domingo, 19 de maio de 2019

A «Taberna Vendaval» em Setúbal


Descobri-a apenas hoje mas as pessoas da terra conhecem bem este espaço. O prédio, situado numa rotunda, está ladeado por edifícios novos e encontra-se coberto por grandes painéis pintados modernos, onde foram desenhadas as entradas de uma pizzaria, que se encontra ao lado, e da própria taberna. 
Esta cobertura, com imagens de pessoas felizes a comer, deve-se à transformação do edifício onde irá nascer, presume-se, um novo prédio. No alto visualiza-se um pequeno terraço, com plantas, junto a uma chaminé, que devia servir para os habitantes da casa, espraiarem os olhos pela zona envolvente, cada vez mais citadina.
Parte da antiga taberna
Entra-se e observam-se duas pequenas salas que correspondem à zona da antiga taberna e uma outra maior que era a antiga mercearia. Esta última está cercada por armários de madeira, pintados com tinta de esmalte creme, que antes se destinavam a colocar as mercearias para venda e hoje servem de abrigo a peças decorativas. Ainda lá estão as tulhas que serviam para colocar os cereais para venda a granel. O chão está coberto por mosaicos hidráulicos da época. Nas paredes alguns objectos decorativos e, logo à entrada, um quadro em lousa, escrito a giz, informa-nos dos pratos que são servidos no dia.
Zona das antigas tulhas
A ementa é simples: carne ou peixe grelhados na brasa, acompanhados de batatas e salada mista escolhida e temperada pelo cliente, a seu gosto, na mesa. As sobremesas são as tradicionais portuguesas como o travesseiro de noiva, as farófias, etc.
Local da antiga mercearia
Peixe e carne de boa qualidade satisfazem os apetites de quem procura esta taberna, de nome e de origem. Não há marcações e forma-se bicha para conseguir comer.
Há mais de 30 anos que passou para as mãos de Ângela Duarte e depois para as suas duas filhas Vera e Cátia, que nos servem à mesa. Antes de ser restaurante era um local de petiscos como acontecia com as tabernas tradicionais.
Agora vai fechar. Deram-nos um cartão para visitarmos a «Nova Taberna Vendaval» onde anunciam «O melhor peixe assado». Dizem que vão levar os objectos que a decoram. Espero que não matem a galinha dos ovos de ouro aqui representada pela autenticidade, simplicidade e qualidade.
Espero que cumpram. Vou voltar para ver.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Museu Virtual: tacho duplo


Nome do Objecto: Tacho duplo 

Descrição: Utensílio de cozinha de base circular, cilíndrico, baixo e com tampa. Encontra-se dividido em dois corpos que se podem juntar possuindo cada uma das metades duas asas e tampa própria.


Material: Alumínio anodizado* e baquelite.

Época: Década de 1950- 1960
Marcas: Lateralmente encontra-se a imagem de um castelo e a designação da marca «Castelo»

Origem: Oferta de Maria Cecília Alçada Rosa (Covilhã).

Grupo a que pertence: Equipamento culinário.

Função Geral: Cozinhar alimentos.

Função Específica: Cozer legumes
Nº inventário: 3529

Objectos semelhantes: Não registados.

Observações: Existem também tachos tripartidos com a mesma função deste. Destinam-se a cozer alimentos com diferentes tempos de cozedura de forma independente mas destinados à mesma refeição. Apresentam também a vantagem de não misturar sabores.

* Não estou certa que o material com que se encontra feito o tacho esteja bem identificado. Agradeço a correcção a quem souber.

domingo, 5 de maio de 2019

A rabaça, uma planta venenosa


No último feriado fui à quinta de uma amiga onde andámos a colher favas e ervilhas. No meio das ervilhas encontramos uma planta semelhante à salsa, mas mais alta e viçosa. Por sorte perguntámos à pessoa responsável pela horta que planta era aquela. Explicou-nos que se tratava de «rabaça ou arrabaça» uma planta venenosa. Contou-nos o caso de dois jovens que, em 2018, tinham ido fazer um percurso na região de Santarém e que comeram estas plantas. Partilharam nas redes sociais que estavam a viver de plantas e raízes. A toxicidade rapidamente se fez sentir e quando os meios de socorro chegaram já os encontraram mortos.
Fiz uma pesquisa na internet e descobri um outro caso mortal com várias vacas que, no Alentejo, em 2017, morreram por comer as raízes. Os animais evitam estas plantas, mas nesse ano foi um ano de seca pelo que, depois de comerem as folhas, passaram para as raízes e morreram rapidamente. Na realidade as raízes são fortemente venenosas devido à presença de Enantetoxina. Antigamente as pessoas usavam-nas para pescar no rio, apanhando depois o peixe que morria e vinha ao cimo da água.

