terça-feira, 8 de janeiro de 2013

«A Alegria de Cozinhar»

O livro de Helena B. Sangirardi é um dos mais importantes livros brasileiros de culinária do século XX. Como sucesso, só o livro «Comer Bem», publicado sob o pseudónimo de Dona Benta, se lhe pode comparar.
O que primeiro me despertou à atenção no livro que possuo, a 4ª edição publicada em 1949, foi a dedicatória escrita por um primo brasileiro, ou a viver no Brasil, no Rio de Janeiro, à sua prima a viver em Portugal, em 1950, a quem enviou o livro.
A frase começa com: «Lembrança dos quitutes do Brasil...». Confesso que desconhecia a palavra «quitutes», que afinal significa “iguarias”[1] e que me obrigou a ir ao dicionário. O que mostra que isto do acordo ortográfico não é assim tão fácil porque não é com alterações de acentos e perda de letras, que lá vamos. Há realmente muitas palavras diferentes nas duas línguas e esta, de origem africana, não é usada em Portugal.
Voltando ao livro é importante realçar que a sua autora foi um dos primeiros casos de sucesso provocado pelos «media», em meados do século passado. Hoje os cozinheiros entram-nos pela casa pela televisão mas, antes destes, foram os jornais e a rádio que divulgaram os primeiros nomes.
Helena B. Sangirardi era uma especialista em Economia Doméstica e foi a sua colaboração na revista Cruzeiro com a rubrica culinária «Pratos que todos repetem» e os artigos sobre assuntos domésticos intitulados «Lar, Doce Lar» que tornaram o seu nome famoso.
Seguiram-se programas na rádio carioca e paulista com o nome «Bazar Feminino», posteriormente transmitido pela Radio Nacional.
O livro A Alegria de Cozinhar foi o seu primeiro livro publicado. No prefácio a autora promete publicar novos livros mas apenas em 1988 surgiria A Nova Alegria de Cozinhar.
Mais do que um livro de receitas é também um livro de normas e conselhos para as donas-de–casa. O livro termina com um capítulo muito interessante sobre «A Cozinha do Futuro... A Cozinha Elétrica», com a apresentação de electrodomésticos americanos, com desenhos fornecidos pela General Electric e que eram seguramente futuristas no Brasil da época.
Nada consegui saber sobre a  autora a quem Vinicius de Moraes escreveu uma receita, sob forma de poema, intitulada «Feijoada à minha Moda», publicada no livro «Para viver um grande amor»[2].


[1] Quitute: comida fina, iguaria delicada.
[2] Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1984, pág. 97.






19 comentários:

Anónimo disse...

Já somos dois que ficámos a aprender sobre as "quitutes" brasileiras!

Beijinho de Bom Ano e bons posts!

schacim

Anónimo disse...

Vem nos romances de Jorge Amado,não sei qual(is),li vários há muitos anos e foi lá que conheci o termo(nas publicações Europa-América de então julgo que haveria por lá um Glossário no fim das obras).
Cumprimentos
José

Cardápio de Sabores disse...

Que livro maravilhoso!
Parabéns pela partilha!

Anónimo disse...

Só para esclarecer: a palavra "quitute" é masculina.

Ana Marques Pereira disse...

Anónimo,
Agradeço o seu comentário. Estive a reler o texto e foi usada como palavra masculina, mas não é demais realçar.

Anónimo disse...

Minha vó Olga tinha esse livro. Eu amava folheá-lo quando criança. Infelizmente perdeu-se e só tenho a Nova Alegria de Cozinhar, que não chega aos pés do charme do antigo. (PS: Minha vó era de São Lourenço do Sul, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil.)

Ana Marques Pereira disse...

Anónimo,
Não desista e vá procurando o livro, na internet e em livreiros. Não é a mesma coisa que o livro da avó mas um bom substituto para as recordações.

filipe bacar de goes disse...

este livro é incrivel e sua escrita me faz lembrar os tempos de infância, sou professor de gastronomia, e tenho a edição n 43. Adoro passar aos alunos este livro para terem uma noção de como foi o passado nas cozinhas do brasil.

Ana Marques Pereira disse...

Filipe Bacar de Goes
Fico satisfeita por saber que transmite aos seus alunos o passado gastronómico do seu país. Não podemos embarcar todos na internacionalização que torna os pratos todos iguais.

Anónimo disse...

Olá:

Minha tia e madrinha tinha uma edição antiga, com os desenhinhos da cozinheira que eram uma graça.Adorei te-los revisto no seu Blog!

Anos depois, foi lançada uma nova edição: "A Nova Alegria de Cozinhar", que minha mãe comprou para si e presenteou a cada uma de nós(filhas) e à nossa jovem e querida cozinheira. Era uma edição mais moderna,com belas fotos coloridas que infelizmente também saiu do prelo, com a falência da editora.Mas não tinha o charme dos desenhinhos!

