quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Objecto Mistério Nº 60


Estou a preparar uma exposição sobre têxteis de mesa em Guimarães sobre a qual darei mais informações posteriormente, embora fiquem desde já convidados.
No meio dos “panos”, como eu gosto de lhes chamar, encontrei umas pequenas peças redondas com uma abertura no meio, de que eu já nem me lembrava, e de que mostro aqui um exemplar.
Tem de diâmetro cerca de 6,5 cm.
O que é? Qual a função?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O restaurante Taínha em Matosinhos

Hoje já não existe e no seu lugar situa-se a Marisqueira Majára. Devia o seu nome ao proprietário José Taínha. 
Começou por ser um restaurante mas depois transformou-se em marisqueira quando o dono decidiu alugar uma outra parte do prédio e estender o espaço, acompanhando uma tendência de consumo de mariscos que entretanto se estendera a outros restaurantes da terra.
Foi neste restaurante que começou por trabalhar Henrique da Silva Torres que, mais tarde, iria abrir a Esplanada Marisqueira, igualmente em Matosinhos e posteriormente outras casas marisqueiras na Póvoa de Varzim.
Em 1960, quando encomendou para oferta aos seus clientes um pequeno livro de gravuras com imagens de Matozinhos, o negócio devia estar próspero.

Com um total de 6 vistas, tipo pequeno postal, mostrava os pontos mais interessantes da terra onde desenvolvia o seu negócio. Mas não se ficou por aqui. Nas traseiras de cada postal podem ler-se os principais pratos que então servia, designados Especialidades da Casa e que aqui mostramos.

O restaurante, situado na Rua Roberto Ivens, 603, tinha também acesso pela Rua do Godinho n. 343, o que sugeriu uma quadra promocional, com que encerrava a vasta ementa.

Nota:
A informação sobre o restaurante é escassa mesmo depois de consultarmos o livro «História da Restauração em Matosinhos (1800-2015)» disponível online.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

As Coquilles St. Jacques em postal

A vieira (Pectem maximus) esse molusco hermafrodita, escondido dentro de uma concha com estrias radiais, com dimensões e estrutura tão atractiva, é entre nós pouco apreciada.
Até há pouco tempo não se comia em Portugal. A primeira vez que as experimentei foi nos Estados Unidos, onde uns pequenos círculos brancos, que não sabiam a nada, eram frequentemente servidos como entradas.
Entre nós esteve em moda, nos anos 70-80 servirem-se as suas conchas recheadas com várias misturas de peixe ou marisco, envolvidas em molho e gratinadas no forno. 
Ainda hoje guardo as cascas onde eram servidas, embora existissem alternativas, como as conchas em porcelana refractária usadas para o mesmo fim. Eram um sucesso garantido apresentá-las no início do jantar. No entanto as vieiras não estavam lá, porque pura e simplesmente não se conseguiam arranjar.
A receita no verso do postal
Hoje são colhidas na Ria Formosa, mas não se chegam ao mercado, porque não têm procura. Na maior parte das vezes que as comemos em restaurantes é provável que sejam congeladas. Pelo contrário os franceses consomem cerca de 2,5 Kg de vieras por habitante/ano, o que obriga a que a sua pesca seja altamente regulamentada e vigiada.
Das várias receitas, são famosas as vieiras «à la Bretonne», pescadas na Baia de Saint-Brieuc e feitas de acordo com a receita que este postal apresenta. Datado de 1946 faz parte de uma série de pratos regionais e para os autores da série era de tal modo evidente a sua origem que se limitam a chamar à receita Coquilles St. Jacques. Os trajes da cozinheira e do sorridente jovem que a espreita à janela, provavelmente o fornecedor das mesmas, denunciam contudo a sua origem. A sua fama perpetua-se mesmo nos produtos comercializados que mantém a designação.
Bom apetite!.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O Pote de Ouro

