quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O que se passou entre Isabel, Pedrinho, Glaxo, Tótó e Mimi


Este título longo encima um poster publicitário que, ao modo da banda desenhada, conta uma história.
Suspeitei logo do Glaxo, entre os nomes da Isabel e do Pedrinho. Estava cheia de razão. Afinal tinham humanizado a lata de leite. Que o gato se chamasse Mimi e o cão Tótó, ainda vai, apesar de estarmos nos nos 40-50, mas uma lata!.
Mas a história prometia. O Pedrinho não crescia porque o leite da mãe não era bom e o das vacas era tão perigoso! Felizmente a amiga Maria Luiza, mãe do Luizinho foi visitá-la e recomendou-lhe Glaxo. O médico concordou e lá foi a Luiza à farmácia com o Tótó. Ao 3º dia o Pedrinho já estava melhor e pedia mais leite.
Mas não era só o Pedrinho que gostava do leite, também a Mimi e o Tótó se lambiam quando o bebiam. E a Mariquinhas «a irmãzinha maior», que ainda não conhecíamos, também gostava muito e mais feliz ficou quando o Pedrinho já começou a brincar com ela.
No final todos estão contentes, sadios e brincam alegremente. Mas ninguém é tão feliz como a Isabel por ver o seu filho tão formoso graça ao Glaxo, o excelente alimento para bébés.
FIM.
Como eu gosto destas histórias simples!.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Um "Triclinium des Anciens" com mistério


 Esta oferta do meu amigo Bernardo Trindade deixou-me cheia de alegria. É uma gravura lindíssima que representa um banquete romano que teve lugar no triclinium, que à época correspondia à sala de jantar. No Império Romano, as casas dos cidadãos mais abastados possuíam um pátio rodeado por colunas designado peristilo. Era ao redor deste que se encontravam as salas mais importantes e entre elas o triclínio, ou sala destinada aos banquetes. Designados symposium tiveram a sua origem na Grécia, influenciados pelo reino da Lídia, passaram à Etrúria, e posteriormente ao Imperio romano.
Nesta gravura vê-se a mesa em U aberta para o exterior e, à sua volta, os leitos onde se deitavam os convidados confortavelmente vestidos e normalmente descalços, como é o caso. Os simposium gregos era exclusivamente masculinos enquanto nos romanos encontramos a presença feminina. 
A refeição é acompanhada por música e os escravos servem a refeição e oferecem as bebidas. Esta presença de bebida durante a refeição leva-nos a orientar para o banquete romano, uma vez que no grego as bebidas tinham lugar no final da refeição. A gravura mostra-nos a presença do anfitrião no lugar de honra, dito do cônsul (o locus consularis) e, como era de regra, a presença de 3 pessoas em cada um dos leitos.
Pensamos hoje como foi possível comer deitado e achar isso confortável ou luxuoso. Terá sido no séc. VII a.C. que os banquetes, que decorriam sentados, passaram a ser deitados, posição que os etruscos assimilaram dos gregos e posteriormente o fizeram os romanos.
Nesta gravura de que eu desconheço a origem uma vez que não consegui localizar a obra, (embora saiba que se encontrava no tomo IV na p. 220, como se encontra escrito na parte superior da gravura), existe uma discrepância: o anfitrião e uma das figuras apresentam-se com a cabeça coberta. Como interpretar este facto sobretudo sem ter noção da obra e da data da gravura?.
Como esta é uma área que não domino minimamente fica aqui o desafio para quem souber mais. Não é um Objecto Mistério mas uma imagem mistério de que agradeço a ajuda no esclarecimento.

