sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O cometa Halley e a alimentação

 
O cometa Halley foi o primeiro a ser conhecido como periódico. A cada 76 anos aproxima-se da Terra e o seu brilho e forma tornaram-no num objecto de entusiasmo para observação, mas também de temor.  A ele foram sempre associadas catástrofes.

Em Maio de 1910 aproximou-se da Terra, mas já antes as notícias em todo o Mundo vaticinavam desgraças. Uma delas relacionada com a libertação de cianogénio, um gás letal que estaria presente na cauda do cometa.
Foto retirada de Comet Zone
As reações foram de dois tipos: os mais folgazões, antecipando o fim da civilização, organizaram festejos, sendo moda enviar convites para festas privadas ou em hotéis. Contudo os pessimistas, acreditando nos seus efeitos nefastos, esperavam morrer. Os mais previdentes correram a comprar máscaras contra gases, botijas de oxigénio e até pílulas que evitavam os efeitos tóxicos dos gases.

Em Portugal a Ilustração Portuguesa já em 7 de Fevereiro de 1910, fazia capa com o cometa. No seu interior dois textos com títulos assustadores davam o mote intimidatório: «O fim do mundo e os planetas» e «Na eminência de um cataclismo cósmico».
A 16 de Maio, de forma mais cautelosa, anunciava aos leitores em tom sereno: «O cometa Halley aproxima-se da Terra». Por último, a 23 de Maio apresentava fotos do cometa sob o título: «O cometa Halley no firmamento de Lisboa». Encerrava-se assim o tema.

Os comerciantes, no entanto, não deixaram passar em claro este fenómeno. O cometa serviu para marcas de produtos alimentares e outros.
Este rótulo de whisky americano é disso um exemplo, mas felizmente os nossos empresários também não ignoraram esse acontecimento que, como aqui se vê, serviu de marca para vinhos e azeite. O comerciante José António Lopes, estabelecido em Lisboa no Largo do Terreiro do Trigo, Nº16, 2º, pedia o registo da marca «Vinhos e Azeite Halley», em 1910. No rótulo podia ver-se o cometa «a caminho da Terra», facto em que o mesmo, evidentemente não acreditava. 
E a estrela que anunciou o nascimento do Menino Jesus aos Reis Magos, não seria um cometa Halley?
Vejam este postal de Natal de 1907 e digam-me.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Postais publicitários: Chá Lipton

Este postal publicitário ao Chá Lipton era oferecido pelos estabelecimentos Jerónimo Martins & Filho, então situados na Rua Garret, Nº 17 a 19, em Lisboa.
Tendo como tema uma bucólica paisagem japonesa, apresenta no verso a informação de que, contra a devolução de 20 etiquetas dos pacotes de chá, seria oferecido um lindo bule.

Seria o bule da imagem?

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Mercado de Natal da Idade dos Sabores


Começa amanhã, dia 4 e até dia 23 de Dezembro, no Mercado de Santa Clara, o mercado de Natal da Idade dos Sabores.

Vão estar à venda doces tradicionais portugueses, frutos secos e outros produtos que habitualmente se consomem nesta época.
Haverá também venda de alguns objectos antigos relacionados com a cozinha e livros de culinária.

Ao mesmo tempo podem ver uma exposição de utensílios antigos de cozinha, indispensáveis na época natalícia.