Podia colocar este pote como Objecto Mistério e, provavelmente, a maioria das pessoas não estabeleceria qualquer relação.
Pensava eu que era do conhecimento geral que em cada uma das extremidades do arco-íris se encontra um pote de ouro. Não que eu alguma vez o tenha encontrado: excepto este, claro. E se encontrasse os Leprechaun, ou os pequenos gnomos verdes, não me iam deixar trazê-lo.
Depois de falar com várias pessoas descobri que desconheciam a história. É verdade que se trata de uma lendas irlandesa, mais conhecida pelas sociedades de língua inglesa, mas como os livros infantis não tem pátria achei que todos conheciam a história.
Os leprechaun são uns pequenos seres que vivem nas florestas irlandesas. Vestem-se de verde com um grande chapéu e passam o dia a remendar sapatos. A sua principal função é proteger os potes de ouro que se encontram no fim do arco-íris, que os homens, sempre gananciosos, querem roubar.
Há imensos livros sobre o tema com histórias variadas destes seres mitológicos. Até encontrei um com uma capa que parece que nos diz qualquer coisa, a nós portugueses.
Pois o que desencadeou esta conversa foi este pote de plástico, repleto de moedas de escudo e centavos dos anos 60 e que era um mealheiro. Seguramente feito em Portugal, não está infelizmente identificado.
Agora que o plástico está ameaçado preservemos estes belos exemplares. Não vai haver outros!.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Cozinheiro fim de século

O título é apetitoso e, apesar de normalmente ter dificuldade em achar graça ao humor do século XIX, não se consegue deixar de sorrir durante toda a leitura deste folheto.
Designada «Cançoneta excêntrica» foi representada em vários teatros pelo «distinto amador Alfredo Dourado».
O texto é da autoria de José Maria Dupont de Sousa (1863-1914) que, nascido em Lisboa, foi viver para o Barreiro onde, em 1905, participou na fundação do Theatro Independente, fazendo parte da Dupont de Sousa & Comandita. Esse teatro, onde também se projectava cinema, viria a ser extinto em 1914.
Dupont de Sousa para além do seu interesse pelo teatro, nesta e noutras companhias, foi também jornalista e escreveu vários folhetos. 
Foto tirada do site Vinculados ao Barreiro
Destaca-se o seu papel na escrita de comédias e de cançonetas várias, como a sugestiva «Que beleza de hortaliça!», de 1904.
Mas este «Cozinheiro fim de século» em que o cantor surge em cena de avental branco, com o chapéu de cozinheiro e com uma caçarola e uma colher de pau nas mãos, parece-me um sucesso garantido.
Fica aqui registado na íntegra, para saborearem.

P.S. Não se aconselham as receitas.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Patrão fora….


Foi só quando me pediram há uns anos para fazer uma conferência num Congresso Internacional de Paremiologia[1] que me apercebi da diferença que existe nos provérbios dos vários países. Isto é, para dizer o mesmo, não é possível fazer uma tradição literal porque a expressão usada é completamente diferente.
Esta gravura foi retirada de uma revista de 1890 La Ilustracion Iberica, e surpreendeu-me pela presença de um cozinheiro na sala, ainda para mais, a tocar flauta. Olhando melhor percebe-se que afinal estão presentes todos os elementos do pessoal de cozinha e sala. Sentado numa cadeira observa-se um dos criados da casa, mais velho, possivelmente o mestre-sala, responsável pelo serviço que tinha lugar nesta e por todo o pessoal de sala. Dorme profundamente, resultado de excesso de bebida, como nos mostram as garrafas e copos que cobrem a mesa. Em plano de fundo uma cozinheira, com avental e touca, conversa com dos seus colegas, apresentando-se este, com prosápia, a fumar um charuto. Uma caixa sobre a mesa indica-nos a sua origem.
Os restantes casais passeiam e dançam. Eles com as jaquetas de serviço de mesa e elas com roupas melhoradas, pessoais ou alheias. Não sabemos.
A legenda da gravura diz: «Cuando non está lo gato, los ratones bailan». A gravura assinada por Paul Grolleron (1848-1910) tem a data de 1879. Este pintor e ilustrador francês especializou-se em cenas de batalhas, sobretudo da guerra franco-alemã de 1879 e em representações de militares.
Paul Grolleron fotografado em 1882 por Anatole Louis Godet (Wikipedia)
Aqui temos a sorte de ver uma gravura sua com um tema diferente que apresenta um momento de maior descontracção, excessiva diria eu, quando os patrões se encontram fora ….e é dia santo na loja.


