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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O Bolo-rei no Porto

Hoje os locais comerciais estão ávidos de história. Ter um passado valoriza o local e o produto. Nalguns países é assim há muitos anos, mas os portugueses forma-se esquecendo disso e paulatinamente foram destruindo sem qualquer apego as antigas lojas, cafés, drogarias, livrarias, etc. Foram registadas já tardiamente as “lojas históricas”, mas nem isso as salvou da destruição. Em seu lugar surgiram lojas turísticas algumas semelhando um passado que não tinham. 

Esta introdução vem a propósito do bolo-rei e da sua introdução em Portugal hoje atribuída à Confeitaria Nacional, por Baltazar Roiz Castanheiro, na década de 1870. Esta antiga confeitaria tem sabido manter-se e apresenta uma história que hoje dificilmente pode ser rebatida e que lhes permite com orgulho vender um produto com passado.

Mas as origens de doces ou de pratos que os restaurantes e pastelarias hoje tomam como suas com o tempo pode revelar-se diferente. Em História, como na Medicina, o que hoje é verdade amanhã pode não o ser. É isso que ambos os ramos do conhecimento têm de entusiamante.

Pastelaria Lisbonense. Foto Guedes AHCMP

Passemos então ao Porto onde a primeira introdução do bolo-rei terá tido lugar em 1890 na Confeitaria Cascais, na Rua de S. António, de acordo com os autores do blogue Porto de Antanho.

Num papel publicitário de 1897, o proprietário da Confeitaria e Pastelaria Lisbonense, J. Augusto Ferraz de Menezes, que tinha loja na Rua Formosa 404, no Porto, onde também existia uma refinação de açúcar e onde eram feitas conservas de frutas, contava a história do bolo-rei em forma de lenda.

A lenda explicava a história do bolo que fora encontrado por uma fada nos jardins do seu palácio. Tocado pela sua varinha mágica revelou-se ser o bolo-rei da Confeitaria Lisbonense. A fada, proclamada rainha do bolo-rei pela sua comitiva, fez saber aos seus vassalos que incorriam num crime de lesa-majestade se deixassem de comprar o bolo-rei da Confeitaria Lisbonense nos dias 3, 4, 5 e 6 do mês de Janeiro de 1897.

Embora não saibamos as datas do início da produção do bolo-rei ficamos assim esclarecidos da sua origem, e bem mais descansados. A Confeitaria parece datar de 1882, mas a presença de duas medalhas ganhas em Exposições no Palácio de Cristal, no Porto, a da Exposição Hortícola que teve lugar em 1877 e a Industria Portuguesa em 1897, situam-na, provavelmente como conservaria ou  refinaria, pelo menos na década de 1870.

Pormenor das medalhas ganhas em Exposições
Em 1897, J. Augusto Ferraz de Menezes, era mencionado no Jornal dos Cegos, referindo uma notícia publicada na Voz Pública, e quem este teria oferecido ao grupo de cegos, que visitaram os seus trabalhos na Exposição patente no Palácio de Cristal, «uma grande quantidade de doces».

Voz Pública, 23 de Dezembro de 1900
O que percebemos é que este bolo era no final do século XIX vendido apenas no início de Janeiro, destinando-se a ser consumido no dia de Reis. Num anúncio publicado em 23 de Dezembro de 1900 no jornal "Voz Pública" a Confeitaria Lisbonense disponibilizava já o bolo-rei a partir dessa data e até ao dia de Reis, fazendo crer que então o hábito se estendia já ao Natal.

Curiosamente na mesma publicidade era dito que já fabricavam aquele bolo há vários anos e que tinham sido os primeiros a produzi-lo no Porto.

