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sexta-feira, 26 de março de 2021

Batatada ou misteriosa

Os doces de batata são muito antigos. Encontramos menção em receitas do século XVIII, mas provavelmente já seriam feitos antes.

Francisco Borges Henriques, em 1715, escrevia no seu registo de Receitas dos melhores doces e de alguns guisados particulares e remédios de conhecida experiência que fez Francisco Borges Henriques para o uso de sua Casa, uma receita de Batatada. As batatas eram cozidas e depois esmagadas e «e a cada arrátel de massa dois de açúcar e o porão em ponto de bola bem branco e o tirarão do lume … e a meio do cozer lhe poderão deitar a amêndoa muito bem pisada». Não explicava contudo qual o tipo de batata utilizada.

Quanto a Lucas Rigaud, em 1780, no Cozinheiro Moderno explicava que «as batatas depois de cozidas em água e peladas comem-se com molho de manteiga e mostarda, mas as batatas das Ilhas servem comumente para doce de diferentes qualidades».

Esta diferença entre a Batata comum (Solanum Tuberosum) e a Batata-doce (Ipomeia Batatas), conhecida mais precocemente e também designada como Batata da Ilha, mostra-nos um modo diferente de confecção. Mas no que respeita à Batatada esta pode ser feita com qualquer tipo de batata.

Aprendi a fazer Batatada na minha adolescência num curso que fiz na Casa de Santa Zita da Covilhã, onde davam aulas de culinária. Na receita que me ensinaram a batata doce eram feita em fios, e não esmagada como se encontra mais frequentemente. Os fios são cozidos em ponto de espadana e só no final se juntam as gemas. 

A propósito deste doce lembro-me sempre de uma história que aconteceu num jantar com colegas meus de um grupo que tinha regressado do Serviço Médico à Periferia. Era o grupo de Odemira, a que eu não pertencia, porque a minha permanência teve lugar no Algarve mas que me convidavam para esses encontros periódicos. O anfitrião, que rodava, oferecia o jantar e os convidados levavam os doces. De uma da vezes levei um prato de Batatada, mas não disse como era feito, para as pessoas adivinharem. Estava presente um outro convidado extra, um crítico culinário que provou aquele doce de fios dourados. Depois de provar disse esta frase extraordinária: «Pode ser tudo menos batata». 
Nunca mais esqueci essa afirmação de cada vez que como este doce, mas talvez isso explique porque a minha receita tem um outro nome alternativo: «Misteriosa».

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Nitrophoska visto por César Abbott

Foi esta saudável camponesa ostentando orgulhosamente numa das mãos um pé de batateiro que me fez adquirir estas gravuras.
Tinham um ar “Estado Novo”, que me agrada particularmente, com características regionais.
As folhas, infelizmente, estão cortadas não me permitindo saber se pertenceram a um calendário ou a um cartaz publicitário. Olhando com atenção, descobri num dos cantos a palavra «Nitrophoska» e no outro uma assinatura que inicialmente era ilegível.
Era uma publicidade feita a um fertilizante distribuído em Portugal, destinado à agricultura e com acção em vários campos, desde a cultura das batatas à da vinha, como as gravuras documentam.
O Nitrophoska é uma marca registada com patente alemã datada de 1926. O seu nome deriva dos três mais importantes nutrientes das plantas: o nitrogénio (azoto), o fosfato e o potássio ("Kalium" em alemão). Este novo fertilizante, muito mais eficaz que os anteriores, começou a ser produzido pela empresa alemã BASF em 1927. Esta empresa foi absorvida pela IG Farben, que já tinha adquirido a Hoecht e a Bayer e posteriormente foi-o pela Compto Internacional, que ainda hoje comercializa este produto.
Na altura a sua produção teve em vista a recuperação da agricultura alemã após as destruições das culturas na primeira guerra mundial.
Em Portugal e como resultado da Campanha do Trigo, iniciada em 1929, foi incentivado o cultivo do trigo e o aproveitamento de áreas não cultivadas e das vinhas. Desta campanha faziam parte os ensinamentos de técnicas de uso dos adubos aos agricultores. O adubo mais utilizado era o Nitrophoska, importado, até que a CUF, no início dos anos 50, começou a produção nacional de adubos azotados (em Ricardo Ferreira, O Grupo CUF) .
Numa das gravuras, no reverso, está um carimbo com a data de 1955, o que significa que este adubo, apesar da já existente produção nacional se mantinha no mercado.
O desenho destas imagens foi feito por César Abbott, sobre o qual há pouca informação. Sabe-se que nasceu em 1910 e que ainda se mantinha activo em 1973, por existir um quadro assinado e com esta data. Provavelmente é natural do Porto e tem nesta cidade uma rua com o seu nome. Para além de pintor, desenhou postais com motivos regionais e teve grande actividade como desenhador de livros infantis.
Colaborou com a Majora e foi o autor dos desenhos da «Coleção Formiguinha», para além de muitos outros números dispersos realizados igualmente para a Majora.
Descubro agora que César Abbot fez parte da minha infância. As capas dos livros aqui apresentadas, seleccionadas por se incluírem na temática deste blog, provam-no.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Rótulo de Batata Portuguesa

Rótulo para caixas de 30 Kg de batata portuguesa para consumo.

