À esquerda o vendedor retira,
com um canivete, a casca de um limão para tornar mais agradável a bebida.
Transporta consigo uma bilha de barro com água e uma pequena mesa com três pés
e asa metálica para mais fácil deslocação. Sobre esta, duas garrafas com a
bebida de capilé, um açucareiro e um copo de vidro.
O cliente é um jovem ardina
que transporta o saco dos jornais e tem um exemplar para venda na mão. Descalço,
naquele dia de calor, aguarda ansiosamente a preparação da bebida, seguramente
uma excentricidade para o seu fraco rendimento (ou uma encenação pedida pelo
fotógrafo?).
A cor branca da fotografia
faz-nos adivinhar um dia de calor intenso mas o local onde tem lugar a cena não é distinguível. Será provavelmente Lisboa onde esta bebida era também
vendida em quiosques e em pequenas lojas de bebidas.
Outra fotografia da época
mostra-nos uma loja no Largo do Camões onde ela era consumida, mas os locais de
vendas de licores faziam desta uma das bebidas de grande consumo de Verão, comercializada por várias empresas.
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| Jornal O Século 1929 |
Quando a propósito do meu
livro «Licores de Portugal» entrevistei o sr. Alípio Ramos, actual proprietário
da Frutaria Bristol, na Rua das Portas de Santo Antão em Lisboa, contou-me que
tinha trabalhado na Ginjinha Popular e que tanto a groselha como o capilé feitos
com soda tinham grande saída[1]. Nessa época vários fabricantes produziam esta apreciada bebida, como o comprovam múltiplos rótulos chegados até hoje.
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| Alguns dos rótulos de capilé da minha colecção. |
O quiosque de S. Paulo ostenta
ainda hoje nos seus cartazes de vidro pintados a palavra capilé prova de que esta era
também aí vendida, tal como acontecia noutros locais semelhantes.
A bebida que toma o nome do xarope «capilé» é feita com uma calda com suco de avenca ou capilária (Adiantum capillus-veneris L.).
| Quiosque do Largo de S. Paulo em Lisboa |
| A minha avenca, uma planta muito tradicional nos lares portugueses |
No século XVIII Lucas Rigaud no livro «Cozinheiro
Moderno» dá a receita de Capiler ou
Xarope de Avenca[2]. Quanto às donas de casa era frequente confeccionarem elas próprias este xarope.
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| Rótulo de Capilé para uso doméstico. |
Não vou dar a receita, embora
isso sempre me prejudique[3] mas remeto-os para um
blogue de grande qualidade chamado Outras Comidas, onde podem seguir o modo de confecção ao pormenor, com rigor como
é apanágio do autor.
[1] Licores
de Portugal (1880-1980). pp 141 e 279.
[2]Cozinheiro
moderno ou nova arte de cozinhar, onde se ensina pelo methodo mais facil... /
dado á luz por Lucas Rigaud. p. 427.
[3] Há dias
num local de venda dos meus livros uma senhora perguntou-me se o livro Ginjinha Portuguesa tinha receitas. Quando
respondi que era apenas história pousou rapidamente o livro sobre a mesa e
afastou-se.









Procurei, procurei, mas não encontrei por agora uma receita alentejana de capilé que me deram.
ResponderEliminarSei que está num dos meus cadernos de apontamentos que tenho dispersos em 3 ou 4 locais diferentes. Fica para depois.
Mas encontrei isto:
http://luisdesenha.blogspot.com/2014/06/ginjinha-o-licor-de-ginja.html
servirá para contentar a senhora que procurava receitas?
Das receitas orais diz-se o mesmo que se diz de quem conta um conto. Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto.
Quanto ao capilé. Lembro-me de o beber em dias quentes como estes perto dos quarenta graus centígrados uma vez ou duas por Verão e era servido em copos de vidro finíssimo que vinham da Galiza e serviam para "escarchar" sidra.
Só mais tarde soube da Galiza da sidra e da escançaria.
As minhas mãos eram pequenas para abraçar copo tão grande e largo de modo que o senhor Manuel que tinha vindo do Minho para a Carvoaria do seu sogro apoiava o fundo do copo nos dedos da bênção para que ele não caísse no chão e se partisse.
Era um dia de festa o dia do copo de capilé com a casquinha de limão, mas só nesses dias de muito calor, de muita correria e de muita sede.
Provei o Capilé e fiquei maravilhada!
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