segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Confeitaria Serrana no Porto

Há algum tempo um amigo meu tinha-me falado numa pastelaria, situada perto da estação de comboios de S. Bento, que eu devia visitar. Por coincidência, na minha agenda tinha já escrito para visitar, na próxima ida ao Porto, a Confeitaria Serrana, na rua do Loureiro, 52. 
Era precisamente o mesmo local e, apesar de já ser sobejamente conhecida dos portuenses, quero falar nela por várias razões. Em primeiro lugar é demasiado bela para ficar ignorada pelas pessoas que visitam a cidade do Porto e que a desconhecem, como era o meu caso até ontem. Em segundo lugar, presentemente está à sua frente uma delicada proprietária, a Srª Dª Mónica Oliveira, que me recebeu com um sorriso e me agradeceu a visita o que, podem estranhar, não é tão frequente como isso nas minhas peregrinações. Pôs à minha disposição as informações que tinha conseguido e deixou-me fotografar à vontade.
Vê-se que tem orgulho na firma e na casa que o seu pai tomou posse e que existe como empresa com o nome Daniel, Albuquerque & Cª, Lda, desde 1953 e com a designação de Confeitaria Serrana, que mantiveram e da qual procura saber mais elementos.
Mantém como principal actividade a venda de bolos e pastéis e o seu produto mais característico são as gigantes bolas de Berlim, achatadas e cobertas com açúcar em pó.
O exterior do edifício, que se sabe ser anterior ao século XIX não nos faz prever o que vamos encontrar no interior. Segundo registos camarários o imóvel sofreu obras de beneficiação em 1869, quando era seu proprietário Francisco José Carvalho, que lhe adicionou mais um andar e aumentou as janelas. Mas as alterações fundamentais tiveram lugar em 1911, e destinaram-se a transformar o espaço numa luxuosa ourivesaria. 
Foi o seu proprietário José Pinto da Cunha quem realizou o pedido da obras mas seria o seu sobrinho Alfredo Pinto da Cunha[1], filho de António Pinto da Cunha e Margarida Augusta Ribeiro de Sousa, nascido na Lousada em 20 de Fevereiro de 1884, que tomaria a responsabilidade da casa e que se tornaria num dos principais negociantes do ramo na cidade do Porto[2]: Em 1914 transferiu-se para uma nova Ourivesaria Cunha na rua 31 de Janeiro, que mais tarde viria a ser a Machado Joalheiros.
Em comum, ambos os estabelecimentos têm características Art Nouveau e foram o resultado da acção conjunta de dois irmãos Francisco de Oliveira Ferreira (1884-1957), como arquitecto, e de José de Oliveira Ferreira (1883-1942) como escultor.
Francisco de Oliveira Ferreira, para além destes projectos, foi responsável por várias obras importantes no Porto, como o Café A Brasileira, a Fábrica de Cerâmica das Devesas e, mais tarde, a Ourivesaria Aliança, no Chiado, em Lisboa, entre outras. A ele se deve também o jazigo de Alfredo Pinto da Cunha.

Mais tarde, em 1932, o local foi uma loja de fazendas, para adaptação da qual foram feitas novamente obras e em 1943 esteve aí instalado o restaurante S. Bento, propriedade de Altino Gomes Silva, até passar a confeitaria em 1953. De todas estas alterações ficou preservado apenas o espaço inicial da ourivesaria ao nível do primeiro piso.
Trata-se de um espaço em mezzanine, representativo da arquitectura do ferro com um escada também em ferro que se divide em dois lances e termina numa área aberta circundada a toda a volta por um varandim. Do lado da entrada a estrutura apresenta duas colunas em ferro pintado, cada uma delas ladeada por anjos, atribuídos a José de Oliveira Ferreira.
No tecto, ao centro, está colocada uma tela de Acácio Lino (1878-1956), datada de 1911[3], rodeada por uma moldura em gesso pintado.
Um facto interessante, para fechar esta história, é que os pais dos dois irmãos Oliveira Ferreira, responsáveis por este projecto, eram proprietários de uma pastelaria, fim a que este seu projecto se viria a destinar, como numa ironia do destino.



