sobre a mesa e afastou-se.

sábado, 28 de julho de 2018

O talher de D. João V (cadinet ou cadenas) - 2


Cadinet Augsburg. Gottlieb Menzel. 1718. MET. 
O cadenas, tal como a naveta, foi um objecto simbólico do poder real. Eram habitualmente feitos de metal nobre: ouro, vermeil ou prata. Na zona mais elevada ou caixa fechada guardava-se o sal, o açúcar e a pimenta e os talheres propriamente ditos.
Cadinet do rei Guilherme III. Royal Collections Trust. UK
A porção horizontal servia para colocar o pão, sobre um guardanapo, sendo depois coberto com um segundo guardanapo montado, isto é, armado numa construção com bicos. A sua posição na mesa era sempre à direita do prato do rei, como se pode constatar no Plan du premier service du Grand Couvert à Versailles[1].
Pormenor da mesa de casamento de Napoleão com o seu cadinet e o do Maria Luísa em 1810.
Cadinet do Imperador Napoleão. Henry Auguste. Museu Napoleão . Fontainebleau.
Em França, desde o século XIII, existiu um oficial da Casa Real francesa designado «Grand panetier». Servia apenas nas grandes cerimónias, enquanto nos restantes dias eram os «Panetiers» que colocavam a toalha, a naveta e preparavam os trinchos ou os cadinets com pão e sal. Para além destas funções, e até 1711, tinha competência sobre os locais de fabrico de pão em Paris, aplicando uma taxa sobre a sua produção.
Em França a partir do século XVI este cargo passou a ser hereditário e esteve até 1792 na família de Cossé de Brissac. Um aspecto interessante é que nas suas armas, como se pode ver nas de Jean-Paul-Timoléon de Cossé de Brissac (1698-1780), que era «Grand Panetier» em 1730, se pode ver, como atributo das suas funções, uma naveta de ouro e o cadenas do rei.
Pormenor da cópia do cadinet de D. João V. Concepção fictícia da minha autoria.
Não existiu esta função em Portugal e no documento em que se descreve o banquete de casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria, em 1708, constata-se que foram os Reposteiros da Câmara quem trouxe o cadinet (talher) para a mesa real.



[1] Pereira, Ana Marques. Mesa Real. Dinastia de Bragança. p. 70.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Convite: Exposição Garrafas de Licores

Vai ter lugar no dia 21 de Julho, sábado, às 16 horas a inauguração de uma nova exposição de Garrafas de Licor, com parte do espólio das cerca de 1000 garrafas desta temática que entretanto fui coligindo.
A exposição desta vez será no Museu Marquês de Pombal, em Pombal e resultou da proposta que a Drª Cidália Botas, desse Museu, fez para levar a exposição que esteve anteriormente no Museu do Vidro da Marinha Grande. Contamos com o apoio deste último museu que nos facilitou fotografias e cópias de modelos industriais que vão tornar a amostra mais completa.
Ao contrário do Museu da Marinha Grande, que possui salas próprias para exposições, este museu de Pombal, de pequenas dimensões, vai integrar no seu espaço as peças de vidro da colecção.
Como o Marquês de Pombal foi um patrocinador do desenvolvimento de várias indústrias, entre as quais a do vidro, as garrafas vão ficar sobre a protecção do Marquês, o que muito me agrada.
O projecto que parecia difícil foi um desafio conseguido e a exposição, que acabamos de montar, ficou muito interessante.
Se tiverem disponibilidade não deixem de ir visitar a exposição no dia da inauguração ou noutro. Não haverá palestra nesse dia que fica adiada para o final da exposição a 31 de Outubro. Mas podem sempre visitar o museu, a exposição e beber um licor, caso estejam presentes no dia 21 de Julho, o que muito prazer me daria.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Palestra: Licores regionais e outros que tais

Integrado no Forum do Pão que acompanha o Festival do Pão em Mafra, vou apresentar esta palestra.
Venham e proveitem para visitar a Exposição e ver a Feira.

terça-feira, 10 de julho de 2018

O talher de D. João V (cadinet ou cadenas) - 1


Réplica do que poderá ter sido o "talher de D. João V". Foto João Oliveira Silva
“Talher” é a designação portuguesa de cadinet ou cadenas que encontrei num documento em que se descreve o banquete de casamento de D. João V em 1708.
Publiquei esta informação no meu livro «Mesa Real» e, até então, desconhecia-se o seu uso na corte portuguesa. Toda a descrição do banquete é de grande interesse mas foco-me aqui nos “talheres”, tomados como designação lata. Estes foram trazidos pelos Reposteiros da Câmara em pratos grandes dourados os Talheres Reais quadrados de S. Majestades, e os redondos ordinários de S. Altezas.
Cadinet com guardanapo em flor de nenúfar para o pão
A descrição pormenoriza: "Virão os Talheres Reais preparados com sal, açúcar e pimenta nos lugares que para isso tem: e no do pão se põe por baixo um guardanapo liso em forma quadrada de sorte que não transborde o talher, e por cima dele o pão com a faca, colher, garfo e dois palitos, coberto tudo com um guardanapo levantado, cujas dobras hão-de ser muito finas»[1].
Cadinet de Guilherme III, 1688, Royal Collection, Londres
Não existe em Portugal qualquer exemplar de cadinet que, tal como noutros países, foram derretidos. O mesmo aconteceu em França, onde, os que existem são mais tardios, do século XIX e encomendados por Napoleão, que desejava retomar o esplendor do ritual da mesa real.
Cadinet feito em Augsbur, 1718. V&A Museum
Os ingleses, mais conservadores, mantiveram vários exemplares e foi um deles, o do rei Carlos II de Inglaterra, casado com D. Catarina de Bragança que tomei como modelo.
Para a exposição sobre o pão na mesa do rei, que esteve a meu cargo, e que se pode ver em Mafra no Festival do Pão até dia 15 de Julho, concebi o que poderia ter sido o cadinet do rei D. João V, com as suas armas na base e mandei efectuar um exemplar.
Pormenor da parte horizontal do cadinet com o guardanapo levantado
Tal como na época coloquei um guardanapo dobrado na parte horizontal e sobre este um outro levantado, para o caso em flor de nenúfar, que permite uma visualização do pão que aqui se pretende realçar.
Ficou lindíssimo e penso que só por si merece uma visita à exposição. Depois não digam que não avisei.




[1] Pereira, Ana Marques, Mesa Real. Dinastia de Bragança, Lisboa, Esfera dos Livros, pp. 65-75.