quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O fascínio dos alumínios. Parte 2

Caixas de talheres. Museu Municipal de Penafiel.
Este tema foi-me sugerido pela visita à exposição que fui ver ao Museu Municipal de Penafiel e que infelizmente já acabou. Seria útil ter feito este comentário enquanto ela estava a decorrer, mas como foi desmontada várias vezes acabei por me perder e, bem à portuguesa, só me desloquei a Penafiel na véspera do seu encerramento.
Imagem do catálogo e colher da JAFE. Museu M. Penafiel
A exposição retrata a importância que a indústria de alumínios teve na região com múltiplas fábricas e milhares de empregados. Destas, hoje só resta uma única que visitei por amabilidade do seu proprietário o sr. Firmino Magalhães e de que falarei no próximo poste.
Fábrica de João Abrantes Ferreira. Museu de Penafiel
Esta concentração de fábricas foi influenciada pela indústria de cutelaria de Guimarães muito mais antiga e esse é um dos pontos apresentados na exposição. Crê-se que foi Bruno Leal de Araújo que, numa vista à Alemanha no início do século XX (1909?) terá aprendido a tecnologia do fabrico do alumínio e trazido o conhecimento para Portugal.
Fábrica de Bruno Leal de Araujo. Museu de Penafiel.
As primeiras fábricas situavam-se no município de Marcos de Canaveses, junto ao rio Odres e as do Município de Penafiel concentraram-se em Irivo onde ainda persiste a última fábrica, a Rodrigo Ribeiro de Magalhães, Lda.
Embora tenham produzido outras peças utilitárias foram fundamentalmente fábricas de talheres de alumínio.
Fábrica de Adelino Macedo & Filhos. Museu de Penafiel.
Na exposição estão visíveis as imagens das principais fábricas de Marco de Canaveses (JOMAPE, LEMÃO, BLAFOS, JOLAR, etc.), ou nalguns casos, o que resta delas. O mesmo se passa com as antigas fábricas da região de Penafiel (JAFE, ATSI, ALGORIMA, Rodrigo Ribeiro de Magalhães), acompanhado da sua história, sempre que possível apresentando imagens da produção, dos seus trabalhadores, catálogos comerciais e exemplos dos objectos produzidos.
Capa do catálogo de João Abrantes Ferreira. Museu de Penafiel.
No que respeita aos moldes usados no fabrico dos talheres estão presentes um número elevado de exemplares provenientes da Fábrica Rodrigo Ribeiro de Magalhães e oferecidos pelo sr. Firmino Magalhães, com conhecimento profundo no sector onde sempre viveu e trabalhou.
Vários moldes de cutelaria. Museu de Penafiel.
A terminar a exposição são-nos apresentadas quatro tipologias de mesas em que se manifesta a evolução e modas das cutelarias ao longo dos últimos tempos.
Mesas. Museu Municipal de Penafiel
Extremamente didáctica a exposição abriu-me o apetite para visitar a última fábrica de cutelarias da região sobre a qual falarei no próximo blogue. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O fascínio dos alumínios. Parte 1

