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sábado, 10 de janeiro de 2009

Dolores Botafogo e os seus livros


Tenho constatado que muitas das visitas do meu blog são de nacionalidade brasileira.
Embora os temas que abordo não sejam exclusivamente portugueses, devo confessar que fiquei surpreendida.
As influências gastronómicas portuguesas sobre a culinária brasileira são importantes e vice-versa, em especial após a estada da corte portuguesa no Brasil. Mas esse é um tema muito vasto sobre o qual não posso agora debruçar-me.
Pensei assim em falar num tema que tivesse interesse para os leitores brasileiros. Pensei em vários assuntos, mas não cheguei a ter tempo para me interrogar. O acaso deu-me a resposta.
De dois em dois meses recebo a visita do meu encadernador que leva os livros para encadernar e me traz os livros encadernados. Na ultima vez recebi, completamente renovados, dois livros brasileiros de culinária, que eu comprara um pouco maltratados.
Trata-se de duas obras de Dolores Botafogo «Bolos Artísticos» e «Boas maneiras. Recepções».
Desconhecia completamente a autora e resolvi fazer uma pesquisa. Com grande surpresa minha descobri que foi uma autora importante com cerca de doze títulos publicados, na década de 50. Não há dúvida que foi um sucesso editorial porque continuaram a publicar-se nas décadas seguintes e ainda hoje está à venda a edição inglesa de: The Art of Brazilian Cookery, considerado uma boa fonte de receitas tradicionais brasileiras. É uma reedição de 1993 de um livro de 1960.
Mas antes deste outros títulos surgiram. Para além dos já referidos menciono: «Prenda seu Marido cozinhando» e « Bandejas de salgadinhos, doces e balas».
Mas a sua verdadeira arte foi a de confeiteira. Os «Bolos Artisticos» tiveram várias séries, parecendo ser um tema inesgotável para a autora, que chegou mesmo no livro «Boas Maneiras» a acrescentar um «Apêndice com novos modelos de bolos».
Os seus bolos são de grande complexidade e como afirma a confeiteira brasileira Élide Macêdo, o uso de «muito glacê de bico em estruturas altas» fazem parte da tendência que se estendeu até os anos 50 por influência de Dolores Botafogo, que introduziu os primeiros livros sobre o tema no Brasil. Para simplificar a execução destas obras de confeitaria, numa espécie de Antonin Carême do século XX, a autora adicionava aos seus livros folhas soltas com desenhos dos moldes de partes dos bolos.

Não há dúvida que estamos perante uma confeiteira de excepção. Mas quando pesquisei sobre a biografia da autora nada encontrei. Sei que viveu na Urca, que hoje é um bairro do Rio de Janeiro, mas que foi a génese dessa cidade.

Mas vejamos de que modo vamos encontrar uma ligação a Portugal. A familia Botafogo tem origens portuguesas. O patriarca da família chamava-se João Pereira de Souza Botafogo (15407-1605) e nasceu na cidade alentejana de Elvas. Teria recebido a alcunha Botafogo por ser o responsável pela artilharia das tropas lusitanas no século XVI. A invasão da baía de Guanabara pelos franceses comandados por Villegagnon, levaram Portugal a enviar uma expedição para os expulsar. A missão portuguesa era comandada pelo Capitão-mor Estácio de Sá. Os portugueses desembarcaram no dia 1 de Março de 1565 na entrada da barra do Rio de Janeiro. Aí foi fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Era uma faixa de terra que se situava entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Na altura era uma ilha e só mais tarde foi feito o aterro que a ligou ao que hoje é a cidade do Rio de Janeiro.
Em 1590 João de Souza Botafogo adquriria terras no local e seria o seu nome que iria ficar ligado ao bairro, que se chamou Botafogo desde então.

Mas da sua descendente mais nada consegui saber. Da sua extensa obra a Biblioteca Nacional do Brasil tem apenas três exemplares, dos anos 50.
Nenhum dos seus livros faz parte do espólio da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Para que tenham ideia do que falo apresento-lhes algumas imagens da sua obra.