sábado, 14 de abril de 2018

Colóquio: Ritmos, vivências e percepções da noite

Nos dias 17 e 18 de Abril vai ter lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Nova), na Avenida de Berna, em Lisboa, o Colóquio «Lembrar-me-ei desta noite nem que viva mil anos». Ritmos, Vivências e percepções da noite na Idade Moderna.
Eu irei falar no dia 18 sobre «Medianoche e outras refeições nocturnas».
A entrada é livre e o evento, com um programa muito interessante, terá lugar no Auditório 1, Torre B.

Programa 
17 ABRIL
9h30 – Francisco Caramelo (Director da NOVA FCSH), Pedro Almeida Cardim (Subdirector do
CHAM), Edite Alberto (Coordenadora do Grupo de Investigação Sociedade, Política e Instituições do
CHAM), Ana Isabel Buescu (Membro da Comissão Científica do colóquio), Andreia Fontenete Louro (Membro da Comissão Organizadora do colóquio)
OS PODERES E A NOITE
Moderação: Pedro Almeida Cardim (CHAM-FCSH/NOVA)
9h50 – Catarina dos Santos Viegas (NOVA FCSH) e Raquel Gomes Justo (NOVA FCSH) – Noites
cristianíssimas e fidelíssimas: os hábitos nocturnos do Rei Sol e do Rei Magnânimo
10h10 – Ana Isabel Buescu (CHAM/NOVA FCSH) noite e noites de um diplomata em Paris: Duarte
Ribeiro de Macedo, 1668-1676
11h30 – Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-FLUL) – A noite dos «duelistas»: padrões de violência urbana
em Lisboa. Breves notas
11h50 – Paulo Dias (CHAM/NOVA FCSH) – “Ó noite má pera quem t’aparelhas”: A noite em contexto militar (séculos XV e XVI)
12h10 – Debate
12h30-13h50 – Almoço livre

À NOITE, NAS RUAS
Moderação: Ana Paula Avelar (CHAM-FCSH/NOVA)
13h50 – César Pedro Rodrigues (NOVA FCSH) e Miguel Saraiva (NOVA FCSH) – A noite flutuante:
introdução aos quartéis de prazer no Japão Moderno
14h10 – José Pedro Paiva (CHSC-FLUC) – À noite há bruxas? O simbolismo nocturno no mito da
bruxa europeia na Época Moderna
14h30 – Isabel dos Guimarães Sá (ICS-UM) – A noite e os seus interditos (séculos XVI-XVIII)
14h50 – Debate
15h10 – Amândio Barros (CITCEM-FLUP) – “Com uma candeia que lhe ilumine o rosto”. Notas sobre a noite numa cidade portuária dos séculos XV e XVI
15h30 – Rosa Fina (CLEPUL/FLUL) – À procura das personagens da noite lisboeta, entretecendo
mito, literatura e história (séculos XVIII e XIX)
15h50 – Debate. 16h10 – Fim dos trabalhos

18 ABRIL
A NOITE NO ESPAÇO PRIVADO
Moderação: Isabel dos Guimarães Sá (ICS-UM)
10h00 – Maria Paula Marçal Lourenço (CH-FLUL) – Entre as sociabilidades “lícitas” e “ilícitas” dos
Reis de Portugal (segunda metade do século XVII-século XVIII): espaços, vivências e intimidades
nocturnas.
10h20 – António Camões Gouveia (CHAM/NOVA FCSH) – Da noite das Regras à noite dos sentidos
10h40 – Debate
11h00 – Pausa
11h20 – Carlos de Almeida Franco (CITAR-UCP) – Penumbra e silêncio, luz e festa: as longas noites nas casas nobres no final do Antigo Regime
11h40 – Ana Marques Pereira (Garfadas Online) – Medianoche e outras refeições nocturnas
12h00 – Debate
12h20-13h30 – Almoço livre

