segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

O livro «A cozinha ao ar livre»

Quando falei em Edouard de Pomiane não me apercebi que tinha um dos livros da sua autoria que então referi. Refiro-me a «La Cuisine en Plein Air», um pequeno livro publicado em 1935 e que era uma oferta do Laboratório Zizine feito aos médicos. Descobri-o hoje por arquivar e não resisto a falar nele.
Em primeiro lugar porque o tema é muito apropriado à época. Dividido em quatro capítulos: 1- A cozinha do caminhante; 
2- A cozinha do ciclista e do motociclista; 3- A cozinha do automobilista e do canoísta e 4- A cozinha do campista, de que o autor conclui: «cada um aí encontra a sua própria felicidade».
Para cada uma das modalidades Pomiane dá conselhos sobre o material necessário e fornece receitas apropriadas. Claro que é ao campista que é dirigido um maior número de receitas, de que fazem parte até sobremesas.
A seriedade da obra onde podemos encontrar receitas como «Adjem Pilaf», um arroz de carneiro, de origem persa mas que se divulgou por todo o Próximo Oriente, como explica o autor, é intervalada por desenhos simples no início dos capítulos, que mão seguramente adulta, pela perfeição, coloriu com lápis de cor.
No meio dos capítulos surgem folhas inteiras de desenhos coloridos com situações humorísticas que poderiam ocorrer a qualquer um dos intervenientes neste passeios pela natureza.
Na introdução é explicado que o livro se destina aos médicos que durante a sua vida enfrentam a tristeza, a dor, a doença, a morte e a ingratidão humana. 
Por isso mesmo experimentam a necessidade de tudo esquecer com um raio de sol, no grande espaço, ao ar livre. O que justifica a ilustração infantil e humorística da obra. Um doce que se percorre com um sorriso nos lábios.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

As flores das plantas comestíveis

Flor amarela de baldroegas
Não vou falar sobre flores comestíveis, tema que já anteriormente abordei. Hoje apresento as flores que as várias plantas da minha varanda, na maioria aromáticas, foram revelando nos últimos meses.
Flor do mangericão
A grande surpresa foi com as beldroegas, uma planta de que gosto imenso sobretudo em sopas e que é difícil de encontrar em Lisboa. No tempo em que havia uma pequena mercearia aqui perto o seu proprietário, o sr. Tereso, quando conseguia arranjar um molho para ele guardava-me também um para mim.
Flor rosa de baldroegas
Quando as vi em vaso num supermercado comprei-as e foi com surpresa que vi abrirem, quando o sol está mais forte, belas flores rosas e amarelas.
Flores rosa e amarela de baldroega
Na realidade esta é uma variedade de Portulaca oleracea, talvez com os caules menos grossos, mas são comestíveis na mesma. O que acontece é que sendo poucas as flores são elas que as protegem de eu as colher porque gosto de as ir espreitar floridas todos os dias. 
Flor amarela de alface
No fundo o raciocínio é contrário ao que nos leva a colher flores de plantas que dão flores comestíveis como as chagas ou a borragem que dão muitas e não faz diferença colhe-las.
Flores de alface roxa
Resolvi depois começar a fotografar as outras flores de aromáticas e outras plantas comestíveis que aqui apresento e que se revelaram igualmente uma surpresa para mim, como as alfaces de que uma vizinha me deu vários pés e que só cresceram para cima e espigaram dando uma flor azul. 
Flor azul de uma alface espigada
Como a produção alimentar das minhas culturas foi praticamente nula contento-me em olhar as flores de que lhes deixo algumas imagens.
Pequenas flores amarelas da rúcula

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

O «Pomar da Foz» de Alvarez

Domingues Alvarez (1906-1942) pintou em 1930 uma imagem de um local na Foz do Porto de venda de frutas e legumes e, provavelmente, mercearia.
Pintado na parede, sobre as portas, estava escrito: « Frutas secas e frescas de qualidade». Ao lado é visível uma outra entrada para uma taberna designada «Cervejaria» onde se vendiam também « Licores. Vinhos». 
A este modelo duplo de venda associava-se muitas vezes, sobretudo na província, um terceiro estabelecimento de retrosaria, pertença do mesmo comerciante. Imagem de um Portugal que se perdeu.

segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

O Chá das 5 d'A Mariazinha

A conhecida «Casa de Café A Mariazinha», que hoje tem sede em Alvalade, começou os seus dias na Rua Barros Queirós nº 26 e 28, em 1934. Foi fundada por Jerónimo Pinto Valente Coutinho, que deu à loja o nome de sua filha, que registou como marca ainda em Dezembro de 1933.
A venda de cafés era o ponto forte da casa, como o nome indicava, e no seu catálogo podiam ver-se várias qualidades de café, para além do lote especial d’A Mariazinha. Mas vendia também chás, cacau, chocolate e uma grande variedade de farinhas, vendidos a granel, que o cliente podia levar em sacos de papel ou em atraentes caixas em folha-de-flandres litografadas.
Falamos hoje apenas no Chá das 5 d’A Mariazinha anunciado como sendo «dum aroma e sabor sem igual é um doce prazer para quem o toma».
O chá das 5 foi registado em 1938 e surgia já na publicidade do catálogo da Mariazinha de 1939. 
Tal como o cartaz em vidro pintado, ainda hoje existente na loja da Avenida Rio de Janeiro, apresentava um casal sentado à mesa a partilhar um chá e bolinhos secos servidos num cesto. 
Muito a propósito um grande relógio sobrepõe a imagem e nele podemos ver que marca exactamente as 5 horas.

