sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Louis-Francois Dronne, o «Carême da charcutaria»

Nascido em Sarthre, na região do Loire, 1825 Louis-François Dronne começou por trabalhar numa loja de charcutaria em Paris, em 1842, la Maison Breton. Esta charcutaria era uma das mais antigas e tinha sido fundada em 1777 por Cailloux. Dronne abriu em seguida uma outra loja mas, em 1857, viria a adquirir a Charcutaria Breton.


A sua actividade e conhecimento levou-o a desenvolver técnicas modernas e processos mais higiénicos para trabalhar as carnes. Foi também responsável pelo desenvolvimento da parte mais tradicional da charcutaria da sua zona natal, com o reconhecimento dos produtos regionais de Sarthois, na França, como as rillettes, o boudin e a salsicha de Mans.

Utilizando novas receitas num ramo que estava muito desactualizado obteve grande êxito comercial e chegou a ganhar vários prémios inclusive na Exposição Universal de Paris de 1867.

Chegou a ser apelidado o “Carême da charcutaria”, designação que não percebi bem no início até ter consultado o seu livro Charcuterie ancienne et moderne. traité historique et pratique renfermant tous les préceptes qui se rattachent à la charcuterie proprement dite et à la charcuterie-cuisine, suivi des lois... et statuts concernant cette profession.

Publicado em Paris, em 1869, mostra-nos que realmente havia muito a dizer sobre o tema ao contrário do que somos inicialmente levados a pensar. Começando com a evolução histórica da charcutaria, onde se incluem as várias associações profissionais ao longo do tempo, são-nos apresentadas as raças animais adequadas aos vários enchidos, os seus tipos, as máquinas para fazer os mesmos, as receitas, etc.

Com ilustrações que aqui se mostram e que integram vários pratos montados, de forma artística, fazem-nos compreender porque lhe chamaram o «Carême da salsicharia».

Mostra-nos bem que a charcutaria não é só «encher salsichas».

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PS: O livro foi consultado na BNF, na Gallica, de onde retirei as imagens. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Histórias de regadores e regadores sem história

Nunca pensei vir a escrever sobre regadores. Contudo quando os meus olhos caíram sobre um exemplar puro dos anos 60, de cor laranja e grande flores amarelas, violetas e roxas, a fazer-me lembrar a insígnia da Mary Quant, não resisti. É verdade que sobre ele não posso contar qualquer história porque desconheço a quem pertenceu. Achei-o lindíssimo e extraordinariamente pouco prático e, o pouco uso que deve teve ter tido, atendendo ao seu excelente grau de conservação, confirma-o.

 Quando o vi lembrei-me de uma história da minha vida de estudante. No meu tempo de Faculdade as noitadas eram raras, ao contrário do que hoje acontece. Talvez por isso os episódios também ficassem mais marcados na memória. Numa noite apareceu-me em casa uma amiga, acompanhada de uns amigos. São pessoas conhecidas mas ignoro aqui os nomes, embora não possa deixar de mencionar a presença do pintor Jorge Martins, que deu azo a esta história. Ficámos na sala a conversar longas horas. A sala de esquina de uma casa pombalina, com várias janelas, permitia a entrada de luz vinda de um grande largo onde se situava. A ele se juntava a luz fraca do interior. 

Num ambiente calmo falámos durante horas, mas não me recordo do tema da conversação. Usavam-se então plantas no interior e quando a luz começou a abrir, constatei que as plantas estavam a precisar de água. Fui buscar um regador e reguei as plantas. Lembro-me de o Jorge Martins ter dito que num ambiente daqueles se justificava um regador com maior beleza. Fiquei estupefacta com a sua sensibilidade estética, sobre um tema que nunca me havia ocorrido.

Passado algum tempo fui à loja do Vergílio Seco, que tinha então um antiquário no Príncipe Real e vi o jarro de louça branca com flores que aqui mostro. Lembrei-me da conversa e pensei: é este o adequado. Comprei-o e durante muito tempo usei-o com o fim de regar as plantas da sala.

