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terça-feira, 24 de maio de 2016

Atum Farol de Aveiro

Esta marca de atum em azeite foi registada em 1949 pela firma M. Saldanha & Cª Lda. que tinha sede em Lisboa, na Rua Augusta 177, 1º Esq.
Era uma empresa comercial de importação e exportação, que foi fundada em 1893. Para além desta conserva registou também em 1949, uma marca de azeitonas pretas com o nome «Eixo» que, em 1943, já era exportada para o Brasil.
Na mesma data foi feito o registo de um azeite finíssimo chamado «Saldanha». Este azeite não era novidade uma vez que anteriormente tinha já sido premiado com uma medalha de ouro na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922.
Nessa exposição ganharam ainda uma outra medalha de ouro, com a cortiça apresentada e uma medalha de bronze com os seus vinhos do Porto, Moscatel e de Mesa.
No Brasil, na Exposição de 1922, não competiram na área das conservas pelo que não é possível saber se já então as comercializavam em Portugal. Outras empresas nacionais produtoras de conservas estiveram presentes nessa exposição, em que o Grand Prix para conservas foi atribuído à Fábrica Lopes, Coelho e Cª, Lda. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

O fascínio do ananás

Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, 1578
Desde a sua descoberta no Brasil até aos dias de hoje este fruto não perdeu o seu encanto e prestígio. Fresco, em conserva, transformado em sobremesa ou a acompanhar pratos salgados o seu gosto agridoce prende-nos e fideliza-nos ao seu consumo. Sabemos hoje que as suas capacidades facilitadoras da digestão se devem à bromeleína, uma peptidase que destrói as ligações entre as proteínas.
History of Drugs, Pomet 
Mas aquando da sua descoberta os indígenas, que nada sabiam de enzimas, tinham esse conhecimento empírico e utilizavam-no no tratamento de feridas, como disse André Thevet que o descreveu como «fruto maravilhosamente excelente, tanto pela sua doçura como pelo sabor, tão amoroso» no Singularitez de la France Antarctique, publicado em 1558. E os portugueses, tendo percebido o seu efeito anti-escorbútico, usavam-no nas viagens marítimas. Mas foi o seu gosto que prendeu os viajantes que chegaram ao Brasil no século XVI.
Historia da Provincia de Santa Cruz, Pero Gandavo, ( Imagem BNP)
Nas descrições do português Pero de Magalhães de Gandavo, autor da Historia da Provincia de Santa Cruz, a primeira história do Brasil, impressa em 1576, bem como nos relatos do jesuíta Fernão Cardim, que escreveu sobre o Brasil nas décadas de 1580-1590, é descrita a descoberta do fruto ananás e o modo como foi apreciado.  
Historia navigationis in Brasiliam…". Genebra, 1586.
Mas apesar das descrições destes portugueses e outros que não menciono agora, seria Jean de Léry  (1534-1611), na primeira edição do livro  Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, autrement dite Ameriques contenant la navigation & choses remarquables vues sur mer par l'auteur…., ( e estou a abreviar o título),  publicada em La Rochelle em 1578, quem iria divulgar a descrição do fruto na Europa. Esta afirmação baseia-se no facto deste ter sido um best-seller na época, o que os portugueses dificilmente conseguem. Na verdade em 1677 ia já na sétima edição e em 1880 era publicada uma nova edição com notas. Lery foi um missionário do protestantismo e parece ter visitado o Brasil quando ainda era estudante.
Jean de Léry
 No capítulo XIII «Das árvores, ervas, raízes e frutos raros que se produzem na terra do Brasil» exaltava o ananás que descreveu como um grande cardo, do tamanho de um melão e feitio de uma pinha.  Quando madura a fruta tem um aroma de framboesa e de gosto é tão doce que nem as compotas do seu país o conseguiam ultrapassar. E concluía: « Acredito que é o melhor fruto da América».
Carlos II a receber um ananás, Hendrick Danckerts, 1675
Nos séculos que se seguiram o ananás tornou-se muito apreciado e rapidamente subiu às mesas reais. Numa pintura inglesa de 1675 Carlos II surge num terraço recebendo em mão um ananás, alegadamente criado pelo seu jardineiro John Rose. Embora seja dito que este foi o primeiro ananás criado em Inglaterra é pouco provável uma vez que a sua cultura na Europa começou com os holandeses e só no século XVIII se viria a divulgar nesse país.
Nurnbergiche Hesperides, 1708
Com um entusiasmo tal que foram publicadas obras como a de  William Speechly,que descrevia o seu método de cultura no livro A Treatise on the Culture of the Pineapple and the Management of the Hot-house, em 1779 , ou ainda outros livros com imagens fantásticas do fruto publicadas noutros países europeus.
Estufa em Dunmore, Escócia, 1776
 E até a própria arquitectura das estufas era reveladora do entusiasmo que este fruto desencadeou, como este exemplo construído na Escócia no século XVIII.