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

A goiabada Peixe

Em 9 de Maio de 1999 o brasileiro Jornal do Comércio, noticiava o desmantelamento da Fábrica Peixe em Pesqueira, encerrada desde 1998 e a transferência da maquinaria para outros locais. Começava assim uma história de múltiplas aquisições da marca por vários grupos de produtos alimentares como a Bombril-Círio Brasil, entre outros, que levaria ao fim da produção.
Fundada em 1888 por Carlos Frederico Xavier de Brito aproveitando o êxito de sua mulher Maria da Conceição Cavalcanti de Brito que, com a ajuda da filha de uma doceira de Pitanga, D. Dina, iniciou a fabricação caseira de goiaba. 
O casal Brito
No início os doces eram feitos num tacho de cobre, cortados em pedaços e embrulhados em papéis recortados que uma criada levava num tabuleiro para vender pela cidade. Mas o negócio teve êxito e dentro de algum tempo já existia a Fábrica de Doces Maria Brito (MB).
Fotografia tirada da internet
O negócio expandiu-se e em 1904 aumentou a produção ao adquirir grandes tachos a vapor de origem inglesa que no livro Impressões do Brazil no Século Vinte, editado em 1913, era elogiado como sendo todo moderno dos fabricantes Joseph Backer & Sons e Blicer, movido por um motor a vapor e um outro da fábrica Crossley Bros. Ltd. movidos a vapor pelas caldeiras do fabricante G. Fletcher. Anexo à fábrica surgiu também uma latoaria que fazia as latas para a goiabada, terminado assim a tradição do «tijolo de goiaba», mais escuro e seco.
 Quando em 1910, apresentou os seus produtos na Exposição Internacional de Bruxelas, onde ganhou um prémio, produzia já, além da goiaba, massa de tomate. A esta pequena produção iria seguir-se o desenvolvimento da cultura do tomate na região e uma capacidade maior de produção de massa de tomate ao que se seguiria, em 1928, a produção de “extracto” de tomate, tornando-se no principal produtor do Brasil, para a qual contribuíram já os seus filhos Cândido e Joaquim.
Apesar desta actividade só em 1916 foi constituída a sociedade com a denominação de Carlos de Britto & Cia e apenas em 1938 foi feito o registo de «Grandes Fábricas Peixe».
Foi também nesta década de 1930, de grande desenvolvimento do Munícípio de Pesqueira, que surgiu a publicidade aos produtos da Fábrica Peixe no Almanach Tico-Tico de que se mostram imagens.
Em 1948 a firma Carlos Brito & Cª transforma-se em sociedade anónima mostrando já necessidade de entrada de outros capitais e a partir daí entrou em linha descendente. Em Fevereiro de 1998, o Grupo Bombril-Círio adquiriu e iniciou sua recuperação, que seria breve porque no final do ano a fábrica seria novamente fechada.
Era o fim de uma época de desenvolvimento local, que havia levado ao aparecimento de outras fábricas contemporâneas de doces como a Rosas, Tigre, Touro, que também terminaram.
Quanto à «Goiabada Peixe» desapareceu mas o seu impacto foi tal que ficou na literatura brasileira o registo dos elogios ao seu gosto, perpetuado por vários escritores que a ela se referiram como sendo a melhor. 

PS: Nalgumas das folhas de publicidade é visível a assinatura «J.C.» de José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), um dos melhores designers gráficos da época.

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

A refeição chinesa

 Quando os chineses emigraram para a América em meados do século XIX, inicialmente para trabalharem nos caminhos de ferro,  espantaram as pessoas com a sua alimentação.

Estes postais retratam refeições de chineses e referem-se ao «chow down» que correspondia à principal refeição do dia. Os americanos por volta de 1885-1860 abreviaram a expressão e criaram a palavra «chow chow» que na verdade designa uma raça de cão.
Quanto ao prato «chow mein» foi na realidade criado nos Estados Unidos, embora a massa frita fosse usada pelos chineses há séculos. Adaptando-se ao gosto americano os chineses tornaram a massa frita, que era estaladiça, mais mole e gordurosa e acrescentaram-lhe outros alimentos locais. Foi um sucesso que se generalizou.
Estes três postais mostram-nos um refeição de chineses no século XIX, nos Estados Unidos, e retratam uma época em que essa comida ainda era exótica.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

A chegada dos fogões a gás

 A utilização do gás de hulha em Portugal começou pela iluminação pública e privada. Para além do seu consumo ser caro as infraestruturas necessárias, como as tubagens e aparelhos de iluminação adequados, faziam com que fosse restrito o seu uso.
É evidente que foi nas habitações em que já estava implantado para iluminação que mais precocemente se divulgou a sua utilização na cozinha. Mas também aí eram necessários fogões adequados e apesar das modificações, como se pode observar, a estética não os afastava ainda muito dos anteriores fogões em ferro assentes em pernas.

Quando no final do século XIX a Lisbonense se juntou à Gás de Lisboa para dar origem à Companhia Reunida de Gás e Electricidade (CRGE) tornou-se evidente a necessidade de publicidade ao gás para uso doméstico.
Este postal com data de 1909 é um dos exemplos bem humorados da divulgação dos fogões a gás, em substituição dos que utilizavam lenha ou carvão, enaltecendo-se o tempo livre da cozinheira que até dava para fazer meia e namorar com o seu magala. 

Antes do início da Primeira Guerra Mundial o número de consumidores de gás doméstico tinha aumentado muito, mas a guerra dificultou o abastecimento da hulha a Portugal e na década de 1920 começavam a surgir novos competidores: os fogões eléctricos. Mas o lisboeta, que teve sempre melhor acesso aos vários tipos de gás, nunca mais dispensou este tipo de fogões.