terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O iogurte BUL-BUL


Tenho este pequeno pote de louça há vários anos.
A pequena cartela, a azul, com as palavras “BUL-BUL” permaneceu para mim uma incógnita. Quando há alguns meses uma pessoa que tinha um destes potes para vender me perguntou se eu sabia o que era, tive que confessar a minha ignorância.  Só há cerca de uma semana o mistério se esclareceu.

É verdade que estava arrumada ao lado de outros potes de iogurte e que eu nutria a vaga esperança de que pertencesse à mesma classe. Talvez porque “BUL-BUL” me remetia para a palavra bulgaricus usada para os lactobacillus que, juntamente com os streptococcus thermophilus, são responsáveis pela coagulação e acidificação (transformação da lactose em ácido láctico) do leite, transformando-o em iogurte.

Este fenómeno era conhecido, de forma empírica, pelos povos nómadas das regiões da Ásia central que transportavam o leite fresco em sacos feitos de pele de animais o que, juntamente com o calor, o transformava num alimento coagulado.
À Europa o iogurte só terá chegado no século XVI, trazido do Império otomano e daí a etimologia turca da palavra.
Quanto a Portugal não sei ainda dizer concretamente quando foi conhecido,  mas em 1910 a Nutrícia de Lisboa já tinha, entre os seus alimentos higiénicos, o «Lactofermento, uma cultura seleccionada de bacillus búlgaros e paralácteos».

Quanto à comercialização do iogurte no nosso país é mais difícil definir uma data. O «Bul-Bul» foi contudo um dos primeiros iogurtes a ser registado como marca, em 1943, pela cidadã inglesa B. Sacks residente em Lisboa, na Rua do Ataíde, Nº 26.

O pedido de registo, feito inicialmente para iogurtes, sucos de carnes, compotas de frutas e geleias, foi posteriormente, por necessidade de ser incluído numa classe, apenas registado para iogurte.

Mais interessante é o facto de o pote manter ainda a sua tampa primitiva e de ter no fundo a marca, onde se pode ver que foi feito na Fábrica de Sacavém, no período Gilman & Co.

sábado, 28 de janeiro de 2012

As Queijadas de Pereira


Comi as queijadas de Pereira pela primeira vez em Coimbra, há algum tempo atrás. A história das queijadas conventuais fez-me desejar conhecer o seu lugar de produção e meti-me ao caminho.

Saindo da Figueira da Foz com as indicações tiradas do Google, depressa percebi que não me serviam para nada. Logo em Montemor-o-Velho perdi-me pela primeira vez. Depois foi andar pelas estradas que cortam os arrozais, sem qualquer placa indicativa, o que transforma uma pequena distância numa aventura. Mas Portugal é assim. Já me tinha sucedido o mesmo uma vez que tentei chegar a Verride.

Finalmente avistei Pereira. O que eu pensava ser uma pequena vila transformou-se num agregado habitacional de grandes dimensões, em que a parte antiga foi engolida pelas novas construções, perdendo-se o sentido de conjunto.
Tinha conhecimento de que já não existia o convento da Ursulinas, religiosas teriam confecionado as queijadas de Pereira. O Real Colégio Ursulino das Chagas começou em Pereira em 1748 e aí se manteve durante cerca de cem anos. Foi uma «febre epidémica»(1), relacionada com as águas estagnadas dos arrozais que levou à transferência das freiras para Coimbra, em 1848. Instaladas inicialmente no Convento de Santa Ana passaram depois para o antigo Colégio das Carmelitas Descalças, onde ficaram até 1910 (2). A educação feminina neste colégio era esmerada, sendo as educandas preparadas para serem boas mães e donas-de-casa, numa transmissão de ensinamentos de “Economia Doméstica” avant la lettre.

