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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Os sameirinhos de Braga



No meio das fotografias por organizar, encontrei esta imagem de uma família que visitou o Santuário do Sameiro, em 1943. O casal, montado em burros, era acompanhado por um outro indivíduo mais velho, igualmente montado num outro animal. Presume-se que subiram lá acima neste meio de locomoção em alternativa à subida do escadório.  À primeira vista podia-se presumir que as duas crianças na frente do casal eram familiares do mesmo. Mas olhando bem vê-se que estão descalças e que o seu à-vontade é total, segurando nas rédeas dos burros. De aí eu concluir que seriam responsáveis pela condução dos animais, talvez trabalhando para o homem mais velho engravatado.

Mas o que me chamou à atenção foi o local onde foi tirada a fotografia: em frente à Doçaria Sameiro. Embora os letreiros exteriores estejam parcialmente cobertos, pode ler-se, debaixo do nome, que vendia “Vinho Verde (?) e Maduro e Laranjadas.” Por baixo estaria o nome do proprietário de que só se consegue ver o SILVA, estando obliterada a primeira palavra.

Esta Doçaria, dado o seu nome e localização, venderia seguramente os “sameirinhos”, doces a cuja receita se atribuí uma proveniência conventual e que são considerados como uma das especialidades de doçaria genuinamente bracarense. São pequenos bolos feitos com uma massa estaladiça e são recheados com um doce de ovos e amêndoa.  São hoje vendidos em algumas pastelarias tradicionais de Braga,  com o formato de um pequeno rectângulo ou barquinho, sendo muito apreciados .


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os Cacos de Hóstia

Há muitos anos atrás visitei um ferro-velho à entrada de Évora, de que algumas pessoas dessa cidade ainda se lembrarão. Situava-se junto a um dos arcos de entrada e infelizmente esqueci o seu nome. A loja encontrava-se cheia dos artigos mais diversos e curiosos. Na altura chamou-me à atenção uma máquina com duas pás, em ferro, para fazer hóstias. Infelizmente não o comprei, mas achei-o suficientemente interessante para tirar uma fotografia ao proprietário com o aparelho ma mão. Não consigo encontrar a fotografia, que seria adequada para apresentar agora, e na vez seguinte que voltei a Évora a loja já tinha fechado.
Imagem tirada da internet
Esta memória foi-me suscitada pela oferta que a minha amiga Conceição me fez de Cacos d’hóstia. Trata-se de restos partidos das placas de hóstia feitas no Instituto Monsenhor Airosa (IMA), em Braga. É nesta instituição social, fundada em 1869 pelo padre que lhe viria a dar o nome e transferida em 1879 para o extinto Convento da Conceição, que são feitas estas hóstias. 
A venda destes fragmentos, que só começou a ser feita em 2016, reverte a favor da instituição. Antes os restos eram oferecidos, talvez por se achar que um produto destinado à Eucaristia não devia ter um fim comercial. Mas as hóstias só depois de consagradas na missa se tornam sagradas, assumindo o sentido do corpo de Cristo. Antes são, segundo o conceito católico, placas de obreia.
Fabrico de hóstias em Ponte Nova no Brasil
Quando eu era pequena frequentei na Covilhã a chamada escola da Maria Gabriela. Era uma escola privada que tinha uma pequena capela. Um dia um dos alunos comeu todas as hóstias destinadas à missa do dia seguinte. Grande escândalo!. A dúvida era se este acto representava pecado ou não. A conclusão foi de que fora um furto por gulodice, não sendo um acto pecaminoso pelas razões anteriormente referidas.
Partículas de hóstias com Lemon curd
Acresce-se outro aspecto importante. Desde 1999 que na Oficina das Hóstias da IMA são fabricadas hóstias feitas com farinha de trigo sem glúten. Este aspecto permite o seu consumo por crentes com doença celíaca e facilita a sua exportação para vários locais do país e para o estrangeiro.
Agora só falta provar os cacos d’hóstia ou os pedaços de placas de obreia que durante séculos foram a base para tantos doces, em especial os de ovos.