domingo, 4 de janeiro de 2009

A Romã e o Dia de Reis

É tradição portuguesa comer romã no Dia de Reis.

Diz a tradição que, quem o fizer, terá abundância todo o ano.

Em tempo de crise este conselho é mesmo de aproveitar. Mas como em tudo existem regras de que já falaremos.
A romã é, como é sabido, o fruto da romãzeira, o seu nome científico é Punica granatum L. e pertence á família das Punicaceae.
A árvore que dá este fruto é nativa da região que vai desde o Irão ao norte da Índia e aos Himalaias. Passou depois a ser cultivada na Índia central e do sul, no século I e mais tarde na região Asiática do Mediterrâneo, na Europa e em África.
No Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, que eu muito estimo, diz que vem do latim «romana« (mala), «maçã romana» e que a palavra romãa já era usada antes de 1377. No meu atrevimento de ignorante, acreditaria mais que vem da palavra árabe «rumman», que é mencionada no Corão várias vezes.
É que a etimologia analisada nas outras línguas nada tem a ver com a nossa. Os ingleses chamam-se “pomegranate”. Em latim clássico o fruto era conhecido por malum punicum ou malum granatum. A palavra malum significa maçã e granatum deriva de granum “grão” com o significado de muitos grãos. Também o nome desta fruta, nas outras línguas ocidentais, deriva de adaptações de malum granatum, como por exemplo «grenade» em francês ou «melagrana» em italiano, sucessor directo do latim milgroym e ainda «granada» em espanhol.
A palavra «rumman» continua a ser usada nos países arábes e encontramo-la em receitas como a sopa iraquiana de romã (Shorbat Rumman) ou no sumo de romã, que se pode beber na rua, em vários países arábes, como em Marrocos, onde tem o nome de «Asseer Del Rumman».

A romã foi sempre considerada um símbolo de fertilidade que se devia à grande quantidade de sementes que existem na fruta e à forma harmoniosa como elas se dispõem na polpa do fruto. É esse sentido que é atribuído à romã nos desenhos das colchas de Castelo Branco que, como sabem, tiveram as suas origens no Oriente. São de inspiração indo-portuguesa, existem vários tipos e é no modelo popular, ou nas colchas de noivado, que se reproduz mais frequentemente a romã.

Mas o fruto ganhou outros significados relacionados com o casamento e o amor. Com o tempo passou também a atribui-se-lhe um sentido de abundância que passou a englobar a prosperidade e a riqueza. O povo, como o seu sentido prático, diz que no «Dia de Reis deitam-se três bagos de romã no lume para o ter aceso, três bagos na caixa do pão e três no bolso do dinheiro para ter dinheiro e pão (Teófilo Braga, em «O povo Português suas crenças e costumes»).


Mas o costume que eu recordo desde pequenina, na Covilhã, era o de comermos romã no dia de Reis, para termos fartura. Mas para isso era necessário guardar a coroa da romã, juntamente com uma moeda atada, numa gaveta. No ano seguinte, depois dos Reis, dava-se a moeda a um pobre e repetia-se o ciclo. Na altura era uma moeda de um ou dois tostões, já não me lembro bem. Hoje não sei a que deve corresponder.
Em Portalegre existia também esse costume e encontrei também referência ao mesmo em Castelo de Vide, onde é tradição pelo dia de Reis comer uma romã. Aí primeiro comem-se cinco grãos dizendo: "Em louvor dos Santos Reis", e pede-se um desejo que não pode ser revelado. Daqui concluo que pelo menos nos distritos de Castelo Branco e no de Portalegre se associava a romã ao Dia de Reis, mas é possível que o mesmo se passe noutros lugares.

Em minha casa comia-se a romã em salada, com açúcar, canela e um fio de vinho do Porto. Mastigavam-se as sementes e saboreava-se o suco. Algumas pessoas engoliam as sementes, outras deitavam-as fora. Mas estava cumprido o ritual.

Para quem não esteja familiarizado como fruto devo dizer que a melhor maneira de o descascar é cortar a casca finamente em gomos, como uma laranja. Depois separam-se os gomos e retira-se a pele divisória.
Para quem não goste de comer as grainhas pode fazer sumo. A maneira mais prática de extrair o sumo é cortar a romã ao meio e espremê-la no espremedor de laranjas. Pode também amassar-se bem a romã inteira no chão ou numa pedra, depois fazer um corte e espremer o suco. Se não lhes agradar qualquer destes métodos, ainda têm outra alternativa. podem pôr os bagos num passador, esmagar as sementes e extrair o sumo. Este pode beber-se ou fazer geleia.
É que para além de ser muito agradável são-lhe atribuída imensas propriedades fitoterapêuticas. Em primeiro lugar é anti-oxidante, o que leva a crer que tem um efeito benéfico como protector vascular, por reduzir o colesterol LDL (ou mau colesterol). Para além disso são lhe atribuídas outras virtudes como anti-envelhecimento e efeitos neuroprotectores na Doença de Alzheimer. Passo por cima de alguns dos seus mencionados atributos mas não posso deixar de mencionar um estudo em que foi demonstrado efeito antibacteriano, sobre estirpes de Staphylococcus aureus de origem humana, em que o seu efeito antibacteriano foi superior ao de alguns antibióticos testados. Interessante.
Mas o post de hoje era sobre o Dia de Reis. Não se esqueçam de comer romã. Depois não digam que eu não avisei.

10 comentários:

Anónimo disse...

gostei das fotos. Estao bonitas. Quando eu era miúda, em Lisboa também se comia romã no dia de reis, exactamente da mesma maneira, com açúcar, canela e vinho do Porto. Penso que foi costume que entrou em desuso, mas eu ainda hoje como e gosto, só embirro com aquelas sementes todas. Se a romã tivesse mais polpa e menos sementes era concerteza mais procurada. Já ningém está para ter muito trabalho com nada e muito menos para comer.
Isabel Kiki

Ana Marques Pereira disse...

Não dá muito trabalho e o prazer do gosto compensa. Bom Dia de Reis.

-pirata-vermelho- disse...

Como eu!
À mão, apanhadas aqui no quintal...
mas
em miúdo era 'assim', bem me lembro.

Anónimo disse...

gostei muito do site e enquanto via as fotos, crechia-me agua na boca!!!!!!!!

Ana Marques Pereira disse...

Anónimo,
E evito eu pôr receitas!
Não sei que seria.
Obrigado.

Rosa Machado disse...

Quando eu era criança, também comia romãs neste dia.
Gostei muito da referência a José Pedro Machado, injustamente muito esquecido pelos portugueses.
Att
Rosa Machado

Ana Marques Pereira disse...

Rosa Machado,
O Dicionário do José Pedro Machado é de consulta obrigatória. Tenho-o sempre à mão.
Obrigada pelo seu comentário.

angelina maria pereira disse...

Gostei muito de ler este post com tantas informações interessantes!!! Vou passar a praticar alguns rituais para ver se me cresce a fortuna!;)

Ana Marques Pereira disse...

Angelina,
Faço votos para que tenha sucesso nos seus rituais. Obrigada pelo comentário.

Maria Goncalves disse...

Gostei muito como sempre romans no dia de Reis bom dia de Reis à Todos