Por último, os mais novos terão a oportunidade de ver alguns brinquedos antigos cujo tema é também a cozinha

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Castella ou kasutera, o Pão-de-ló japonês

Quando os portugueses chegaram ao Japão no século XVI, tiveram na cultura japonesa uma influência importante. Embora seja frequentemente referida a introdução das armas de fogo, houve outros  aspectos que foram mais marcantes, entre os quais está sem dúvida a influência na língua. A língua japonesa chegou a ter, segundo Armando Martins Janeira, mais de 40.000 vocábulos de origem portuguesa(1).
Variedade de Castella com chá verde
Muitos desapareceram, tal como iria acontecer com a influência religiosa exercida pelos nosso missionários, mas permanecem ainda muitas palavras no uso comum.
 Experimentem dizer em alto kasutera e está-se mesmo a ver um japonês a dizer castella.
É que uma das heranças portuguesas, que os japoneses mantiveram até hoje, foi o fabrico de um bolo, semelhante ao pão-de-ló, introduzido pelos portugueses no século XVI. É produzido na província de Nagasaki, onde é considerado um bolo tradicional. É feito com farinha, ovos, açúcar e xarope de milho e, tal como o nosso pão-de-ló, tem que ser demoradamente batido.
O bolo sofreu algumas alterações, com variantes que incorporam elementos agradáveis ao gosto japonês, como o chá verde, o côco, ou chocolate. Mas a sua base mantém-se fiel ao preparado inicial e continua a ser produzido pela mesma casa de Nagasaki, a Casa Shooken, fundada em 1681 e que se mantém até ao presente.
Em Portugal, existem variedades regionais de pão-de-ló que se tornaram características das regiões de origem, como o de Alfeizerão, o de Ovar, o de Margaride e o de Arouca. À excepçaõ do de Arouca, todos são feitos em forma redonda com buraco. Contudo o de Arouca, em especial o da freguesia de Burgo, distingue-se por ser preparado em formas rectangulares. É o que acontece também com o pão-de-ló japonês ou castella, o que lhes permite serem vendidos em fatias individuais.
Em Portugal é possível experimentar o castella, graças ao empreendorismo de Paulo Duarte um português que estagiou em Nagasaki, na casa Shooken e que em Lisboa abriu um salão de chá luso-japonês, a  «Castella do Paulo». Fica na Rua da Alfândega e vende vários tipos de doces japoneses. Aí se podem provar três variedades de castella: normal, com chá verde e com chocolate.
Pessoalmente, prefiro o nosso pão-de-ló de Alfeizeirão ou de Margaride, mas não posso deixar de elogiar, e de experimentar com prazer, este regresso à Pátria de um doce nosso tão antigo, interpretado pelos japoneses.

(1) Armando Martins Janeira (1914-1988) foi embaixador de Portugal no Japão e um estudioso das relações luso-nipónicas. O seu livro O Impacte Português sobre a Civilização Japonesa, marcou-me imenso. Infelizmente emprestei-o um dia e nunca mais o vi, pelo que não posso confirmar o número que refiro, que nos parece inacreditável, mas que fixei como verdadeiro.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Actividades de Novembro no Centro de Artes Culinárias

 
Com o título «Novembro com a sabor a Dezembro» realizam-se como de costume no Mercado de Santa Clara em Lisboa.

Um pouco atrasado, mas ainda a tempo, aqui fica o convite para participarem nas actividades do Centro de Artes Culinária para o mês de Novembro.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

As Padarias Inglezas

Dito assim, no plural, «As Padarias Inglezas» afiguram-se como um mistério que, no início, não foi fácil de resolver.

A 4 de Março de 1898 a cidadã Mary Ann Broomfield, de naturalidade inglesa, comerciante, residente em Lisboa, fazia o pedido de registo do nome «Padaria Ingleza», estabelecida na Rua Cais do Tojo, 15(1). Ao mesmo tempo pedia também o registo do nome «English Bakery». Contudo, seria pelo primeiro nome que a sua padaria ficaria conhecida em Lisboa.

Hoje no local, só resta um prédio desinteressante mas foi uma loja considerada pelos seus produtos e ponto de encontro de muitos lisboetas. Entre eles salientava-se Fernando Pessoa que ali se encontrava com a sua amada Ofélia.

