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quarta-feira, 5 de julho de 2023

O fogão norueguês

 

Quando há dois dias o José Daniel falou na marmita norueguesa, a propósito de uma notícia publicada em O Universo Ilustrado, de 1880, tinha acabado de me chegar às mãos um folheto com receitas para a mesma. Achei que já tinha falado sobre o tema, o que é verdade, mas com o nome de “fogão norueguês”. Ver aqui no blogue 👈

Já tinha vontade de falar neste tema desde que o o italiano Giorgio Parisi, Prémio Nobel de Física de 2021, defendeu que cozinhar a massa com o fogão desligado, depois da água ferver, permite consumir menos energia. O cientista da Universidade Sapienza, de Roma, calculava que "pelo menos oito minutos de consumo de energia" eram economizados com este método. Nada de novo, uma vez que algum tempo antes a associação Unione Italiana Food, que representa os fabricantes de massas, argumentou que manter a tampa na panela durante a fase de fervura acelerava o processo de cozedura e permitia poupar "até 6% de energia e emissões de CO2". Isto é, desligar o fogo após dois minutos de fervura, deixando a tampa, economiza energia e emissões de CO2 que podem chegar a 47%. Claro que estas noções desagradaram a chefes de cozinha. Antonello Colonna, italiano, detentor de uma estrela Michelin, disse que o método tornaria a massa borrachuda.

Já experimentei com o esparguete e não ficou mal. Mas para o arroz e outros cozinhados é perfeito. A minha técnica, sem fogão norueguês, consiste em deixar ferver o alimento alguns minutos no máximo e depois de ligeiramente cozido, retiro, coloco dentro da caixa do microondas (apagado), com tampa, e uma protecção de cortiça por baixo e tapo com uma mantinha, que reservei para o efeito.  Fica perfeito.

É interessante que este tipo de cozimento, tenha sido dado a conhecer no final, do século XIX, tenha tido grande divulgação durante a guerra (este folheto é dessa altura) e passado todo este tempo voltamos a ter preocupações energéticas, não por necessidade absoluta, mas por consciência. O que parecia um retrocesso é na realidade um grande avanço.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Ser atado” ou como levar as expressões à letra

Já anteriormente falei dos fogões da Vacuum Oil, cuja publicidade era interessantíssima. Hoje mostro mais um exemplo de como «os publicitários são uns exagerados», como alguém disse há alguns anos.
Com um desenho de Emmérico Nunes (1888-1968) a criada apresenta-se literalmente atada e a explicação para os atrasos nas refeições não é dela mas da falta do fogão Vaccum que faz um pequeno almoço em 10 minutos, usando é claro, petróleo Sunflower comercializado pela Vacuum Oil Company. 
O anúncio foi publicado na contracapa da revista ABC (25-10-1928), que apresenta na capa o perfil de uma jovem, muito ao gosto dos anos vinte. O tipo de desenho e a assinatura (S.) fazem-me pensar que se trata de António Soares (1894-1978) que assinou as suas obras com «António», «Soares» e «António Soares» e possivelmente «S.», tal como Emmérico Nunes assinou «E».

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A chegada dos fogões a gás

 A utilização do gás de hulha em Portugal começou pela iluminação pública e privada. Para além do seu consumo ser caro as infraestruturas necessárias, como as tubagens e aparelhos de iluminação adequados, faziam com que fosse restrito o seu uso.
É evidente que foi nas habitações em que já estava implantado para iluminação que mais precocemente se divulgou a sua utilização na cozinha. Mas também aí eram necessários fogões adequados e apesar das modificações, como se pode observar, a estética não os afastava ainda muito dos anteriores fogões em ferro assentes em pernas.

Quando no final do século XIX a Lisbonense se juntou à Gás de Lisboa para dar origem à Companhia Reunida de Gás e Electricidade (CRGE) tornou-se evidente a necessidade de publicidade ao gás para uso doméstico.
Este postal com data de 1909 é um dos exemplos bem humorados da divulgação dos fogões a gás, em substituição dos que utilizavam lenha ou carvão, enaltecendo-se o tempo livre da cozinheira que até dava para fazer meia e namorar com o seu magala. 