sábado, 12 de outubro de 2019

Uma compota de gamboas

Um presente de gamboas obrigou-me a ir para a cozinha fazer doces. Esta fruta é muito semelhante aos marmelos, mas menos ácida, pelo que se pode comer crua (facto que não experimentei).
Quando falo num fruto ou planta gosto de ir ver o nome latino e a família a que pertence, sobretudo quando o conheço mal. Neste caso foi difícil porque não sei o nome da gamboa em inglês e em português, mesmo artigos científicos dizem que o marmelo é a Cydonia Oblonga Miller. Apenas num dos casos é feita a distinção entre o marmelo, (Cydonia vulgaris Pers.) e a gamboa, (Cydonia oblonga Miller), dizendo que são semelhantes em aspecto, mas como a gamboa é menos ácida não precisa ser transformada em geleia ou marmelada. De qualquer modo ou a gamboa é desconhecida ou então não percebo como as duas designações são sinónimas. 
Como a compota de marmelo é a minha preferida dos doces feitos com esse fruto resolvia aplicar a mesma receita à gamboa. Bem, a mesma receita não foi. Primeiro porque estava preguiçosa e deixei os quadrados da fruta maior que o habitual e em segundo lugar porque os cozi directamente em água, com especiarias e só depois juntei o açúcar. No final adicionei umas gotas de limão para aumentar a pectina (não sei se tem a mesma que os marmelos). De qualquer modo o resultado foi excelente.
Claro que não será uma conserva muito duradoira, devido ao baixo ponto de açúcar. O que me fez lembrar o autor anónimo de Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros, livro publicado em 1788 que dava uma receita em que as pêras depois de uma primeira fervura eram metidas em açúcar em ponto de espadana para acabarem de cozer. Iam à mesa com a calda, quentes ou frias, «e durão assim nesta calda perfeitas quatro dias». Era por essa razão que o autor designou a receita: «Compota de peras para logo».
A minha vai ser mesmo para logo, mas dada a quantidade há-de dar para muitos mais dias.

sábado, 28 de setembro de 2019

Escovas, escovas e mais escovas na Escovaria de Belomonte


Descobri a loja numa rua íngreme do Porto, numa rota diferente da que costumo fazer nas minha voltas pela cidade. Saindo do Largo de S. Domingos, onde tinha visitado o pequeno Museu da Farmácia Moreno, chamou-me à atenção a placa esmaltada de fundo branco com vários tipos de escova e as palavras «Escovaria de Belomonte» e, em baixo, o nome do fundador «António da Silva».
Era hora de almoço e encostando o nariz ao vidro para ver o interior comentei em alto: «Que pena. Está fechada». De imediato surgiu o proprietário, o sr. Rui Rodrigues que, abrindo a porta, nos convidou a entrar. 
Tenho um fascínio por escovas sobretudo depois que vi num episódio do Antique Roadshow, uma colecção de escovas, feita por uma miúda de 12 anos, com variadíssimos modelos adaptados a diferentes funções.
O sr. Rui Rodrigues, de contacto fácil e amável, contou-nos a história da pequena fábrica iniciada em 1927, em Massarelos, pelo avô de sua mulher Olinda. Em 1938 o seu pai Fernando Silva mudou-se para a Rua do Belomonte e foi o nome da rua que passou a identificar a escovaria. 
Após a sua morte ficou à frente da produção Rui Rodrigues e uma funcionária, Maria de Fátima Fonseca, que aí trabalha há mais de 40 anos. Mais tarde a eles se juntou o  filho Sérgio, designer, que imprimiu modernismo ao conceito.
Totalmente feitas à mão as escovas apresentam-se feitas em vários tipos de madeira e nelas se utilizam diferentes tipos de pêlo, como cerda de porco, crina de cavalo, pêlo de cabra, pêlo de texugo, etc.  
A produção varia com as encomendas pelo que se podem ver, a par de produtos tradicionais, como piaçabas, vassouras pequenas, de cabo, etc., escovas mais sofisticadas para fato e calçado e um sem número de escovas de que ignoramos a função.
Um pequeno mundo fascinante que dá prazer descobrir e trazer connosco uma daquelas escovas que, desde que a descobrimos, nos faz crer que não podemos passar sem ela. 


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Frek o esfregão mágico


O conjunto encontrava-se ainda no seu saco de plástico original, gasto e já sem a transparência inicial. Ligeiramente dobrado foi necessário retirá-lo, submetê-lo a uma atmosfera húmida e endireitá-lo. Um tratamento de luxo para um simples papel publicitário, na realidade a promoção de uma amostra de esfregão de cozinha.
Desconhecia a marca Frek e não encontrei qualquer registo sobre ela. O número de telefone remetia-nos para os anos 60 e efectivamente encontrei no Diário de Governo de 13-12-1967 uma alteração de estatuto, com a entrada de novos sócios, da sociedade fundadora a «Transformadora de arames Ibérica», com sede em Sacavém.
Com o preço de 6,50 escudos o Frek, era «um produto são e higiénico e económico pela sua duração» e anunciava-se o ideal para as baterias de cozinha, louça e outro vasilhame. Era o período áureo dos objectos de cozinha em alumínio que as donas de casa gostavam de mostrar a brilhar, mas os produtores avisavam que só se devia usar com esse fim quando estivesse na «macieza adequada».
Foi um precursor dos esfregões verdes que hoje utilizamos e os promotores escolheram uma imagem do Gato Felix, o gato antropomórfico nascido em 1919, para o promover irradiando alegria ao ver a sua imagem espelhada no fundo brilhante de um fundo de tacho, seguramente de alumínio.
Sinceramente, não posso perceber como este «esfregão mágico», saído da indústria nacional, não teve o sucesso que merecia.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Ementa para engenheiros


