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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Garfadas artísticas no Garfadas


Trabalhando com talheres o americano Gary Hovey faz, desde 2004, objectos artísticos em que predominam os animais.
O seu trabalho começou 10 anos depois do diagnóstico de Doença de Parkison e as suas limitações são agora maiores, contando com a ajuda de amigos para realizar as suas imaginativas obras, feitas exclusivamente com colheres, garfos e facas .
 Para quem quiser ver a restante obra do artista fica o link.
 PS. Agradeço ao meu amigo Manuel Paula a descoberta desta obra.

domingo, 28 de abril de 2013

Portugal Gastronómico na Exposição de Paris de 1937

Este folheto desdobrável intitulado «Le Portugal Gastronomique» foi feito para a Exposição Internacional de Paris de 1937. A verdadeira designação desta mostra, de acordo com o tema, foi a de Exposição Internacional de Artes e Técnicas e teve lugar entre 4 de maio e 27 de novembro desse ano.
Os pavilhões dos vários países participantes foram construídos ao longo do rio Sena e representaram projectos dos mais destacados nomes da arquitectura da época, como Alvaar Aalto que desenhou o pavilhão da Filândia e Mallet-Stevens que desenhou o Pavilhão da Electricidade.
Portugal fez-se representar ao mais alto nível com um belo pavilhão de pendor nacionalista, com o projecto do arquitecto Keil do Amaral.

 O edifício com dois pisos, tinha uma sala destinada às colónias, uma exposição de artesanato, uma sala com as descobertas científicas, outra com produtos agrícolas e uma destinada ao Turismo, entre outras. Em frente do pavilhão estavam atracados dois barcos: um rabelo e um saveiro.
A decoração interior esteve a cargo de Carlos Botelho (1899-1982), mais conhecido como pintor, em especial pela sua visão poética da cidade de Lisboa. Mas Botelho era plurifacetado e foi também ilustrador e caricaturista. Foi um dos pioneiros da banda desenhada em Portugal sendo da sua responsabilidade, entre 1926 e 1929, as imagens do ABCzinho.
Trabalhou em várias mostras internacionais.como no pavilhão de Portugal na Exposição Internacional e Colonial de Vincennes, Paris, 1930-1931, no stand de Portugal na Feira Internacional de Lyon, 1935, etc.
A partir de 1937 passou a fazer parte do SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), mais tarde denominado SNI (Secretariado Nacional de Informação), juntamente com Bernardo Marques e Fred Kradofler. Foi com estes que trabalhou em vários pavilhões de Portugal, como neste da Exposição Internacional de Artes e Técnicas em Paris, onde chegou a ganhar um prémio.
Com este folheto percebemos que a sua acção foi mais vasta e que participou também no grafismo da propaganda distribuída. Este folheto extraordinariamente bem concebido, com capas a encarnado e verde em que o local do escudo é ocupado por produtos alimentares portugueses, tem a sua assinatura.
O texto é da autoria de Albino Forjaz Sampaio e é uma elegia à comida tradicional portuguesa, descrita por regiões, a começar pelo norte do país. Terminava com um convite desafiador aos estrangeiros, onde dizia que se os portugueses tinham partido à descoberta do mundo em pequenas naus, que esperavam para também eles partirem à descoberta de uma gastronomia quase desconhecida.

Uma visão de Lisboa por  Carlos Botelho
No lado oposto ao texto surgia um mapa de Portugal onde se podiam ver as imagens típicas dos habitantes das várias regiões acompanhados pelos alimentos tradicionais de cada uma delas. As representações, ordenadas e explícitas, onde predominam vários tons de verde e encarnado, são belíssimas. Regozijo-me por ter chegado às minhas mãos um exemplar em tão perfeito estado, que partilho com imenso prazer.

domingo, 11 de novembro de 2012

O Super Pop Limão

O Super Pop foi, a par com o Sonasol, um dos detergentes portugueses com maior prestigio.
Era produzido pelo grupo Unisol Sociedade de Distribuição e Exportação que pertencia à Quimigal desde 1967. O primeiro registo que detectámos deste detergente foi em Abril de 1973. Só em 1989 a Quimigal passou a deter a totalidade do capital social da Unisol.