Antes do início da Primeira Guerra Mundial o número de consumidores de gás doméstico tinha aumentado muito, mas a guerra dificultou o abastecimento da hulha a Portugal e na década de 1920 começavam a surgir novos competidores: os fogões eléctricos. Mas o lisboeta, que teve sempre melhor acesso aos vários tipos de gás, nunca mais dispensou este tipo de fogões. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

«Um homem que tinha o espírito de contradição»

Já anteriormente falei sobre a interessante publicidade da firma Vacuum Oil no nosso país. Este empresa americana de petróleo, instalada em Portugal em 1896, associou-se depois à Standard Oil, vindo a dar a Mobil.
Durante o período que esteve representada em Portugal recorreu a ilustradores famosos como Emmérico Nunes que, em 1926, como o próprio afirmou ”se viu obrigado a aceitar um lugar de desenhador na secção de publicidade da Vacuum”, onde se manteve até 1931.
Esta pequena história não é, contudo, da sua autoria. O desenho está assinado MC que, espero, alguém venha a identificar, porque eu desconheço a quem se refere. 
Em geito de banda desenhada, foi publicada em 1941 no «Boletim Oficial das Juntas de Freguesia de Lisboa» que, no número comemorativo do XV aniversário da Revolução Nacional, trazia a fotografia de Oliveira Salazar na capa. 
Intitulada «Um homem que tinha o espírito de contradição» relata-nos as conversas entre Sebastião e a sua mulher Ester sobre a aquisição de um fogareiro Vacuum. Renintente na sua aquisição, Sebastião vai acabar por ceder, presume-se, de acordo com a evolução da história.
Quando, inesperadamente, chega a sua casa um grupo de familiares vindos da província D. Ester fica em pânico pensando no tempo que ia levar a acender o fogão. Mas a refeição chega rápida à mesa e tudo corre maravilhosamente. Sebastião considera o feito um milagre mas a mulher explica que tal só foi possível graças ao fogareiro Vacuum da vizinha. Fim da história, mas adivinha-se o seguimento. 
O mais interessante é que a Vacuum Oil nunca produziu fogões uma vez que era um empresa de comercialização de petróleo e lubrificantes (1). Um dos modelos dos seus fogareiros foi identificado por um coleccionador estrangeiro como sendo da Hipólito. Os fogareiros da Vacuum começaram por ser produzidos pela empresa Radius da Suécia. 
Mas outros modelos, em especial o “Sunflower” foram provavelmente feitos pela Hipólito. Parece-me verosímil dadas as semelhanças com os modelos da fábrica de Torres Vedras. 
Um aspecto interessante para futuro esclarecimento, quando nos dedicarmos a esta empresa. Entretanto, como são ainda vivos alguns dos trabalhadores dessa firma, que encerrou em 1999, pode ser que algum deles leia este poste e nos acrescente informação.
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(1) O 1º registo da Vacuum em Portugal foi feito em Outubro de 1906 e destinava-se a produtos da classe 4 (óleos e gorduras industriais), tendo sido feito pela Exxon Mobil Corporation. Não encontrei qualquer registo de fogareiro, tal como não surge nos Anuários Comerciais do início do século XX nos produtores de fogões. A Vacuum é referida como comercializando gasolina e lubrificantes.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

De pequenino se torce o pepino


Este curso para crianças vai ter lugar no Centro de Artes Culinárias no Mercado de Santa Clara, em Lisboa.

Alia duas vertentes importantes:
  • Despertar os jovens para o mundo da culinária.
  • Ensinar novas técnicas e uso de energias alternativas.
Não percam e levem as crianças da família. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Vidraria Mourão no Porto

 Já falei anteriormente de uma loja tradicional do Porto, a Casa Granado, que vende utensílios domésticos e que ao longo de várias décadas soube manter o aspecto inicial, embora renovando os seus produtos. Disse na altura que na fase inicial, esta casa, vendia também artigos para a construção.

Quando o meu amigo Manuel Paula me mostrou uma das faturas da sua colecção, de que gentilmente me cedeu as imagens, percebi que, neste tipo de lojas, se vendiam habitualmente os dois tipos de produtos.
 Esta fatura, datada de 1931, é da «Vidraria Mourão», situada na Rua de Santo Ildefonso, 241-243, uma casa fundada em 1899 que, posteriormente, abriu uma filial na mesma rua no nº 220-222, designada «Casa das Ferragens».

E a fatura mostra-nos que, apesar do nome, já vendia objectos domésticos. Neste caso um fogão a petróleo Vaccum que, em 1931, era um autêntico luxo, um objecto de grande utilidade, de que também faziam reparações.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Jornal "Lisette" e o risco dos fogões

Como a apoiar a afirmação do post anterior, em que se valorizava a vantagem do fogão norueguês, em que não era necessário vigiar os alimentos, mostro hoje o aspecto contrário: o risco de incêndio com os fogões a lenha.