ENCENAÇÕES E REPRESENTAÇÕES
Moderação: Ana Leal de Faria (CH-FLUL)
13h30 – André Filipe Neto (CHAM/NOVA FCSH) e Sara Bravo Ceia (CHAM/NOVA FCSH) – Preencher a noite: aproximações ao barroco quotidiano
14h10 – André Filipe Godinho (NOVA FCSH) e Andreia Fontenete Louro (NOVA FCSH) – “Os
lumes das noites emulavam o céo nas estrelas”: a iluminação festiva nos séculos XVI e XVII
14h30 – Debate
14h50 – Isabel Monteiro (Dolcimelo) – Músicos na noite (séc. XVI): indesejáveis ou indispensáveis?
15h10 – Ana Paula Avelar (CHAM/NOVA FCSH) – Do cronotopo da noite na cronística portuguesa de Quinhentos
15h30 – Carla Alferes Pinto (CHAM/NOVA FCSH) – A noite que se instala: A lírica de Camões e os
relatos da morte da Infanta D. Maria (Outubro de 1577)
15h50 – Debate
16h10 – Pausa
16h30 – Mesa Redonda moderada por Ana Isabel Buescu (CHAM/NOVA FCSH), com Ana Paula
Avelar (CHAM/NOVA FCSH), António Camões Gouveia (CHAM/NOVA FCSH), Maria Paula Marçal Lourenço (CH-FLUL) e Pedro Almeida Cardim (CHAM/NOVA FCSH)
17h30 – Debate
18h00 – Encerramento dos trabalhos

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Chegada da Primavera

Fotografia de composição com raras andorinhas azuis de Barcelos sobre Revista de Turismo, número especial dedicado ao Algarve, de 1942.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Convite «Artes do Vidro no Consumo dos Licores»


No próximo dia 7 de Abril às 15,30 vou fazer uma conferência no museu do Vidro da Marinha Grande.
Com o título «Artes do Vidro no consumo dos Licores» será uma revisão pelos objectos que ao longo dos últimos séculos serviram para apresentar ou consumir os licores.
No século XIX, período áureo desta moda, os objectos tomaram formas exuberantes que serviam para orgulhar os anfitriões durante o serviço de licores que tinha lugar após o jantar, juntamente com o café.
 A partir de meados do século XX os licores ficaram cada vez menos na moda e o vidro fazia as suas últimas aparições nos conjuntos de cálices de múltiplas cores, para logo ser suplantado por novos materiais, como por exemplo o alumínio anodizado.
A conferência encerra a exposição que termina no dia 8 de Abril onde se encontram patentes algumas das garrafas da minha colecção.
Última oportunidade portanto para visitar a exposição. Terei muito prazer na vossa presença.

terça-feira, 27 de março de 2018

A Quinta-feira da ceia

Ao preparar uma comunicação para um colóquio sobre a noite (“Lembrar-me-ei desta noite, nem que viva mil anos”: Ritmos, Vivências e Percepções da Noite na Época Moderna), que terá lugar nos dias 17 e 18 de Abril de 2018, na FCSH/NOVA, em Lisboa, cruzei-me inexoravelmente com imagens da Última Ceia.
No século XVIII, Bluteau, referia-se à 5ª Feira-Santa como a Quinta-Feira da Ceia, expressão que se perdeu, mas que nos remete para a Última Ceia de Cristo.
Pormenor
Embora os horários das refeições tenham mudado ao longo dos séculos a ceia foi sempre uma refeição noctura. Porque razão então, dos milhares de interpretações desta ceia mais famosa de sempre, apenas algumas nos apresentam um ambiente nocturno?

