terça-feira, 14 de abril de 2015

O fascínio do ananás

Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, 1578
Desde a sua descoberta no Brasil até aos dias de hoje este fruto não perdeu o seu encanto e prestígio. Fresco, em conserva, transformado em sobremesa ou a acompanhar pratos salgados o seu gosto agridoce prende-nos e fideliza-nos ao seu consumo. Sabemos hoje que as suas capacidades facilitadoras da digestão se devem à bromeleína, uma peptidase que destrói as ligações entre as proteínas.
History of Drugs, Pomet 
Mas aquando da sua descoberta os indígenas, que nada sabiam de enzimas, tinham esse conhecimento empírico e utilizavam-no no tratamento de feridas, como disse André Thevet que o descreveu como «fruto maravilhosamente excelente, tanto pela sua doçura como pelo sabor, tão amoroso» no Singularitez de la France Antarctique, publicado em 1558. E os portugueses, tendo percebido o seu efeito anti-escorbútico, usavam-no nas viagens marítimas. Mas foi o seu gosto que prendeu os viajantes que chegaram ao Brasil no século XVI.
Historia da Provincia de Santa Cruz, Pero Gandavo, ( Imagem BNP)
Nas descrições do português Pero de Magalhães de Gandavo, autor da Historia da Provincia de Santa Cruz, a primeira história do Brasil, impressa em 1576, bem como nos relatos do jesuíta Fernão Cardim, que escreveu sobre o Brasil nas décadas de 1580-1590, é descrita a descoberta do fruto ananás e o modo como foi apreciado.  
Historia navigationis in Brasiliam…". Genebra, 1586.
Mas apesar das descrições destes portugueses e outros que não menciono agora, seria Jean de Léry  (1534-1611), na primeira edição do livro  Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, autrement dite Ameriques contenant la navigation & choses remarquables vues sur mer par l'auteur…., ( e estou a abreviar o título),  publicada em La Rochelle em 1578, quem iria divulgar a descrição do fruto na Europa. Esta afirmação baseia-se no facto deste ter sido um best-seller na época, o que os portugueses dificilmente conseguem. Na verdade em 1677 ia já na sétima edição e em 1880 era publicada uma nova edição com notas. Lery foi um missionário do protestantismo e parece ter visitado o Brasil quando ainda era estudante.
Jean de Léry
 No capítulo XIII «Das árvores, ervas, raízes e frutos raros que se produzem na terra do Brasil» exaltava o ananás que descreveu como um grande cardo, do tamanho de um melão e feitio de uma pinha.  Quando madura a fruta tem um aroma de framboesa e de gosto é tão doce que nem as compotas do seu país o conseguiam ultrapassar. E concluía: « Acredito que é o melhor fruto da América».
Carlos II a receber um ananás, Hendrick Danckerts, 1675
Nos séculos que se seguiram o ananás tornou-se muito apreciado e rapidamente subiu às mesas reais. Numa pintura inglesa de 1675 Carlos II surge num terraço recebendo em mão um ananás, alegadamente criado pelo seu jardineiro John Rose. Embora seja dito que este foi o primeiro ananás criado em Inglaterra é pouco provável uma vez que a sua cultura na Europa começou com os holandeses e só no século XVIII se viria a divulgar nesse país.
Nurnbergiche Hesperides, 1708
Com um entusiasmo tal que foram publicadas obras como a de  William Speechly,que descrevia o seu método de cultura no livro A Treatise on the Culture of the Pineapple and the Management of the Hot-house, em 1779 , ou ainda outros livros com imagens fantásticas do fruto publicadas noutros países europeus.
Estufa em Dunmore, Escócia, 1776
 E até a própria arquitectura das estufas era reveladora do entusiasmo que este fruto desencadeou, como este exemplo construído na Escócia no século XVIII.

 

2 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Sempre foi uma das minhas frutas preferidas!

Divulguei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2015/06/o-fascinio-do-ananas.html

Ana Marques Pereira disse...

João José Horta e Costa,
Agradecida pela divulgação. Um abraço