sábado, 12 de outubro de 2019

Uma compota de gamboas

Um presente de gamboas obrigou-me a ir para a cozinha fazer doces. Esta fruta é muito semelhante aos marmelos, mas menos ácida, pelo que se pode comer crua (facto que não experimentei).
Quando falo num fruto ou planta gosto de ir ver o nome latino e a família a que pertence, sobretudo quando o conheço mal. Neste caso foi difícil porque não sei o nome da gamboa em inglês e em português, mesmo artigos científicos dizem que o marmelo é a Cydonia Oblonga Miller. Apenas num dos casos é feita a distinção entre o marmelo, (Cydonia vulgaris Pers.) e a gamboa, (Cydonia oblonga Miller), dizendo que são semelhantes em aspecto, mas como a gamboa é menos ácida não precisa ser transformada em geleia ou marmelada. De qualquer modo ou a gamboa é desconhecida ou então não percebo como as duas designações são sinónimas. 
Como a compota de marmelo é a minha preferida dos doces feitos com esse fruto resolvia aplicar a mesma receita à gamboa. Bem, a mesma receita não foi. Primeiro porque estava preguiçosa e deixei os quadrados da fruta maior que o habitual e em segundo lugar porque os cozi directamente em água, com especiarias e só depois juntei o açúcar. No final adicionei umas gotas de limão para aumentar a pectina (não sei se tem a mesma que os marmelos). De qualquer modo o resultado foi excelente.
Claro que não será uma conserva muito duradoira, devido ao baixo ponto de açúcar. O que me fez lembrar o autor anónimo de Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros, livro publicado em 1788 que dava uma receita em que as pêras depois de uma primeira fervura eram metidas em açúcar em ponto de espadana para acabarem de cozer. Iam à mesa com a calda, quentes ou frias, «e durão assim nesta calda perfeitas quatro dias». Era por essa razão que o autor designou a receita: «Compota de peras para logo».
A minha vai ser mesmo para logo, mas dada a quantidade há-de dar para muitos mais dias.

sábado, 28 de setembro de 2019

Escovas, escovas e mais escovas na Escovaria de Belomonte


Descobri a loja numa rua íngreme do Porto, numa rota diferente da que costumo fazer nas minha voltas pela cidade. Saindo do Largo de S. Domingos, onde tinha visitado o pequeno Museu da Farmácia Moreno, chamou-me à atenção a placa esmaltada de fundo branco com vários tipos de escova e as palavras «Escovaria de Belomonte» e, em baixo, o nome do fundador «António da Silva».
Era hora de almoço e encostando o nariz ao vidro para ver o interior comentei em alto: «Que pena. Está fechada». De imediato surgiu o proprietário, o sr. Rui Rodrigues que, abrindo a porta, nos convidou a entrar. 
Tenho um fascínio por escovas sobretudo depois que vi num episódio do Antique Roadshow, uma colecção de escovas, feita por uma miúda de 12 anos, com variadíssimos modelos adaptados a diferentes funções.
O sr. Rui Rodrigues, de contacto fácil e amável, contou-nos a história da pequena fábrica iniciada em 1927, em Massarelos, pelo avô de sua mulher Olinda. Em 1938 o seu pai Fernando Silva mudou-se para a Rua do Belomonte e foi o nome da rua que passou a identificar a escovaria. 
Após a sua morte ficou à frente da produção Rui Rodrigues e uma funcionária, Maria de Fátima Fonseca, que aí trabalha há mais de 40 anos. Mais tarde a eles se juntou o  filho Sérgio, designer, que imprimiu modernismo ao conceito.
Totalmente feitas à mão as escovas apresentam-se feitas em vários tipos de madeira e nelas se utilizam diferentes tipos de pêlo, como cerda de porco, crina de cavalo, pêlo de cabra, pêlo de texugo, etc.  
A produção varia com as encomendas pelo que se podem ver, a par de produtos tradicionais, como piaçabas, vassouras pequenas, de cabo, etc., escovas mais sofisticadas para fato e calçado e um sem número de escovas de que ignoramos a função.
Um pequeno mundo fascinante que dá prazer descobrir e trazer connosco uma daquelas escovas que, desde que a descobrimos, nos faz crer que não podemos passar sem ela. 


