sábado, 27 de novembro de 2010

Os livros «A Cosinha das Familias» e «A Cozinha das Famílias»

 Comprei hoje um livro de culinária de 1897, com o título «A Cosinha das familias». O título parecia-me familiar, mas não reconheci o frontispício, o que me levou a adquiri-lo. Na realidade existem vários títulos semelhantes, em português e em francês. Em França foram publicados vários «La cuisine de famille», tanto em folhetos como em livro. Um grande sucesso foi também «La veritable cuisine de famille» de Tante Marie, que teve imensas edições no início do século XX.
Ao chegar a casa constatei que efectivamente tinha um livro «A Cozinha das Familas» (cozinha com z). Este livro, igualmente sem autor, foi editado por Manuel Lucas Torres, que era filho de Lucas Evangelista Torres, tipógrafo e mais tarde escritor e editor. Manuel Lucas Torres foi editor, tal como os seus irmãos João Romano Torres e Fernando Augusto Torres. Foi ele quem continuou a obra de seu pai mantendo a publicação da “Encyclopédia das Famílias”, por este iniciada.
 Na “Encyclopedia para todos” publicou o primeiro número, em 1908, intitulado «Guerra Peninsular», da autoria de Pinheiro Chagas, que já havia colaborado com seu pai, um segundo número que não consegui identificar (*) e o terceiro número desta série intitulava-se «A cozinha das Famílias». Foi publicado pela 1º vez em 1913 e reeditado em 1918, a acreditar na data registada para o mesmo título, existente na Biblioteca Nacional.
Tratava-se portante de um livro completamente diferente deste, de que não encontrei até ao momento qualquer referência, inclusivamente na Biblioteca Nacional e no «Livros portugueses de cozinha».

A autoria do livro não está identificada excepto pela frase:«Collaborada pelos melhores cozinheiros de diversos países e gastrónomos de nomeada». 
Também o editor não está identificado mas compreende-se, após a leitura das receitas, que se trata de um livro de autoria portuguesa, com influência francesa nas receitas e alguma orientação para o mercado brasileiro.
A origem portuguesa é-nos dada pelas várias receitas com nomes de portugueses ilustres à época, que dão nome a várias receitas como: a potagem à  Magalhães Lima, à Silva Graça, à Serpa Pinto, à Bordallo Pinheiro, o molho à João Franco, o molho à João Chagas, os restos de carneiro à Neves Ferreira ou o coelho á Taborda. Até receitas de Domingos Rodrigues, o nosso autor da «Arte de Cozinha», do século XVII, estão presentes, como a galinha de alfitete, a galinha sem osso e a galinha em pé, além de duas receitas de pombos: pombos dourados e pombos de D. Fernando.
Há também uma menção ao mercado da Figueira onde se aconselha a ir comprar alhos franceses, para aqueles que ainda os não conhecem, para fazer uma potagem.

Quase todas as receitas têm o seu nome traduzido para o francês. Muitas são receitas de cozinha francesa clássica. Outras, em menor número, são de cozinha internacional e não posso deixar de mencionar uma curiosa “Potagem à Karl Marx”.

Esta obra não se destinava apenas ao mercado português, mas também ao brasileiro. Vejamos esta última afirmação. O livro logo no frontispício identifica-se como uma «obra destinada a todas as famílias de Portugal e do Brasil». E logo após a “Advertencia” inicial, apresenta um quadro em que se declara que todos os direitos de propriedade da obra «nos Estados Unidos do Brasil» pertencem ao Sr. Dr. António Candido A. do Largo, cidadão brasileiro, residente no Rio de Janeiro. Analisando as várias receitas conseguimos identificar algumas com essa proveniêncai como o Quitute de fígado de porco á moda do Brasil, a conserva de porco fresco à brasileira, os bifes de fígado de porco (receita brasileira), o leitão à brasileira, as linguiças à brasileira, o vatapá de porco á baiana e o  coelho à baiana.

Não estando referido o editor é no entanto nomeado o depositário do editor que era o «Bureax de la Presse», em Lisboa. A publicidade no final do livro informa-nos que se tratava de um quiosque existente na Gare do Rossio, pertença de Guilherme Melchiades, que recebia encomendas para toiletes, chapéus, luvarias e todos os artigos de toilete precisos às “elegantes das províncias e ilhas”.
Era também o vendedor das principais revistas de moda francesas como La Mode Nationale, Mode du Petit Journal, Le Petit Echo de la Mode, La Famille, La Saison, etc.

Destes dados constata-se portanto que se trata de duas obras completamente diferentes.
A Cosinha das Famílias não só é mais precoce do que A Cozinha da Famílias, como também é mais rara.
É sempre um prazer descobrir um destes livros. Dá-los a conhecer é uma obrigação.

(*) Poderá corresponder ao Nº 2 da “Encyclopedia da Infancia”, intitulado «Jogos Infantis» e mencionado por Augusto Pires de Lima na sua obra «Jogos e Cantos Infantis»?.

2 comentários:

joao albergaria disse...

Ex. Sr
Ao pesquisar o titulo "A cosinha das familias". deparei me com o seu blog. Acontece que também possuo um exemplar, pelo que lhe venho perguntar se estaria interessado em adquirir, ou se conhece quem queira.

C/s melhores cumprimentos

Joao vieira


Braga, 9 de Janeiro

Ana Marques Pereira disse...

João Albergaria,
Agradeço a oferta mas habitualmente falo sobre peças que eu tenho e quando não é assim identifico a origem. Cumprimentos.