De entre os doces conventuais considerados especialidades de Pereira encontram-se os Papos de Anjo, as Barrigas de Freira e outros, mas foram as Queijadas que se tornaram mais famosas.
Apesar de o convento ser do século XVIII elas já eram referidas no século XVI e Josefa de Óbidos terá reproduzido a sua imagem num dos seus quadros com doces. É que estas queijadas têm um aspecto característico.
 Falei com a proprietária da «Queijadinha», Liliana Ramos, uma das pessoas que presentemente as comercializa. Iniciou a actividade da casa há cerca de 8 anos.
Até então estas eram produzidas apenas por produtoras particulares e eram desconhecidas fora de Pereira. Foi interessante observar a confecção das mesmas. Feita a massa exterior estas são recheadas com uma pasta que inclui o queijo fresco, que as caracteriza.
 É-lhe então dada a forma de uma estrela com sete bicos, graças a um utensílio próprio. Só depois estes são fechados ficando a massa exterior com sete vincos. Vão ao forno em grandes tabuleiros, invertidas, sem necessidade de qualquer forma. Depois é só comer. Fica assim preservada mais uma tradição da nossa doçaria conventual.
(1) FIGO, Armando, «Pereira do Campo reagiu à saída das Ursulinas», in Diário de Coimbra, 26 de Setembro de 1999.
(2) VAQUINHAS, Irene Maria, «O Real Colégio Ursulino das Chagas de Coimbra. Notas para a sua História». Revista Portuguesa de História, T. XXXI, Vol. 2, 1996.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Errâncias no Laranjal

Começa amanhã dia 27, com inauguração às 18 horas, um novo evento do Centro de Artes Culinárias, no mercado de Santa Clara.
Sob o título «Errâncias no laranjal» associam-se à exposição várias apresentações que, em comum, têm a laranja como vedeta principal.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pormenores em azulejaria


Na minha última ida a Coimbra para assistir ao Colóquio sobre Alimentação na Antiguidade aproveitei a hora de almoço para dar um pequeno passeio na zona da Faculdade de Letras, onde este decorreu. Num dia de sol, a beleza da velha Universidade, agora com a escadaria e a torre limpas, tornava-se ainda mais evidente.
As fotografias mostram alguns dos pontos em que os meus olhos pousaram, procurando não me afastar do tema deste blogue.

Começo pelo Pátio da Universidade, onde é visível a Torre da Universidade, com os sinos e o relógio, construída entre 1728 e 1733, para substituir a anterior de 1561 da  autoria de João de Ruão.

Visitei a magnífica capela Real de S. Miguel, manuelina, com o seu órgão barroco, que vale só por si uma vista.
Aproveitei para tomar um café no bar da Universidade de Direito e observar, do seu terraço, a vista da cidade com o rio serpenteando em baixo.
Mesmo em frente dos nossos olhos salta-nos à vista a chaminé do Colégio dos Grilos, que foi construído em 1755 pelos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, também conhecidos como frades grilos.
No regresso descobri com agrado, num dos painéis do corredor, em azulejos do século XVIII pintados a azul e manganês, uma imagem de um comércio citadino.
À esquerda do painel observa-se uma venda de carne, com duas peças presumivelmente assadas, um garfo de dois dentes e uma faca para trinchar as peças.
Neste intervalo do colóquio saí por momentos da Antiguidade, mudei de século, mas consegui manter-me no tema da alimentação.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Museu Virtual: Terrina Molheira

Nome do Objecto: Terrina Molheira Tripla ou molheira de banho-maria.

Descrição: Terrina redonda tendo no seu interior 3 taças para molhos que encaixam numa alma perfurada. Tem 3 colheres em concha. Apresenta tampa, com três recortes, que permite adaptação às colheres. Assenta numa pequena base circular e tem duas asas.

Material: "silverplated"
Época: Primeira metade do século XX.


Marcas: Não tem.


Origem: Mercado português.

Grupo a que pertence: Recipiente para o serviço ou consumo dos alimentos.


Função Geral: Recipiente para servir comida.


Função Específica: Servir molhos. Destinava-se em especial a servir molhos quentes, introduzindo água quente no seu interior.

Nº inventário: 1009.

