domingo, 28 de junho de 2015

As festa populares no «Poema de Lisboa»

Augusto de Santa-Rita, nasceu em Lisboa em 1888 e aqui faleceu em 1956.
O livro «O Poema de Lisboa», edição da Câmara Municipal de Lisboa, é a sua última obra, publicada no ano da sua morte. Nele surge esta imagem que retrata as festas populares de Lisboa, com uma cena colorida e alegre que nos transporta para os bairros antigos da cidade.
Terminava com um livro para adultos, quem tanto colaborou, com sucesso, nos projectos de educação infantil propostos pelo Estado Novo.
Em 1920 publicou «O Mundo dos Meus Bonitos» com  ilustrações de Cotinelli Telmo. Em 1925 entrou para o jornal O Século, para director do suplemento infantil, Pim-Pam-Pum, que teve publicação semanal durante os 15 anos que se seguiram. Para além do pequeno jornal surgiu uma colecção de livros infantis intitulados  Biblioteca Pim-Pam-Pum, em que o próprio colaborou.

Refiro apenas o P Á-T Á-P Á, publicado em 1928, livro de poesias infantis, com ilustrações de Eduardo Malta e o CÓ-CÓ-RÓ-CÓ, igualmente ilustrado por Eduardo Malta, dois livros belíssimos.

A estes seus interesses não seria alheia a amizade com Fernanda de Castro, cuja casa frequentava com outros autores e artistas da época.
Ao livro CÓ-CÓ-RÓ-CÓ, agora em exposição no Centro de Artes Culinárias, voltarei um dia.
Hoje ficamos pelo mundo dos crescidos com os dias de festas populares que se prolongam nos próximos dias.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A Cidra de Asala


Este título pode-me mostrar como entendida no assunto. Na realidade nem sei do que estou falar.
Faço gosto em mostrar um pequeno peixe (asala), seco e salgado (cidra) , vindo de um lago distante no Nepal.
O Nepal fica longe do mar mas tem vários lagos glaciares o que explica o valor que estes pequenos peixes podem ter. Foram trazidos por um amigo do dono do restaurante O Vitorioso, de que já falei, com o fim de matar saudades da terra de origem.

Comem-se assim salgados, como um aperitivo ou em pequenos pratinhos feitos de acordo com o gosto do cozinheiro, de que mostro um exemplo.

Fiquei comovida com a partilha desta pequena iguaria que me disseram não ser típica do país, talvez salientando a sua raridade.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Tigelada da Beira Baixa

A tigelada das Beiras é servida no caçoilo
É considerada um doce regional em vários locais das Beiras. Antigamente estava associada à Páscoa, mas marcava presença nas mesas durante todo o ano nos casamentos e nos momentos de festas.
Caçoilo para tigelada

O que caracteriza a verdadeira tigelada é uma mistura de ovos batidos, a que se adicionam os aromas da canela e da raspa do limão, açúcar (antigamente amarelo), um pouco de farinha e por fim o leite (antigamente de cabra). Mas não só; devia ser cozido em forno não muito quente e a mistura introduzida num tacho de barro quente que na Beira Baixa se chama «caçoilo», aquecido previamente no forno.
Pequenas formas de barro vidrado, antigas, para tigeladas de Abrantes

É também a dimensão do recipiente onde coze que a distingue da tigelada de Abrantes e mostro dois recipientes distintos para exemplificar as diferenças.

É visível a diferença entre as duas formas de tigeladas
No final temos um doce alourado na superfície, de consistência semelhante à de um pudim, que permite ser cortado em fatias ou servido às colheradas.  

Um bom final de refeição que pode ser adaptado ao presente com o uso de um Pyrex, para quem não tem caçoilo e, claro, utilizando leite de vaca. 

