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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Uma escova terapêutica

O fascínio pela electricidade e em especial pelos campos electromagnéticos, que teve grande desenvolvimento com as teorias de James Clerk Maxwell em 1861, levou ao aparecimento de novos objectos domésticos.
Imagem tirada da internet
Utilizando esta ideia o Dr. George A. Scott, um inglês empreender, inventou vários objectos por ele descritos como curativos como pentes, escovas, espartilhos, etc.
Apoiado numa campanha publicitária, publicada em várias revistas e jornais, expandiu-se para os Estados Unidos onde registou as suas patentes.
Foi uma sorte o aparecimento desta escova que atraiu a minha curiosidade por ter características de século XIX mas ter escrito «Electric» e mais abaixo, em círculo, a afirmação: "The Germ of all Life is Electricity".
Feita num material plástico duro, que não sei identificar, mas que era ele também uma inovação na época, tem incorporadas as cerdas para pentear o cabelo. A acompanhar a escova vinha uma bússola cujos ponteiros se desviavam na presença da escova. Não sendo metálica mas em plástico isso provava que a mesma continha “electricidade”.
Era essa característica que lhe conferia efeitos terapêuticos. Na realidade na sua pega existiam fios de ferro ligeiramente magnetizados que produziam esse efeito. Segundo o seu inventor o uso desta escova levava a um cabelo mais sedoso, fazia crescer o cabelo e tirava as dores de cabeça. Mas adicionavam-se outras vantagens terapêuticas dizendo que curava doenças do sangue (esta é do meu especial agrado), obstipação, reumatismo, etc.
Com o seu sentido prático advertia que a escova não podia ser partilhada pelos outros elementos da família, correndo o risco de se tornar ineficaz.
Na década de 1890 o entusiasmo com estes utensílios, começou a desaparecer mas surgiram outros objectos igualmente inúteis a explorar a boa-fé e ignorância das pessoas. Muitos ainda se devem lembrar das pulseiras magnéticas, extensíveis, dos anos 70 que inundaram Portugal. Substituídas por outras diferentes, metálicas e com duas bolas nos anos 80, surgiram novamente em 2010 dessa vez com a desculpa de que resultavam de estudos da NASA.
Nada de novo à superfície da Terra. Só a descoberta desta escova.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O ferro de engomar eléctrico nas facturas da CRGE

Nas décadas de 1920 e 1930 as facturas da Companhias Reunidas de Gás Electricidade (CRGE) não se limitavam as apresentar as contas aos seus clientes. Eram também educativas e serviam de veículo para a divulgação dos novos electrodomésticos.
Apresentei há algum tempo uma factura em que se fazia a defesa do uso do frio para a conservação dos alimentos.
Hoje mostro outras facturas, por ordem cronológica, em que se focavam as vantagens de engomar com ferros eléctricos. Vantagens evidentes se pensarmos nas alternativas.
Na realidade no final dos anos 30 os ferros de engomar, que a própria CRGE vendia a prestações mensais, eram já o segundo electrodomésticos nos lares portugueses, apenas suplantado pelos rádios.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Quando as facturas de Electricidade eram bonitas

 Talvez ainda se lembram da C.R.G.E (Companhias Reunidas de Gás e Electricidade). O que já não se podem lembrar é das facturas antigas.
 Vejam como eram bonitas, informativas e com um preço tão agradável.
A empresa na altura estava apostada na divulgação dos electrodomésticos, ainda raros em Portugal.
 Nesta factura valorizava-se a importância do frio na conservação dos alimentos e deixava-se um convite para uma exposição sobre o tema no Cinema Tivoli.
 Como sugestão apresento um anúncio dessa época a um frigorífico «Electrolux». Foi publicitado no jornal «O Século» de 18 de Julho de 1939.
O seu preço era ainda elevadíssimo, o que explica que fossem uma raridade nos lares portugueses. Quanto ao modelo, se tiverem curiosidade, podem vê-lo num poste anterior.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os Ferros Eléctricos Morphy Richards

O ferro eléctrico foi o aparelho doméstico que mais depressa ganhou lugar nos domicílios portugueses. Não é de admirar se pensarmos no que existia anteriormente: os ferros aquecidos com carvão em brasa.