 
Alumínios. Exposição no Museu Municipal de Penafiel
O título, apresentado no plural, foi escolhido para falar especificamente nos utensílios domésticos de alumínio. A descoberta deste metal, o elemento 13, é recente. Produzido pela primeira vez em Copenhaga por Hans Christian Oersted, em 1825, era um produto impuro que continha potássio. Dois anos depois um químico alemão, Friedrich Wöhler, aperfeiçoou o método substituindo o sódio pelo potássio.
Escória de Alumínio. Museu Municipal de Penafiel
Este metal teve um período de grande admiração chegando uma barra de alumínio a estar exposta na exposição de Paris de 1855. Napoleão chegou mesmo a dizer que os talheres de alumínio eram reservados para os convidados de maior cerimónia. Em 1886 Charles Martin Hall conseguiu desenvolver o primeiro processo de extração do alumínio e iniciou-se a sua divulgação. No início do século XX o alumínio já tinha suplantado o cobre graças às suas propriedades. As suas virtudes são imensas: é leve, maleável, forte, resistente à corrosão, apresenta grande condutividade ao calor e à electricidade e pode ser totalmente reciclado.
Mesa com alumínios. Museu Municipal de Penafiel
Talvez por isso mesmo tenha sido o metal escolhido para ficar na lua a primeira obra de arte humana: uma estatueta de um astronauta deixado pela Apolo 15, em 1971.
Mas este metal, o terceiro em abundância na natureza, tem também um lado negro. Na sua forma solúvel (+3) é tóxico para as plantas. Não entra na constituição do corpo humano e, embora possa estar presente em alguns alimentos em pequenas quantidades, é prejudicial em maiores quantidades, como pode acontecer com o consumo de alguns aditivos alimentares ou no uso de alguns desodorizantes que são colocados sobre a pele. Ultimamente tem surgido estudos que implicam o alumínio como um factor de risco para a doença de Alzheimer, mas isso nunca foi provado.
Que seria de nós sem as ligas de alumínio indispensáveis ao fabrico de aviões e em tantos metais condutores.
Medidas de alumínio. Colecção da autora.
Contudo o alumínio deixou de ser usado nos utensílios de cozinha. De metal fascinante e moderno passou a maldito. Passou de moda. Vieram novos metais para usarmos nos talheres e na baixela de cozinha e o alumínio foi sendo esquecido. Nalguns dos tachos que usamos hoje nas nossas cozinhas ele está lá escondido na base no meio de outros metais, usado pela sua extraordinária capacidade condutora de calor que nenhum outro metal possui. Isto eu aprendi ao falar com o sr. Firmino, dono da última fábrica de alumínios de Penafiel. 
Consola com caixas para especiarias. Colecção da autora.
Este entusiasmo veio-me da visita à Exposição de alumínios que esteve presente no Museu de Penafiel e que infelizmente já acabou. Sobre isto eu falarei no próximo poste.
Devo contudo dizer que todo este meu interesse não existiria sem o fascínio que a cozinha da minha vizinha, na Covilhã, exerceu sobre mim. Quando era criança vivia ao ao lado da nossa casa o chefe dos Bombeiros, o sr. Garcia que, quando havia fogo, os Bombeiros vinham buscar num carro de incêndios. Ele descia as escadas a coxear, herança de um antigo acidente, e dirigia-se rapidamente para o carro que o aguardava já fardado com um fato escuro, um cinto de cabedal largo que lhe pronunciava o abdomen e um chapéu de bombeiro em metal dourado. Antes tocava a sirene e todas as pessoas ficavam em silêncio. Se tocava interruptamente o fogo era na cidade, se a sirene interrompia o som era nos arredores. As pessoas ouviam e diziam: “é fora”, quando era o caso e ficavam mais aliviadas.
Caixas para detergentes de louça. Ao centro a areia. Colecção da autora.
Visitei algumas vezes a cozinha desses meus vizinhos, pessoas de idade, de ar respeitável e ambos um pouco obesos para a época, fazendo sugerir que a alimentação era importante naquela casa. Das comidas nada sei mas o que ficou para sempre na minha memória foram as travessas de madeira em que se penduravam as panelas, onde estas se alinhavam em medidas crescentes e com um brilho inacreditável. Nunca mais na minha vida vi alumínios tão bem areados, palavra que espelha a forma inicialmente usada (com areia) para os tornar resplandecentes. O seu brilho era outra das características que os tornavam atraentes e nunca mais existiu baixela de cozinha tão bela. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Medicina Popular em Portugal

Convite:
Mesa Redonda “Medicina Popular em Portugal - Um Património Imaterial em vias de Extinção?” que terá lugar no dia 7 de Outubro de 2016 pelas 17h00, no Auditório Adriano Moreira.

 Programa:
 17h00 – Sessão de abertura:
              Professor Doutor Luís Aires-Barros, Presidente da SGL
              Professor Doutor Luís Marques, Presidente da APSPCI
 Oradores
             - Padre António Lourenço Fontes, Etnógrafo
             (criador do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes)                   
            - Moisés Espírito Santo, Etno-sociólogo, Prof. Catedrático Jubilado da UNL).
            - António Vermelho do Corral, Investigador em Medicina Popular e Presidente da Secção de Antropologia da SGL
           - Debate.
 19h00 – Encerramento

Sociedade de Geografia de Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 100
1150-269 Lisboa - Portugal
213425401 - 213464552


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A propósito do ponto de Assis

