sexta-feira, 8 de abril de 2011

2- A bordo do navio Gelria

Entremos hoje no interior do Gelria.
Apesar de o navio ter sido construído em Inglaterra, toda a decoração interior foi executada na Holanda, tendo ficado a cargo da Companhia Mobiladora de Roterdão Allan & Co, que fizeram a instalação dos salões, dos trabalhos de madeira e demais acessórios, ao gosto holandês.
Comecemos pela «Sala de jantar». De grandes dimensões estendia-se por toda a largura do barco. Era decorada em estilo império branco mate, com tapeçarias verde e cinzento claro, tectos altos e paredes apaineladas em estuque de porcelana da fábrica holandesa Thooft & Labouchere.
Na parte superior estendia-se uma galeria com balaustrada, onde durante as refeições e nas festas a bordo, uma orquestra tocava. A encimá-la uma cúpula de vidro colocada a treze metros de altura. Por entre as mesas deslizavam os empregados, com uniformes azuis que, com passos abafados por um pavimento em caoutchouc, serviam as iguarias. Para tal todo o pessoal da despensa e cozinha começava cedo a sua tarefa. O cozinheiro chefe iniciava as suas funções colocando uma toalha em volta do pescoço e entrava no grande frigorífico. Aí, juntamente com o carniceiro, demorava cerca de meia hora a cortar a carne gelada, a escolher as aves, o peixe, etc. Cá fora os padeiros enchiam os barris de farinha e os moços faziam rolar os barris de cerveja. Da despensa saíam as frutas e legumes. Daí  saíam também centenas de ovos para a cozinha e a confeitaria. Às seis da manhã todas as secções estavam em plena actividade. As provisões adquiridas em cada paragem atingiam números enormes. Mas era motivo de orgulho fazer os 13-15 dias que separava Lisboa do Rio de Janeiro sem necessidade de fazer qualquer abastecimento.
Dessas refeições apenas encontrei registo de um menu, pertença do Maritiem Digitaal, que aqui reproduzo.

Menu do GELRIA de 31 de Julho de 1929. Impresso dos dois lados tem o nome do navio, o emblema da empresa e três anúncios publicitários à BOLS, BRASSERIE AMSTERDAM e à SCHWEPPES
  Depois das refeições os viajantes podiam dirigir-se à «Sala de conversação», de dimensões idênticas às da sala de jantar e em estilo Luís XVI ou à «Sala de Leitura», num sóbrio estilo Rainha Anna.
 Mas as senhoras podiam também recolher-se no «Salão para as Damas» em estilo Chariton, onde a lareira com azulejos de Delft era rematada por uma chaminé em mármore branco de Kyros. Mas, apesar deste ambiente agradável, constatava-se que as senhoras preferiam reunir-se com os homens na «Sala de Fumo». Era esta que mais chamava a atenção neste tipo de vapores. Para ela foi escolhido um estilo renascença holandês, inspirado em desenhos do Museu Nacional de Amesterdão. Aí era servido o café, os licores e as bebidas geladas, acompanhadas por charutos da Holanda, cigarros do Egipto e da Argentina e tabaco de várias nacionalidades.
Para não me alongar não falo na «Varanda do convés», na «Biblioteca» ou no «Quarto para crianças», cujas imagens são bastante explícitas.
Mas não posso passar por alto as instalações da «Sala de Ginástica», apresentadas como permitindo às senhoras e homens fazer passeios a cavalo eléctrico, a passo, a trote ou a galope. Ou até andar lentamente sobre o camelo. Bastante diferente dos nossos ginásios de hoje, mas seguramente um êxito na época.
Falo ainda dos camarotes de luxo em que cada compartimento era composto por um quarto de dormir, uma sala, um toucador e uma sala de banho. A estes se seguiam os de segunda classe, de classe intermédia e por fim de terceira classe.
Blaise Cendrars visto por Amadeo Modigliani
Foi numa destas cabines do Gelria que embarcou, em 1924, o poeta Blaise Cendrars (1887-1961), no regresso do Brasil a França. Nele escreveu um poema dedicado à sua cabine e ao próprio navio, posteriormente publicados em França no livro «Feuilles de Route» e que não traduzo para não alterar o sentido.

Cabine N°6
C'est la mienne
Elle est toute blanche
J'y serai très bien
Tout seul
Car il me faut beaucoup travailler
Pour rattraper les neuf mois au soleil
Les neuf mois au Brésil
Les neuf mois aux Amis
Et je dois travailler pour Paris
C'est pourquoi j'aime déjà ce bateau archibondé où je ne vois
personne avec qui faire causette
Blaise Cendrars, Feuilles de Route, VII / Le Gelria.
La Brise

Pas un bruit pas une secousse
Le “Gelria” tient admirablement la mer
Sur ce paquebot de luxe avec ses orchestres tziganes dans
chaque cache-pot on se lève tard
La matinée m'appartient 
Mes manuscrits sont étalés sur ma couchette
La brise les feuillette d'un doigt distrait
Présences
Blaise Cendrars, Feuilles de Route

Quantos navios se podem orgulhar de ter poemas a eles dedicados ou por eles inspirados?

2 comentários:

Anónimo disse...

Excelente achado,esse dos poemas de
Cendrars sobre o navio eleito.E a
publicação do retrato do poeta bem
modiglianesco.
Louvo o seu minucioso,exaustivo trabalho.
Os meus cumprimentos.
José

Ana Marques Pereira disse...

José,
Obrigada palas suas palavras. Espero que esteja tudo bem consigo.
Um abraço