O semanário Lisette, Journal des Fillettes, que como o nome indica era dedicado às meninas, era distribuído com o Petit Echo de la Mode que as suas mães adquiriam para estarem a par da moda.
Publicou-se em França de 1921 a 1942, tendo sido interrompido devido à guerra. A sua publicação seria retomada em 1946.
O número de 5 de Abril de 1931, incluía uma história intitulada «La bonne Fougasse» em que uma menina após ter feito uma fogaça para a visita da tia, a colocou no forno e negligentemente foi para o seu quarto, deixando o fogão sem vigilância.
O resultado foi um incêndio na cozinha a que acorreram os bombeiros, como nos mostra o desenho da capa. E claro, a tia não teve fogaça para o seu lanche.
Uma história educativa para meninas em aprendizagem de dona-de-casa.

sábado, 15 de outubro de 2011

O fogão norueguês, uma resposta para a crise

Era suposto falar de uma livro de receitas portuguesas que adquiri. Trata-se de «As 500 melhores receitas para Cozinhar» de Olga de Albuquerque. Sem data de publicação, mas seguramente do início do século XX viria a ser seguida por uma outra publicação da mesma autora, em 1953, intitulada O Prazer da Mesa, que tal como o anterior se definia como um livro de «receitas práticas, ensinadas pela imagem e pelos processos ultramodernos».
No entanto não é sobre o livro que eu quero falar mas sim sobre um anúncio que surge na última página.
Refiro-me à publicidade ao fogão norueguês, o «fogão que não gasta combustível». Este era vendido na Rua da Hera, 17, em Lisboa, pela quantia de 200$00, sendo salientado com o seu uso a economia obtida tanto em combustível como em tempo, sem o risco de queimar os alimentos e tornando os alimentos mais saborosos.
De que falamos então? Trata-se do que em França e na Bélgica era conhecido como “marmite norvégienne” (ou fogão sem combustível ou auto-cozinha) que era uma caixa isolante, cujo principio de funcionamento não se afastava muito do de uma garrafa térmica. O isolamento da caixa permitia que o prato, iniciado ao lume num fogão normal, interrompesse o seu cozimento para acabar de cozer no seu próprio calor, durante horas, dentro de uma caixa estanque. O calor não podendo sair da caixa hermética, permitia um acabamento lento do prato.

Não se surpreendeu o princípio. Lembro-me de em minha casa se fazer um arroz, que após um cozimento inicial ao lume, se embrulhava em jornais e ia cozendo a pouco e pouco. Utilizava-se este método para pic-nics ou em casa. Eu própria quando me lembro, e não estou em cima da hora, procuro fazer isso.

Quando há alguns anos falei com uma doente minha sobre o início da electrificação ela referiu-me que se lembrava de em pequena existir em sua casa uma «caixa de serradura», isolante, que não era mais do que um fogão norueguês. Fiquei então a saber que se tinha utilizado em Portugal mas não tinha ainda encontrado publicidade ou referência e este método.
Sabe-se que este tipo de fogão existiu em França desde 1870, precisamente por ter sido referido numa revista com essa data. Teve grande divulgação durante a guerra de 1914-1918 e em 1938 ainda era ensinado o seu uso em aulas nas escolas francesas.

Ficou esquecido entretanto. Mas em 2004, no Salão da Água e da Ecologia da Casa, fez furor um stand sobre economia de energia intitulado «Négawatts» em que se apresentava um cubo com isolamento, com cerca de 50 cm destinado a meter os tachos para acabar de cozer a comida.
Associações como «Les amis de la Terre» começaram a defender o seu uso uma vez que a redução do consumo de energia com este método vai de 50 a 75%, com grandes vantagens sobretudo em países com problemas de energia. Hoje é possível encontrar na net vários sítios que ensinam a fazer o próprio fogão norueguês, bem como receitas para o mesmo, entre as quais algumas elementares como ensinar a fazer em casa os próprios iogurtes.
Imagem extraída do livro «Cuisine Auto-Cuiseur» de 1917
Em tempo de crise, e perante as medidas de austeridade agora apresentadas pelo governo, faz sentido voltar atrás no progresso e apresentar um fogão que a ecologia e o bom senso recuperaram.
É esta a verdadeira «slow food».