Em carta datada de 2 Agosto de 1920, Fernando Pessoa escrevia: «Querida Nininha pequena: Estarei no Conde Barão à tua espera das 8 às 8 1/2. Estou escrevendo de onde vês pelo papel, e o Osório vai fazer-me o favor de te levar isto, a casa da tua irmã.
Olha: estarei no Conde Barão, mas no recanto da Padaria Ingleza entre as duas horas citadas, que, creio, te serão convenientes» (2).
Numa outra carta, de 12 de Agosto de 1920, Ofélia respondia:
«Meu Nininho, Afinal hoje estive à tua espera desde as 5 para as 5 até às 6 h, e não houve forma de te ver, nem tão-pouco te interessaste em combinar forma de nos falarmos amanhã....
Estarei também às 8 horas no Cais do Tojo, ao pé da Padaria Ingleza...»

Foi o sucesso desta Padaria que fez abrir uma outra loja, com o mesmo nome, no Largo de S. Julião, 19. Num prédio pombalino foi feita uma adaptação num estilo “Arte Nova” puro, com uma fachada em ferro e apresentando vitrais no mesmo estilo, ao nível do 1º piso. Estas alterações, realizadas em 1907, ficaram a cargo do construtor Carlos Mestre Rodrigues.
A antiga Padaria Ingleza do Largo de São Julião foi mais tarde comprada para filial do Banco Borges & Irmão, que seria adquirido pelo BPI em 1991, e encontra-se presentemente fechada.

O reconhecimento da qualidade  dos produtos da Padaria Ingleza era grande, como podemos ver pelo anúncio publicado na Gazeta de Coimbra, de 1927, que anunciava a venda de Bolo Rei na Leitaria Conimbricense e um sortido variado de doces e bolos, em que se salientavam os «Bolos ingleses da conhecida e acreditada Padaria Ingleza de Lisboa».
No Natal de 1930, existia ainda a Padaria Ingleza no Cais do Tojo como o mostra a fotografia da sua montra num concurso de Montras Nestlé, publicado na Ilustração Portuguesa, no número de Natal(3).
Em conclusão, existiram ao mesmo tempo, em Lisboa, duas lojas, pertença da mesma proprietária, com o nome de «Padaria Ingleza», como nos revela a peça em cerâmica, produzida pela Fábrica de Sacavém.
Assim termina o mistério da Padaria Ingleza, com duas moradas, correspondendo uma delas a uma filial. Numa época em que estas ainda eram pouco frequentes traduzia, sem dúvida, um negócio de sucesso.

(1) Pedido de registo publicado no Boletim da Propriedade Industrial de 30 de Novembro de 1898, p. 76.
(2) Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo de Maria da Graça Queiroz), Lisboa: Ática, 1994.
(3) Illustração Portugueza, No. 120, Natal, 16 de Dezembro,1930.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Café: «The Magic Bean»


O folheto de 16 páginas intitulado «Magic Bean. The Story of Coffee» foi publicado em 1956 pela National Coffee Association e destinava-se à promoção do consumo do café.
A publicidade foi feita em forma de banda desenhada, com uma apresentação extremamente colorida, focando toda a linha de desenvolvimento do produto, desde a sua descoberta até ao consumo nesses dias.
Destinava-se a ser distribuído no dia de Thanksgiving de 1956, dia tradicional de compras para os americanos.

A sua apresentação transmite-nos a impressão de se destinar tanto a adultos como a crianças. 
Não posso contudo deixar de chamar à atenção para a noção, bem adulta, de “intervalo para café” (coffe break), promovida e apoiada em estatísticas, que vão de números como 62% para o aumento de eficiência no escritório, ou 82% das fábricas que achavam que estas pausas diminuíam em 32% os acidentes de trabalho.

Por tudo isto, já então 41 milhões de trabalhadores americanos faziam uma pausa para café.

Numa das páginas podem também ver-se os vários tipos de utensílios para fazer café, mas também já a referência ao café instantâneo.

Tudo isto muito antes do George Clonney ter começado a sua campanha internacional de impingir as máquinas com cápsulas de café.