A primeira patente de um ferro eléctrico surgiu em 1882 registada por Henry W. Seely, um americano de Nova Iorque. Os primeiros ferros utilizavam um arco de carbono que não era um método seguro. Foi dez anos depois, em 1892, que surgiram ferros com resistência eléctrica, registados inicialmente por duas companhias a Crompton Cº. e a General Electric.
Em 1905 Earl H. Richardson introduziu no mercado um ferro que concentrava o calor na base do mesmo, um enorme avanço se nos lembramos que até aí todo o corpo do ferro aquecia. A presença deste ponto quente (hot point) foi um sucesso e em 1907 a própria empresa que os produzia passou a designar-se Hotpoint Electric Heating. Seria mais tarde integrada no grupo General Electric.
Esta é uma parte da história americana dos ferros eléctricos. Na Europa foi em Inglaterra que um engenheiro de nome Charles Richards, se  associou a um vendedor, Donal Morphy, para formarem uma empresa designada Morphy Richards a 8 de Julho de 1936. Em 1938 começaram a fazer ferros eléctricos que tiveram grande divulgação tanto no país de origem como no nosso.
 Quanto aos ferros a vapor só surgiram na década de 50 e os créditos para a sua invenção são atribuídos a Thomas Sears. Quanto à Morphy Richards começou a produzi-los em 1954, tendo lançado um modelo tão revolucionário que se iria manter durante 20 anos.
Em Portugal foi sobretudo a partir da década de 1930 que se deu a passagem do uso de ferros de passar não eléctricos para eléctricos. O Instituto Nacional de Estatística, em 1930, registou uma importação de ferros não eléctricos da ordem dos 80%, mas em 1932 esta já tinha descido para 30% e em 1937 para 13%. Nos anos 50 os ferros eléctricos estavam à frente de qualquer outro electrodoméstico nos lares portugueses, apenas superado pelas telefonias.
A marca Morphy Richards, uma das mais divulgadas, era vendida em Portugal pelos Estabelecimentos Sida, situados na rua de S. Nicolau, 44-48. Publicitados em várias revistas como a Eva, estes ferros tiveram na década de 1950 grande sucesso com uma linha com cores suaves em azul, amarelo e verde.
O expositor aqui apresentado tinha a finalidade de mostrar um modelo de ferro da marca Morphy Richards. Destinava-se ao mercado português e foi feito no nosso país por S. Freitas, que realizou outras peças deste tipo, para outros produtos.

A imagem de um casal feliz em que a mulher agradece ao marido a oferta de um ferro Morphy Richards com vários beijos na face traduz uma realidade que durante décadas se viveu em Portugal: a da oferta de electrodomésticos pelos aniversários e Natal às donas-de-casa. A legenda sucinta diz tudo:«Ah. Um Morphy Richards».

terça-feira, 10 de abril de 2012

A minha TROIKA

A palavra «troika» é de origem russa e designa um trenó puxado por três cavalos. Começou depois a ser usada em política passando a designar um grupo dirigente constituído por três membros. Hoje não preciso de dizer o que é porque todos os portugueses sabem.

O que não sabem é que existem “troikas electricas” destinadas a fazer torradas. Eu também não sabia até me ter deparado com esta torradeira. Devo dizer que depois de várias buscas esta Troika se manteve um mistério para mim. Não encontrei qualquer referência. A única marca registada de artigos eléctricos que encontrei com este nome produziu também torradeiras e foi registada pela primeira vez em 1999. Situava-se em Brooklyn, Nova Iorque, e já não existe.
É de supor que não foi a produtora desta torradeira, cujas características apontam para ter sido produzida na década de 1950-1960. Nos Estados Unidos a partir de 1960 as torradeiras deixaram de ser abertas. Ao contrário do nosso país onde ainda hoje, felizmente, se podem comprar torradeiras com portas móveis que permitem colocar o pão, com a espessura que queremos, a torrar.
Ainda me lembro de levar para Nova Iorque uma torradeira deste tipo pedida por uma amiga minha portuguesa que então lá vivia.