Mas que planta é esta? Em Portugal é conhecida por vários nomes, além dos já referidos: Embude; Nabo do diabo; Salsa-dos-rios; Cana freixa; Acibuta ou aciguta; Prego-do-diabo; Flor do vinho (gregos) e enanto-de-cor-de-açafrão. O seu nome científico é Oenanthe crocata, pertence à família das Umbelíferas e cresce em meios húmidos, como perto de riachos ou linhas de água. A sua toxicidade é semelhante à da Cicuta de que todos já ouviram falar, sobretudo pela morte do filósofo Sócrates. Actua sobre o Sistema Nervoso Central e o tubo digestivo e a taxa de mortalidade é de 70%. A morte é rápida, em cerca de três horas, e as pessoas morrem com um esgar facial que parece um sorriso e que é chamado «sorriso sardónico».


Achei que devia falar sobre a Rabaça por várias razões, mas a principal é que me espantou a minha ignorância sobre esta planta de crescimento tão frequente em Portugal. Penso que não estou sozinha nesta falta de conhecimento, pelo que seria bom partilhar esta informação. Existe um medo generalizado dos cogumelos selvagens, mas sobre as ervas venenosas (não apenas tóxicas) e as flores que têm também estas características ninguém fala. Com a mania dos citadinos de brincarem aos camponeses não será de espantar que mais casos destes possam vir a suceder.
Tanto mais que no Alentejo existe uma planta comestível que se chama Rabaça ou Arrabaça (Apium nodiflorum L.), mas que nada tem a ver com esta. Portanto não comam plantas ou flores que não conhecem. Não digam que não os avisei!
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PS: Como não contava falar sobre este assunto não fotografei a planta, pelo que todas as imagens foram tiradas da internet.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

De volta ao Kumquat

 Há cerca de um ano provei este citrino pela primeira vez e causou-me tão agradável sensação que falei nele neste blogue (ver o citrino kumquat). Tive agora a oportunidade de o tornar a comer, uma vez que estamos na sua época e posso confirmar que é extremamente agradável.
Já se vendem as plantas meio crescidas que aconselho a comprarem porque é um arbusto de crescimento lento.
As pessoas com quem partilhei os exemplares que consegui não o conheciam e não sabem como se come.
Por isso volto hoje a este fruto para dizer:
·         Come-se inteiro com casca, depois de lavado
·         Pode cristalizar-se.
·         Pode acompanhar pratos de carne.
·         Pode fazer-se compota.
·         Serve para fazer chutneys
 Enfim, pode utilizar-se como qualquer citrino. Mas nada bate o seu sabor comido ao natural. Aproveitem, se o conseguirem encontrar.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Dois irmãos-de-leite


Esta fotografia enternecedora, e ao mesmo tempo surpreendente, foi transformada em postal ilustrado e representa dois irmãos-de-leite em Angola, em 1932, no Vicariato de Huambo. O espantoso é que um é uma criança de raça negra e o outro uma cabrinha de tenra idade. Ambos sem mãe que lhes desse leite foram alimentados com o leite existente na garrafa que se encontra entre eles.
A legenda, na face posterior do postal é clara: «Dois irmãos de leite. Vicariato do Huambo, 1932». Esta designação de irmãos-de-leite, isto é, irmãos não consanguíneos a que eram atribuídos laços de familiaridade pelo facto de serem amamentados pela mesma mulher, também era conhecida por «irmãos colaços». D. Francisco Manuel de Mello, na Feira de Anexins, usa-a com esse sentido (p. 30).
Mãe preta. Fotografia tirada da internet
No Brasil essa função competia muitas vezes às escravas negras e mais tarde às criadas que haviam tido filhos. Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, refere-se a esse facto que considerava explicar «muito do pendor sexual que se nota pelas mulheres de cor, por parte do filho-família, nos países escravocratas». Mas este hábito foi usado em muitos países e cortes europeias, facilitando assim maternidades mais precoces (a amamentação impede a fertilização) e uma maior liberdade da mulher de sociedade.
Em oposição situava-se a «ama-seca» expressão aplicada à mulher que trata das crianças, sem as amamentar.
Ama-de-leite. Fotografia tirada da internet
Para enquadrar esta imagem quero acrescentar que a informação sobre este Vicariato e a Acção Missionária Angolana na região do Huambo é escassa antes de 1940. Há referência a um Seminário de Caála no Huambo, fundado em 1921 sob a responsabilidade do Padre Joaquim Alves Correia. Em África as várias estruturas missionárias religiosas foram afectadas pela implantação da República em 1910 e estes missionários deixaram de ser considerados funcionários públicos. Em 1921 um Decreto do Ministro das Colónias, Rodrigues Gaspar, enquadrou os missionários na sua função, sendo utilizados pelo Estado para fins civilizadores, mas dependentes da Igreja católica e da sua disciplina. No entanto apenas em 1926 seriam publicados o Estatuto Orgânico das Missões Católicas Portuguesas em África.
Irmãos-de-leite. 1883. Foto tirada da internet.
No Huambo os missionários, em especial os padres da Congregação do Espírito Santo, exerceram a sua acção sobretudo sobre os Ovimbundu, com uma expansão agrícola regional na década de 1920, que viria a decair na década de 1940 com as fazendas mais produtivas a tornaram-se propriedade dos colonos brancos.
Na década de 1930 o Huambo ainda era o paraíso, com irmãos-de-leite diferentes a partilharem o leite de um outro animal desconhecido.
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Bibliografia:
LECOMTE Padre Ernesto, (1937 - 6.ª edição), Cartilha da doutrina cristã em portuguez e mbundu. Huambo, Tipografia da Missão.
DULLEY, Iracema, «Cristianismo e distinção: uma análise comparativa da recepção da presença missionária entre os «Ovimbundu» e os «Ovakwanyama» de Angola », Mulemba [Online], 5 (9) | 2015, consultado a 16 abril 2019 em http://journals.openedition.org/mulemba/404 ; DOI : 10.4000/mulemba.404
MELLO, Francisco Manuel de, (1875). Feira dos anexins obra posthuma de D. Francisco Manuel de Mello / ed. dirigida e revista por Innocencio Francisco da Silva. Livraria de A.M. Pereira: Lisboa.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Madre-de-louro


