Este hotel situava-se no Largo de S.
Domingos 14, no palácio Regaleira. O edifício, construído no século XVIII, pertenceu
durante mais de um século aos barões da Regaleira. Foi herdado por D. Ermelinda
Allen (1768-1858), família de origem britânica estabelecida no Porto, que casou
em 1791 com José Monteiro Almeida de quem tomou o nome. Em 1840 receberia o
título de baronesa da Regaleira.
Com uma vida social intensa recebia e dava
festas na sua casa de Lisboa, vivência que repartia por outros locais como o
palácio do Beau-Séjour, uma residencia de veraneio ou a Quinta da Regaleira em
Sintra, entre outros. Foi sua herdeira a sobrinha Maria Isabel Allen, 2ª
baronesa da Regaleira (1808- 1889) que casou com João Carlos de Morais Palmeiro
e que viria a efetuar a venda destas propriedades progressivamente. Em 1898
seria a vez do palácio da Regaleira em Lisboa.
O edifício foi ocupado por
vários estabelecimentos comerciais como uma vacaria e foi nele que se instalou
também, no final do século XIX, o Grande Hotel Continental. Já aí existia em
1892 e continuava em funcionamento no final de 1897, não me tendo sido possível
determinar com exactidão a data de encerramento.
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Escadaria do Palácio Regaleira. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921 |
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Largo de S. Domingos, 1968. Foto de Armando Serôdio. Arquivo Municipal de Lisboa |
Era seu proprietário Manuel Gonçalves que se
orgulhava, na publicidade ao hotel, da sua situação central junto ao Rossio e
perto da estação de caminhos de ferro. Anunciava também que desde sempre existiam
no hotel filtros Chamberland. Este “sempre” referia-se seguramente ao início do
hotel uma vez que o filtro de porcelana Pasteur-Chamberland, fora inventado por
Charles Chamberland em 1884. Destinava-se à purificação da água, eliminando
bactérias, preocupação muito moderna na época.
O Grande Hotel Continental tinha
um restaurante onde eram servidas refeições e cujos menus eram publicitados no
jornal Diário Illustrado. Analisaram-se
as ementas de 1892, 1894, 1896 e 1897 de que se apresentam como exemplos os
menus de 7 de julho de 1892 e o de 29 de Março de 1896. Eram constituídos por potage, sendo a mais habitual a de
crevettes e a canja de galinha. Seguiam-se os hors d’oeuvre com petits pâtes à la parisienne ou outros; o relevé com peixe em filetes ou outro; a entrée com fricandeau de veau ou lombo à
jardineira; nos legumes eram servidos espargos, ervilhas ou favas; no rôti era frequente o peru assado. Seguiam-se
depois os entremets e o dessert, onde surgiam os gelados e os choux variados.
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Foto tirada da internet |
As ementas eram quase sempre
escritas em francês, como então eram moda, mas encontraram-se alguns pratos em
português ou num misto das duas línguas ou ainda com palavras francesas
aportuguesadas.
Os almoços, a primeira
refeição do dia, eram servidos entre as 9 e as 12 horas e custavam 500 réis.
Quanto aos jantares, eram servidos entre as 4 e as 8 horas e custavam 600 réis,
incluindo meia garrafa de vinho e café. O restaurante possuía também gabinetes
onde podiam ser servidos os jantares por 800 réis. Quanto aos aposentos o seu
preço diário situava-se nos 1000 réis e acima e aceitavam também pensionistas.
É provável que o hotel já
não funcionasse em 1901. Aí se alojou em 1902, o Liceu Nacional
de Lisboa, que viria a dar a actual Escola Secundária de Camões, que chegou a partilhar o edifício com uma vacaria e uma loja de mobílias. O projecto de uma nova construção para o Liceu, por Ventura Terra, em 1907, levou à mudança do estabelecimento
de ensino deste local. Mais tarde aí esteve também em funcionamento um teatro (Teatro Rocio Palace).
Nos anos
20, no mesmo local, funcionou o Regaleira Club que tinha igualmente serviço de restaurante
que começava às 19 horas e que era acompanhado de variedades e musica de
Jazz-bands. A partir das 20 horas podia ouvir-se musica tocada por um quinteto
dirigido pelo violinista F. Remartinez. Foi um dos mais famosos clubes de Lisboa
com uma grande beleza interior documentada em fotografias da época
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Interior do Regaleira Club. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921 |
Pelos
escritos que foram consultados deduzo que existia um total desconhecimento
deste hotel, havendo apenas referência no local ao Regaleira Club, pelo que
achei importante, dá-lo a conhecer.
Bibliografia:
- ABC , 7 de Junho de 1921.
Bibliografia:
- ABC , 7 de Junho de 1921.
- Vaz, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa,
Tese de mestrado, 2008.
- Teixeira, Manuel Domingos
Moura, Mundanismo, transgressão e boémia
em Lisboa dos anos 20 – o club nocturno como paradigma, Tese de
licenciatura, Universidade Lusófona, 2012.
- Diario Illustrado, 1892- 1900.
- Blog Restos de Colecção
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