Fui procurar ceias nocturnas e entre elas sobressai uma das muitas ceias pintadas por Tintoretto. Nessa pintura o uso da luz restringe-se a um candelabro de tecto e ao halo que emana da cabeça de Cristo. É um halo grande, superior ao das cabeças dos apóstolos, mas, no conjunto, estas luzes são suficientes para iluminar a cena, os personagens envolvidos no serviço da ceia e os anjos que voam dentro da sala.
Há uma magia nesta pintura que nos prende e que se afasta das representações mais frequentes da Última Ceia, em especial na pintura da Renascença, e em que a mesa se apresenta paralela aos nossos olhos.
Mas melhor do que eu alguma vez poderia dizer, é ouvir a explicação desta obra pela Khanacademy. Vão ficar maravilhados.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Museu Virtual: Caixa para Chá



Nome do Objecto: caixa para chá (tea caddy)

Descrição: Caixa em madeira com seis gomos e tampa. Lacada em castanho e com desenhos e reservas em dourado. Estas representam seis cenas diferentes com figuras masculinas e femininas sentadas, envolvidas por plantas (de chá?). No interior encontra-se caixa em estanho com tampa dupla, a interior com pequeno botão central em marfim. Assenta em três pés trabalhados e dourados. Apresenta fechadura e chave para evitar furtos.
 
Material: Madeira lacada e dourada e estanho.

Época: Início do século XIX (primeira metade, c. 1840)

Marcas: Não apresenta.

Origem: Mercado português.

 Grupo a que pertence: Recipientes para guardar ou transportar alimentos

Função Geral: Recipiente para serviço e consumo de bebidas.

Função Específica: Preservar as folhas de chá, sem humidade e manter o cheiro.

 Nº inventário: 3300

Objectos semelhantes: Não inventariados.

 

Notas:

Durante o século XVIII foram usadas em Portugal caixas para chá em porcelana da China ou em prata, com o mesmo fim, muitas vezes com as armas dos encomendadores.
 Este tipo de caixa para chá em chinoiserie é extremamente raro, em especial com esta tipologia. Designado em inglês melon tea caddy, devido à sua forma em melão, existem com outras formas de frutas como as caixas com formatos de pêras ou de maçãs. Surgiram no início do século XIX. Depois de 1850 as caixas para chá apresentam-se mais frequentemente em madeira, com cavidades duplas ou triplas.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Lançamento do Livro das Pitanças


Vai ser lançado no próximo dia 15 de Março, às 17 horas, no Convento de Mafra um interessante livro denominado «Livro das Pitanças».
Passamos assim a ter acesso a um manuscrito conventual do século XVIII, designado Princípio e Fundação do Real Convento de Mafra, e sua grandeza, e sua sustentação, e luxo, etc. que é um códice pertencente ao Palácio Nacional de Mafra e que se conserva na sua extraordinária biblioteca (Casa da Livraria como era apelidada no livro).
A outra designação mais apelativa e simples, Livro das Pitanças, deve-se ao facto de nele estarem também registados os bens de consumo destinados aos religiosos.
Bluteau descreve os vários sentidos para esta palavra ao longo dos tempos mas a principal é a sua utilização para designar uma ração dada nas comunidades religiosas, em especial a que se consumia nos dias de festa.

Quem puder estar presente pode ter o livro em primeira mão e deleitar-se de imediato. Para os outros interessados ficam a saber que dispõem agora de mais uma valiosa fonte de informação sobre o Convento de Mafra e o quotidiano dos religiosos que o habitaram.

