terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dois corações num toalha

No meio da minha roupa de enxoval, que só ao fim destes anos decidi recuperar, encontrei uma toalha pequena que fez parte do enxoval da minha mãe. É rectangular e as suas cores vivas, que só foram usadas em toalhas em Portugal a partir de 1925, fazem-me pensar que deve datar de cerca de 1940.
O facto de ter uma bordadura noutro tecido, um aproveitamento de uma outra toalha que devia já estar envelhecida, mostra-nos de que forma os têxteis de uso doméstico antigamente eram aproveitados com outros fins. Era uma época em que as velhas toalhas, tal como os lençóis que se “viravam”[i], ganhavam uma nova vida transformando-se em panos mais pequenos.
As pequenas dimensões e o colorido colocam-na posição de toalha para pequeno- almoço, menos provavelmente para chá, uma vez que estas eram mais frequentemente quadradas. O bordado é simples, feito por uma pessoa com pouca experiência, em cores contrastantes, em que se destaca o coração como motivo central. O que me surpreendeu foi estes terem escrito no interior “meu”, referindo-se ao seu próprio coração e “teu” ao do meu pai e utilizados como símbolos de amor.
Agora que o coração do meu pai também já não bate esta toalha ganhou para mim um valor especial e aqueles dois corações ali unidos comoveram-me.
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[i] Virar um lençol significava cortá-lo ao meio e meter as ourelas para dentro, uma vez que esta zona estava menos gasta. 

10 comentários:

Luis Filipe Gomes disse...

Lindíssimo e enternecedor. São coisas sem preço. Obrigado pela generosa partilha.

Ana Marques Pereira disse...

Luis Filipe Gomes,
Obrigado pela sua sensibilidade. Cumprimentos

Florinda disse...

Fizeram parte da vida dos dois e que seriam importantes, hoje são bonitos para quem os sabe valorizar e estão com a pessoa certa. Beijinhos Dr.Ana Marques

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Às vezes só damos conta da falta que nos fazem quando nos faltam.
Bj

ana espadana disse...

Tenho vários lençóis "virados", uns vieram de casa da minha mãe e outros da minha sogra.
São lençóis de cama pequena, atualmente pouco usados.
Confesso que não sabia ser este o termo!

Anónimo disse...

Muito bonito. Mais uma vez se comprova que a beleza está na simplicidade e talvez nessa época o amor fosse mais simples.
Isabel Kiki

Ana Marques Pereira disse...

Tens razão Sofia. Tu sabes. Um bj

Ana Marques Pereira disse...

Ana Espadana,
Aprendi com uma pessoa da tua terra: a Graça Pericão. Um bj

Ana Marques Pereira disse...

Florinda,
Obrigada. Sabe como eu valorizo estas coisas. Um bj

Ana Marques Pereira disse...

Isabel kiki,
Concordo contigo: era tudo mais simples. Ou dito ao contrário: agora até o amor é mais complicado. Estou palissiana. Bj