Dessa edição, porém, faz parte uma Receita de "Feijoada à minha moda" em versos livres, com que Vinícius de Moraes presenteou a autora.

A receita foi recuperada e publicada numa coletânea da obra "gastronômica" de Vinícius de Moraes lançada há pouco por ocasião de seu centenário, neste 2013.

Não sei se para fazer rima, ou por gosto a feijoada do Vinícius leva... tomates!

Abraços brasileiros,

Cybelle

Anónimo disse...

Eu tenho esse livro a mais de 30 anos

MARILEIS PINTO disse...

Eu tenho esse livro, são três volumes de capa cor de laranja. Maravilhoso!

Ana Júlia Araújo disse...

Quando criança amava folhear o Livro a Alegria de Cozinhar, grosso, com 718 páginas, de 1958, 28ª edição. Era tudo. Passado mais de quarenta anos, eu agora com 52 anos, entrei para faculdade de gastronomia e estou amando. lembrei-me do livro de minha mãe guardado do mesmo jeitinho, folhas amareladas, a capa dura remendada com alguns pedaços de durex. Minha mãe tem 83 ano e hoje aproximei-me dela como livro nas mãos e perguntei: você se lembra? Ela olhou e sorriu. Claro que não se lembrava, pois minha mãe é portadora de Alzheimer. Mãe gostaria de ficar com ele, posso? Ela ficou pensativa e disse: sim, pode. De verdade posso ficar com ele? Então me dá um beijo e ela me deu um beijo. Prometi a ela cuidar dele como ela cuidou.Estou muito emocionada escrevendo este texto, pois a culinária sempre foi a paixão da minha vida e agora tenho este tesouro de família, muito simbólico e valioso para mim.

Ana Marques Pereira disse...

Ana Julia Araújo,
Obrigada por comentar com tanto sentimento a passagem de mãos do livro de culinária da sua mãe. Mostra que os livros de cozinha da família podem ter uma outra dimensão.

Alba Lucia Cunha disse...

Boa tarde,
Hoje, 24/07/2017, véspera de meu aniversário, quando farei 62 anos, resolvi pegar esse livro que era de minha mãe, falecida há dois anos e estou amando!!!
Não tenho a certeza do numero de folhas, porém ele é a 26ª Edição, da Livraria Prado Ltda - São Paulo.
Há alguns anos atrás, mandei refazer a capa dura e o desenho de perdeu.. e a ultima folha que ele tem é a de numero 704, ainda no índice alfabético. Tentarei colocar aqui algumas fotos dele para alegria de quem já o conhece...
Bom demais partilhar coisas e lembranças boas... Obrigada!!

Tânia Dantas disse...

Boa tarde
Hoje, 06/10/2017...estou com uma edição que faltam algumas páginas, não consegui descobrir de qual ano. Porém a parte que mais me atrai e de panificação e estava falando nessa edição q tenho.
A propósito tenho informações sobre a autora da feijoada q Vinicius coloca em seu poema.

Grata
Tânia.

Ana Marques Pereira disse...

Tania Dantas,
Se quizer partilhar essa informação era óptimo. Pode pô-la aqui ou caso contrário envie-me para o mail do garfadas e eu publico o poema com a informação adicional e o seu nome.
Obrigada.

Vania I Soares disse...

Boa tarde,
Ontem, 07/10/2017... através de uma colega de curso, sobre história do açúcar (Tania Dantas),recebi como presente a publicação deste Blog em 2013 sobre o Livro "A Alegria de Cozinhar", cuja autora Helena B. Sangirardi é tia de meu marido, irmã de minha sogra Marilena B. Oliveira.
Helena Sangirardi faleceu em 1989.
O livro Nova Alegria de Cozinhar publicado por Edições Bloch em 1979, contém na pagina 93 em homenagem a meu marido uma receita com seu nome Sanduíche a Cicinho, um especial carinho a ele.
A receita da feijoada cujo Título Feijoada a minha Moda, foi contada em versos por Vinícius de Moarais, foi um presente à ela e encontra-se na pag 300 do mesmo livro.
Helena Sangirardi foi gerente em um restaurante em Copacabana por volta dos anos 60,onde tornou-se amiga de vários artistas, contores e compositores da época, dentre os quais estavam Vinícius, Cláudia, Tom Jobim, Chico Buarque, etc.
Uma curiosidade, Helena Sangirardi é Tia-avó do ator Paulo Vilhena (Rede Globo).

Ana Marques Pereira disse...

Vania Soares,
Muito obrigada por partilhar essas informações.
Brevemente publicarei o poema de Vinicius com os dados que acrescentou, porque em Portugal esse poema é pouco conhecido.
Volte sempre. Até breve.