terça-feira, 28 de setembro de 2010

Uma caixa da Fábrica de Biscoitos Leal, Santos & Cia

Como o número de leitores brasileiros deste blog tem aumentado progressivamente, achei que devia escrever um artigo sobre um tema brasileiro.
O assunto surgiu naturalmente com o achado de uma caixa em lata de bolachas. Não sabia eu então que esta ia estabelecer uma ponte com Portugal.
Em primeiro lugar não é uma caixa qualquer. Apesar de não estar em bom estado, trata-se de uma caixa da primeira fábrica de bolachas do Brasil, que ainda por cima se caracterizava por ter a sua própria litografia e confeccionar não só os produtos alimentares mas também as respectivas embalagens. Foto da fábrica tirada do Ricardo's Blog

Falo da Fábrica de Biscoitos Leal, Santos & Cia, fundada em 1889. Por coincidência faz 120 anos no dia 20 de Outubro, que é também o meu dia de aniversário. Os brasileiros recordam-se dela como sendo a produtora das «bolachas Maria», mas na realidade foi muito mais que isso.

Pedro da Silva Nava (1903-1984), médico e escritor brasileiro, no livro “Balão Cativo” chamou às bolachas de Leal Santos «históricas» (p.281) e recordou as caixas azuis em que vinham acondicionadas. Não posso dizer se se referia a esta ou a outra lata, uma vez que devem ter mudado, no longo tempo de existência da fábrica.
O que sei é que a fábrica foi fundado no Rio Grande por um português, Francisco Marques Leal Pancada (1822-1903) que, juntamente com outros sócios, fundou no Rio Grande a Leal, Santos & Companhia. Um deles foi o Dr. Moisés Marcondes de Oliveira e Sá, médico brasileiro, licenciado nos Estados Unidos, que em 1890 foi viver para o Rio Grande do Sul, após ter casado em 1884 com a sua prima Zulmira Alves de Araújo Pancada, filha do referido Francisco Marques Leal Pancada e de sua mulher Maria Rosa Alves de Araújo. Mas em 1908 já estava afastado da actividade fabril.

Publicidade publicada na revista "Careta" em 6 de Junho de 1908

A fábrica começou por produzir biscoitos e bolachas mas passou a fazer vários tipos de conservas de legumes, carne, etc. Em 1904 tinha já ganho 3 medalhas de Ouro na Exposição de S. Louis e em 1908 ganhou um Grande Prémio na Exposição do Rio de Janeiro. Apesar de a ter sido feita muita publicidade só encontrei a publicada na revista Careta, em 6 de Junho de 1908, com o título: “Biscoitos Santos Leal, do Rio Grande do Sul. São os mais saborosos, a delícia das crianças.
Mas não eram só as crianças gostavam dos biscoitos e bolachas. Em 1923 uma encomenda para o Exército explicitava: «os biscoitos Leal Santos ou Aymores, ditos de araruta, ditos de farinha de trigo de qualquer espécie, bolachinhas, etc».

Rua de São Clemente, Rio de Janeiro, 1908. Foto tirada do blog Saudades do Rio

As grandes dimensões da fábrica e o grande número de operários, que em 1918 totalizava 300 (200 homens e 100 mulheres), levaram ao aparecimento de vários conflitos laborais, que a tornaria em objecto de estudos sociais (1
Em Maio de 1919 houve uma paralisação de várias fábricas em Rio Grande que se estendeu, a 7 de Maio à secção de biscoitos da Fábrica Leal Santos e Cia, levando os operários desta a aderir ao movimento grevista (2)
No entanto tratava-se de uma fábrica progressista. A Leal Santos construiu 20 casas destinadas aos operários e um armazém onde eram vendidos mantimentos para os trabalhadores. Encontrei também referência a um grupo de teatro e a um grupo desportivo.
O jornal Rio Grande do Sul, Revista Ilustrada, de 1911, referia que nessa data existia na fábrica Leal Santos de biscoitos e bolachas, uma maioria de mulheres. Teriam começado nessa época as greves que levaram a que a fábrica Leal, Santos e Cia., com sede na Rua General Portinho, instituísse a jornada de trabalho de 8 horas uma maioria de mulheres, tendo sido a primeira a fazê-lo quando ainda era hábito trabalhar 14 horas diárias (3) .
Não sei até quando foram produzidas as bolachas e conservas, mas em 1947, a “Indústrias Reunidas Leal Santos S.a.” formou uma frota de barcos pesqueiros. Em 1968 associou-se ao Grupo Ipiranga e tornou-se na maior empresa de pescados brasileira. Em 1994, a Leal Santos foi comprada pelo grupo argentino Benvenuto que a vendeu ao grupo espanhol Actemsa, em 2006. Em 2010, a Leal Santos, juntou-se à espanhola Jealsa, para enlatar sardinhas e atuns. O atum será fornecido pela própria Leal Santos e a sardinha será importada do Marrocos, destinando-se os produtos a serem vendidos no Brasil. Uma longa evolução, que acaba como a história actual de todas as empresas de sucesso, com aquisições e fusões. O destino confirmava a afirmação que se pode ler na tampa da caixa do início do século XX «L’Union fait la force».