sábado, 3 de março de 2018

O citrino Kumquat


Falei a primeira vez no Kumquat no Dicionário Gastronómico «Do comer e do falar…» que escrevi com a minha amiga Graça Pericão. Cada um dos capítulos, que corresponde a uma letra do alfabeto, tem uma representação de um alimento começado por essa letra. O K esteve para ser o Kumquat mas acabou por ganhar o mais conhecido Kiwi.
Na altura ainda eu não tinha provado este fruto que agora já se cultiva em Portugal. Originária da China, tal como outros citrinos, passou depois para o Japão. Kumquat ou chin can significa em chinês «laranja de ouro», tal como o vocábulo japonês kinkan.
Gravura de 1874 de Hood Fich
O seu nome científico é Citrus japonica que veio substituir a designação antiga Fortunella margarita, nome atribuído a uma das suas variantes trazida da China para Londres em 1846 por Robert Fortune[1], um explorador de plantas pertencente à Royal Horticultural Society. Em 1850 já era conhecido nos Estados Unidos.
Laranja do Algarve, de Setúbal e Kumquat
Na literatura chinesa foi mencionado em 1178. E nós os portugueses, os responsáveis por ter divulgado a laranja a partir da China, também conhecemos precocemente o kimquat como afirmou um escritor europeu, de que desconheço o nome, que em 1646, lhe havia sido referido por um missionário português que se encontrava na China.
Em 1712 este fruto já fazia parte das plantas cultivadas no Japão e daí a sua designação. A planta de pequeno porte foi durante séculos apreciada como planta ornamental. Os japoneses fazem com elas lindíssimos bonsais, porque uma pequena árvore dá imensos frutos.
Nagami. Planta enxertada. Foto tirada da internet.
Existem quatro variedades principais que são: a “Marumi”, de frutos redondos; a “Nagami”, de frutos elipsóides a ovais; a “Fukushu”, de frutos redondos a piriformes e a “Variegada”, de frutos variegados de listas amarelas.
No meu último almoço no restaurante Cotrim, em São João da Talha, um lugar escondido onde se come óptima comida portuguesa, experimentei a variante oval ou Nagami. Come-se com casca e é deliciosa. As que experimentei tinham vindo de Mação mas há já outros locais onde é cultivada.
Para além de muito agradável ao natural (embora haja quem a considere ácida) deve ser muito boa em conserva doce. Guardei as sementes porque pode ser cultivada em vasos mas é preferível comprar a planta já desenvolvida. Fiquei fã.

[1] A quem se atribui também a introdução do chá, trazido da China, na Índia na região de Darjeelling, em 1848.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Objecto mistério Nº 56. Resposta: Aquecedor de pratos (Rescaldeiro)

 
O português é uma língua riquíssima mas quando se trata de termos técnicos temos dificuldade em encontrar a palavra certa. Quando dizemos «aquecedor de pratos» referimos-nos ao pratos ou travessas com iguarias, colocados sobre a mesa e destinados a mantê-la quente. Temos também a palavra «rescaldeiro» que seria muito adequada, mas que raramente é usada[1].
Depósito na parte inferior destinado a colocar álcool.
Na realidade existem outros aquecedores de pratos, do tipo móvel, que eram colocados à frente da lareira e que permitiam manter a comida quente. Modernamente os aquecedores de pratos são eléctricos, destinam-se a aquecer os pratos antes de irem para a mesa e são usados quase exclusivamente na restauração.
Os franceses chamam a estes objectos réchaud de table ou chauffe-plats. E na ausência de palavra adequada em português adoptámos também a expressão «réchaud» para utensílios com este fim e a de «prato-réchaud» para os pratos de parede dupla em que se introduz água quente para manter os alimentos mais tempo aquecidos.
Foto tirada da internet
Os franceses designam os pequenos aquecedores de formas variadas em que o aquecimento é feito por meio de brasas, de álcool, água quente ou mais modernamente eléctricos «chaufferette, quando se destinam a aquecer partes do corpo. Para estes temos as palavras escalfeta, botija, aquecedor de mãos, rescaldeiro, pelo menos.
Foto tirada da internet
Este tipo de réchaud ou aquecedor de mesa que serviu de objecto mistério começou a sua divulgação no século XIX, sobretudo nos países mais frios. Este modelo foi um dos primeiros deste tipo, e foi concebido por Mr. Cavaillé, que tinha fábrica em Paris no Boulevard Poissonière, 21. Foi registado em 10 de Outubro de 1902. É provável que tivesse saído da mesma fábrica referida numa tese francesa sobre fabricantes de bronze em 1839-1870 onde surge descrito como fabricantes de tubos de orgão. Nesse mesmo estudo há referência a um litígio entre uma fabricante chamado Boulonnois que se queixou, em 1857, de a firma Allez Frères ter copiado o seu modelo de chaufferette. Desconheço contudo se era semelhante à concebida por Mr. Cavaillé.
No início do século XX existiam várias marcas como esta, a «La Frileuse», mas também a «Cendrillon »; « La Parisienne»; « La Chauffeuse moderne » ou já nos anos 30 a «Thermoto».
Aquecedor de pratos dos anos 60, com velas, que uso frequentemente
Algumas serviam para aquecer os pés e uma idêntica à apresentada está registada num museu canadiano como aquecedor de pés. Dadas as dimensões (os pés ficariam de fora e as escalfetas são sempre maiores) e o facto de ter encontrado um exemplar que apresenta acoplado um aro para colocar o prato, penso que se confirma a resposta dada a este novo desafio, que muitos acertaram.



