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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Última sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas»

Aproxima-se a última sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas» que terá lugar na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves. 
Esta semana terá lugar na 6ª feira (e não na 5ª feira como anteriormente), dia 21 de Outubro, às 18,30 horas e incidirá sobre o século XIX.
Serão analisadas as consequências sociais da ascenção da classe burguesa que utilizava a mesa como prova da sua riqueza e poder.
Baixela Victoria, desenho de Domingos Sequeira, oferecida ao Duque de Wellington
Veremos as principais alterações que ocorreram na mesa nesta época e como o «serviço à russa» introduziu modificações nas baixelas, nos centros de mesa, nos serviços de copos e talheres, etc.  Falaremos nas cozinhas e nas salas-de-jantar, entre outros temas. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Objecto Mistério Nº 44. Resposta: Bule para vinho, tipo «cadogan»

China. Dinastia Qing, 2ª metade século XVII, CMAC, invº 373
Designado em inglês «wine pot» este objecto destinava-se ao uso de vinho de arroz na China. Conhecem-se modelos deste tipo, em forma de pêssego, desde a segunda parte do século XVII. 
Embora possam ser polícromos, este modelo da CMAG, apresenta um vidrado uniforme de cor roxa. Característicamente possuem dois ramos que saem da asas e do bico e que terminam em três folhas de pessegueiro.
Não é esta a única forma de apresentação dos bules para vinho que podiam apresentar-se com um aspecto de bule convencional, embora mais frequentemente tivessem maiores dimensões ou ainda tomarem a forma complexa de um letra chinesa.
 
O que caracteriza este tipo de bule é o seu aspecto enganador. Aparentemente não possuem qualquer orifício de entrada para o líquido e, contudo, quando inclinado ele sai. Isso deve-se a um sistema de funil invertido colocado no interior do bule e em que a entrada do líquido se faz pela base.
Um dos primeiros possuidores deste tipo de bules para em Inglaterra foi William Cadogan, 1º conde de Cadogan (1675 - 1726), que chegou mesma ao ter um bule deste tipo com a sua identificação. Por essa razão os bules de chá com esta forma tomaram o nome de «Cadogan».
Meissen, 1725
No século XVIII já eram feitos bules semelhantes na Europa e durante a primeira metade do século XIX continuaram a ser feitos sobretudo em Inglaterra onde foram sempre muito apreciados.
Este último exemplar é inglês, feito em Spode no 2º quartel do século XIX, e tive a sorte de o conseguir comprar pela internet ao fazer a pesquisa sobre estes tipos de bule. Os bules do século XIX apresentam diferenças em relação aos dos séculos anteriores, pelas suas maiores dimensões, forma de pêssego mais dificilmente identificável e bicos mais grosseiros. Ainda assim uma peça interessante para quem não pode ter um do século XVII. 
Fab. Manuel Cipriano Gomes Mafra, 1879-1887, Museu da Cerâmica invº 1472 

O gosto pelos vaso enganadores existiu também em Portugal como podemos ver pelas bilhas feitas no século XIX nas Caldas da Rainha ou, as bilhas de segredo de Bisalhães, ainda hoje fabricadas. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Objecto Mistério Nº 44

Amanhã às 18,30 terá início a 3ª sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas» que terá lugar na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves (CMAG).

Vamos continuar no século XVIII onde se focarão os aspectos sociais da época e as suas repercussão no modo de vida.
Ideas como as da valorização da natureza e o gosto pelo trompe l’oeil manifestaram-se também no espaço das refeições e em especial na mesa do dessert. 

Serão apresentados utensílios que confirmam esse gosto, mas por hoje ficamos por um objecto, igualmente enganador, que faz parte do espólio da CMAG.


Como se chama ou melhor dizendo para que servia?.
Nota: Uma ajuda para os mais distraídos: note-se a ausência da tampa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

À volta da mesa. Utensílios e práticas (séc. XVIII e XIX)

Começa já no dia 30 de Outubro, na Casa Museu Anastácio Gonçalves, o curso que constará de quatro sessões durante as quais será feita uma abordagem sobre as principais características da mesa nos séculos XVIII e XIX.

Resumo da 1ª sessão:

A importância da mesa
 Neste período a influência francesa foi predominante na mesa, tanto no campo da representação, como nos rituais e utensílios. Estas noções eram trazidas pelos embaixadores representados em França. Esse hábito não foi exclusivo de Portugal e estendeu-se a toda a Europa, como nos mostram relatos nas cortes sueca e dinamarquesa.
Os atoalhados
Pela primeira vez iremos abordar o aparecimento e desenvolvimento dos atoalhados ligados à mesa, em especial as toalhas e guardanapos, tipos de tecidos e formas de utilização, demonstrados em pinturas e em exemplares conservados em museus. 
 Modificação dos espaços das cozinhas, das copas e o aparecimento da sala de jantar 
Sala de jantar do séc. XVIII, Palácio dos Guiões, Lisboa
 O pessoal de cozinha e copa e as principais funções ligadas à mesa 
Cozinha do séc. XVIII, Palácio Pimenta, actual Museu da Cidade de Lisboa
Aqui fica um aperitivo da primeira sessão.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O licoreiro da Casa Museu Anastácio Gonçalves (CMAG)

Para os que não puderam estar na apresentação da minha última palestra na CMAG, e se interessam pelo tema, aqui ficam alguns apontamentos sobre o objecto em si.