Confesso que à primeira vista não percebi logo que esta lista correspondia a uma ementa. Na verdade é uma ementa para uma reunião de engenheiros que terá tido lugar no Instituto Superior Técnico em 14 de Julho de 1934.
O novo projecto construído ao cimo do que viria a ser chamada a Alameda, em Lisboa, iniciado em 1927, foi obra do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro e do engenheiro Duarte Pacheco. O ano lectivo de 1935 foi o primeiro ano em que se iniciaram as aulas nas novas instalações. Com base nesta data pensamos que a ementa possa corresponder a um lanche ou pequeno banquete, servido pela Pastelaria Bénard, sendo provável que tivesse servido para comemorar o final das aulas no antigo Instituto Técnico fundado em 1911[1].
IST. Arquivo fotográfico da CML.
Designada «Inventário de Armazém” em vez de «Ementa», pertence a um tipo de ementas com características humorísticas, adaptado aos fins ou pessoas visadas, que foram mais frequentes na primeira metade do século XX e que encontramos sobretudo em grupos ou associações masculinas.

Esperemos que o repasto tenha sido melhor do que o
Inventário de Armazém nos faz crer.



[1] Não posso excluir que se tratasse de uma comemoração da aprovação dos Estatutos da Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, que havia sido publicada no Diário do Governo em 5-3-1934 (n.º 52/1934, Série I) mas o espaço de tempo decorrido torna menos provável esta hipótese.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A romã na nossa vida e na arte


 Foi um presente de romãs ainda verdes mas abertas mostrando os seus grãos de um vermelho reluzente que desencadeou este poste. Apeteceu-me imediatamente fotografá-las pela sua beleza e utilizei um prato verde das Caldas da Rainha para, no conjunto, formar uma peça bordaliana.
A palavra romã (Punica granatum L.) provém do antigo nome semítico “rummanu”, que deu ” rimmon” em hebreu e “roummana” em árabe[1]. Mais tarde as línguas grega e latina usaram a expressam genérica “malum” ou “pomum granatum” (i.e. cheio de sementes), onde a língua inglesa foi buscar o pomegranate. José Pedro Machado dá-nos a origem a partir do latim rõmãna (¨mala), «(maçã) romana)»[2].

Antonello de Messina
A presença da romã no Oriente esta provada arqueologicamente desde o 4º milénio aC e no Egipto desde o 2º milénio bC[3]. Apesar de na Península Ibérica dever anteceder a sua identificação arqueológica no século 6º bC na região costeira aonde chegaram os fenícios e que provavelmente corresponde à introdução da árvore na Andaluzia.
Pormenor menino Jesus com romã. Sandro Boticelli.
Desde sempre esteve associada à fertilidade e à abundância, é essa a simbologia que encontramos na sua presença no bordado de Castelo Branco.

Durante a idade Média e a Renascença vamos encontrá-la em obras como a de Antonello da Messina “Nossa Senhora com o menino” (c. 1460), existente na National Galery em Londres ou na pintura de Sandro Botticelli “Nossa Senhora da romã” (1481) existente na Galeria dos Uffizi em Florença onde o menino Jesus segura uma romã, como um fruto símbolo da vida. Este é um dos exemplos em que os alimentos estão presentes na Arte da Renascença com poderes simbólicos.
Luiz Melendez, 1771
Mas a romã atraiu muitos outros pintores como Melendez ou  Simeon Chardin (1763) presente no Museu do Louvre. Não esquecendo a nível nacional a sua representação por Maluda, num dos mais felizes dos seus quadros e de que já falei anteriormente.
Maluda, 1984



[1] Lorenzo Nigro; Federica Spagnoli. Pomegranate (Punica granatum L.) From motya and its deepest oriental roots. [Vicino Oriente XXII (2018), pp. 49-90]. Consulta online.
[2] José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.
[3] Lorenzo Nigro; Federica Spagnoli. Pomegranate (Punica granatum L.) From motya and its deepest oriental roots. [Vicino Oriente XXII (2018), pp. 49-90]. Consulta online.