[1] Pelo que era conhecida como Ourivesaria do sr. Cunha Sobrinho.
[2] Foi também proprietário da Joalharia do Carmo, em Lisboa, de acordo com anúncio publicado no Rio de Janeiro, no jornal Correio da Manhã de 22 de Outubro de 1933.
[3] Não consegui ver a data.

40 comentários:

Susana Gomes disse...

Descobri hoje o blogue seguindo a indicação no "Mais olhos que barriga".
Gostei tanto! E a Confeitaria Serrana no Porto vai já para a lista de imperdíveis na próxima ida ao Porto. Que espaço lindo.
Obrigada pela partilha.
Bjs, Susana

Ana Marques Pereira disse...

Susana Gomes,
Bem vinda e obrigado por comentar. É sempre agradável saber o que os outros pensam. Por vezes sinto-me num diálogo de surdos.
Um bj

Anónimo disse...

Devo dizer-lhe que me encantou esta sua descoberta! Obrigada. Visita agendada já para amanhã. São sempre os olhos dos outros que nos despertam para o que "olhamos e não vemos". Desconhecia por completo o que se oculta por trás desta fachada e por onde já passei muitas vezes.

Alexandra Thomaz

Ana Marques Pereira disse...

Alexandra Thomaz,
Pelo meu lado devo concluir: missão cumprida.

Armando Matos disse...

63 anos de Tripeiro tantas vezes lá passei ,e..... esta pérola ali ao lado.
Já está na agenda.
Diz a minha filha, arquiteta, que além da decoração têm umas bolas de Berlim bem boas.
A. M.

Ana Marques Pereira disse...

Armando Matos,
Fico feliz por uma lisboeta (de adopção), mas que gosta muito do Porto, ajudar a descobrir as belezas da sua cidade.

maria mendonça disse...

Boa tarde
10 anos que morei no Porto e desconheço esta pastelaria. Uma verdadeira obra de arte. Agradeço a divulgação, pois na minha próxima ida ao Porto vou deliciar-me com uma dessas bolas de berlim e conhecer o espaço.
Por Portugal fora, temos tantas belezas que desconhecemos, é uma pena...
Um beijo

Ana Marques Pereira disse...

Maria Mendonça,
Há sempre coisas a descobrir mesmo na cidade em que vivemos. Já lhe arranjei um programa.
Um bj

diascravo disse...

Desconhecia e assim na primeira visita que faça ao Porto não deixarei de visitar. Obrigado.

Unknown disse...

Bem haja pela "dica" e confesso com vergonha que, apesar de tripeiro e ter passado por essa confeitaria muitas vezes, nunca lá entrei. Irei fazê-lo brevemente não vá o camartelo destruir tanta beleza.

Ana Marques Pereira disse...

Unknown,
Acontece que por vezes estamos mais atentos fora da nossa cidade, porque mais disponíveis à descoberta,do que no local onde vivemos. Obrigada pelo comentário.

Teresa Afonso disse...

Desconhecia por completo! O Porto é de facto uma "caixinha de surpresas" e, neste caso, maravilhoso! Não deixarei de visitar e recomendo que não percam!

Helena Soares disse...


Já lá fui.É uma verdadeira joia.É de visita obrigatória.

Ana Marques Pereira disse...

Helena Soares,
Fico feliz por saber que as pessoas sentem o mesmo prazer na descoberta deste local que eu tive.

Miguel Ferreira da Costa disse...

Muito obrigado por esta sua magnifica "reportagem".

Anónimo disse...

Conheço relativamente bem a Confeitaria Serrana, já lá lanchei algumas vezes, onde comi as famosas Bolas de Berlin. Não se esqueçam de olhar para o tecto quando lá entrarem

Paulo Garcez disse...