[1] Uma palavra que parece aplicar-se a uma doença, mas que significa o estudo dos Provérbios.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Boas Festas... Agora a sério

Com esta imagem idílica, uma gravura de Carl Larsson, onde estão presentes todos os elementos que constituem o arquétipo de Natal: família reunida, harmonia, boa comida, etc., deixo-lhes os meus votos de Festas Felizes.
Não deve corresponder  à consoada da maioria, mas não faz mal.
O que conta é a intenção. E o sonho.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Boas Festas …diferentes


O cartão de Boas Festas deste ano tem já 55 anos. Está assinado por Elvira Velez (1892-1981), uma artista extremamente simpática e talentosa, que distribuía sorrisos por onde passava. Claro que os mais novos já não se lembram dela, mas se virem um filme da época vão identificá-la rapidamente. 

Foi distribuído durante a representação da revista Na Brasa, que teve lugar no Teatro Capitólio, em 1964, pelos vistos no período do Natal. Dessa revista faziam parte também Maria Dulce, Florbela Queirós e Humberto Madeira.
Aparece aqui pela razão menos provável: trata-se de uma publicidade às sopas e caldos Maggi. Nas mãos, Elvira Velez apresenta várias embalagens de Caldo de Galinha. Talvez a sugerir que a tradicional canja de galinha, que faz parte das ceias de Natal de tantos portugueses, fosse substituída por estes caldos instantâneos. Subtilezas de publicitários!



sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O guardador de uvas

 Esta imagem isolada encontrava-se felizmente legendada. Trata-se de um guardador de uvas, no Alto Douro, armado, junto à sua cabana. Na legenda explica-se que na região dos famosos vinhos do Porto as vinhas são guardadas por homens armados até às vindimas.
Desconhecia esta profissão que, segundo parece, é tão antiga que já era mencionada na Bíblia.
Para além desta designação de «guardador de uvas» eram usadas, com o mesmo significado, a de «guardador de vinha» e a de «vinheiro».  Èxiste com o mesmo sentido outro sinónimo, «vinhateiro» que tem também o sentido de cultivador de vinha e que encontramos no provérbio: «É o medo que guarda a vinha, não o vinhateiro».
Defendiam as uvas com unhas e dentes, ou melhor dizendo com a arma, porque numa notícia publicada no jornal «Diário Illustrado» de 31 de Agosto de 1873 era mencionado um episódio de um guardador de uvas que disparou sobre um homem que comeu um cacho de uvas roubado.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Um livro “bom de assoar”

A expressão “bom de assoar” estava já esquecida na minha memória. Usa-se raramente, o que é fácil de explicar: as pessoas conhecem cada vez menos ditados, expressões idiomáticas, ditos regionais, etc. Antigamente os livros na Escola não só nos ensinavam estas expressões, como nos estimulavam ao conhecimento de mais. Era uma alegria conhecer novos termos e ditados.
A frase usa-se habitualmente na negativa “não ser bom de assoar” e aplica-se a uma pessoa de difícil tracto, o que significa ter mau feitio; ter maus fígados. 
Pode parecer absurdo mas este livro infantil que inclui três lencinhos que acompanham a história sugeriu-me este título. É um livro espanhol, sem identificação do autor ou da data. 
Tem seguramente mais de 50 anos e é espantoso que tenha chegado até hoje íntegro, com os seus lenços que, além disso, nos obrigam a retirá-los para ler a história. 
O livro, de forma resumida, conta-nos o diálogo entre um leão e um mosquito em que o último é afastado e insultado pelo rei da selva. Desafiado o mosquito aceita o combate e pica o leão em todo o lado, uma vez que este não consegue defender-se de um inimigo invisível.
O mosquito é vencedor e sai triunfante da luta mas, cego pela vitória, vai contra uma teia de aranha e perde a vida.
É no final uma história triste mas que tem uma moral (como então era costume) e que era a seguinte: «Nunca devemos perder a cabeça com os nossos triunfos».

Como as vitórias são relativas e que falta faziam estes ensinamentos a muitas pessoas!
P.S. Podíamos ainda acrescentar outra expressão: «Pois assoem-se a este lenço», que é com quem diz : ora toma lá. Expressão pelos vistos mais rara porque não faz parte da lista do Dicionário referido. 