Foi uma autêntica descoberta para mim esta planta oferecida pela minha amiga Isabel Fernandes, para ser utilizada como infusão. Foi comprada na Ilha da Madeira no mercado de Santo António da Serra e foi-me descrita como sendo uma excrescência do loureiro, que crescia no lado virado a Norte. 
Foto tirada do site do Instituto da Florestas e Conservação da Natureza
É desconhecida no continente porque se desenvolve apenas na Madeira (na Laurissilva), na Galiza e nas Ilhas Canárias (Gomera, La Palma).
 O seu nome científico é Laurobasidium laurii, e é uma cecídea provocada por um fungo específico que vive como parasita sobre o loureiro Laurus novocanariensis. Não surge abundantemente porque só se desenvolve em árvores com mais de 10 anos. (Cruz Morais, 1987). Apresenta-se na árvore com um aspecto em hastes de veado que começam por ser verdes e vão escurecendo tomando, quando seca, esta cor castanha que aqui se vê.
 
Muito apreciada na Madeira é sobretudo na freguesia da Fajã da Ovelha que é mais utilizada. É usada em infusão sozinha ou com outras ervas, como botões de macela, erva-cidreira-de-caninha, salva-de-nossa-senhora, gervão, funcho, hortelã-pimenta, orégãos, canela-de-pau, erva-doce, noz-moscada, arruda e casca de limão, sendo adoçada com açúcar ou mel.
Tem uma aplicação vasta em resfriados, como hemostática, em doenças reumatismais, em doenças circulatórias e muitas outras indicações.
No período pós-parto, é dado às parturientes um pequeno cálice de “infusão” de madre-de-louro e alfavaca (Parietaria judaica), sempre-noiva (Polygonum aviculare), canela-branca (Peperomia galioides).
 Estes conhecimentos de sabedoria popular têm sido objecto de estudo e em 1987 Cruz Morais escreveu a sua tese de Doutoramento com um estudo etnofarmacológico para melhor perceber as utilidades medicinais da madre-de-louro. Descobriu que as substâncias bioactivas deste fungo eram lactonas sesquiterpénicas, posteriormente estudadas por outros autores.

Para além do uso medicinal a madre-de-louro também é usada para fazer licores e outras bebidas, apreciadas pelo seu sabor agradável, e a que também são atribuídas propriedades calmantes.
Já agora, também tem uso na cozinha servindo para cozinhar carne dura que, doutro modo, não seria apta para consumo.

Bibliografia:
- Freitas, Fátima; Mateus, Mª da Graça. Plantas e seus usos tradicionais na Freguesia de Fajã da Ovelha. Parque Natural da Madeira. Consultdo online a 6-4-2019 em https://issuu.com/parquenaturalmadeira/docs/livro_plantas_versao_final/4
- Morais, JMC. Identificação e acção farmacológica de alguns constituintes do fungo parasita Laurobasidium lauri (Geyler) Julich e a sua detecção na planta hospedeira Laurus azorica (Seub) Franco. Tese de Doutoramento, Universidade de Lisboa, Faculdade de Farmácia 1987. Consultado online a 6-4-2019 em https://digituma.uma.pt/bitstream/10400.13/626/1/MestradoMariaJo%C3%A3oCarvalho.pdf