Há 50 anos e com os meus amigos, depois de bacalhau frito, rojões e um copo de verde branco no restaurante Onix, seguia-se um maravilhoso mil folhas na Serrana.
Depois toca a caminhar, a pé, até à Boavista.
Que saudades!

Ana disse...

Fiquei presa a tanta beleza da decoração Que maravilha!
Como não conhecer valores destes e tão perto de nós?
Como somos tão ignorantes, ou passantes distraídos?
Obrigada a todos que permitem estas descobertas valiosas.

M.H.A. disse...

Grande vergonha !..
Moro no Porto há 73 anos. Vivi uns 20 e tal no Largo de S. Domingos, pertíssimo, e nunca lá fui....
Não vou deixar de ir o mais breve possível para admirar esta magnífica confeitaria e tentar comer
a famosa bola de berlim.
Obrigada.
Um abraço

portugues_amer disse...

Estudei algum tempo no Porto. Vou ao Porto, de vez em quando. Nunca vi tal pastelaria!!! Prometo passar por lá brevemente. Parabéns aos ideólogos, aos proprietários originais e aos heróis herdeiros, que mantêm a traça da casa. Quisera que todos sentíssemos este espaço como nosso: uns construíram, outros mantiveram, outros estão lá à nossa espera e outros seremos os beneficiários maiores se passarmos por lá: afinal ela existe para nos encher os olhos e o estômago!!! Muito obrigado a todos os intervenientes... todos muito importantes....

agostinho rocha disse...

Há muitos anos era ver os comboios em S Bento (ainda a vapor,excepto o foguete para Lisboa) e depois ir à Serrana para uma bola de berlim e que tinha que dar para 2 ou 3, pois as semanadas eram tão curtas.Um abraço e parabéns por nos dar a conhecer este Porto ainda tão desconhecido por tanta gente...

rodolfo martins disse...

Já conheço a Serrana há muitos anos, cada vez está melhor; continuem com o vosso belíssimo trabalho

Anónimo disse...

Lamento a minha ignorância por desconhecer a existência desta casa. Já lá passei umas centenas de vezes, mas ignorava existir lá tanta arte. Passarei lá o mais breve possível.

Anónimo disse...

Depois de ver estas imagens fiquei maravilhada nunca tinha ouvido falar desta maravilha infelizmente o portuguezinho só dá valor ás porcarias que existem por aí!

Anónimo disse...

Conheço razoavelmente o Porto, mas não conheço esta "preciosidade" que pelas fotografias merece ser conhecida e preservada .Logo que vá ao Porto vou lá visitar e comer a Bola de Berlim e cumprimentar a dona Albertina.

MariaNina disse...

Que maravilhosa, deve ser muito agradável estar aí e conhecer a dona Mónica Oliveira, parabéns tem uma preciosidade.
Gostei de conhecer o Garfadas on line, tem um nome original e artigos interessantes, cheguei aqui através de um Tópico no Fórum Portugal Lusófono, se puder visite.
Obrigada e Parabéns,
Fátima Sousa

cabindês disse...

É de saudar a sua iniciativa em divulgar estas preciosidades do empreendorismo e do nosso património valioso que as pessoas ignoram Obrigado por me proporcionar a partilha.

M.L.M disse...

É realmente uma maravilha que para até hoje me é desconhecida ,qualquer dia vou lá tomar um cházinho e conhecer a bela confeitaria

M. L. M.

Jose Martins disse...

Trabalhei na Confeitaria Serrano, como empregado de balcão na década 50 do século passado. A Serrano, na altura, era dos meus primos, a família Daniel e Valdemar Lopes de Albuquerque. Estou ligado, sentimentalmente, ao Porto e especialmente ao Bairro da Sé. Conto a minha passagem pelo Porto em dois grandes artigos que publiquei num website de minha minha que podem ser lidos nos URL´s abaixo. Mas o mais estranho que possa parecer, trabalhando na Serrano nunca me apercebi da beleza do interior. Talvez, por esta, ser normal em muitos estabelecimentos da baixa do Porto.
Saudações de Banguecoque - Tailãndia


http://www.aquimaria.com/html/forum-tripeiro.html

http://www.aquimaria.com/html/forum-tripeiro-02.html

Anónimo disse...