Em 1990 a Quimigal fez uma alienação parcial do grupo Unisol que passou para a Colgate Palmolive. Com esse acto muitas das mais importantes marcas nacionais, tanto de higiene pessoal como de limpeza doméstica, e onde se incluíam os sabonetes Festa e Feno de Portugal, a lixívia Javisol, os produtos Feno Vert Sauvage, o detergente Xau e os detergentes para louça Pop e Super Pop, mudaram de mãos. No ano seguinte os 30% detidos pela Quimigal passariam em definitivo para a empresa internacional Colgate Palmolive.
 Em 1992 era registado o «Super Pop Creme Limão», em 1993 o «Super Pop 2000 Caça Gorduras», de que não me lembro nunca de ter ouvido falar, e em 1998 o «Super Pop Amoniacal». Todos registados pela Colgate Palmolive.
Este saco moderníssimo, oferta do Super Pop Limão, tal como o próprio logótipo do detergente, adaptava-se bem ao gosto da Pop Art, fazendo lembrar obras de Andy Warhol na fase em que abandonou a publicidade comercial para se dedicar à arte.
Este saco do Super Pop Limão, tomado como objecto de arte, podia equiparar-se à representação de objectos vulgares feitos por Andy Warhol, tal como as caixas de detergente «Brillo», realizadas em serigrafia, em 1964.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

As batatas na pintura de Van Gogh

Na obra de Vincent Van Gogh (1853-1890) as batatas ocuparam um lugar importante.
Estão presentes num grande número de quadros e desenhos, sobretudo na fase inicial da sua obra.
Se bem que uma das suas primeiras pinturas «A apanha da Batata», tenha sido feito em Haia, em 1883, foi sobretudo no período em que viveu em Nuenen que mais vezes voltou ao tema.
(Camponês e Camponesa a plantar batatas, 1885)

Num período sombrio da sua vida, Van Gogh regressou a casa de seu pai, vigário em Nuenen, em Dezembro de 1883. Tinha fracassado no seu projecto de vida familiar e via-se obrigado a regressar à casa paterna.
Foi nesse período que Van Gogh teve o única encomenda da sua vida de artista. Um joalheiro de nome Hermans encomendou-lhe várias cenas campestres para painéis a colocar na sua sala. Os trabalhos eram subordinados a temas da vida no campo, como as sementeiras, a colheita, a plantação de batatas, etc.
(Duas camponesas a cavar batatas, 1885)

Nessa fase pintou «Agricultores plantando batatas» em 1884, «Plantando batatas», em 1884, «Camponês e camponesa a plantar batatas», em 1885, «Duas camponesas a plantar batatas», de 1885 e «Natureza morta com um cesto de batatas», igualmente desse ano e provavelmente outros que desconheço.

Ainda em 1885 viria a pintar a sua obra prima «Os comedores de batatas».
Esta última representação tomou várias formas e foi realizado em litografia, a que se seguiram vários estudos a óleo, hoje existentes no Museu Vincent Van Gogh, dependente do Rijsksmuseum, em Amsterdão. Pintado em Abril, seguia-se à morte de seu pai em Março.

(Os comedores de Batatas, 1885)

Van Gogh considerou esta pintura a melhor das sua obras, em carta que escreveu a sua irmã, dois anos mais tarde.
Nesse quadro uma família reúne-se à volta de uma mesa para comer um prato de batatas fumegantes, iluminados pela luz de um candeeiro que lhes vinca os traços faciais de trabalhadores rurais. A mulher mais velha serve um café de cevada para pequenas taças sem asa.
Esta cena simples apresenta-nos um regime alimentar rural, extremamente pobre, em que a batata dominava, como aconteceu noutras sociedades, de que os irlandeses ficaram conhecidos como o grande exemplo.
Como obra de arte corresponde ao que Van Gogh entendia dever ser a pintura, uma obra dedicada às pessoas simples, levando-o a recusar correntes modernas. Há nesta pintura uma influência de Rembrandt, no que respeita às cores e à luz, como nos seus “plantadores de batatas” se pode ver a influência de Millet, no seu quadro de 1861.
Tive oportunidade de ver o quadro ao natural e o que mais me impressionou foi a impenetrabilidade das faces.
Qualquer dos observadores, que se aglomeram frente a esta obra, pode tirar uma conclusão diferente do que a expressão facial dos representados no quadro traduz e dos seus sentimentos. Esta parece-me ser uma das grandes virtudes deste pintor e a razão porque os seus quadros são tão misteriosos.

