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sexta-feira, 28 de maio de 2021

Cortinas de cozinha

 Refiro-me às cortinas de prateleira ou de armário que conferiam uma beleza especial às cozinhas. Podiam ser em papel ou em renda, mas as bordadas eram as mais bonitas.

Os modelos saiam em revista de bordados como o exemplo aqui apresentado. Os desenhos eram depois adaptados às dimensões das cozinhas e das prateleiras.

Quando no final dos anos 90 visitei várias cozinhas do país encontrei ainda algumas, já poucas as bordadas, mas sobretudo em papel. Vi mesmo cortinas de prateleira feitas em papel de jornal recortado e perfurado, que se usava em casas mais pobres.

Conto aqui uma história comovente que não terei hipóteses de contar noutro local. Visitei em Penacova uma cozinha lindíssima mas que se percebia que a senhora de idade que habitava a casa passava agora por dificuldades económicas. A cozinha estava muito bem arranjada e as prateleiras apresentavam-se todas decoradas com papel colorido. 

Perguntei-lhe onde o comprara porque nessas minhas andanças procurei recolher o maior número de exemplares ainda à venda. Disse-me o local mas infelizmente encontrava-se fechado. Deixe 20$00 e pedi-lhe se me comprava algumas que me entregaria de forma a combinar. Passaram-se os meses e um dia recebi uma carta de Penacova, escrita com letra de pessoa pouca letrada. Lá dentro vinham os 20$00 e uma explicação: não tinha podido comprar o papel porque já não havia.

Fiquei impressionada pelo cuidado. Uma atenção hoje impensável, porque se deixou de efectivar os compromissos.

Voltando as cortinas de pano mostro aqui alguns exemplares bordados lindíssimos. A modernização das cozinhas a partir dos anos 50, sobretudo nas casas que adoptaram os modelos americanos, num imaginário transmitido pela filmografia, acabaram com estes pormenores.

Eu continuo a gostar imenso e só não as uso, estas ou outras, para as preservar. Estão religiosamente guardadas para memória futura.

domingo, 18 de outubro de 2020

Uma toalha (quase) com assinatura

Uma das maiores dificuldades no que respeita os trabalhos de rendas e bordados é atribuir-lhes uma autoria. Mesmo as rendeiras e bordadeiras de fama nada lhes garante o reconhecimento do seu trabalho, excepto por quem adquiriu directamente a peça, informação que com o tempo se vai perder. Com algumas pequenas excepções, nem as heranças permitem saber por quem foi feita aquela toalha que veio de casa das nossas mães ou tias. Eu própria tenho dificuldade me lembrar-me dos pequenos trabalhos que fiz durante a infância e adolescência.

Illustração Portuguesa 1910
Foi por isso que me entusiasmou uma pequena toalha, com aplicações de várias cores, representando cachos e parras de uvas. Foi-me dada pelo meu amigo António que me disse que teria vindo da casa dos Bordalo Pinheiro. Na verdade foi oferecida por Maria Augusta Bordalo Pinheiro a uma sua aluna de pintura Palmira Lagoa, que foi professora de Desenho e Línguas e mãe do já falecido pintor Lagoa Henriques.

A luva cinzenta. Pintura de Mª Augusta por Columbano. MNAC. Museu do Chiado.

A perfeição da obra faz-me acreditar que teria sido a própria Maria Augusta Prostes Bordalo Pinheiro (1841 - 1915) que a teria feito. Maria Augusta ficou conhecida pela sua actividade dinamizadora no sector das rendas de bilros, mas dizer isso é ser demasiado redutor da actividade de uma mulher tal envolvida no campo das artes. Dissemos já que dava aulas de pintura e sabemos que foi autora de várias pinturas em que destacamos o tecto da sala de jantar do Palácio do Beau Séjour, onde trabalhou em colaboração com os seus irmãos Rafael e Columbano. Mas pintou também cerâmica, tendo deixado algumas obras, presentemente em Museus.

Prato pintado por Mª Augusta BP. Museu Bordalo Pinheiro.

A sua actividade em Peniche, onde criou uma escola que se dedicava exclusivamente ao ensino feminino das rendas de bilros da região, levou à recuperação de modelos antigos e à elaboração de novos desenhos. Apoiando-se nos conhecimentos de uma rendilheira da terra, aprendeu a arte deste tipo de renda de bilros e desenvolveu-a a um nível de maior erudição. Rodeou-se das melhores artífices da terra e após dois anos à frente deste projecto, deixou um caminho aberto e voltou a Lisboa.

Piques. Foto de Ana Montez para o livro Vestir a Mesa

O reconhecimento do seu trabalho levou a que a 1 de Setembro de 1887, fosse nomeada a primeira professora de desenho industrial da escola Rainha D. Maria Pia. Abriu posteriormente em Lisboa, na Rua das Taipas, um atelier, que era visitado pela rainha D. Amélia, que depois mudou para a Rua António Maria Cardoso. Os seus trabalhos foram apresentados em múltiplas exposições nacionais e internacionais tendo sido galardoados com prémios. 