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Bibliografia:
Almeida, José João. (2019). Dicionário aberto de calão e expressões idiomáticas José João Almeida. Disponível em https://natura.di.uminho.pt/~jj/pln/calao/dicionario.pdf

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Jantares e amigos


«Os jantares são os laços inocentes da sociedade» dizia Jean-Baptiste Massillon (1663- 1742) religioso francês, reconhecido pela sua oratória e que certamente o seria pela vida social a avaliar por esta sua citação.
Assim começava uma pequena rubrica de um Almanaque do século XIX, sem capa e em que este texto se apresentava na primeira página, como se eu não pudesse ignorá-la. Na lombada pode ainda ver-se que se tratava do Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro de 187?.
Tenho sempre uma curiosidade pelos Almanaques, um pot-pourris de informações que no século XIX foram publicados em profusão.
A palavra Almanaque é de origem árabe e vem de “Almanakh”, que significa o “lugar onde a gente manda ajoelhar os camelos”, isto é, o local em que os nómadas se reuniam para rezar e contar as experiências de viagens por outras terras. Em português, almanaque refere-se a uma publicação que apresenta um calendário, mas que é preenchido com informações variadas, no âmbito da ciência, da literatura, da história e da poesia, sendo os textos mais sérios entremeados com assuntos recreativos, como charadas e passatempos, e por vezes histórias humorísticas.
Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro foi publicado entre 1872 e 1898 (inclusive) e seguiu-se ao Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro publicado em 1851 por Alexandre Magno de Castilho até 1861 e após a morte do fundador por um sobrinho com o mesmo nome e, de 1872 a 1897, por António Xavier Rodrigues Cordeiro.
Foi nestes almanaques que Guiomar Delphina de Noronha Torrezão (1844-1898) colaborou tendo aí ido buscar a inspiração para fundar o Almanach da Senhoras planeado no ano de 1870 para sair no ano seguinte, com era habitual, tendo esta publicação terminado em 1928.
Guiomar Torrezão. Foto tirada da Wikipédia
Após a sua morte foi a sua irmã Felismina Torrezão quem assumiu a direcção. No Almanach da Senhoras colaborou também Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921) e muitas outras mulheres portuguesas e brasileiras que deram o melhor de si para fazer ouvir a voz feminina e educar as mulheres com vista à sua emancipação, numa época em que a sociedade ainda lhes vedava o ensino.
Pelo caminho ficaram excertos como este sobre o papel dos jantares de que omiti o final por ser menos interessante.
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Bibligrafia:
Andrea Germano de Oliveira Romariz. (2011). O Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro: Um ensaio para um Projecto maior?. Dissertação de Mestrado em Estudos Românicos Cultura Portuguesa. Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O que se passou entre Isabel, Pedrinho, Glaxo, Tótó e Mimi


Este título longo encima um poster publicitário que, ao modo da banda desenhada, conta uma história.
Suspeitei logo do Glaxo, entre os nomes da Isabel e do Pedrinho. Estava cheia de razão. Afinal tinham humanizado a lata de leite. Que o gato se chamasse Mimi e o cão Tótó, ainda vai, apesar de estarmos nos nos 40-50, mas uma lata!.
Mas a história prometia. O Pedrinho não crescia porque o leite da mãe não era bom e o das vacas era tão perigoso! Felizmente a amiga Maria Luiza, mãe do Luizinho foi visitá-la e recomendou-lhe Glaxo. O médico concordou e lá foi a Luiza à farmácia com o Tótó. Ao 3º dia o Pedrinho já estava melhor e pedia mais leite.
Mas não era só o Pedrinho que gostava do leite, também a Mimi e o Tótó se lambiam quando o bebiam. E a Mariquinhas «a irmãzinha maior», que ainda não conhecíamos, também gostava muito e mais feliz ficou quando o Pedrinho já começou a brincar com ela.
No final todos estão contentes, sadios e brincam alegremente. Mas ninguém é tão feliz como a Isabel por ver o seu filho tão formoso graça ao Glaxo, o excelente alimento para bébés.
FIM.
Como eu gosto destas histórias simples!.