 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A goiabada Peixe

Em 9 de Maio de 1999 o brasileiro Jornal do Comércio, noticiava o desmantelamento da Fábrica Peixe em Pesqueira, encerrada desde 1998 e a transferência da maquinaria para outros locais. Começava assim uma história de múltiplas aquisições da marca por vários grupos de produtos alimentares como a Bombril-Círio Brasil, entre outros, que levaria ao fim da produção.
Fundada em 1888 por Carlos Frederico Xavier de Brito aproveitando o êxito de sua mulher Maria da Conceição Cavalcanti de Brito que, com a ajuda da filha de uma doceira de Pitanga, D. Dina, iniciou a fabricação caseira de goiaba. 
O casal Brito
No início os doces eram feitos num tacho de cobre, cortados em pedaços e embrulhados em papéis recortados que uma criada levava num tabuleiro para vender pela cidade. Mas o negócio teve êxito e dentro de algum tempo já existia a Fábrica de Doces Maria Brito (MB).
Fotografia tirada da internet
O negócio expandiu-se e em 1904 aumentou a produção ao adquirir grandes tachos a vapor de origem inglesa que no livro Impressões do Brazil no Século Vinte, editado em 1913, era elogiado como sendo todo moderno dos fabricantes Joseph Backer & Sons e Blicer, movido por um motor a vapor e um outro da fábrica Crossley Bros. Ltd. movidos a vapor pelas caldeiras do fabricante G. Fletcher. Anexo à fábrica surgiu também uma latoaria que fazia as latas para a goiabada, terminado assim a tradição do «tijolo de goiaba», mais escuro e seco.
 Quando em 1910, apresentou os seus produtos na Exposição Internacional de Bruxelas, onde ganhou um prémio, produzia já, além da goiaba, massa de tomate. A esta pequena produção iria seguir-se o desenvolvimento da cultura do tomate na região e uma capacidade maior de produção de massa de tomate ao que se seguiria, em 1928, a produção de “extracto” de tomate, tornando-se no principal produtor do Brasil, para a qual contribuíram já os seus filhos Cândido e Joaquim.
Apesar desta actividade só em 1916 foi constituída a sociedade com a denominação de Carlos de Britto & Cia e apenas em 1938 foi feito o registo de «Grandes Fábricas Peixe».
Foi também nesta década de 1930, de grande desenvolvimento do Munícípio de Pesqueira, que surgiu a publicidade aos produtos da Fábrica Peixe no Almanach Tico-Tico de que se mostram imagens.
Em 1948 a firma Carlos Brito & Cª transforma-se em sociedade anónima mostrando já necessidade de entrada de outros capitais e a partir daí entrou em linha descendente. Em Fevereiro de 1998, o Grupo Bombril-Círio adquiriu e iniciou sua recuperação, que seria breve porque no final do ano a fábrica seria novamente fechada.
Era o fim de uma época de desenvolvimento local, que havia levado ao aparecimento de outras fábricas contemporâneas de doces como a Rosas, Tigre, Touro, que também terminaram.
Quanto à «Goiabada Peixe» desapareceu mas o seu impacto foi tal que ficou na literatura brasileira o registo dos elogios ao seu gosto, perpetuado por vários escritores que a ela se referiram como sendo a melhor. 

PS: Nalgumas das folhas de publicidade é visível a assinatura «J.C.» de José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), um dos melhores designers gráficos da época.

sábado, 21 de junho de 2014

Convite: Colóquio «As Artes Culinárias na Lusofonia»

Vai ter lugar no próximo dia 26 de Junho na Sociedade de Geografia de Lisboa (sala Portugal) o colóquio acima referido.
Esta iniciativa do Centro de Artes Culinárias, em colaboração com a Sociedade de Geografia de Lisboa, vai ter início às 10 horas e nela colaboram vários palestrantes, como podem ver no programa.
  