Confusos? O tempo esclarecerá as contradições.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Guerra de Doces no Porto

A publicidade publicada nos jornais Primeiro de Janeiro em Dezembro de 1949 e Janeiro de 1950 mostra como as mais famosas pastelarias do Porto competiam entre si nas épocas festivas.
O cliente desejava pastéis de Chantilly pois podia comprá-los todos os dias na Pastelaria Ateneia. O problema é que logo a seguir surgia publicidade igual, com o mesmo lettering e dimensões para os mesmos pastéis que se vendiam nas Pastelarias Costa Moreira.
E para aqueles que queriam comprar bolo-rei podiam ir ao Tico Tico que tinha bolo rei como ninguém, mas também à Confeitaria Cunha. Mas tinham que ser rápidos porque já estes anunciavam as ultimas fornadas.
O seu bolo rei era famoso e nesta época era publicitado numa carrinha pão de forma fotografada à frente da própria pastelaria no local anterior ao que ocupa actualmente.
Imagem tirada do site da firma
Se não conseguissem só tinham que aguardar pela Semana Santa porque a Confeitaria Cunha já tinha adquirido 10.000 dúzias de ovos para o famoso Pão de Ló da Cunha.
São pouco gulosos os portuenses!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ameixas de Elvas, um doce tradicional - 1


Tudo começou com uma caixa de Ameixas de Elvas que me ofereceram.
Gosto imenso desta fruta em conserva doce, não só para acompanhar a Sercaia ou Sericá, mas também para acompanhar carne assada.
Foi agradável, porque nem sempre é fácil encontrá-la no mercado.

Olhei para a caixa de cartão e a primeira ideia que me veio à cabeça foi como o tempo, às vezes, piora o aspecto das coisas.
A caixa apresentava-se envolvida em papel transparente, amarelo, a fazer lembrar as antigas caixas de madeira. Fiquei contente de ter uma destas, porque não tenho a certeza de ser ainda produzida.
E mais contente fiquei ainda ao pensar como fiz bem em ir juntando antigas caixas de Ameixas de Elvas, agora desaparecidas, e que mostrarei proximamente.
A “Ameixa d’ Elvas” é hoje uma produto com Denominação de Origem Protegida (DOP). O fruto utilizado é a Prunnus domestica L. ssp Domestica, da variedade “Rainha Cláudia Verde”.

Comercialmente pode apresentar-se sob a forma de:
- Ameixas frescas
- Passas - ameixa seca
- Confitadas (escorrida, em calda ou com cobertura) - ameixa transformada segundo métodos tradicionais e é sobre estas últimas que estamos a falar

Do ponto de vista histórico, a Ameixa d´Elvas, conhecida na região como abrunho, terá tido origem em França. O nome de Rainha Cláudia (1499-1524), foi-lhe dado em honra da filha de Ana da Bretanha e de Luís XII, a Duquesa da Britânia, que se tornou na primeira mulher do rei Francisco I de França.

A receita das Ameixas de Conserva fazia parte do receituário do Convento de Nossa Senhora da Consolação ou das Dominicanas, em Elvas. Fundado em 1528 foi extinguido em 1861.

Nos “Annaes de Elvas”, no capítulo XXIX, dedicado à «Industria» e reproduzido no blog de Jacinto César "Histórias de Elvas" , podia-se ler a seguinte afirmação sobre o estado da fabricação de doces, em Julho de 1852:
«Não é para esquecer, nem para desprezar este ramo da industria que aqui se exerce para nome do lugar, proveito e glória das industrias em doces principalmente no chamado toucinho do céu, e ameixa d'abrunho de frança e guadalupe. Era nos conventos das freiras de S. Domingos ou de Santa Clara, aonde isto se fazia com mais esmero; mas com o acreditado estabelecimento de Sr. José da Conceição Guerra, com fabrica de doces e licores ao arco de Santa Maria, tem afrouxado a fama do que se fazia nos conventos...».

As frases em negrito são da minha autoria e destinam-se a chamar à atenção para a passagem de testemunho dos conventos para a industria privada, na confecção destes doces.

É sobre esta empresa e outras, que se lhe seguiram, que falaremos em breve.