segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A fava e o Dia de Reis

Tornou-se tradição no dia 6 de Janeiro, dos Reis Magos ou Epifania, comer bolo-rei.
Estão recordados que, até há 2 ou 3 anos, o bolo-rei ainda tinha dentro um brinde e uma fava. Descobriram um dia que se podiam partir os dentes ao comer uma fatia com estes elementos e foram proibidos. Parece que ninguém pensou na possibilidade de cortar fatias mais finas e detectar os elementos estranhos e assim acabou-se com um hábito divertido.

Queremos hoje falar no significado da fava. A tradição recente, porque o bolo-rei só chegou a Portugal no final do século XIX, dizia que a quem coubesse a fava devia comprar um novo bolo-rei.
Em diversos países, e desde há vários séculos, a pessoa a quem calhava a fava tornava-se num rei por um dia. Um «rei da fava», como também era chamado por brincadeira. No dia de Reis a família sentava-se à volta da mesa para comer e beber. Era o rei quem devia beber primeiro. Quando tal acontecia gritava-se «o rei bebe» e todos os outros bebiam em seguida.
Foi esta festa que Jacob Jordaens (1593-1678) representou nos seus quadros com o título «O rei bebe». Tendo-se especializado em temas religiosos e cenas de banquetes, este pintor menos conhecido da época de Rubens e Van Dyck , deixou-nos 6 versões sobre este tema. Podemos encontrá-las em Bruxelas (Museus Reais de Belas Artes), em Paris (Louvre), em Berlin (Staatliche Gemäldegalerie) e em Munique (Alte Pinakothek), em Viena (Kunsthistorisches Museu) e em S. Petersbourg (Museu Ermitage).

Em todo eles se pode observar a figura do rei, bem disposto e bem bebido, com uma coroa de papelão na cabeça, cujo modelo se crê ser o sogro do pintor, Adam von Noort, de quem foi discípulo.
Jordaens realizou estas pinturas nos anos 30-40 do século XVII. Embora nalguns quadros o rei seja a figura central, como acontece no existente em Bruxelas, na pintura que pertence agora ao Louvre e na de Viena de Áustria o rei encontra-se numa das extremidades da mesa.
O que é comum a todos eles é o ambiente de festa popular, com alegria e exuberância nos modos. Esta tipo de festa, em que pessoas do povo encarnam a realeza, parece ter as suas raízes na Saturnália ou festas de Saturno, festividade romana em que aos escravos era permitido representar o papel dos seus senhores, assistindo-se a uma inversão da ordem social.
Em todos os quadros desta série a bebida está presente e podem ver-se já os seus efeitos. Para o serviço de bebidas eram usados copos de vidro, com pés elaborados, como era costume nos países baixos, pichéis de estanho e jarros de barro vidrado, elementos de luxo a contrastar com o comportamento pouco formal dos representados.
Sobre a mesa podem ver-se iguarias, salientando-se as talassas, já com os seus alvéolos e as “galettes des rois”, as precursoras do bolo-rei, no interior das quais se encontrava a fava.
Pormenor das talassas à esquerda e das galettes à direita, sobre a mesa

Agora que a Comunidade Europeia nos roubou a fava do bolo, e antes que seja esquecida, é bom recordar a sua simbologia e os momentos de alegria que o seu achado desencadeou ao longo dos séculos.

6 comentários:

Anónimo disse...

Creio que se esqueceu de outra coisa que tambem deixou de fazer parte integrante do bolo-rei.Refiro-me ao brinde que começou por ser em ouro.Passou psrs bijuteria barata,embrulhada em papel.Foi retirada porque podia ser engolida pelas crianças.Um bjo.de boas festas. Francisco

Ana Marques Pereira disse...

Obrigado pelo seu comentário. Aproveito para dizer que em Portugal, até à sua proibição, no bolo-rei vinham ambos: o brinde e a fava, como referi no início do artigo. Contudo em França, a partir do século XIX, a fava transformou-se num objecto em porcelana, que manteve o nome de «fève». Por essa razão à colecção destas chama-se favofilia. Um Bom ano.

Carlos disse...

É curioso verificar estas alterações e evolução, que também surgiram em Portugal.
Nos últimos anos da sua existência o brinde foi substituído por um objecto de ceramica, ou sejam pequenas peças de presépio, que substituiram os brindes metálicos.
Bom ano de 2010
Carlos Caria

Ana Marques Pereira disse...

É verdade. Ainda me lembro das figuras de presépio, embora me custe a acreditar que alguém alguma vez tenha conseguido completar o mesmo. Era preciso comer muitos bolos reis.
Aconselho a visita a um site sobre colecção de favas para se compreender a dimensão deste fenómeno em França.
http://www.fabophilie.com/
Um Bom Ano para si também.

A.Teixeira disse...

Hás-de me explicar como é que a obra de "Jacob Jordaens (1593-1678)" e a localização precisa e actual das suas 6 versões do quadro "O Rei Bebe" se inclui na tua definição de "temas terra-a-terra" e "fáceis de seguir"?...

As expressões são tuas e,
em caso de resposta afirmativa tua, então asseguro-te que também o meu blogue é de um plebeismo rústico repleto de temas de interesse popular...

Ana Marques Pereira disse...

António
Acho sempre graça às tuas observações acutilantes.
Quando disse que o meu blog era terra-a-terra, referia-me aos temas que são simples. A forma de tratamento é que às vezes é um bocadinho mais elaborada. Para desenjoar. O teu também não é seguramente de um plebeismo rústico.
Bj.