Eu vou falar sobre «O papel dos portugueses no comércio alimentar no Brasil (finais do séc. XIX- início do séc. XX)» e ficam desde já convidados para assistir. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O Restaurante Ventura no Porto

 
É provável que o Resturante Ventura tivesse derivado do anterior Café Ventura, inaugurado em 1891, frente ao Suiço, uma vez que ambos se situavam na Rua Sá da Bandeira (actual Sampaio Bruno).

Foi seu proprietário Ventura dos Reis Brenha que no bonito cartão (1) publicado no jornal «Os Pontos», anunciava o serviço de almoços e jantares e o fornecimento de banquetes e soirées. O anúncio data de 1903 mas dez anos depois ainda o restaurante existia, porque o seu proprietário fez um pedido de alteração para obras à Câmara do Porto em 1913.
Nada consegui saber sobre o dono do restaurante tendo apenas constatado que o seu filho, Ventura dos Reis Brenha Júnior, foi viver para o Brasil, para o Rio de Janeiro, onde foi director de várias empresas, como a Casa Aliança de Cambios, Passagens e Turismo, a Casa Bancária Bordalo, Brenha, SA. e a Casa Bancária Fiscal Imobiliária SA. Faleceu no Brasil em Outubro de 1960.

(1) Executado na Litho. Nacional Malmerendas, nº 20-22, Porto, 20-22 (actual Rua Dr. Alves da Veiga). 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Objecto mistério Nº 37. Resposta: Mate de cabaça com bombilha

 
Na realidade eu devia ter acrescentado a este desafio que os brasileiros não podiam votar. Mas teria que acrescentar que também quem viajou para a América do Sul e, em especial, para a Argentina, também não. É que este utensílio é, desde há vários séculos, bem conhecido nessas paragens.
Assim tornou-se um desafio fácil, embora para um português este seja habitualmente desconhecido.
Imagem de embalagem de erva mate do acervo do museu paranaense in gazeta do povo
A denominação «mate» atribuída ao objecto é um daqueles casos em que o contentor e o conteúdo passam a ter a mesma designação. Em Espanha o prato «olha» (que corresponde ao nosso cozido à portuguesa) tomou o nome do objecto em louça onde era confeccionado, a olla
A taça destinada à confecção do chá mate é conhecida por «mate» na Argentina e por «cuia» no Brasil. O material utilizado para a taça em si é variado, mas os mais característicos são feitos com cabaças (família das cucurbitáceas, como as abóboras). Estas são lavadas, polidas e escavadas para retirar as sementes. São depois coradas, podendo ter desenho esgrafitados ou serem revestidas com outro material como o couro. A parte superior é cortada e é aplicado um rebordo em metal, mais ou menos nobre. Podem também ter pés de suporte, como acontece no Brasil, em que apresentam por vezes uma forma em sino invertido e são muitas vezes feitas em cerâmica.Nas regiões do sul do país toma a designação de «chimarrão»
A erva mate (Ilex paraguariensis) é uma planta semelhante ao loureiro, em que se aproveitam as folhas e os ramos mais finos que são secos e depois triturados. Este preparado é introduzido na taça e adiciona-se água quente. A mistura é agitada e bebida através da «bombilha» ou «bomba», um espécie de palhinha com um crivo na extremidade que se destina a filtrar a bebida. São-lhe atribuídas várias propriedades terapêuticas que têm sido estudadas nos últimos tempos.
Embalagem de erva mate. Imagem do acervo do museu paranaense in gazeta do povo
Quanto ao objecto em foco pode apresentar-se com uma grande variedade de formas e alguns são peças de grande beleza, em que se salientam os mais antigos que podem ser em prata, ou os exemplares mais raros do século XIX em porcelana pintada. No dia a dia, nos países onde continua a ser utilizada, são objectos simples, adaptados ao gosto de cada um que os escolhem mais pela qualidade de fornecer uma chá agradável do que pela estética. Nesse sentido transformam-se em utensílios indispensáveis que as pessoas transportam consigo como objecto pessoal.
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P.S.
1 - Tive alguma dificuldade em perceber a diferença entre chá mate e "chimarrão", expressão que é mais usada no sul do Brasil. Trata-se do processo de fabricação da erva mate que no chimarrão passa pelo processo de sapeco (fumadas), secagem e moagem enquanto a erva mate para chá mate é apenas seca e tostada.
2 - Optei pelas expressões argentinas para os utensílios uma vez que o objecto apresenta uma forma sugestiva de ter origem nesse país.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Um convite universal da Coca Cola

