domingo, 12 de outubro de 2008

Copos da Fábrica Crisal



Encontrei estes 2 copos à venda na internet e não resisti a comprá-los. Foram feitos pela Fábrica Crisal, nos anos 60 penso eu e, embora não seja entendida em vidros, acho que são de produção manual.
Achei-os interessantes por serem característicos de uma época. Apresentam uma forma não convencional, pelos padrões rígidos de hoje, em que os copos de água têm uma determinada forma, os de vinho outra e em que, de um modo geral, é fácil determinar as suas funções pelo modelo.
Estes copos apresentam a forma de um copo de água, mas de dimensões mais pequenas e são na realidade copos de vinho. De vinho branco presumo, mas podia ser para cerveja, embora sejam pequenos para tal. O que me permite esta atribuição são os dois desenhos que apresentam em cada uma das faces. O desenho maior revela-nos uma lagosta, enquanto na outra face, com menores dimensões, se observa um camarão. Na base têm depressões ovaladas, muito fisiológicas, que nos permitem segurar neles com segurança. Para lhes dar mais qualidade o rebordo apresenta um pequeno filete dourado.

Resolvi procurar na internet a história da Crisal. Ao contrário do que acontece nos países civilizados, as nossas empresas não têm muito orgulho no passado e, sistematicamente, esquecem-se de pôr no site a história das suas firmas.
Já me tinha apercebido disso quando, há uns anos, ao escrever o livro «Mesa Real» me deparei com imensos documentos na Torre do Tombo da Jerónimo Martins & Filho, que chegou a ser Fornecedora da Casa Real, em 1905. Para além da parte de mercearia, tinha uma outra secção em que se incluíam objectos utilitários, assim como baixelas de Christofle. Estas peças estavam muito na moda, desde o final do século XIX, e durante um período chegaram a suplantar a prata. Foi esta empresa que importou pela primeira vez esta marca.
Achei todos estes factos interessantes e fui falar com uma menina das relações públicas da Jerónimo Martins. Disse-lhe o que tinha encontrado, que estava a fazer um livro sobre a mesa da Casa Real, em que eles tinham tido um papel importante como fornecedores. Com grande surpresa minha disse-me que naquele momento não estavam particularmente orgulhosos da sua origem como mercearia e que estavam a enveredar por outros caminhos. Fiquei estarrecida e saí como entrei. Deve ter dobrado a língua mais tarde, quando a empresa se estendeu na Polónia com a rede de supermercados Biedronka (Joaninha).

Mas voltemos à Crisal. Vi-me aflita para conseguir estes dados que estão espalhados pelas vários empresas, nesta época de fusões e aquisições.
A fábrica teve início em Alcobaça por iniciativa de um homem de negócios multifacetado chamado João d’Oliva Monteiro (1903-1949). Dedicou-se ao negócio de vinhos e à industria tipográfica. Foi também ele quem fundou a Fábrica de Vidros Crisal - Cristais de Alcobaça, que inaugurou em 1945. Embora tenha começado com a produção de candeeiros de cristal passou depois a produzir objectos para mesa e decorativos. Em 1952 a fábrica foi adquirida pela família Raposo de Magalhães. Em 1972 passou a produzir cristal na fábrica de Alcobaça, passando a designar-se Atlantis Crystal e manteve a marca Crisal, na produção de vidros, numa fábrica na Marinha Grande. Em 1974 a fábrica de vidro da Marinha Grande iniciou em Portugal a produção de vidro automático. Em 1994 passou a ser controlada pela Cofina. Em 1998 adquiriu uma outra Fábrica de vidros da Marinha Grande, a Ivima, conhecida pela produção de vidro de cor.
Em 2001 deu-se a fusão da Atlantis com a Vista Alegre, no que parecia ser um casamento feliz para as artes da mesa. Mas a história não acaba aqui. Em Janeiro de 2005, os jornais noticiavam que a Vista Alegre Atlantis vendia 95% do capital da sua associada Crisal à Libbey Europe BV, filial da líder norte-americana na produção de cristais, sediada na Holanda.
E assim acaba a história dos meus dois simples copinhos, destinados a beber vinho branco ou cerveja, enquanto nos deliciamos a comer mariscos.

4 comentários:

Arte & Criação disse...

Olá!

Chamo-me Daniela e gostava de apresentar o meu blog com peças feitas por mim.

www.art-and-creation.blogspot.com


Muito obrigada! =)

Justa disse...

Boa tarde. Estou a trabalhar num projecto gastronómico, em contexto histórico, e as suas investigações têm sido uma grande ajuda. Fiquei encantada quando descobri que tinha este blogue. Se me desse oportunidade, gostaria muito de lhe falar do que estou a preparar.

justa.barbosa@gmail.com

Ana disse...

Olá Boa tarde.
Parabéns pelo seu blog , vou passar a visitar , obrigada pelo convite. Os "nossos" copinhos são o máximo sim!

-pirata-vermelho- disse...

Não me parece que sejam para cerveja...
cheira-me mais a copinho para 'verde' para turista, encomendado com pretensões de gosto.
Também pode ter sido para Gatão, Lagosta, Mateus ou outra zurrap'assim, em tasca de Lisboa a chamar o marisco representado, no tempo do turismo endinheirado ou p'ouvir cantar o fado...