[1] António de Moraes Silva no Diccionário da Língua Portugueza de 1831, menciona esta palavra, mas não se encontra na edição de 1789. Na realidade, nas grandes casas, durante o século XVIII, os pratos antes de chegarem à mesa eram aquecidos em pequenas fornalhas situadas perto das salas de refeições, pelo que os rescaldeiros só se devem ter divulgado no século XIX. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Objecto mistério Nº 56

Acabado de comprar este fim-de-semana, numa feira na província, não resisto a apresentar este objecto que me fascinou de imediato.
É uma caixa em cobre que mede 20 x 16 cm e tem de altura 5,5 cm.

Parece-me um desafio fácil mas, pelo que vim a decobrir, não tão fácil assim.

Perguntas do costume: para que serve? Como se chama?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Caldevilla nas Belas Artes

 Vale apena deslocarem-se à Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, para ver a exposição de cartazes de Raul de Caldevilla (1877 -1951).
Em 1914, Caldevilla fundou no Porto a ETP, Empreza Técnica de Publicidade, que se pode considerar a primeira agência publicitária nacional e que mais tarde se transformaria na Empresa do Bolhão.
Caldevilla teve também um papel importante na área do cinema português publicitário e não só. Dentro da temática deste blogue não posso deixar de falar no filme Chá nas nuvens, feito em 1917, como publicidade às Bolachas Invicta. O chá, devidamente acompanhado pelas bolachinhas, foi tomado no alto da torre dos Clérigos.
Para tornar mais espectacular este acontecimento filmado o acesso ao local foi feito por escalada realizada por dois espanhóis, contractados para o efeito. Cá em baixo a acompanhar todo esta aventura estavam mais de 100.000 pessoas, sobre as quais foram lançados pequenos papéis que semelhavam as bolachas. 
Uma campanha publicitária espantosa para a época e que associava já o interesse de Caldevilla na publicidade com o seu gosto pelo cinema.
É também por isso que na exposição se associam os cartazes de cinema, da colecção da Cinemateca Nacional com os muitos outros comerciais, em grande maioria de colecções privadas.
São esses cartazes que podem agora visitar até ao final desta semana, uma vez que a exposição foi prolongada.
Nota: ilustração com cartazes patentes na exposição.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Proteger os livros

Livros portugueses de cozinha do século XX  forrados com chita
Não vou falar de encadernação que é a melhor maneira de proteger os livros. Pessoalmente agrada-me ver os livros perfilados nas estantes envolvidos na sua pele colorida onde sobressaem as letras de ouro. Quando se apresentam com as capas fragilizadas, inspiram-me um instinto de protecção e lá vão eles para o encadernador. Voltam resistentes e belos na sua nova indumentária.
Capa de linho bordada
Mas há outras formas de protecção dos livros e uma de que lhes quero falar são as capas de pano, usadas provisoriamente. Ultimamente comecei a guardar algumas delas, em especial as usadas para envolver os livros de culinária. 
Capa em tecido de algodão com molas que vinha a forrar um livro de culinária
É sabido que um grande número de livros de culinária se apresentam em mau estado. Saem das estantes para a cozinha e são manuseados por mãos sujas de comida. Por vezes nem se tem noção disso mas seguir uma receita leva-nos a esquecer a fragilidade do papel. E lá aparecem nódoas nas folhas e nas capas.
Talvez por isso seja mais frequente encontrar capas de pano nestes livros. Estas que lhes apresento são exemplos desses cuidados. De tal modo era sentida essa necessidade que encontrei na Revista Lavores e Arte Aplicada de 1955 um desenho para bordar uma capa para o livro O Mestre Cozinheiro. 
Capa bordada, pronta a aplicar, para o livro O Mestre Cozinheiro
Era uma época em que as pessoas tinham tempo para bordar capas de livros e ficamos a pensar: quantas pessoas o terão feito?. Pois bem, podem imaginar a minha alegria quando no meio de uns bordados encontrei uma capa idêntica, resultado deste modelo, ainda por aplicar. Tinha que partilhar esta descoberta simples. 
O Mestre Cozinheiro em 4ª edição
P.S. Refiro-me aqui apenas aos livros impressos de culinária. Quanto aos manuscritos com receitas é um outro tema de que falarei numa próxima vez.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Licores na Fundação Marquês de Pombal