O bordado em ponto de Assis foi muito usado durante o século XX em toalhas de mesa. É um ponto que nos é familiar e nunca me tinha interrogado se era um ponto português ou não. Na realidade não é. Como o nome indica é um ponto com origem na cidade italiana de Assis, bastante recente no que respeita a bordados, uma vez que data do início do século XX.
Foto tirada do Pinterest
O ponto de Assis consiste em contornar com linha preta os elementos que se querem evidenciar, leões, dragões ou outros, deixando o interior em branco. À sua volta é feito um bordado em ponto de cruz, numa única cor, geralmente vermelha, azul ou âmbar, o que que vai realçar o interior não bordado.
Este ponto baseia-se num outro o chamado ponto Holbein, precisamente porque está presente em muitas das pinturas de Hans Holbein o Jovem (c. 1497 - 1543).
Jane Seymour por Holbein
Foi um dos grandes retratistas do século XVI, tendo sido essa a função que exerceu na corte do rei inglês Henrique VIII, desde 1535. Holbein tinha um cuidado extremo com os pormenores e a representação do bordado presente nos trajes, tal como a das jóias ou outros aspectos é minuciosa.
Pormenores do retrato de Jane Seymour
Este tipo de bordado é feito com linha preta sobre tecido branco, com desenhos tipo arabesco e foi muito usado durante o século XVI no vestuário das classes mais abastadas. Podemos vê-lo nos punhos da rainha Jane Seymour (hoje no Museu Kunsthistorisches de Viena de Áustria), no peitilho de Henrique VIII e no colarinho de muitas blusas de pessoas pintadas por Holbein.
Henrique VIII pintado por Holbein. Note-se o peitilho bordado
O Holbein, por sua vez, faz parte do conjunto dos chamados “bordados a preto” e foi também conhecido como “ponto espanhol”, mas o seu uso é também tradicional na indumentária de alguns países nórdicos.
 
Thomas Godsalve e filho por Holbein. Veja-se o colarinho do filho.
Retrato de um homem com chapéu vermelho por Hans Holbein
Portanto da próxima vez que virem um quadro de Holbein os olhos vão dirigir-se para os bordados, que estavam lá “escondidos” e que o conjunto nos fazia não reparar nesses pequenos pormenores.
Margaret Roper por Holbein. Metropolitam Museum
O mesmo poderá acontecer se virmos uma toalha de mesa com bordado em ponto de Assis, situação que é hoje cada vez menos provável, nesta época em que o que se procura é ter pouco trabalho. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Assobia-lhe às Botas


Confesso que desconhecia esta expressão que significa dar uma coisa por perdida. Isto é: ser tarde demais para obter o que se deseja.
A imagem não podia ser mais explícita. Um polícia assobia a um infractor (supomos), mas este afasta-se rapidamente e foge. Dito em português popular corrente e de forma sintética: «Já era».
Esta imagem pertencia a uma folha de uma caixa de bolachas provavelmente do final do século XIX ou início do século XX. É rara por diversas razões, mas logo à cabeça refira-se o seu formato circular, destinado a caixas pequenas para oferta, quando o mais frequente eram as caixas grandes quadradas destinadas à venda a granel.
Embora não esteja identificada sei que foi feita para a fábrica de Eduardo Conceição Silva e Irmão, que ficava na Rua de S. Amaro, em Lisboa, pelo que era também conhecida por Fábrica de Santo Amaro ou do Calvário. O local da fábrica era nas antigas cocheiras do Palácio Real do Calvário que o proprietário adquiriu à Casa de Bragança em 1878, juntamente com o seu irmão Francisco.
Em 1901 a fábrica era ainda uma das principais produtoras de trigo, situando-se em 6º lugar. Foi uma firma importante que laborava pelo sistema austro-húngaro, que desconheço o que significava. Tinha depósito em Lisboa na Rua da Prata, 210-212 e na Rua direita de Belém 139-140 e filiais no Porto, na rua Mouzinho da Silveira, 93 a 97, em Viana do Castelo na Praça da Rainha, 36-38 e um depositário em Braga chamado José António da Rocha.
A terceira casa a contar da direita é o Palacete Conceição Silva. Foto do AML.
Foi o seu irmão Francisco quem encomendou ao arquitecto francês Henri Lusseau, a casa, iniciada em 1891, que ainda hoje existe na Avenida da Liberdade em Lisboa de gosto revivalista no chamado estilo neo-árabe e que ficou conhecida como Palacete Conceição Silva.

A produção de bolachas manteve-se ainda após a República como o atestam numerosos litografias feitas para caixas cúbicas e cartazes publicitários de gosto pró-republicano, de que falarei noutra ocasião. A fábrica terá terminado antes de 1918 porque já não consta da lista das principais empresas do sector feita nesse ano. Foi comprada pela Companhia Industrial de Portugal e Colónias que nessa altura havia já adquirido várias outras empresas do sector, incluindo a Fábrica da Rua de Santo Amaro.
Imagem tirada do blog Cinemas do Paraíso
Foi herdeiro da firma Augusto Serra e Costa que o vendeu à Sociedade Promotora de Educação Popular. Esta associação de ensino, fundada em 1904 por republicanos, num outro local, mudou-se em 1911 para o edifício da antiga fábrica onde ainda funciona, partilhando o edifício com a Videoteca da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1912 no primeiro andar da Sociedade Promotora de Educação Popular foi instalado o Cinema Promotora, pelo que parece verosímil que a fábrica se tenha extinguido entre 1911 e 1912.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Objectos esquecidos: a maça

Este objecto podia, tal como muitos outros, ser um objecto mistério. Mas tenho quase a certeza de que ninguém ia acertar pelo que passo directamente para a resposta.