A empresa Coca Cola teve sempre uma publicidade de alta qualidade que, ao longo dos anos, foi exercendo influência na sua divulgação e consumo. Sem publicidade é provável que a bebida criado pelo farmacêutico John Pemberton, em 1886, em Atlanta, nunca tivesse passado de uma bebida medicinal de uso regional. 
Alcançado o êxito no seu próprio país, a empresa Coca-Cola Company lançou-se à conquista de Europa e da América do Sul. Os anúncios que aqui apresento referem-se à campanha lançada pela Coca Cola no Brasil no ano de 1944 e intitulada «O Convite Universal: “Tomemos uma Coca-Cola”, publicados na revista Seleções do Reader’s Digest desse ano.
A bebida já tinha chegado ao Brasil em 1941, mas a sua produção começou no Recife, na Fábrica de Água Mineral Santa Clara e estendeu-se depois a outras cidades brasileiras. Destinava-se inicialmente aos militares americanos instalados na base da cidade brasileira de Natal, capital nordestina, e a outros que circulavam pelo chamado "Corredor da Vitória", rumo à Europa e à África do Norte, durante a Segunda Guerra Mundial.
Contudo a população brasileira teve dificuldade na aceitação desta bebida e foram necessárias várias campanhas publicitárias. Em 1940 já havia sido lançada a campanha “A pausa que refresca”, mas em 1944 teve lugar uma nova campanha designada “O convite universal”, de que se mostram alguns dos anúncios. Apenas o anúncio de Cuba está assinado por «Carmona», mas no geral todos parecem saídos da mesma caneta. Destinavam-se a transmitir a ideia de aceitação da bebida em toda a América latina, sendo vários os países mencionados.
Neles surge representado um casal moderno a beber uma Coca-Cola directamente da garrafa. Em plano de fundo são por vezes visíveis autóctenes com fatos regionais que caracterizam melhor o local. 
Apenas no caso da publicidade que mostra uma «Vista Charra Mexicana» os consumidores se apresentam vestidos com fatos tradicionais mexicanos. 
Duas outras imagens publicitárias, incluídas na mesma campanha, destacam-se pela tentativa de divulgação do consumo da bebida durante desportos de luxo: a «Cena de Inverno», referente à prática de sky no Chile, e o «Campo de Polo», num intervalo do jogo, sem referência ao país. 
Em Portugal, por essa época, já não se bebia Coca-Cola. A bebida registada no nosso país em 22 de Dezembro de 1920, teve uma curta vida. A publicidade inicial limitava-se a apresentar a imagem da garrafa acompanhada da expressão: «A tal... agora em Portugal». Contudo a melhor publicidade seria da autoria de Fernando Pessoa que trabalhava nessa altura na empresa Manuel Martins da Horta, Ldª(1) quando escreveu o slogan: «Primeiro estranha-se, depois entranha-se» (2). Seria a própria qualidade da promoção que alertaria as autoridades, e Ricardo Jorge (1858-1939) como Director-Geral da Saúde, foi o responsável, em 1927, pela proibição da Coca-Cola (3). A bebida existente em Portugal foi destruída. Apesar de não se encontrar à venda a empresa Coca Cola Company fez um segundo registo da marca em 1946 e em 16 de Outubro de 1961 registou o modelo da garrafa.
Apenas em 1976 o empresário Sérgio Geraldes Barba, constituiu a empresa Refrige (Sociedade Industrial de Refrigerantes SA) que se tornaria na concessionária da bebida no nosso pais. Em Julho de 1977 a Coca Cola regressava a Portugal. Em 1993 lançava uma campanha publicitária intitulada «Sempre Coca-Cola». A empresa nunca deixou de investir em publicidade.

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(1) Que viria a dar a McCannErikson/Hora.
(2) Ferreira, António Mega, Fernado Pessoa, O Comércio e a Publicidade, 1986, p. 34-35.
(3) Galhardo, Andreia, Sobre as práticas e reflexões publicitárias de Fernando Pessoa. Consulta online http://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/585/2/19-27FCHS2006-2.pdf

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um "tête-à tête" do Moinho Fluminense