Lenço com renda da autoria de Mª Augusta BP. Museu do Chiado. MNAC.

Cincinato da Costa, autor do Catálogo da Secção Portuguesa, de 1908, na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, fez a seguinte afirmação: "As rendas da Sra. D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro têm já hoje celebridade no país e no estrangeiro nas Exposições de Paris em 1900, e de S. Luís (Mo.), em 1904, na América do Norte, os seus trabalhos foram justamente reputados como dos melhores no género”[1].

Pormenor da toalha
Mas também os seus trabalhos na área dos bordados eram reputados e a ela se atribui o bordado de um leão num reposteiro para o Restaurante Leão de Ouro, em Lisboa. Nele se reuniam os intelectuais e artistas do «Grupo do Leão» de que fazia parte o seu irmão Columbano que o imortalizou numa pintura a óleo com o mesmo nome.

Sem provas da afirmação escrita em título, fica-me a esperança de que a atribuição seja verosímil. A perfeição e a beleza do bordado esses são inegáveis.

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[1] Pereira, Ana Marques, Vestir a Mesa/Dressing the Table, 2018.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Objecto Mistério Nº 59. Resposta: Cobertura de depósito de clister

Talvez tenha sido em meados do século XX que em muitas casas as preocupações em cobrir objectos inestéticos ou com pouco uso, que se queriam proteger do pó, atingiram o auge.
Não foi uma moda disseminada, mas predominava em casas burguesas cujas donas de casa eram mais extremosas.
Assim de repente recordo-me que havia pessoas que tinham as botijas de gás cobertas com saias e as mais imaginativas arrancavam as pernas a bonecas de plástico e faziam umas grandes saias que cobriam as botijas. 
Lembro-me também que quando visitei cozinhas para fazer o livro «Cozinhas. Espaço e Arquitectura» de ter visto numa cozinha de uma casa senhorial ribatejana as prateleiras onde se encontravam os tachos e panelas em alumínio cobertas com cortinas. Embora na maior parte das casas as cortinas desçam abaixo da prateleira e têm funções decorativas, aqui protegiam os utensílios de cozinha do pó.
Numa outra cozinha, cuja proprietária era uma alemã radicada há muito em Portugal existia um suporte para os panos de cozinha, em madeira, com cerca de 3 ou 4 rolos onde estes ficavam abertos e que era coberto com uma cortina branca com bordados que cobria toda a estrutura.
Chegamos por último ao depósito para a água dos clisteres. Normalmente era guardado num armário, mas, como se comprova pela imagem mistério, podia ficar pendurado e oculto com uma cobertura de pano bordada.
Neste caso constato que se trata de um utensílio português da marca Sublime. Como era habitual e, por razões que desconheço, apresentava-se sempre com uma cor alaranjada. Outro mistério!

sábado, 22 de junho de 2019

Objecto mistério Nº 59

Publicado o meu livro «Vestir a Mesa» tenho-me tentado organizar para uma futura exposição sobre o tema que terá lugar em Guimarães no próximo ano.
Dentro dessa linha tenho continuado à volta dos “panos”, a escolher, organizar, lavar, etc.
De entre os vários panos bordados, encontrei este que reconheci imediatamente. Faz parte de um tempo em que tudo tinha uma organização e em que as donas de casa cuidadosas cobriam algumas peças menos estéticas.
Tem de altura 25 cm.
A que se destinava?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Convite para Guimarães


Para quem estiver no Norte gostaria de contar com a vossa presença no lançamento do livro «Vestir a mesa / Dressing the Table».
Para os outros é uma boa desculpa para visitar Guimarães.
Apareçam!.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Proteger os livros

Livros portugueses de cozinha do século XX  forrados com chita
Não vou falar de encadernação que é a melhor maneira de proteger os livros. Pessoalmente agrada-me ver os livros perfilados nas estantes envolvidos na sua pele colorida onde sobressaem as letras de ouro. Quando se apresentam com as capas fragilizadas, inspiram-me um instinto de protecção e lá vão eles para o encadernador. Voltam resistentes e belos na sua nova indumentária.
Capa de linho bordada
Mas há outras formas de protecção dos livros e uma de que lhes quero falar são as capas de pano, usadas provisoriamente. Ultimamente comecei a guardar algumas delas, em especial as usadas para envolver os livros de culinária. 
Capa em tecido de algodão com molas que vinha a forrar um livro de culinária
É sabido que um grande número de livros de culinária se apresentam em mau estado. Saem das estantes para a cozinha e são manuseados por mãos sujas de comida. Por vezes nem se tem noção disso mas seguir uma receita leva-nos a esquecer a fragilidade do papel. E lá aparecem nódoas nas folhas e nas capas.
Talvez por isso seja mais frequente encontrar capas de pano nestes livros. Estas que lhes apresento são exemplos desses cuidados. De tal modo era sentida essa necessidade que encontrei na Revista Lavores e Arte Aplicada de 1955 um desenho para bordar uma capa para o livro O Mestre Cozinheiro. 
Capa bordada, pronta a aplicar, para o livro O Mestre Cozinheiro
Era uma época em que as pessoas tinham tempo para bordar capas de livros e ficamos a pensar: quantas pessoas o terão feito?. Pois bem, podem imaginar a minha alegria quando no meio de uns bordados encontrei uma capa idêntica, resultado deste modelo, ainda por aplicar. Tinha que partilhar esta descoberta simples. 
O Mestre Cozinheiro em 4ª edição
P.S. Refiro-me aqui apenas aos livros impressos de culinária. Quanto aos manuscritos com receitas é um outro tema de que falarei numa próxima vez.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dois corações num toalha

