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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Objecto Mistério Nº 63. Resposta: Garrafa de licor.

 Deve dizer que apesar de ter mais de um milhar de garrafas de licor, adquiridas quando fiz o livro Licores de Portugal 1880-1980, e que foram crescendo posteriormente, este modelo me era completamente desconhecido.

Se existiu um industrial imaginativo e conhecedor, Leopoldo Wagner (c. 1858-1923), foi certamente um deles. A sua variedade de bebidas licorosas e os correspondentes modelos de garrafas criados por si ou adaptados para as mesmas, foi enorme[1].

Fundador da Fábrica Âncora apresentava um catálogo de bebidas a que hoje em dia nenhuma empresa se pode comparar. Para além da beleza das garrafas as bebidas eram de qualidade. Durante anos, e já após do fecho da fábrica, ainda eu procurava o Xarope de Groselha que era, de longe, o melhor em Portugal.

Leopoldo Wagner registava os modelos que criava, o que nos permite datá-los, mas não consegui encontrar este pinto, apesar de ter na base escrito MR (marca registada) que se aplica à marca da fábrica e não ao modelo.

Dito isto, trata-se portanto de uma garrafa para licor, provavelmente de “Licor de Ovo”. A fábrica onde foi feita a garrafa não está identificada mas inclino-me para poder ter sido fabricada na Fábrica Aleluia, em Aveiro.

PS. Se alguém tiver informação adicional agradeço que a partilhe. Obrigada.

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[1] Ana Marques Pereira. Licores de Portugal (1880-1980). Ed. da autora. 2013.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Publicidade ao licor do Duplo Centenário Âncora

 
Nem sempre é fácil associar um original publicitário à sua reprodução. Neste caso, calhou encontrar um anúncio ao «Licor Duplo Centenário» da Fábrica Âncora no catálogo da Exposição do Mundo Português. Secção Colonial, da autoria de Henrique Galvão e tendo o original, foi fácil.
 
No entanto, pequenas letras escritas a lápis no cimo do desenho, indicam que devia destinar-se também ao Diário de Noticias. O desenho, feito a tinta da china e guache, não está assinado e nele está escrito que licor nacional se destinava a «comemorar condignamente a Fundação e a Restauração de Portugal». Ficava assim explicado a que se destinava: às grandes comemorações que tiveram lugar em 1940 e que culminaram com a Exposição do Mundo Português, um lugar a que, se tivessemos uma máquina do tempo, todos queríamos voltar. 

Leopoldo Wagner, o fundador da Fábrica Âncora, fez sempre gosto em estar presente com os seus produtos, em exposições onde ia acumulando prémios.  Em 1932 tinha já participado na Exposição Colonial que teve lugar no Porto, em 1932, no Palácio de Cristal, com um pavilhão privativo de licores e xaropes, que foi fotografado em exclusivo pela Fotografia Alvão, Lda, e que valeu a Domingos Alvão um Diploma, tendo-lhe sido atribuído o grau de cavaleiro da Ordem Militar de Cristo pelo Presidente da República, General Carmona. 

Este «Licor do Duplo Centenário da Fundação da Restauração de Portugal - 1640», que repetia o gosto pelo historicismo já anteriormente demonstrado pela firma, foi no entanto registado já em 1938. 

No rótulo surgia, em substituição da insígnia de Fornecedores da Casa Real, a denominação «Fornecedores da Presidência da República». Isso mesmo ficou expresso nas duas placas ainda hoje existentes no antigo local da loja na rua do Alecrim, em que, as duas placas em ferro ostentam cada uma delas a diferente designação.
  
PS.