Bibliografia
1 - http://www.webartigos.com/articles/37595/1/Uma-breve-historia-da-industrializacao-na-cidade-do-Rio-Grande-apartir-da-segunda-metade-do-seculo-XX/pagina1.html#ixzz10eccEu9r
2 - Correio do Povo. Porto Alegre, 08/05/1919. p. 7.
3 - Edgar Rodrigues, 1977.

21 comentários:

Anónimo disse...

Nem faço a minima ideia da trabalheira que tiveste para obter estas informações.Excelente blog, bJS. Francisco

Ana Marques Pereira disse...

Francisco,
Na realidade deu-me bastante trabalho. Mais do que esperava à partida. Mas também muito prazer.
Obrigada. Grande bj

Anónimo disse...

Não esperava uma lata de bicoitos centenária e do Brasil,com a respectiva história.Investigação
exaustiva!Parabéns.
José

Carlos Caria disse...

Ana, como sempre excelente trabalho.
Só tenho uma observação sobre o progresso das empresas que construiam casas e armazéns de viveres para o pessoal.
Tivemos vários casos como esse em portugal, e estou a lembrar-me de um que hoje é uma unidade hoteleira, caso da Arraial Ferreira Neto/Tavira, em que os trabalhadores e famílias estavam todos reunidos no bairro, ou seja sempre disponiveis a qualquer hora do dia ou noite para trabalhar, tinham cantina, venda de generos alimenticios e escola para os filhos ou seja um cidade em que os mesmos embora livres não tinham necessidade de sair.
Em resumo, trabalavam, recebiam o seu salário, e alí deixavam á mesma entidade patronal o produto que tinham recebido em compras na mercearia e na renda da casa. Bom negócio para o Sr Ferreira Neto. Assim era a Covina, Sacor etc etc.
Abraço
Carlos Caria

Ana Marques Pereira disse...

José,
Obrigada por estar sempre atento.

Carlos Caria,
Esse tipo de habitações de trabalhadores, junto à unidade fabril, de que houve vários casos em Portugal, tiveram o seu início em França. O "Familistére de Guise" foi um dos que teve mais sucesso. Ao contrário do que pode parecer eram feitos com preocupações sociais, como forma de protecção social dos trabalhadores, então muito vulneráveis. Não os vejo como sendo mais uma forma de exploração do patrão, mesmo sendo um ciclo fechado.

Carlos Caria disse...

Ana,
Pontos de vista, que um dia serão seguramente estudados e feita uma análise mais sociológica.
Abraço
Carlos Caria

Anónimo disse...

Tenho uma caixa do biscoitos Leal Santos de 1908,Medalha de Ouro,
Grande Premio.
Não está bem conservada como a sua
era de minha mãe.
Muito interessante seu blog.
Ivanilis.

Ana Marques Pereira disse...

Olá Ivanilis,
A sua caixa é igual a esta?
Se não for pode mandar-me uma foto para o email do blog?
garfadasonline@mail.com

Obrigada. Um abraço

jonatas disse...

Como vai..
Ao ver a sua reportagem sobre essa lata de biscoitos, me senti um cara de sorte.
É que eu tenho uma lata dessas ai... está em um estado mais ruim... mais é igual a da foto, pertenceu a minha bisavó, e foi passada até chegar em mim.
Gostei de saber a origem dela.

Ana Marques Pereira disse...

Obrigado Jonatas.
Fico contente por valorizar a sua caixa.

Anónimo disse...