Um dia promovi-o a jarro de flores e deixou de ser um objecto utilitário.

Hoje, bem mais prática, como nos ensina a idade, uso um regador de plástico, sem estilo ou história. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Encontros felizes: as varinas de Lisboa

De entre as figuras populares femininas atrai-me à cabeça a da varina de Lisboa, logo seguida pela lavradeira minhota. As primeiras já desapareceram, ao passo que as segundas continuam a ser lembradas numa tradição local, pelo menos durante o período das festas. Em comum têm a beleza da elegância feminina com trajes de saias rodadas que acompanham o movimento do corpo, nas suas actividades. Mais simples, a varina apresentava-se muitas vezes descalça, escondendo na canasta as chinelas que a legislação higienista as obrigava a usar. Perante a visão do polícia regulador, lá saltavam apressadamente as chinelas para os pés habituados ao chão da rua.

Quando em 2015 o meu amigo António Miranda, então director do museu da Cidade de Lisboa organizou uma magnífica exposição sobre as Varinas de Lisboa, emprestei algumas peças simples da minha colecção para estarem presentes. Se fosse agora este azulejo iria fazer-lhes companhia.

O azulejo, feito na Fábrica Viúva Lamego tem como assinatura: Jorge Pinto. Penso tratar-se de Pedro Jorge Pinto (1900-1983), atendendo à provável data de produção e à fábrica, uma vez que o seu pai trabalhou sobretudo com a Fábrica Constança. A sua assinatura era muito semelhante à de seu pai José António Jorge Pinto (1875-1945) que deu luz a imensos trabalhos de azulejaria, com lindíssimos painéis de Arte Nova, muitos dos quais ainda hoje visíveis na cidade como vários painéis em habitações da Avenida Almirante Reis, os azulejos da Leitaria a Camponesa, na Baixa, os da pastelaria a Tentadora, em Campo de Ourique e muitos mais que aqui não refiro.

O seu filho Pedro, que assina este azulejo, foi também o responsável pelos painéis do Mercado do Livramento em Setúbal, com temas relacionados com a Agricultura.

Este simples azulejo, de linhas límpidas, remete-nos para um enquadramento de Lisboa antiga e para uma profissão já desaparecida, que eu recordo ainda da minha meninice.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Galheteiro de vidro Art Deco da CIP: adenda

Na ficha anterior de Museu Virtual identifiquei mal a fábrica de origem. Lembrava-me de ter visto esta peça em catálogo mas não consegui identificá-lo.

Hoje o catálogo chegou do encadernador e ao abri-lo deparei-me com a imagem do galheteiro, bem como de outras peças da mesma linha.

O catálogo é o Nº 35 da Companhia Industrial Portuguesa (CIP). Não apresenta data mas é provável que esta linha seja ainda mais precoce que este catálogo.

A designação IVIMA não estava completamente errada porque ambas as designações vêm da fábrica inicial, a Empresa da Nova Fábrica de Vidros da Marinha Grande, cuja construção se iniciou na Marinha Grande em 1894, tendo começado a laborar em Janeiro de 1895.

Ao longo dos anos teve várias designações, consoante as sociedades que a adquiria. A CIP data de 1926. 

Aqui fica a correcção.


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Museu virtual: Galheteiro

 

Nome do Objecto: Galheteiro

Descrição: Conjunto de dois frascos de vidro azul, facetado, com tampas em vidro, inseridos numa base de vidro idêntico com concavidades, onde estes encaixam. Tem suporte central com pega no mesmo material.

 Material: Vidro azul moldado.

 Época: Década 1940.

 Marcas: Não apresenta. CIP.

Origem: adquirido no mercado português.

Grupo a que pertence: equipamento culinário.


Função Geral: Recipiente para serviço ou consumo.

                                   Acessório de serviço

 

Função Específica: Temperar alimentos na mesa.

 

Nº inventário: 3718.

 Objectos semelhantes: Não classificados.

 

Observações:

As formas dos galheteiros inspiram-se nas galhetas usadas nas cerimónias religiosas, destinadas a conter água e vinho, usados na liturgia.