Este poste, antecede a publicação do livro «Licores de Portugal (1880-1980», que se encontra no prelo e que explica a minha pouca disponibilidade de tempo para o blog. É um pequeno aperitivo para o tema, sobre uma bebida usada após a sobremesa. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os amers ou bitters

Os amers, também conhecidos por bitters, são um tipo de licor usado como aperitivo. São feitos a partir de uma infusão de plantas amargas e de entre estas as mais frequentemente usadas são a genciana amarga (Gentianella amarella), a laranja amarga (Citrus aurantium bigarada) e a quinina (Cinchona officinalis).
A quinina foi sobretudo usada como planta medicinal e também em receitas de cocktails antigos. Hoje em dia podemos encontrá-la em pequenas quantidades na água tónica, muito usada para adicionar ao gin.
Entre os amers mais famosos está o «Angostura» de que lhes falarei à parte.
Em Itália, onde são conhecidos por amaro, são produzidos dois bem divulgados: o «Campari», com uma fórmula criada por Gaspare Campari em 1860 e o «Fernet Blanca» que data de 1845 e que se baseia numa receita inventada por Maria Scala onde entra camomila, ruibarbo, cardamomo, anis e cravo-da-índia.
Em Inglaterra são sobretudo conhecidos os orange bitters, de que vamos falar.
Antes porém, não podemos deixar de referir um dos mais conhecidos bitters, de origem francesa: o «Amer Picon». Trata-se de um licor de laranja amarga criado por um francês chamado Gaetan Picon, em 1837. Da sua composição fazem parte o amargo da casca da quina, laranja e genciana. Quando Picon estava no exército no Norte de África, em Argélia, contraiu malária. Tentou recriar uma bebida que a sua avó tinha anteriormente feito para ele, numa anterior infeção. Destilou uma infusão de alcóol com casca de laranja e a esta juntou raiz de genciana, quinina, xarope de açúcar e caramelo. Recuperou do acesso de malária, atribuindo a sua recuperação à bebida que havia produzido, facto a que, provavelmente, não terá sido alheio a presença da quinina. Do mesmo princípio partiu o seu superior que lhe encomendou maiores quantidades para as suas tropas.
Assim começou a produção de um dos «amers» mais famosos. Embora durante alguns anos apenas fosse conhecido na Argélia, onde era produzido, foi ao ganhar um prémio na Exposição Universal de Londres, em 1862, que a sua fama se disseminou.
O aumento de encomendas obrigou à abertura de uma fábrica maior, em Marselha, embora as laranjas continuassem a vir da Árgelia. A fama do «Amer Picon» não parou de aumentar tendo-se transformado numa bebida popular ainda no século XIX. Era servida misturada com água ou cerveja, tornando-se numa bebida agradável e tinha a vantagem de ser barata. Em 1937, no centenário da empresa, foi publicado um livro com a história da mesma.

Em Portugal, no final do século XIX e na primeira metade do século XX os licores tiveram grande aceitação . De entre eles realçamos o nosso bitter, que foi produzido por Leopoldo Wagner, o fundador da Fábrica de Licores Âncora.
Este bitter era feito com laranja amarga, também conhecida por laranja de Sevilha ou bigarada. Esta laranjas, distintas das laranjas doces (Citrus Sinensis), foram as primeiras a ser introduzidas na Europa, no século XII. A planta é oriunda da Ásia (Índia, sudeste da China e sul de Vietname). Os árabes levaram-na para a Arábia no século IX e começou a ser cultivada na zona de Sevilha no século XII.

Quanto às laranjas doces foram trazidas pelos portugueses do Ceilão(1), no século XVI e fomos nós que introduzimos a laranja doce na Europa. Para impedir que os outros países a elas tivessem acesso, chegou-se mesmo, em 1671 (2), a proibir a saída das chamadas laranjeiras da China(3) para fora do reino, mandando-se fazer inspecções às embarcações. Foram exportadas para Inglaterra em número cada vez maior, tendo-se mantido um luxo até ao século XVII. 
Em várias línguas existe uma palavra diferente para a laranja amarga e a doce. É o caso da Grécia que usa a palavra nerantzi para a laranja amarga e portokali, para a laranja doce.
Por todas estas razões, o nosso papel nos amers ou bitters não foi original, mas os nossos licores de laranja de Setúbal eram forçosamente únicos.

(1) Williams, S. P., The Art of Dining, pp. 101 e 152.
(2) Collecção Chronologica das Leis Extravagantes , p. 57. Referido no livro Mesa Real.
(3) A designação de laranja da China levou a pensar que estas vieram da China, mas não há a certeza se as trouxemos deste país, da Índia ou do Ceilão.