Este conjunto de porcelana parece um tête-à-tête de brincar. Todas as peças apresentam escrito a dourado «O Moinho Fluminense. Manáos».
Pensei no início ser um presente de algum restaurante, mas na realidade apenas encontrei na cidade de Manaus um estabelecimento com essa designação, que correspondia a uma loja de venda de produtos alimentares, pertença de J. Guimarães Júnior.
É provável que fosse uma sucursal da conhecida fábrica de moagem «Moinho Fluminense» (1), fundada no Rio de Janeiro em 1883 e com alvará de funcionamento com a data de 1887. O edifício de grandes dimensões, foi construído de raiz de acordo com o projecto do arquitecto António Januzzi e destinava-se à moagem de cereais. A importância do edifício acompanhava a da indústria da panificação que dava no Brasil os primeiros passos; na realidade o pão de trigo só foi conhecido no Brasil no século XIX. A corte portuguesa habituada ao pão de trigo em Portugal seguramente que deve ter estranhado.
Foto da Fundação Bunge
Em 1914 o «Moinho Fluminense» foi adquirido pela empresa alimentar «Bunge Brasil». Em 1955, de acordo com um anúncio aos seus produtos existia também o chamado «Moinho Central» em S. Paulo, igualmente pertença da então designada firma «Moinho Fluminense, SA.». Ambos os edifícios foram abandonados e sofreram incêndios. Tiveram, contudo, destinos diferentes; enquanto o moinho de S. Paulo foi implodido, o do Rio de Janeiro transformou-se num centro comercial.
Quanto à  provável filial em Manaus só consegui encontrar uma foto, em que a simplicidade do edifício contrasta com o requinte do serviço de porcelana. Seguramente que falta um elo nesta história, que deve estar relacionado com o progresso associado ao “ciclo da borracha”.
Aqui fica a imagem do requintado serviço que, imagino, foi trazido para Portugal por alguém que viveu no Brasil. Quanto à explicação da identificação em letras douradas «Moinho Fluminense. Manáos» é um desafio de que fico a aguardar achegas para esclarecimento.  

(1) A ausência do «O» inicial torna esta hipótese menos consistente.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

«A Alegria de Cozinhar»

O livro de Helena B. Sangirardi é um dos mais importantes livros brasileiros de culinária do século XX. Como sucesso, só o livro «Comer Bem», publicado sob o pseudónimo de Dona Benta, se lhe pode comparar.
O que primeiro me despertou à atenção no livro que possuo, a 4ª edição publicada em 1949, foi a dedicatória escrita por um primo brasileiro, ou a viver no Brasil, no Rio de Janeiro, à sua prima a viver em Portugal, em 1950, a quem enviou o livro.
A frase começa com: «Lembrança dos quitutes do Brasil...». Confesso que desconhecia a palavra «quitutes», que afinal significa “iguarias”[1] e que me obrigou a ir ao dicionário. O que mostra que isto do acordo ortográfico não é assim tão fácil porque não é com alterações de acentos e perda de letras, que lá vamos. Há realmente muitas palavras diferentes nas duas línguas e esta, de origem africana, não é usada em Portugal.
Voltando ao livro é importante realçar que a sua autora foi um dos primeiros casos de sucesso provocado pelos «media», em meados do século passado. Hoje os cozinheiros entram-nos pela casa pela televisão mas, antes destes, foram os jornais e a rádio que divulgaram os primeiros nomes.
Helena B. Sangirardi era uma especialista em Economia Doméstica e foi a sua colaboração na revista Cruzeiro com a rubrica culinária «Pratos que todos repetem» e os artigos sobre assuntos domésticos intitulados «Lar, Doce Lar» que tornaram o seu nome famoso.
Seguiram-se programas na rádio carioca e paulista com o nome «Bazar Feminino», posteriormente transmitido pela Radio Nacional.
O livro A Alegria de Cozinhar foi o seu primeiro livro publicado. No prefácio a autora promete publicar novos livros mas apenas em 1988 surgiria A Nova Alegria de Cozinhar.
Mais do que um livro de receitas é também um livro de normas e conselhos para as donas-de–casa. O livro termina com um capítulo muito interessante sobre «A Cozinha do Futuro... A Cozinha Elétrica», com a apresentação de electrodomésticos americanos, com desenhos fornecidos pela General Electric e que eram seguramente futuristas no Brasil da época.
Nada consegui saber sobre a  autora a quem Vinicius de Moraes escreveu uma receita, sob forma de poema, intitulada «Feijoada à minha Moda», publicada no livro «Para viver um grande amor»[2].


[1] Quitute: comida fina, iguaria delicada.
[2] Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1984, pág. 97.