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O fogão da Vacuum Oil Company

A empresa Vacuum Oil chegou a Portugal em 1896 e tornar-se-ia, 60 anos mais tarde, na Mobil Oil. Destinava-se à comercialilização de petróleo e foi responsável pela introdução em Portugal de fogões, calorífero e candeeiros a petróleo.
A publicidade aos fogões da Vacuum Oil surgiu nos anos 20. Os anúncios que apresentamos foram publicados na revista ABC, nos anos de 1925 e 1926.

Seleccionei alguns deles para contar uma fotonovela de como se pretendia afastar a mulher portuguesa do uso do fogareiro de barro, o mais divulgado, substituindo-o por um fogareiro a petróleo, mais prático e limpo.

Na primeira imagem uma dona-de-casa, corta madeira em pedaços para os colocar num fogareiro de barro. Em contraponto uma outra dona de casa, possuidora do novo fogão, borda calmamente enquanto numa cafeteira aquece a água. Segue-se a imagem da mulher moderna que parte, com um martelo, o antigo fogareiro de barro « que já não se usa». Uma outra imagem mostra-nos uma mulher moderna, de cabelo curto e vestido de modelo arrojado, que usa o fogão a petróleo porque: «o seu preço é insignificante e é portátil simples, rápido e asseado». As duas últimas imagens transportam-nos já para um ambiente mais sofisticado e intimista.

Na primeira é o próprio marido que, calmamente, com o seu roupão vestido, aquece o chá.
E por último, o casal, no conforto do seu lar, sentado num sofá na sala, aguarda que o chá aqueça.
É uma história em que se enaltecem as virtudes do fogão, mas recomendando sempre a utilização do petróleo Sunflower que, aparece discretamente nalgumas das imagens com a flor do girassol, ostentada num calendário pendurado na parede, para reforçar a mensagem.
Um exemplo de boa publicidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

O fogão de brincar "Little Chef"

Falamos hoje no pequeno fogão eléctrico presente no livro «Susie’s New Stove».
O livro ensinava as crianças a cozinhar de verdade, enquanto brincavam, utilizando um fogão que era o «Little Chef» .

O fogão foi um dos brinquedos produzidos pela fábrica Tacoma Metal Products. A fábrica foi fundada por John Schack (1909-2004), depois da Depressão, e produziu outros brinquedos até aos finais dos anos 50.
Os fogões começaram a ser produzidos em 1945 e eram distribuídos juntamente com o livro referido. A publicidade anunciava que o fogão «Cozinhava, assava e era seguro».

Em 1948 saíram 3 modelos de fogão tendo o modelo de luxo 2 fornos. O fogão era feito em alumínio, normalmente pintados de branco, mas num anúncio que encontrei num catálogo de brinquedos de 1951, eram já anunciados modelos em cor. A publicidade destes fogões, e a encomenda dos mesmos à Tacoma, esteve a cargo de George Gardner da empresa de publicidade Gardner-Jacobson.
A campanha de publicidade foi importante e anúncios sobre os «Little Chef» surgiram na Saturday Evening Post, na Life e na American Home, o que explica a sua grande venda a nível nacional.
As imagens que apresentamos estão em arquivo na Tacoma Public Library, juntamente com outras que podem ser consultadas online. Mas não foi esta a única empresa a produzir fogões eléctricos para crianças. Também a Ohio Art Company, empresa fundada em 1908, produziu fogões «Little Chef» idênticos, nos anos 40-50. Um dos que encontrei à venda na e-bay era cor-de-rosa.

Não ia falar no Easy-Bake Oven, produzidos pela firma Kenner a partir de 1963, se não fosse o comentário da Rita ao último post. Inicialmente tinham uma luz que fingia ser a luz do forno. Foram evoluindo ao longo dos anos e hoje, sinal dos tempos modernos, assemelham-se a um micro-ondas.

Na Europa, em meados do século XX; foram também fabricados fogões eléctricos para brincar, incitando as crianças a seguir o exemplo das suas modernas mães. É que os fogões eléctricos continuavam a ser uma novidade e não estavam ainda disseminados por todos os lares. Este exemplar que apresentamos é de origem alemã e foi “descoberto” em Portugal. Tem uma tomada na face posterior e permitia cozer os alimentos. Alguma menina felizarda terá brincado com ele.
Hoje, a preocupação com as regras de segurança com os brinquedos, certamente que levaria os pais a não o adquirir. Outros tempos. Outros brinquedos.