Parabéns! Sou de Rio Grande, tenho 55 anos e era vizinha da fábrica Leal Santos. Lembro que nos anos 70 faziam compotas de figo, recordo do cheiro de doce de figo mas não das bolachas. Quanto as residências para operários, creio que era uma prática usual da época. O complexo fabril da fábrica de tecidos e tapetes Rheingantz em Rio Grande é um exemplo desta arquitetura fabril. ABS

Ana Marques Pereira disse...

Anónima ABS,
Obrigado pelo seu depoimento que só enriquece o poste.

José Carlos disse...

Olá Ana, me lembro ainda criança, lá por volta de 1955, ia com minha mãe e outras vizinhas, todas as sexta-feiras até a Leal Santos, comprar bolachas quebradas que ao enlatarem as quebravam, eram vendidas por prêços irrisórios! Bons tempos aqueles!

Ana Marques Pereira disse...

José Carlos,
Agora que conta essa história lembro-me que na minha visita à Fábrica de Bolachas Paupério, perto do Porto (pode ver no blogue,contatei esse facto. Pessoas da terra iam comprar à loja da fábrica bolachas partidas, o que acho certo numa altura em que devemos preocuparmo-nos com a alimentação sustentável. Cumprimentos

Carlos Caria disse...

Olá Ana, também a fábrica de bolachas Piedade em Setúbal, vende na feira de S. Tiago as bolachas partidas, mais baratas, ou as dá como prova aos clientes.
seria interessabre fazer um visita a esta velha fábrica, - penso que na Av luisa Todi - e cujas bolachas são uma delicia
Boas Festas, e um abraço amizade.
Carlos Caria

José Carlos disse...

Ana Marques, obrigado pela resposta! Teu blog é bem interessante, quando tiveres tempo, dá uma olhada no meu blog www.maredunas.blogspot.com , um abraço, cumprimentos.

Ana Marques Pereira disse...

Carlos Caria,
Obrigado pela informação. Vou registar a informação e um dia tem uma surpresa.Um abraço.

Olivia Silva Nery disse...

Prezada Ana
Primeiramente parabéns pelo teu trabalho de detetive sobre a Leal Santos. Sou doutoranda em História no Brasil e minha tese é justamente sobre a Fábrica Leal Santos e seus biscoitos, gostaria de saber se tens como me ajudar com alguma referência de onde retirasse essas informações, principalmente sobre a Leal Santos em Portugal. Qualquer ajuda é bem vinda!
Muito obrigada!
Olivia

Céptico e Conservador disse...

Prezada Olívia (pedindo permissão da autora o blog),

A Fábrica de Biscoutos Leal, Santos & Cia. tirou o seu nome de duas pessoas:
a) O nome Leal provém do meu tetravô Francisco Marques Leal Pancada (a tradição familiar diz que o nome Pancada seria alcunha por ter pancada para o negócio. Daí que o nome dado à fábrica seja Leal e não Pancada);
b)O nome Santos provém do meu trisavô José António J. Santos, nascido em 1951, natural de Morretes no Paraná (o seu pai era natural de Porto-Belo, Sta. Catarina e a mãe natural de Morretes). Esse meu trisavô era genro do sócio atrás indicado, casado com a sua filha mais velha Maria Rosa Alves de Araújo Marques Leal Pancada, natural de Antonina, Paraná.

Desconheço a actividade industrial em Portugal do sócio indicado em a). Ele era natural de Cascais e para cá voltou, tendo a rua onde ele morava em Cascais o nome dele. E os 9 filhos dividiram-se entre Portugal e Brasil.
O sócio indicado em b) teria uma fábrica de conservas de peixe em Cascais. Porém, nos anos 20 do século passado tornou-se insolvente em resultado da falência de uma casa bancária gerida por um filho por cujo negócio respondia a totalidade do seu património em Portugal. Morreu em 1933 logo seguido da mulher em 1934. Com a falência, obviamente, a sua actividade industrial findou em Portugal. A família continuou a ser sócia da Leal Santos porque o património que detinha no Brasil não respondeu pela insolvência em Portugal.

Céptico e Conservador disse...

ERRATA
...José António J. Santos, nascido em 1851...

Ana Marques Pereira disse...

Ceptico e Conservador,
Agradeço a sua informação que veio completar o poste. Cumprimentos