O licoreiro foi adquirido em 1963 pelo Dr. Anastácio Gonçalves (1889-1965), médico e amante de arte, para a sua casa de habitação em Lisboa, que adquiriu a José Malhoa em 1932 e onde reuniu uma diversificada colecção. A casa, hoje transformada em casa-museu, foi projectada inicialmente por Norte Junior para casa de habitação e atelier de José Malhoa.
Fotografia retirada do site da CMAG
Foi o interesse do coleccionador que fez surgir em Portugal um licoreiro francês do início do século XIX (1810?), com características interessantes. Integra-se no que os franceses designam como «cabaret à liqueurs», uma expressão para a qual nós não temos tradução, ficando-nos pela palavra «licoreiro», que tanto pode designar a garrafa em si como o conjunto desta, com ou sem cálices, integrado numa estrutura.
O licoreiro de que falamos é em prata e foi executado por um ourives de Lille, Theodore-Frederic Hardy, que trabalhou nesta cidade nos finais do século XVIII e início do século XIX. Sabe-se que trabalhou também com Seraphin Delahaye, cerca de 1800, mas não consegui apurar mais nada (1).
É constituído por um prato circular com 4 pés circundado por uma galeria arrendada e tem uma coluna central encimada por um vaso em forma de urna que serve de pega. Sobre a base apoiam-se cinco cestinhos de prata arrendada onde se inserem os cinco frascos destinados a licor. Estes são em cristal lapidado em todo o corpo e apresentam ainda restos de dourado, que os enriqueciam.
O facto de serem cinco os frascos licoreiros é já de si raro, um vez que estes habitualmente se apresentavam em número par. Mandava a etiqueta que se oferecesse aos convidados uma variedade de licores, de forma a estes poderem escolher os seus preferidos e, este tipo de utensílio, facilitava a sua apresentação, com evidentes vantagens estéticas.
Gravura existente no Museu de Artes Decorativas, Paris.
Um outro aspecto interessante diz respeito à existência de argolas adossadas aos cestinhos, destinadas à colocação das tampas, igualmente em cristal, quando se pretendia usar os frascos. Esta opção, que encontramos frequentemente nos galheteiros, é muito mais rara nos licoreiros. Torna-se contudo compreensível se pensarmos que a sua concepção saía das mesmas mentes de ourives que idealizavam as duas peças .
É o que podemos constatar neste desenho de um galheteiro e de um licoreiro, feito por um ourives francês entre 1814 e 1830 e que se encontra no Museu de artes Decorativas em Paris.
Galheteiro de Claude Delanoy. Foto de Antique Store 
Ou num outro galheteiro da autoria de Claude Nicolas Delanoy, com punção de Paris de 1789, em prata, da época Luís XVI em que apresenta a base oval mas, tanto os cestinhos como a coluna, apresentam semelhanças evidentes com o licoreiro da CMAG.

Este exercício de análise de um simples objecto faz-nos ver como é necessário pensarmos mais demoradamente sobre as coisas para melhor as compreender.

(1) Para quem estiver interessado no tema existe um livro de N. Cartier, Les orfévres de Lille, 2 vol, publicado em 2007, a que não tive acesso e que pode fornecer informação adicional.
(2) As fotografias não identificadas são minhas, feitas com autorização da direcção da CMAG.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A mesa natalícia da Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves

Através do vitral Art Nouveau, de origem francesa, que domina toda a sala de jantar coa-se uma luz difusa que transmite à sala de jantar um ambiente intimista.
Ao olharmos, imaginamos os jantares que ali tiveram lugar com os seus anteriores proprietários, José Malhoa primeiro e depois o médico Anastácio Gonçalves, em que se terá discutido inevitavelmente Arte.

É nesta sala da casa, transformada em Museu, que melhor se respira o ambiente doméstico. Não seria a bela baixela de porcelana chinesa do século XVIII que adornaria a mesa no dia-a-dia, mas podemos imaginar que no Natal tal pudesse acontecer.
A mesa natalícia, recriada ao gosto do nosso século, cumpre duas funções: remete-nos para um ambiente familiar e comemora a época em que vivemos. Analisar os objectos museológicos fora do conceito formal transforma-se numa abordagem mais envolvente para o visitante. Aquela decoração de Natal é-lhe destinada e só lhe resta imaginar como seria partilhar a mesa com tão ilustres figuras.