Pormenor central com a figura de Gordina de Groot (1855-1927), que aparece noutras obras de Van Gogh

Bibliografia:
Rainer Metzger, Ingo Wakther, Vincent Van Gogh, Taschen, 1998.

domingo, 30 de novembro de 2008

Joana Vasconcelos e os utensílios domésticos

A propósito do meu último post um amigo mandou-me uma foto do sapato Dorothy de Joana de Vasconcelos, feito com tachos e tampas em aço inoxidável e que esteve exposto em Paris, no jardim da Tulherias, em 2007.

Foi uma maneira de eu chamar à atenção para a obra de uma das mais criativas artistas plásticas portuguesas e para o uso dos utensílios domésticos na arte.

Lembrei-me imediatamente de outras criações desta artista, como é o caso do Coração Independente, feito em arame e talheres de plástico e que vi exposto no restaurante Eleven.
Na altura fiquei encantada com aquele coração gigante, de cor amarela, em que o entrecruzamento dos talheres semelhavam uma filigrana translúcida que reproduzia os típicos corações nortenhos. Soube depois que a mesma obra havia sido feita utilizando talheres em preto e também em encarnado.

Joana Vasconcelos tinha já usado funis de plástico azuis, numa criação de 1999 a que deu o nome de Tolerância Zero.

Mais conhecida é a estrutura feita com garrafas de vidro verde, que se encontra à frente da entrada do Museu Colecção Berardo, de que faz parte e que se intitula Néctar. Foi com esta instalação que Joana Vasconcelos recebeu o prémio Colecção Berardo, em 2006.
No meu mundo «terra a terra» este entrelaçado entre os objectos comuns e a arte dá-me um enorme prazer, que agora partilho com quem me lê.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Os utensílios domésticos como Arte


Entre Fevereiro e Maio deste ano esteve presente uma exposição do escultor chinês Zhan Wang no Museu de Arte Asiática de São Francisco.

Nascido em Pequim, em 1962, tornou-se conhecido como um importante artista da sua geração, com exposições em vários países.

As suas criações mais reconhecidas são as rochas em aço inoxidável em que molda as folhas de aço sobre secções da rocha, unindo-as depois e polindo-as. O resultado é o de uma reprodução oca e brilhante, de um corpo geológico.

As rochas que servem de modelo são seleccionadas pelo autor e apresentam formas que são valorizadas pela cultura chinesa, que considera a água e as rochas como elementos importantes da natureza e fontes de meditação. Zhan Wang estabelece desta forma uma ponte entre a China tradicional e a tecnologia moderna.



Na exposição referida o escultor utilizou rochas trazidas da Serra Nevada e designou a exposição «Montanha Dourada», numa alusão à corrida à busca de ouro, que teve lugar nesse local, no século XIX . Nela participaram milhares de chineses que fizeram de S. Francisco a porta de entrada nos Estados Unidos.
Só por si este aspecto parecia já bastante interessante, mas não justificaria a sua presença neste blog, se a exposição não tivesse uma segunda parte.


O artista completou a exposição criando uma paisagem topográfica de S. Francisco, que se integra numa série de «paisagens urbanas» já por si realizadas.
Nesta instalação para além de usar as rochas em aço, utilizou outros objectos de uso comum, sobretudo utensílios culinários em aço brilhante.

E assim surgiu uma imagem de São Francisco construída com panelas, tachos, escumadeiras, caixas, formas, conchas, etc. O resultado foi surpreende. As paisagens exercem sobre nós uma atracção que nos faz esquecer estar em presença de objectos comuns, porque se transformaram em arte.
É para isso que servem os artistas, para nos surpreender e emocionar.