domingo, 7 de junho de 2015

A crise de fome em Cabo Verde em 1921

A partir de 1900 foram várias as crises de fome relacionadas com factores climatéricos e outros, que levaram à falta de trabalho e carências alimentares em Cabo Verde. As datas registadas são várias: mencionam-se as de 1900-1904, 1908, 1912-1914, 1917 e novamente em 1921.
Na realidade a partir de 1913 os Estados Unidos, para onde tinham já partido vários emigrantes, proíbiram a entrada de pessoas analfabetas e a crise agravou-se. Muitos tinham já partido para o Brasil e faziam parte do grande contingente de portugueses aí emigrados. Só entre 1901 e 1950 quase um milhão de portugueses emigraram para o Brasil.
Mindelo. Paços do Concelho. Imagem publicada em Buala
Quando em 1921 a sessão da Câmara no Mindelo é invadida pelo povo que clama fome e falta de trabalho, são feitos pedidos a Portugal. Em Diário da República de 23 de Junho de 1921, o Ministério das Colónias publica  o Decreto nº 7.608 em que atendendo à crise alimentar provocada pela escassez de produção agrícola é necessário um socorro urgente à população,  sendo concedido um crédito extraordinário de 600.000 escudos. Era quantia insuficiente uma vez que o Governador de Cabo Verde havia pedido à metrópole 3.000.000 escudos para as despesas indispensáveis.
Os emigrantes portugueses pelo Mundo cotizaram- se para ajudar. No Brasil, em 1921, o Boletim Mensal da Câmara do Rio de Janeiro dava conta das várias iniciativas a favor dos desvalidos de Cabo Verde, em que se incluíram representações no teatro da cidade, conferências com venda de documentos impressos, etc. que levaram a arrecadar um total de 42.735$90.
Foto de Amândio António Lopes, 1922
Nos Estados Unidos, em New Bedford, foi criada uma «Comissão Central de Socorros aos famintos de Cabo Verde», encabeçada por Euclides Goulart da Costa, então vice-cônsul em Nova Iorque, interessante figura da nossa diplomacia, de que voltaremos a falar. A comissão pretendia angariar fundos para adquirir víveres e enviá-los aproveitando os veleiros que navegavam entre New Bedford e os portos de S. Vicente e Praia. Assim a partir de Junho de 1921 abriram um concurso para aquisição de farinha, feijão, arroz e outros géneros que entrariam em Cabo Verde livres de direitos.
Em papel anexo Goulart da Costa escreveu. «A subscrição rendeu US$  5.163,50 com que se adquiriram cerca de 150 toneladas de farinha, milho e feijão remetidos pelo vapor S. Vicente em Setembro de 1921».
O apelo de solidariedade tinha funcionado.

sábado, 30 de maio de 2015

Primícias sobre a mesa ou o mistério do alperce

As ditas primícias, neste caso alperces
PRIMÍCIAS – Os primeiros frutos ou legumes que são colhidos.
ALPERCE – Fruto do damasqueiro. Um mistério, porque não existe «alperceiro» para dar alperces e a etimologia de damasco é ainda mais difícil de explicar do que a de alperce. José Pedro Machado cita uma fonte (Plínio) que diz que este nome se deve «porventura porque os primeiros vieram à Europa da cidade de Damasco».
O «albaricoque romano» no Lindley's Pomology Magazine, 1828, Museu de História Natural de Londres

Quanto ao alperce é classificado em Botânica como Prunus armeniaca L. por se pensar que era natural da Arménia de onde foi trazido pelos romanos para o sul da Europa, em 70-60 aC através da Grécia e da Itália, razão porque no século XIX também foi designado «albaricoque romano». Contudo o seu centro de diversidade foi no nordeste da China, há milhares de anos, de onde se espalhou por toda a Ásia Central.
O alperce no Damasqueiro. Foto de Afonso Oliveira
Os romanos chamaram primeiramente à fruta malum (ou Prunum) Armeniacum "maçã (ou ameixa) arménica" e depois praecoquum malum «maçã que amadurece cedo», comparando-a com os pêssegos, com que eram aparentados. Os gregos pronunciaram a palavra como praikókon, mas em Bizâncio ela mudou para beríkokkon. Na língua árabe a palavra mudou para al-burqoq. Foi dessa origem que veio o nosso albricoque e o espanhol albaricoque.

Mas não ficam por aqui as designações nacionais deste fruto, em especial se incluirmos os regionalismos. É também chamado: damasco, alcácaro, alcocore, abricote (do fr. abricot), alperche, albricoque e aposto que ainda existem mais nomes que eu desconheço. Fica aqui o desafio para aumentarem esta lista, caso conheçam outras designações.

PS. Este poste e as fotos resultam da oferta de um ramo do dito fruto, fotografado na árvore pelo amigo que me o ofereceu.