Nota: As molheiras mais comuns apresentam a forma de um barco, com um ou dois bicos, e não têm tampa.
 Existe um outro tipo de molheira com a forma de uma terrina, com tampa e colher, habitualmente em porcelana, que se caracteriza por ter dimensões inferiores às das terrinas do serviço.
 A variante apresentada é uma terrina que, por permitir introduzir água quente, é também designada por «molheira de banho-maria».

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

I Colóquio de História da Alimentação - Antiguidade


 
 Vai realizar-se o I Colóquio sobre História da Alimentação na Antiguidade, em Coimbra, no dia 20 de Janeiro.

A qualidade dos palestrantes e o interesse dos temas levam-me a recomendá-lo. Se puderem não percam. Aqui fica o programa.
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Faculdade de Letras

Programa

9h: Sessão de abertura
9h30mn: María José García Soler (Universidade do País Basco),
La presencia de la gastronomía en la literatura griega.
10h: Maria Regina Cândido (Universidade Estadual do Rio de Janeiro),
10h30mn: debate
10h50mn: pausa
11h20mn: Carmen Soares (FLUC),
Banquete grego: entre o ritual da philia e o prazer da luxuria. A imagem da arte culinária e dos autores de literatura gastronómica na Grécia Antiga.
11h50m: Elisabete Cação (CECH),
Utensílios e processos de confecção em Arquéstrato e Ateneu.
12h10m: Nelson Henrique (CECH),
Da natureza para o prato: a observação de comportamentos e habitats no De alimentorum facultatibus de Galeno.
12h30m: debate
13h: Almoço
15h: Inês de Ornellas e Castro (Universidade Nova de Lisboa),
Discursos e rituais na mesa romana.
15h30m: Carlos Fabião (Universidade de Lisboa),
Os preparados de peixe de época romana na Lusitania: os nomes e os produtos.
16h: debate
16h20m: intervalo
16h45m: Paula Barata Dias (FLUC),
Em defesa do vegetarianismo: Fílon de Alexandria e Porfírio de Tiro.
17h15m: Luís Lavrador (Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra), A
propósito dos interditos alimentares no Levítico.
17h35m: debate
18h: Maria do Céu Fialho (FLUC/CECH), apresentação do livro
Práticas Alimentares no Mediterrâneo Antigo. M. R. Cândido (org.). Rio de Janeiro 2012.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Casa Granado no Porto

Numa das minhas visitas ao Porto fotografei algumas lojas com a intenção de falar sobre elas.
Começo hoje com a Casa Granado, situada na Rua de Cedofeita, Nº 360.
É uma loja de venda de artigos domésticos, ferragens, ferramentas e vários tipos de utensílios. Trata-se de uma casa centenária que, apesar das obras de recuperação, mantém as suas características iniciais. Fundada pela firma Gomes & Companhia passou, em 1929, para as mãos da família do actual proprietário, o senhor Joaquim Amado Patana. Juntamente com a sua mulher Maria Alcina e o seu filho Nuno Jorge, formam a estrutura deste negócio familiar.
Presentemente mais dirigida ao mercado doméstico, a Casa Granado teve em tempos um predomínio de vendas comercial, dirigido a carpinteiros e outras profissões. Hoje, podemos ver nas suas prateleiras, a par de utensílios domésticos tradicionais, como baixelas de cozinha em alumínio, os mais modernos utensílios de cozinha, que dão cor às prateleiras e aos expositores de madeira.

Estas prateleiras abertas alternam com espaços de armários fechados, com gavetas de madeira pintada que, no seu exterior, apresentam fixadas com arames as peças acondicionadas no seu interior.
O pequeno oratório com Santo António
Ao fundo, e interrompendo o espaço expositivo, encontra-se uma pequeno oratório que dá morada a uma figura de Santo António.
Uma das montras
As montras apresentam atrativos utensílios modernos, onde predominam as formas de silicone para bolos e chocolates.
Escorredor  para colocar sobre os tachos
Um espaço do Porto antigo que se mantém. Vale a pena visitá-lo, usufruir do espaço e descobrir novos utensílios de cozinha.