As batatas destinavam-se ao mercado português, mas eram também exportadas como indicam as palavras «pommes de terre» e «potatoes», escritas no cabeçalho.

A firma José Ferreira Botelho & Cª, Lda., embora não me tivesse sido possível confirmá-lo, devia ser pertença de um elemento da família Ferreira Botelho, de Vila Pouca de Aguiar.
Esta família possuía um complexo agrícola no Vale de Aguiar onde se cultivavam batatas até há pouco tempo (ver interessante foto da apanha da batata em ... in movement).
Saliente-se que Trás-os-Montes foi a localização inicial para a cultura da batata em Portugal e a que apresentou sempre melhores condições para a sua produção.

Na Gazeta dos Caminhos de Ferro, de 1 de Maio de 1939, José Ferreira Botelho surge como importador de batatas de semente das variedades Erdgold (ouro da terra), Flava, Earthsilver (prata da terra) e Regina 101, considerando-as como sendo as que permitiam obter melhores resultados. Era também importador de adubo para culturas.
Tinha nessa altura escritório no Porto e em Lisboa.
Em 1963, data a que corresponde o rótulo apresentado, mantinha-se o escritório no Porto, como se confirma pelo «Guia Profissional de Portugal» e em Lisboa, como é confirmado no rótulo.

Pelo menos até 1971 manteve-se a firma em Lisboa, no mesmo local, na Rua Jardim do Tabaco, 29-31, como se constata pelo «Informador Comercial e Industrial de Lisboa», sendo mencionado como comercializando adubos e batatas.
Não me foi possível encontrar qualquer outra informação adicional.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

As batatas na pintura de Van Gogh

Na obra de Vincent Van Gogh (1853-1890) as batatas ocuparam um lugar importante.
Estão presentes num grande número de quadros e desenhos, sobretudo na fase inicial da sua obra.
Se bem que uma das suas primeiras pinturas «A apanha da Batata», tenha sido feito em Haia, em 1883, foi sobretudo no período em que viveu em Nuenen que mais vezes voltou ao tema.
(Camponês e Camponesa a plantar batatas, 1885)

Num período sombrio da sua vida, Van Gogh regressou a casa de seu pai, vigário em Nuenen, em Dezembro de 1883. Tinha fracassado no seu projecto de vida familiar e via-se obrigado a regressar à casa paterna.
Foi nesse período que Van Gogh teve o única encomenda da sua vida de artista. Um joalheiro de nome Hermans encomendou-lhe várias cenas campestres para painéis a colocar na sua sala. Os trabalhos eram subordinados a temas da vida no campo, como as sementeiras, a colheita, a plantação de batatas, etc.
(Duas camponesas a cavar batatas, 1885)

Nessa fase pintou «Agricultores plantando batatas» em 1884, «Plantando batatas», em 1884, «Camponês e camponesa a plantar batatas», em 1885, «Duas camponesas a plantar batatas», de 1885 e «Natureza morta com um cesto de batatas», igualmente desse ano e provavelmente outros que desconheço.

Ainda em 1885 viria a pintar a sua obra prima «Os comedores de batatas».
Esta última representação tomou várias formas e foi realizado em litografia, a que se seguiram vários estudos a óleo, hoje existentes no Museu Vincent Van Gogh, dependente do Rijsksmuseum, em Amsterdão. Pintado em Abril, seguia-se à morte de seu pai em Março.

(Os comedores de Batatas, 1885)

Van Gogh considerou esta pintura a melhor das sua obras, em carta que escreveu a sua irmã, dois anos mais tarde.
Nesse quadro uma família reúne-se à volta de uma mesa para comer um prato de batatas fumegantes, iluminados pela luz de um candeeiro que lhes vinca os traços faciais de trabalhadores rurais. A mulher mais velha serve um café de cevada para pequenas taças sem asa.
Esta cena simples apresenta-nos um regime alimentar rural, extremamente pobre, em que a batata dominava, como aconteceu noutras sociedades, de que os irlandeses ficaram conhecidos como o grande exemplo.
Como obra de arte corresponde ao que Van Gogh entendia dever ser a pintura, uma obra dedicada às pessoas simples, levando-o a recusar correntes modernas. Há nesta pintura uma influência de Rembrandt, no que respeita às cores e à luz, como nos seus “plantadores de batatas” se pode ver a influência de Millet, no seu quadro de 1861.
Tive oportunidade de ver o quadro ao natural e o que mais me impressionou foi a impenetrabilidade das faces.
Qualquer dos observadores, que se aglomeram frente a esta obra, pode tirar uma conclusão diferente do que a expressão facial dos representados no quadro traduz e dos seus sentimentos. Esta parece-me ser uma das grandes virtudes deste pintor e a razão porque os seus quadros são tão misteriosos.

Pormenor central com a figura de Gordina de Groot (1855-1927), que aparece noutras obras de Van Gogh

Bibliografia:
Rainer Metzger, Ingo Wakther, Vincent Van Gogh, Taschen, 1998.