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segunda-feira, 12 de março de 2018

Lançamento do Livro das Pitanças


Vai ser lançado no próximo dia 15 de Março, às 17 horas, no Convento de Mafra um interessante livro denominado «Livro das Pitanças».
Passamos assim a ter acesso a um manuscrito conventual do século XVIII, designado Princípio e Fundação do Real Convento de Mafra, e sua grandeza, e sua sustentação, e luxo, etc. que é um códice pertencente ao Palácio Nacional de Mafra e que se conserva na sua extraordinária biblioteca (Casa da Livraria como era apelidada no livro).
A outra designação mais apelativa e simples, Livro das Pitanças, deve-se ao facto de nele estarem também registados os bens de consumo destinados aos religiosos.
Bluteau descreve os vários sentidos para esta palavra ao longo dos tempos mas a principal é a sua utilização para designar uma ração dada nas comunidades religiosas, em especial a que se consumia nos dias de festa.

Quem puder estar presente pode ter o livro em primeira mão e deleitar-se de imediato. Para os outros interessados ficam a saber que dispõem agora de mais uma valiosa fonte de informação sobre o Convento de Mafra e o quotidiano dos religiosos que o habitaram.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Licor de Singeverga

Falo hoje do único licor monástico português: o «Licor de Singeverga», que toma o nome do próprio mosteiro beneditino.
Tal como veio a acontecer noutras ordens monásticas a regra de S. Bento estabelecia que o convento devia ser autónomo. Dentro da cerca e junto à zona das cozinha existia a viridaria. Uma das áreas estava reservada à plantação da ervas aromáticas usadas não só na alimentação mas também na botica, enquanto que no horto eram cultivadas as verduras para a alimentação e no pomar os frutos.
Antiga casa dos donatários
A Regra de S. Bento começou a ser difundida em Portugal no século XI pelos cluniacenses e assenta em dois pilares fundamentais: Ora et Labora (reza e trabalha). Sob estes princípios a comunidade empenha-se na prática do culto religioso, mas também numa actividade que lhes permita uma economia sustentada.

A reforma monástica iniciada pelo rei D. Sebastião e levada a cabo pelo Cardeal D. Henrique levou à criação das “Congregação dos Monges Negros de S. Bento dos Reinos de Portugal”. Tendo como casa mãe o Mosteiro de Tibães, daí disseminaram muitos mosteiros beneditinos.

Hoje o único mosteiro beneditino masculino em Portugal é o de Singeverga. Tem uma história curta. Foi fundado em 1892 na freguesia de Roriz (Santo Tirso), após a restauração da vida beneditina, na sequência da extinção das Ordens Religiosas, em 1834.
Edifício antigo do mosteiro junto ao qual se situa a fábrica de licores
O seu local de acolhimento foi a quinta de Singeverga, pertença da família Gouveia Azevedo que a doaram à Ordem Beneditina. Mas apenas em 1931 a comunidade se instalou nesse local. Esta prosperou e em 1955 foi construído um novo edifício, hoje grande demais para as necessidades e vocações.
Quem melhor que os frades, que tinham acesso à ervas e ao processo da destilação, para serem os iniciadores da produção de licores. No início os xaropes, as infusões e as decoções eram usadas para produzir medicamentos. O seu mau gosto levou adição do mel, substituído mais tarde pelo açúcar.
O «labora» desta ordem de que falamos passa pela produção de um licor ainda mal conhecido, o único licor de origem monástica produzido em Portugal. Esta especificidade justificava uma vista. Falei com o padre Albino Sampaio Nogueira, encarregue da produção e comercialização desta bebida. Foi em 1945 que começou a sua produção, graças à acção de um amigo do mosteiro, o engenheiro químico de nome Botelho.
Os garrafões de infusão
Os licores estão sempre envoltos em mistérios e nunca nos explicam como são feitos, mas o padre Albino explica-nos com simplicidade o moroso processo. Assim explicado até parece fácil. Começa com a maceração das especiarias em álcool etílico a 95º, onde ficam quatro dias, com agitação regular manual. É aqui que entra o açafrão, a canela em pau, a noz-moscada, o cravinho, o cálamo aromático, raiz angélica, a baunilha em vagem, etc.
Local de destilação
É feita depois a destilação da água e a do álcool a que se junta depois um xarope feito com água, açúcar e ácido cítrico de modo a descer a graduação alcoólica. No final adicionam-lhe caramelo e chá preto para dar cor ao licor e acertar o teor alcóolico que no final se situa nos 30º.
Passa depois o licor para barricas de carvalho onde estagia pelo menos durante um ano. O licor é depois filtrado e engarrafado manualmente, tal como  os rótulos e as garrafas são embaladas. E lá vão elas, em três tamanhos, para as grandes superfícies.
Esta produção, tal como a venda de leite produzido pelas simpáticas vacas que pastam nos terrenos circundantes são a fonte de rendimento desta ordem.
Não têm publicidade a não ser a de quem experimenta os seus licores.
Tal como aconteceu com uma loja do Porto, que depois de eu ter feito várias perguntas e fotos me perguntou quanto tinha de pagar pela publicidade, eu respondi: «Nada. A minha publicidade é de graça». Aqui eu posso acrescentar que nestes casos: «O gosto em fazê-la é todo meu».