Segundo as palavras de José Gonçalo Herculano de Carvalho[1]trata-se de uma maça de maçar linho, usada em Covas, Terras do Bouro. Servia também para debulhar o milho dentro do masseirão.
No Minho, em diversas localidades, era utilizado para debulhar o milho e as leguminosas secas. Para isso colocava-se o milho dentro do masseirão[2], uma espécie de caixa de madeira com pernas, com fundo esburacado ou formado por ripas de madeira. O milho que se guardava nos espigueiros (canastros), era usado a pouco e pouco, sendo malhado com a maça apenas na quantidade necessária para a fornada. Os grãos de milho passavam pelos orifícios do fundo e em cima ficavam os carolos vazios.
Era a chamada malha a pau com maça, havendo variantes tanto do tipo de caixa, que podia ser substituído nalgumas terras por um cesto como no tipo de maça. Esta que aqui se apresenta tem cerca de 40 cm de diâmetro e apresenta sulcos lisos no corpo e na pega, estando identificada com sulcos em cruz na extremidade que devia permitir distinguir esta maça de outras.
Passou pouco mais de meio século e se não fosse o trabalho extraordinário que os nossos etnólogos fizeram, hoje olharíamos para este objecto e não percebíamos para que tinha servido. Na realidade José Gonçalo Herculano de Carvalho (1924-2001) foi um linguista e foi nessa qualidade que escreveu este texto e muitos outros. O título «Coisas e palavras» não podia ser mais apropriado e quase me apetecia roubá-lo, mas optei por «objectos esquecidos». Espero que gostem.

[1] «Coisas e palavras» in Biblos. Revista de Faculdade de Letras, Coimbra. vol XXIX. 1953. pp. 77-78.
[2] Note-se a semelhança com a masseira.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Museu Virtual: Saleiro, Pimenteiro e Paliteiro

Nome do Objecto: Conjunto de mesa composto por Saleiro, Pimenteiro e Paliteiro.
Descrição: Objectos em forma de pequenos livros perfurados no topo.
Material: Cerâmica vidrada.

Época: Década 1950-1960

Marcas: Não tem. Caldas? Secla?

Origem: adquirido no mercado português.
Grupo a que pertence: Equipamento culinário.

Função Geral: Condimentar comida na mesa.

Função Específica: Um destina-se a sal, outro a pimenta e o maior a palitos.

Nº inventário: 2291.
Objectos semelhantes: Outros livros em cerâmica destinados a servir como paliteiros e outros objectos com a mesm aforma mas de maiores dimensões destinados a conter e servir bebidas alcoólicas.

Observações: 
Estes objectos foram usados na estalagem do Gado Bravo que se situava na Recta do Cabo, perto de Vila Franca de Xira. Em 1951 era descrito como um tendo quartos, salão de festas e uma adega ou taberna. Teve também anexo uma praça de touros. Foi seu gerente José Carlos Batista, juntamente com a sua mulher Maria José e mais tarde o seu filho Victor que aí estiveram até 1974. Na década de 1980  caiu no abandono encontrando-se hoje em ruinas.
Foto tirada do blog Retratos de Portugal
O hotel chegou a ter quatro estrelas e era considerado um estabelecimento de grande qualidade, em especial o restaurante, frequentado por pessoas ligadas à tauromaquia, fadistas como Amália Rodrigues, Hermínia Silva e outros artistas e pessoas famosas. Em 1951 aquando da visita da rainha Isabel de Inglaterra a Vila Franca de Xira foi junto à bomba de gasolina da Shell que fazia parte do empreendimento que foi montado o palanque. 
Paul Mcartney e Jane na estalagem gado Bravo. Foto tirada do site de Jane Asher.
Entre as muitas visitas menciona-se também a de Paul Mcartney que em junho de 1965 aí passou parte do dia antes de regressar a Londres com a sua namorada Jane Asher.
A decoração interior era rustica e de influências ribatejanas e estes objectos de mesa integram-se nesse gosto da época.