Há muitos anos que lá não entro, mas ´quando lá estive foi para mim um deslumbramento!
Obrigada por ajudar a recordar...quem sabe se lá voltarei um dia destes?!
Abraço.
Maria Mamede

Duarte disse...

Excelente trabalho. A isto é ao que se deve chamar um trabalho bem feito. Parabéns. Também agradecido, pois sou da terra e não conhecia esta joia. Será na próxima ida ao Porto.
Reconhecido

Ana Marques Pereira disse...

Agradeço a todas as pessoas que têm feito comentários e que servem de incentivo para a continuação do meu trabalho. É bom saber que quem está do outro lado tem uma reacção positiva ao que escrevo. Obrigada.

Anónimo disse...

Tenho 73 anos, tripeira pelo nascimento e pelo coração.
No entanto, nunca me tinha apercebido desta verdadeira joia.
Obrigada pela sua partilha e sua chamada de atenção.
Uma visita minha estará para breve.
Um abraço.
Cândida de Sá dantas

ANY disse...

Antes de mais ,parabéns pelo seu blog, o estive a percorrer e me perdi por lá ,no meio de muitas curiosidades interessantes.
Não sou do Porto , mas conheço algumas coisas por lá , mas esta pastelaria me escapava, adoro esses prédios antigos ,pena é que poucos chegaram aos dias de hoje. Este Agosto estarei por esses lados e vou certamente passar lá um relaxante pedaço da tarde.
Meu obrigada por todas as suas partilhas, são muito úteis para apreciadores dessas coisas como eu
Até sempre

Ana Marques Pereira disse...

ANY,
Obrigado pelas suas palavras. Boas férias pelo Norte de Portugal. Aproveite bem e volte. Um abraço

Maria Teresa Couto disse...

SOU DE GAIA, ESTUDEI NO PORTO, PASSAVA ALGUMAS VEZES PELA RUA DO LOUREIRO POIS LANCHAVA EM CASA DE UMA TIA QUE VIVIA EM CIMO DE VILA, E NUNCA ME APERCEBI DESTA CASA. PARABÉNS PELA DESCOBERTA, PRECISAMOS DE PESSOAS QUE NOS MOSTREM QUE TAMBÉM TEMOS COISAS MUITO BONITAS.

Maria Clara Moreira Outeiro disse...

O NOSSO PORTO SEMPRE NOS SURPREENDE
OBRIGADA POR O AJUDAR A DESCOBRIR
VOU JÁ LÁ VER ESTA PRECIOSIDADE
E DEGUSTAR AS TAIS BOLAS DE BERLIM
BEM HAJA

Ana Marques Pereira disse...

Mª Clara Outeiro
Agradeço as suas palavras e o entusiasmo que este poste suscitou.
Cumprimentos

Angelasabreu@gmail disse...

LSendo natural dó Porto e amando a minha cidade, sua vasta e profunda Há e sua incomparável beleza arquitectónico, fiquei Atonita por desconhecer tal tesouro. Erro que vou colmatar o mais breve possível. Grata pela partilha.

MarinaCoelho disse...

Obrigada pela sua partilha. Já fui e levei amigos a este espaço ,com essa bela peça de Acacio Lino, com as escadas lindíssimas , com as "bolas gigantescas" ( de Berlim), e com a simpática proprietária... Acontece que o tecto do primeiro andar ,por vezes sofre danos de humidade ( vindo não sei com...) e que seria necessário cuidar desse patrimônio. Creio que o edifício não é pertença da proprietária ( ou arrendatária) da confeitaria,que portanto nada poderá fazer....
Portanto vamos visitar,visitar ,visitar...não deixar que se perca esta oportunidade de passar palavra.