No meio da minha roupa de enxoval, que só ao fim destes anos decidi recuperar, encontrei uma toalha pequena que fez parte do enxoval da minha mãe. É rectangular e as suas cores vivas, que só foram usadas em toalhas em Portugal a partir de 1925, fazem-me pensar que deve datar de cerca de 1940.
O facto de ter uma bordadura noutro tecido, um aproveitamento de uma outra toalha que devia já estar envelhecida, mostra-nos de que forma os têxteis de uso doméstico antigamente eram aproveitados com outros fins. Era uma época em que as velhas toalhas, tal como os lençóis que se “viravam”[i], ganhavam uma nova vida transformando-se em panos mais pequenos.
As pequenas dimensões e o colorido colocam-na posição de toalha para pequeno- almoço, menos provavelmente para chá, uma vez que estas eram mais frequentemente quadradas. O bordado é simples, feito por uma pessoa com pouca experiência, em cores contrastantes, em que se destaca o coração como motivo central. O que me surpreendeu foi estes terem escrito no interior “meu”, referindo-se ao seu próprio coração e “teu” ao do meu pai e utilizados como símbolos de amor.
Agora que o coração do meu pai também já não bate esta toalha ganhou para mim um valor especial e aqueles dois corações ali unidos comoveram-me.
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[i] Virar um lençol significava cortá-lo ao meio e meter as ourelas para dentro, uma vez que esta zona estava menos gasta. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A propósito do ponto de Assis

O bordado em ponto de Assis foi muito usado durante o século XX em toalhas de mesa. É um ponto que nos é familiar e nunca me tinha interrogado se era um ponto português ou não. Na realidade não é. Como o nome indica é um ponto com origem na cidade italiana de Assis, bastante recente no que respeita a bordados, uma vez que data do início do século XX.
Foto tirada do Pinterest
O ponto de Assis consiste em contornar com linha preta os elementos que se querem evidenciar, leões, dragões ou outros, deixando o interior em branco. À sua volta é feito um bordado em ponto de cruz, numa única cor, geralmente vermelha, azul ou âmbar, o que que vai realçar o interior não bordado.
Este ponto baseia-se num outro o chamado ponto Holbein, precisamente porque está presente em muitas das pinturas de Hans Holbein o Jovem (c. 1497 - 1543).
Jane Seymour por Holbein
Foi um dos grandes retratistas do século XVI, tendo sido essa a função que exerceu na corte do rei inglês Henrique VIII, desde 1535. Holbein tinha um cuidado extremo com os pormenores e a representação do bordado presente nos trajes, tal como a das jóias ou outros aspectos é minuciosa.
Pormenores do retrato de Jane Seymour
Este tipo de bordado é feito com linha preta sobre tecido branco, com desenhos tipo arabesco e foi muito usado durante o século XVI no vestuário das classes mais abastadas. Podemos vê-lo nos punhos da rainha Jane Seymour (hoje no Museu Kunsthistorisches de Viena de Áustria), no peitilho de Henrique VIII e no colarinho de muitas blusas de pessoas pintadas por Holbein.
Henrique VIII pintado por Holbein. Note-se o peitilho bordado
O Holbein, por sua vez, faz parte do conjunto dos chamados “bordados a preto” e foi também conhecido como “ponto espanhol”, mas o seu uso é também tradicional na indumentária de alguns países nórdicos.
 
Thomas Godsalve e filho por Holbein. Veja-se o colarinho do filho.
Retrato de um homem com chapéu vermelho por Hans Holbein
Portanto da próxima vez que virem um quadro de Holbein os olhos vão dirigir-se para os bordados, que estavam lá “escondidos” e que o conjunto nos fazia não reparar nesses pequenos pormenores.
Margaret Roper por Holbein. Metropolitam Museum
O mesmo poderá acontecer se virmos uma toalha de mesa com bordado em ponto de Assis, situação que é hoje cada vez menos provável, nesta época em que o que se procura é ter pouco trabalho.