segunda-feira, 26 de março de 2012

O Licor de Singeverga

Falo hoje do único licor monástico português: o «Licor de Singeverga», que toma o nome do próprio mosteiro beneditino.
Tal como veio a acontecer noutras ordens monásticas a regra de S. Bento estabelecia que o convento devia ser autónomo. Dentro da cerca e junto à zona das cozinha existia a viridaria. Uma das áreas estava reservada à plantação da ervas aromáticas usadas não só na alimentação mas também na botica, enquanto que no horto eram cultivadas as verduras para a alimentação e no pomar os frutos.
Antiga casa dos donatários
A Regra de S. Bento começou a ser difundida em Portugal no século XI pelos cluniacenses e assenta em dois pilares fundamentais: Ora et Labora (reza e trabalha). Sob estes princípios a comunidade empenha-se na prática do culto religioso, mas também numa actividade que lhes permita uma economia sustentada.

A reforma monástica iniciada pelo rei D. Sebastião e levada a cabo pelo Cardeal D. Henrique levou à criação das “Congregação dos Monges Negros de S. Bento dos Reinos de Portugal”. Tendo como casa mãe o Mosteiro de Tibães, daí disseminaram muitos mosteiros beneditinos.

Hoje o único mosteiro beneditino masculino em Portugal é o de Singeverga. Tem uma história curta. Foi fundado em 1892 na freguesia de Roriz (Santo Tirso), após a restauração da vida beneditina, na sequência da extinção das Ordens Religiosas, em 1834.
Edifício antigo do mosteiro junto ao qual se situa a fábrica de licores
O seu local de acolhimento foi a quinta de Singeverga, pertença da família Gouveia Azevedo que a doaram à Ordem Beneditina. Mas apenas em 1931 a comunidade se instalou nesse local. Esta prosperou e em 1955 foi construído um novo edifício, hoje grande demais para as necessidades e vocações.
Quem melhor que os frades, que tinham acesso à ervas e ao processo da destilação, para serem os iniciadores da produção de licores. No início os xaropes, as infusões e as decoções eram usadas para produzir medicamentos. O seu mau gosto levou adição do mel, substituído mais tarde pelo açúcar.
O «labora» desta ordem de que falamos passa pela produção de um licor ainda mal conhecido, o único licor de origem monástica produzido em Portugal. Esta especificidade justificava uma vista. Falei com o padre Albino Sampaio Nogueira, encarregue da produção e comercialização desta bebida. Foi em 1945 que começou a sua produção, graças à acção de um amigo do mosteiro, o engenheiro químico de nome Botelho.
Os garrafões de infusão
Os licores estão sempre envoltos em mistérios e nunca nos explicam como são feitos, mas o padre Albino explica-nos com simplicidade o moroso processo. Assim explicado até parece fácil. Começa com a maceração das especiarias em álcool etílico a 95º, onde ficam quatro dias, com agitação regular manual. É aqui que entra o açafrão, a canela em pau, a noz-moscada, o cravinho, o cálamo aromático, raiz angélica, a baunilha em vagem, etc.
Local de destilação
É feita depois a destilação da água e a do álcool a que se junta depois um xarope feito com água, açúcar e ácido cítrico de modo a descer a graduação alcoólica. No final adicionam-lhe caramelo e chá preto para dar cor ao licor e acertar o teor alcóolico que no final se situa nos 30º.
Passa depois o licor para barricas de carvalho onde estagia pelo menos durante um ano. O licor é depois filtrado e engarrafado manualmente, tal como  os rótulos e as garrafas são embaladas. E lá vão elas, em três tamanhos, para as grandes superfícies.
Esta produção, tal como a venda de leite produzido pelas simpáticas vacas que pastam nos terrenos circundantes são a fonte de rendimento desta ordem.
Não têm publicidade a não ser a de quem experimenta os seus licores.
Tal como aconteceu com uma loja do Porto, que depois de eu ter feito várias perguntas e fotos me perguntou quanto tinha de pagar pela publicidade, eu respondi: «Nada. A minha publicidade é de graça». Aqui eu posso acrescentar que nestes casos: «O gosto em fazê-la é todo meu».

7 comentários:

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

Nunca provei :)

acácia rubra disse...

Este licor era o preferido pela minha Avó. Eu sigo-lhe as pisadas gostativas e tenho cá duas garrafas. É ótimo!

Pena ser difícil de adquirir.

Beijo

Ana Marques Pereira disse...

Acácia Rubra,

As garrafas da foto comprei no convento mas ainda ontem vi à venda numa das casas de venda de bacalhau na Rua do Arsenal.
Um bj

acácia rubra disse...

As minhas também foram compradas no Convento, mas fico a saber. Sou de Viseu e, por isso, dá-me mais jeito ir ao Convento que à Rua do Arsenal. Mas quando for a Lisboa lá irei buscar mais uma para reserva.

Beijo

IF disse...

Olá Ana
Mais uma vez nos surprendeu com a sua investigação tão séria e exaustiva sobre o Mosteiro de Singeverga. Sabia da existência do licor com o mesmo nome, não sabia era que se vendia em Lisboa. Obrigada pela informação. Assisti, há tempos, a um concerto de Frei Hermano da Câmara, monge do mesmo convento, e admiro a capacidade de viverem praticamente afastados do mundo.São opções que se fazem e demonstram uma grande capacidade de afastamento, próprias de espíritos superiores.
Cump.
if

Laurentino.teixeira disse...

Que maravilha....que saudades de tudo isso..
Até fazer desenfestacao nesse bonito local!pois fui o responsavel durante mts anos pela desenfestacao feita no alambique na pocilga e vacaria
Tinha que provar sempre o licor com o irmão Jose e depois com o Padre Albino
E os belos porcos criados pelo sr . Machado
Tudos mt mt amigos
Obg mosteiro de Singeverga

Anónimo disse...

Boas
Tenho uma garrafa de licor do mosteiro de singeverga que herdei. Tem o número 0084234.
Alguém me consegue dizer o ano de fabrico?
Obrigado
António Dias