Estes acessórios do serviço de mesa apresentam-se aqui na sua forma mais simples, tendo por fim conter apenas o azeite e o vinagre. Na grande maioria dos conjuntos que possuem base, estão incluídos outros objectos, como o saleiro, pimenteiro, mostardeiro, paliteiro, etc.

Apesar de me recordar de ver este modelo em catálogo não me foi possível identificá-lo nos catálogos consultados. Parece não existir dúvidas de que se trata de um modelo português, de que se conhecem formas semelhantes em açucareiros, manteigueiras e taças de sobremesa.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Uma pessegada com “upgrade”


Já lá vão dez anos que descobri a pessegada, como falei aqui. Desde então uso-a como uma agradável iguaria dos tempos de Verão.
Desta vez introduzi-lhe algumas alterações. Aos pêssegos, sempre rijos, juntei uma manga pouco madura e mirtilhos.
Temperei com açúcar e canela, reguei com um bom vinho branco a que acrescentei um Vinho do Porto velho e aromatizei com folhas de hortelã. Simples.
Ficou deliciosa e muito refrescante. Experimentem!.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Para desenjoar


Foi a beleza das imagens de uma pequena caixa de comprimidos que me atraiu. É uma amostra para ensaio clínico que era oferecida aos médicos. Quando um medicamento novo saía eram oferecidas algumas caixas aos médicos para darem aos doentes, permitindo-lhes ficar com informação directa sobre o seu efeito. Há alguns anos isso foi proibido, o que não me apetece comentar.

Este medicamento, o dimenidrinato, tem uma longa história e ainda hoje é utilizado. Criado em 1947 por 2 investigadores do Johns Hopkins Hospital, Lesley Gay e Paul Garliner, revelou-se logo eficaz como anti-emético. Antes porém de comunicarem a sua investigação fizeram um estudo, em 1948, no final da II Guerra Mundial, em colaboração com a Marinha americana, nos marinheiros do navio US Navy. A chamada «Operação enjoo» abrangeu 1376 soldados americanos divididos em dois grupos. Os que tomaram o medicamento não enjoaram na longa viagem de Baltimore para Bremerhaven, na Alemanha.
Confirmada a sua eficácia os autores publicaram os resultados e a partir de 1949 o produto era comercializado.
Não sei dizer quando foi introduzido em Portugal porque o seu registo foi muito tardio. Foi comercializado pelo Instituto Luso-Farmaco, que foi constituído em 1948 por António Diogo Bravo e Miguel Cocco. Na embalagem vem identificado como único depositário: Paulo Cocco, Lda.

Em 1964 era construído um novo edifício da autoria de Carlos Tojal e Carlos Roxo, na Rua do Quelhas, 8, em Lisboa. O edifício moderno e luminoso apresentava painéis de azulejos da autoria de Sã Nogueira alusivos a temas farmacológicos. Guardo dessa local boas recordações do meu tempo de jovem médica.
Painel de azulejo exteior de Sá Nogueira. Foto do  site SOS Azulejos 
Possuía um “Centro de Documentação” que era o melhor de Lisboa. Nenhuma Universidade, Hospital ou Laboratório se lhe comparava. Eu ia lá regularmente consultar as revistas médicas que recebiam e fazer fotocópias. Foi aí que aprendi, com uma Bibliotecária muito eficiente de que já não recordo o nome, o que era uma “Keyword” e a importância da catalogação. Num pequeno caderninho, que ainda possuo, ia registando as minhas leituras.
Foto da internet (wikimedia)
Hoje o edifício foi transformado em bloco de apartamentos, a empresa já não existe mas, extraordinariamente, o medicamento ainda é comercializado, com o nome de Enjomim e de Vomidrine.

Quanto ao autor dos alusivos desenhos da embalagem, ignoro quem tenha sido. Infelizmente apenas se encontra representado o enjoo por mar e por avião. Indicado para todos os enjoos ficou-nos a faltar os enjoos terrestres, como diz na bula. Devia ser igualmente interessante.