No próximo sábado às 16 horas vou falar sobre a história dos Licores na Fundação Marquês de Pombal, que fica no Palácio dos Aciprestes em Linda-a-Velha e que provavelmente muitos ainda não conhecem.
Para quem gostar deste tema,  que é mais vasto e interessante do que podem imaginar, fica o convite.
Vão poder experimentar o «Licor Eduardino» da Casa Ginjinha sem Rival ou Ginjinha das Portas de Santo Antão.
Confirmação das incrições para o mail:
palestrasetal@gmail.com

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Ler em voz alta

Harald Hoffding a ler em voz alta para os seus amigos em sua casa. Viggo Johansen, 1899.
Ontem foi o dia da escrita à mão, uma "inventona" dos tempos da escrita em computador. Um dia destes criam o dia da leitura, uma vez que se lê cada vez menos. Estas ideias surgiram-me ao folhear um livro dinamarquês em que a história do país era contada com imagens, através de quadros de vários pintores. 
Spren Kierkegaard a ler nas ruas de Copenhaga. Valdemar Neiiendam, 1936.
Surpreendeu-me a quantidade de pinturas, num livro de cerca de 100 páginas, em que a leitura era visível. Leitura a solo, a mais frequente, mas sobretudo a partilhada. Isto é a leitura em alto para os outros ouvirem.
Leonora Cristina, filha de Carlos IV da Dinamarca na Torre Azul. Kr. Zarhtann, 1891.
Ainda hoje os pais lêem histórias aos filhos, mas entre os adultos esse hábito perdeu-se. 
Hans Andersen a ler para uma criança doente. Elisabeth Jerichau-Baumann, 1865.
Durante os séculos XVIII e XIX eram frequentes os salões literários, em que as pessoas se juntavam para ouvir alguém ler. As senhoras idosas, que já viam mal, pediam às suas damas de companhia para lhes lerem passagens dos seus livros preferidos.
J.P. Jacobson a ler em voz alta um dos seus contos na Sociedade Alfabética. Erik Henningsen, Séc. XIX.
No século XX ser «diseur» tornou-se uma profissão. O nosso mais famoso diseur foi João Villaret que transformava os textos como ninguém. Mais recentemente Mário Viegas, falecido em 1996, tornava um prazer ouvi-lo «dizer», ou declamar como é mais frequente dizer-se.
Fru Gyllembourg a ler uma das suas histórias ao filho e mulher com quem vivia. Wilhelm Marstrand, 1870.
Um texto declamado por uma pessoa pode valorizá-lo tornando o seu sentido mais forte ou belo, ou pode ser assassinado, tirando-lhe a força. É uma arte difícil para a qual cada vez menos pessoas têm propensão. No lançamento do último livro da minha amiga Sofia Loureiro dos Santos, «Prosa Bíblicas», a atriz Natália Luíza leu muito bem os poemas presentes no livro. Tal como Pedro Lamares no programa Literaturaqui na RTP2, que ainda ontem vi.
O livro entreaberto mostra que na doença é boa companhia. Wilhelm Marstand, 1864.
Mas estas referências são de momentos públicos, profissionais. As imagens que me fizeram acordar para outra realidade, já perdida, são de momentos privados, no seio da família ou dos amigos, em que uma das pessoas assume o papel de leitor. Era uma forma de passar o tempo agora substituída pelas imagens da televisão.

