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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Jantares e amigos


«Os jantares são os laços inocentes da sociedade» dizia Jean-Baptiste Massillon (1663- 1742) religioso francês, reconhecido pela sua oratória e que certamente o seria pela vida social a avaliar por esta sua citação.
Assim começava uma pequena rubrica de um Almanaque do século XIX, sem capa e em que este texto se apresentava na primeira página, como se eu não pudesse ignorá-la. Na lombada pode ainda ver-se que se tratava do Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro de 187?.
Tenho sempre uma curiosidade pelos Almanaques, um pot-pourris de informações que no século XIX foram publicados em profusão.
A palavra Almanaque é de origem árabe e vem de “Almanakh”, que significa o “lugar onde a gente manda ajoelhar os camelos”, isto é, o local em que os nómadas se reuniam para rezar e contar as experiências de viagens por outras terras. Em português, almanaque refere-se a uma publicação que apresenta um calendário, mas que é preenchido com informações variadas, no âmbito da ciência, da literatura, da história e da poesia, sendo os textos mais sérios entremeados com assuntos recreativos, como charadas e passatempos, e por vezes histórias humorísticas.
Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro foi publicado entre 1872 e 1898 (inclusive) e seguiu-se ao Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro publicado em 1851 por Alexandre Magno de Castilho até 1861 e após a morte do fundador por um sobrinho com o mesmo nome e, de 1872 a 1897, por António Xavier Rodrigues Cordeiro.
Foi nestes almanaques que Guiomar Delphina de Noronha Torrezão (1844-1898) colaborou tendo aí ido buscar a inspiração para fundar o Almanach da Senhoras planeado no ano de 1870 para sair no ano seguinte, com era habitual, tendo esta publicação terminado em 1928.
Guiomar Torrezão. Foto tirada da Wikipédia
Após a sua morte foi a sua irmã Felismina Torrezão quem assumiu a direcção. No Almanach da Senhoras colaborou também Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921) e muitas outras mulheres portuguesas e brasileiras que deram o melhor de si para fazer ouvir a voz feminina e educar as mulheres com vista à sua emancipação, numa época em que a sociedade ainda lhes vedava o ensino.
Pelo caminho ficaram excertos como este sobre o papel dos jantares de que omiti o final por ser menos interessante.
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Bibligrafia:
Andrea Germano de Oliveira Romariz. (2011). O Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro: Um ensaio para um Projecto maior?. Dissertação de Mestrado em Estudos Românicos Cultura Portuguesa. Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O "Almanach das Senhoras" para 1923

Nos finais do século XIX e primeiro quartel do século XX foram publicados vários almanaques. A palavra almanaque vem do árabe al-manakh (1) que significa «lugar onde o camelo ajoelha», querendo portanto referir-se a um ponto de encontro. Um livro com essa designação apresenta um calendário do ano com as festas anuais, informações úteis, informações culturais, actualidades, charadas, etc.
O que este “Almanach das Senhoras” tem de diferente é que se trata de um almanaque feminino, escrito e publicado numa época em que as mulheres tinham ainda muita dificuldade em impôr-se na literatura. Foi um anuário fundado por Guiomar Torrezão (1844-1898), em 1871, e que se publicou até 1928. A sua acção valeu-me muitas críticas sobretudo da parte de escritores mais conservadores. Isso no entanto não impediu a colaboração de outros elementos do sexo masculino, como foi o caso de Rafael Bordalo Pinheiro que desenhou a capa de 1876/1877.
De entre as muitas colaboradores destaco também Maria Amália Vaz de Carvalho.
Quando morreu Guiomar Torrezão, seguiu-lhe a sua irmão Felismina Torrezão, como proprietária e Júlia de Gusmão como directora literária.
A publicação para o ano de 1923, é já da Parceria de António Maria Pereira e tinha como directora literária Maria O’Neill. Esta fazia parte do “Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas” fundado em Março de 1914, sob a direcção da médica ginecologista Adelaide Cabete (1867-1935), que havia já participado na criação da “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, em 1909, com Ana de Castro Osório.
Este número de 1922/1923 comemora também a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, feita pelos aeronautas portugueses Gago Coutinho e SacaduraCabral, em 1922, aquando das comemorações do Primeiro Centenário daIndependência do Brasil. O mesmo aconteceu com o “Almanaque Ilustrado do Jornal o Século” do mesmo ano, que na sua capa apresentava o avião dos dois heróis nacionais.
Voltamos ao “Almanaque das Senhoras”, que é muito interessante também no que respeita à sua publicidade, e de que apenas apresento dois anúncios. O primeiro de um produto para «emagrecer sem perigo» e um segundo, vanguardista, de um outro medicamento francês para regular os períodos menstruais.
Apesar de feminista este número presta homenagem a vários homens da sociedade portuguesa, com um pequeno texto e fotos. Saliento o dedicado a Felix Bermudes, autor de «João Ratão», do «Conde Barão» e da «Pérola Negra». Após o elogio a autora escreve:«Enfim não há ninguém que não tenha um senão; o de Felix Bermudes é caçar. Desejamos que uma lebre agonizante lhe lance um olhar que o comova e o convença a respeitar a vida dos animais. Estão será perfeito».
Contudo esta opinião não impediu de publicarem uma foto intitulada «Refeição de caçadores», enviada pelo colaborador Francisco Alves Ferreira e que representava o caçador de hipopótamos sr. Leonel de Lemos e os seus companheiros, na lagoa de Ingolome, «restaurando as forças com uma substancial refeição na qual não foi o acepipe menos apreciado uns saborosos bifes de hipopótamo, convenientemente regados, a ajuizar pelo bojudo garrafão que figura junto da improvisada mesa».
(1) Machado, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.