O mundo das torradeiras é fascinante pela sua variedade e os primeiros tempos foram de grande imaginação, o que levou a uma multiplicidade de modelos que não tem fim. Com princípios conturbados pela dificuldade em encontrar uma resistência eléctrica que fosse duradoura, campo em que Edison teve uma palavra importante na aplicação desta às lâmpadas eléctricas, a sua data de início é também discutível.
Atribui-se a Frank Shailor da General Electric o primeiro registo de patente de torradeira com a designação de D-12, em 1909. Mas em 1917, a Electric Point referia num anúncio  terem sido os primeiros, 12 anos antes, isto é, em 1905, a produzir a primeira torradeira. 
Torradeira em exposição no National Museum of American History, Washington

Da grande variedade de primeiros modelos salienta-se a preocupação com a manutenção das torradas quentes, enquanto se faziam outras. Uma das soluções encontrada foi a de colocar sobre a torradeira grelhas horizontais ou, em alternativa, apresentadores de torradas verticais. Designados pelos ingleses por «toast racks» e sem tradução adequada que eu conheça, é este último tipo o que apresenta a torradeira Troika.
Para quem não sabe nada sobre a torradeira já falei demais.
Conclusão: cada um tem a Troika que merece.

sábado, 19 de março de 2011

O frigorífico Electrolux de 1939

Portugal começou lentamente a aceitar a eletricidade e os electrodomésticos.
Em 1930 o número de consumidores de electricidade era ainda de 60.000, tendo aumentado para 106.000, em 1936. O ano de 1939 é um ano de referência com 150.000 consumidores e com 179 centrais de serviço público.
Foi nesse ano que a Revista Eva apresentou, no mês de Agosto, publicidade ao frigorífico Electrolux.

Para o promover publicita:«Funciona e regula a temperatura sem vibrações e sem ruídos». E a comprová-lo pode ver-se uma criança que dorme serenamente, abraçada ao seu ursinho.
Com lojas em Lisboa, na Avenida da Liberdade, 141, e no Porto na Praça da Liberdade, 123, a Electrolux apresentava então cinco modelos diferentes.

Em 1925 a Elecrolux tinha comprado a empresa Arctic e lançou o primeiro frigorífico no mercado, o “Frigorífico D”. Mas em 1927 a General Eletric lançou o modelo “Monitor Top” que apresentava o motor circular, em cima do frígorifico. Era o tipo de frigorífico que apresentava ainda pernas altas, baseando-se no aspecto dos móveis, única referência então existente.
Foi um sucesso que durou alguns anos. O frigorífico, utensílio caro, começou a ser vendido em massa nos Estados Unidos, o que permitiu uma baixa de preços.
Mas seria a Electrolux a criar em 1930 o primeiro frigorífico compacto, isto é, com a área de congelação integrada.
1º frigorífico Electrolux compacto. Foto do arquivo da empresa
É o que podemos ver no modelo representado na publicidade. Já sem motor visível, o frigorífico apresenta ainda as pernas altas. Por pouco mais tempo.
Já em 1935 o designer Raymond Loewy, de origem francesa, a viver nos Estados Unidos, tinha desenhado para a Sears o modelo Coldspot, que se assemelhava a um cofre esmaltado. O aspecto do frigorífico foi tão atractivo que as vendas subiram em flecha nos anos seguintes, confirmando a importância do design. Depois deste sucesso os frigoríficos perderam definitivamente as pernas.