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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Farinha Maizena

No século XIX a principal utilização do amido era como goma, para tornar a roupa mais brilhante e formatada após ser passada a ferro. Existem vários tipos de amido mas falamos hoje no conhecido amido de milho que é identificado mundialmente como sinónimo da marca «Maizena».
Nos Estados Unidos a primeira fábrica de amido de milho foi fundada por Thomas Kingsford, em Oswego, Nova Iorque, em 1849, que se manteria até 1903, sendo então destruída por um incêndio. 
Mas antes disso, um dos seus funcionários, Wrigt Duryea, mudou-se para Glen Cove e fundou, em 1855, a Duryea Starch Works. Mais tarde a sua família, que havia permanecido em Oswega, constituída pelo pai e patriarca, Hendrick Duryea e os seus numerosos irmãos (nove, dos quais um faleceu jovem), juntaram-se-lhe. 
Em 1881 a designação da fábrica passou para Starch Manufacturing Cº transformando-se na maior fábrica de amido, com mais de 700 empregados, numas extensas instalações representadas nas suas embalagens amarelas.
Em 1880 existiam nos Estados Unidos mais de 140 fábricas deste tipo, mas a grande maioria era de pequenas dimensões. Por essa altura os habitantes de Glen Cove já se queixavam da poluição provocada pela fábrica. 
Talvez por isso tenham acedido a juntar-se a outros fabricantes para formar a National Starch Manufacturing Company, em 1890, mais tarde designada Corn Products Company. Apesar do sucesso comercial com exportações para a Europa a partir de 1859, a família esteve ligada a várias tragédias. Em 1886 os dois filhos de Wright Duryea faleceram ainda crianças com dois dias de diferença e um dos seus irmãos, Hiram Duryea, foi morto a tiro pelo filho por alegadas perturbações mentais.
A avaliar pelo tipo de publicidade aqui apresentada, a Maizena deve ter entrado em Portugal no final do século XIX, depois de 1893, uma vez que nela surge referência à medalha de ouro ganha na Feira de Chicago, nessa data.
O primeiro registo em Portugal que encontrámos da «Maizena» data de 1907 e era referida como um produto nacional. Foi registada pela firma «Barretos & Marques» que eram industriais no Porto, com fábrica na Rua da Restauração. Seria uma representação ou uma cópia?
Apenas em 1913 a CONOPC, Inc., de Nova Iorque, fez o registo da marca Maizena com a representação gráfica habitual. Mais tarde, em 1930, a mesma firma registava a famosa embalagem amarela, tradicional e, em 1967, uma embalagem mais moderna com duas colheres de pau.
Maizena nome que vem de "maiz" o nome original deste tipo de milho
Presentemente a marca é propriedade da Unilever e tal como desde o final do século XIX encontra-se distribuída por todo o mundo, com estratégias diferentes de acordo com os hábitos dos países. 
Continua a ser utilizada em todas as cozinhas e eu pessoalmente não abdico dela para o béchamel e para as papas de farinha.
E já pensaram porque é que tratando-se de uma farinha de milho é branca e não amarela? Afinal é simples. Porque é utilizada uma estirpe de milho branco.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Os brindes da Farinha Amparo


A Farinha Amparo foi uma das farinhas alimentícias mais conhecidas da segunda metade do século XX.
 Registada como marca em Novembro de 1943 a ela voltarei como produto alimentar, mas hoje quero apenas centrar-me nos seus brindes. É provável que a sua fama se tenha ficado mais a dever a estes do que às suas qualidades alimentares, mas ambos eram uma fonte de prazer para as crianças. 
Falamos de uma época em que tudo era valorizado. Os brinquedos eram escassos e os brindes incluídos em embalagens ou recebidos contra a entrega de tampas ou talões fomentavam a compra dos produtos.
 São conhecidos os brindes em plásticos, pequenos bonecos em forma de animais ou com outras formas que as crianças coleccionavam, mas foram também distribuídos brindes para adultos. 
Da fama destes brindes ficaram expressões de uso corrente de que o insulto gracioso e pouco ofensivo: «saiu-te na Farinha Amparo», atribuído às pessoas que guiavam mal, numa referência à forma fácil como tinha sido adquirida a carta de condução, e que mais tarde se generalizou para incluir a obtenção de outras credenciais, como as licenciaturas fáceis, perpetuou a sua memória. 
São contudo mais raros os brindes para adultos de que aqui se apresentam dois exemplos, para o sexo feminino e para o masculino, respectivamente. Uma surpresa quando se abrem!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Farinha Alimentícia Serpentina

Na procura de informação sobre os licores açorianos fui alertada por amigos[1] para a publicidade à «Farinha Serpentina».
Foi precisamente Ezequiel Moreira da Silva (1893-1974), um dos pioneiros na produção de licores de maracujá, quem iniciou também a produção deste tipo de farinha, nos Açores.
Ainda hoje as Papas de Serpentina, uma sobremesa preparada com farinha extraída de uma planta de nome Serpentina, são um dos doces típicos da freguesia de Ribeira Chã. Mas vejamos o que é a serpentina que eu desconhecia. O seu nome científico é Arum italicum Mill. subsp. neglectum e o nome vulgar: jarro, alho-dos-campos, arrebenta-boi, bigalhó, candeias, sapintina, serpentina e jarro-dos-campos. É sob este último nome que é mais conhecida no continente. 
Basilius Bessler, Hortus Eystettensis, 1640

O género Arum L. pertence à família botânica das Aráceas e é constituído por cerca de 26 espécies das quais duas crescem espontâneamente em Portugal. Embora seja mais conhecida como planta ornamental, este tipo de jarro tem sido usado na alimentação, mas apenas o rizoma (caule subterrâneo), porque as restantes partes da planta são tóxicas. Mesmo os rizomas, habitualmente transformados em farinha[2], que pode ser utilizada para fazer pão[3], devem apenas ser usados cozinhados.
A planta foi usada como produto medicinal para tratamento das perturbações gástricas. O facto de ser utilizada para os mesmos fins nos Açores, em Portugal continental e na América no Sul, segundo alguns investigadores, indica uma relação com povoamento das ilhas na época dos Descobrimentos.
Ezequiel Moreira ao centro, com alguns alunos do colégio que possuía, cerca de 1920.
Quando Ezequiel Moreira da Silva decidiu implementar a utilização desta farinha divulgou no arquipélago a cultura desta planta. Os agricultores cultivavam-na e vendiam os rizomas ao empresário que a transformava em farinha e a vendia em Lisboa nos Estabelecimentos Jerónimo Martins. Com o tempo, estes pensaram que podiam ganhar mais dinheiro moendo eles a serpentina. Mas a qualidade ressentiu-se e Ezequiel Moreira da Silva veio a Lisboa comunicar que suspendia a produção e acabou a produção de Serpentina.
Nas memórias de seu filho, com o mesmo nome, publicadas no jornal «Correio dos Açores» e acessíveis na internet, ficamos a saber que foi o próprio fundador quem escreveu as quadras «Cravos e Alcachofras», que compõem um folheto de oito páginas, que acompanhava a publicidade à Farinha Serpentina, ainda nos tempos áureos da sua produção.


[1]  Agradeço a informação ao Afonso Oliveira que nos Açores contactou o neto de Ezequiel Moreira, Rui Coutinho, que completou a informação sobre a antiga actividade e me facilitou a fotografia do avô.
[2] Os ingleses extraiem dos rizomas uma fécula que é conhecida como Sagu de Portland.
[3] Foi sobretudo usada em tempo de dificuldades. Em França, durante a revolução francesa, fazia-se com ela pão e uma espécie de bolos.