Mostro aqui algumas dessas imagens seleccionadas do referido livro, mais frequentes num país em que se vivia mais no interior da habitação, mas seguramente também mais culto.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Como transformar um chèvre num cabreiro

Existem vários tipos de queijo de cabra. Entre nós o chamado «chèvre» é um queijo de pasta mole, de forma cilíndrica, envolvido numa película acinzentada que resulta da acção de bolores no exterior e é a este que me refiro.
Queijo da Quinta da Maçussa. Foto do site da Câmara dea Azambuja.
Foi Adolfo Henriques da Quinta da Maçussa quem primeiro o produziu em Portugal, há mais de 12 anos. Agora pode encontrar-se já em todos os supermercados feitos industrialmente. O prazo de consumo não é muito alargado e depois dessa data sucede-lhe o que sucede a todos os queijos: seca. Já me tinha acontecido antes, mas desta vez deixei-o secar mais tempo. Com surpresa, quando o fui comer soube-me a queijo cabreiro.
Esta afirmação aparenta nada ter de especial. Parece mesmo lógica, mas acontece que me soube ao queijo cabreiro da Beira Baixa que eu comia em miúda, também designado queijo picante, ou chulé devido ao cheiro intenso. 
Foto tirada da internet
O meu pai era um grande apreciador de queijo e não terminava uma refeição sem comer queijo. À mesa vinham sempre várias qualidades de queijo mas para este existia um ritual próprio. Como era muito intenso só se cortava um bocadinho e depois como dizia o meu pai «tinha que se acertar o pão com o queijo». Esta manobra transformava-se por vezes num jogo: um pouco mais de pão, um pouco mais de queijo. Nos últimos anos quando a ASAE começou a entrar nas queijarias os métodos de produção deste queijo mudaram. Vezes sem conta o meu pai explicava porque o queijo cabreiro já não era tão bom. Dantes era amadurecido sobre palha que era humedecida e o queijo ia na realidade apodrecendo. Ficava com uma cor cinzenta e um cheiro e gosto intensos. Quando foi proibida a palha este amadurecimento passou a ser feito com sal.
Há uns anos ainda comprei um que no início era saboroso mas depois começou a formar cristais de sal no exterior e deixou de se poder comer. Uma das últimas vez que fui a uma queijaria na Beira Baixa comentei este assunto com a queijeira e disse-lhe que já não valia a pena comprar queijo cabreiro. Disse-me então que ia buscar um diferente que fazia para a família. Lá comprei o queijo que era fortíssimo e do qual só se podiam comer pequenos pedaços. Quando alguém comia cá em casa oferecia um bocado do queijo e as pessoas nem sabiam como comentar. Para o fim acho que estava já putrefacto e acabei por o deitar fora porque se tinha tornado indigesto.
Depois desta descrição compreenderão o motivo deste título. O chèvre seco naturalmente soube-me ao antigo queijo cabreiro e foi uma agradável surpresa. Já está outro a secar. Vamos a ver se me saio bem desta vez, porque não sei se  o reultado foi uma questão de tempo ou de marca de queijo. Experimentem.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Mesa Real na Mercearia Santana


Sábado, dia 13 de Janeiro, às 15 horas, vai ter lugar na Mercearia Santana, situada em Sacavém, na Rua Almirante Reis N.º 41-43, uma palestra feito por mim sobre «Mesa Real».
A Mercearia, tal como a casa de habitação,  está musealizada e apresenta periodicamente acções de dinamização a cargo do Museu de Sacavém.
 Estão convocados para conhecer o espaço e ouvir a conferência neste local improvável para manducagens reais (espero que a palavra esteja bem escrita).