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Frek o esfregão mágico


O conjunto encontrava-se ainda no seu saco de plástico original, gasto e já sem a transparência inicial. Ligeiramente dobrado foi necessário retirá-lo, submetê-lo a uma atmosfera húmida e endireitá-lo. Um tratamento de luxo para um simples papel publicitário, na realidade a promoção de uma amostra de esfregão de cozinha.
Desconhecia a marca Frek e não encontrei qualquer registo sobre ela. O número de telefone remetia-nos para os anos 60 e efectivamente encontrei no Diário de Governo de 13-12-1967 uma alteração de estatuto, com a entrada de novos sócios, da sociedade fundadora a «Transformadora de arames Ibérica», com sede em Sacavém.
Com o preço de 6,50 escudos o Frek, era «um produto são e higiénico e económico pela sua duração» e anunciava-se o ideal para as baterias de cozinha, louça e outro vasilhame. Era o período áureo dos objectos de cozinha em alumínio que as donas de casa gostavam de mostrar a brilhar, mas os produtores avisavam que só se devia usar com esse fim quando estivesse na «macieza adequada».
Foi um precursor dos esfregões verdes que hoje utilizamos e os promotores escolheram uma imagem do Gato Felix, o gato antropomórfico nascido em 1919, para o promover irradiando alegria ao ver a sua imagem espelhada no fundo brilhante de um fundo de tacho, seguramente de alumínio.
Sinceramente, não posso perceber como este «esfregão mágico», saído da indústria nacional, não teve o sucesso que merecia.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Ementa para engenheiros


Confesso que à primeira vista não percebi logo que esta lista correspondia a uma ementa. Na verdade é uma ementa para uma reunião de engenheiros que terá tido lugar no Instituto Superior Técnico em 14 de Julho de 1934.
O novo projecto construído ao cimo do que viria a ser chamada a Alameda, em Lisboa, iniciado em 1927, foi obra do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro e do engenheiro Duarte Pacheco. O ano lectivo de 1935 foi o primeiro ano em que se iniciaram as aulas nas novas instalações. Com base nesta data pensamos que a ementa possa corresponder a um lanche ou pequeno banquete, servido pela Pastelaria Bénard, sendo provável que tivesse servido para comemorar o final das aulas no antigo Instituto Técnico fundado em 1911[1].
IST. Arquivo fotográfico da CML.
Designada «Inventário de Armazém” em vez de «Ementa», pertence a um tipo de ementas com características humorísticas, adaptado aos fins ou pessoas visadas, que foram mais frequentes na primeira metade do século XX e que encontramos sobretudo em grupos ou associações masculinas.

Esperemos que o repasto tenha sido melhor do que o
Inventário de Armazém nos faz crer.



[1] Não posso excluir que se tratasse de uma comemoração da aprovação dos Estatutos da Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, que havia sido publicada no Diário do Governo em 5-3-1934 (n.º 52/1934, Série I) mas o espaço de tempo decorrido torna menos provável esta hipótese.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A romã na nossa vida e na arte


 Foi um presente de romãs ainda verdes mas abertas mostrando os seus grãos de um vermelho reluzente que desencadeou este poste. Apeteceu-me imediatamente fotografá-las pela sua beleza e utilizei um prato verde das Caldas da Rainha para, no conjunto, formar uma peça bordaliana.
A palavra romã (Punica granatum L.) provém do antigo nome semítico “rummanu”, que deu ” rimmon” em hebreu e “roummana” em árabe[1]. Mais tarde as línguas grega e latina usaram a expressam genérica “malum” ou “pomum granatum” (i.e. cheio de sementes), onde a língua inglesa foi buscar o pomegranate. José Pedro Machado dá-nos a origem a partir do latim rõmãna (¨mala), «(maçã) romana)»[2].

Antonello de Messina
A presença da romã no Oriente esta provada arqueologicamente desde o 4º milénio aC e no Egipto desde o 2º milénio bC[3]. Apesar de na Península Ibérica dever anteceder a sua identificação arqueológica no século 6º bC na região costeira aonde chegaram os fenícios e que provavelmente corresponde à introdução da árvore na Andaluzia.
Pormenor menino Jesus com romã. Sandro Boticelli.
Desde sempre esteve associada à fertilidade e à abundância, é essa a simbologia que encontramos na sua presença no bordado de Castelo Branco.

Durante a idade Média e a Renascença vamos encontrá-la em obras como a de Antonello da Messina “Nossa Senhora com o menino” (c. 1460), existente na National Galery em Londres ou na pintura de Sandro Botticelli “Nossa Senhora da romã” (1481) existente na Galeria dos Uffizi em Florença onde o menino Jesus segura uma romã, como um fruto símbolo da vida. Este é um dos exemplos em que os alimentos estão presentes na Arte da Renascença com poderes simbólicos.
Luiz Melendez, 1771
Mas a romã atraiu muitos outros pintores como Melendez ou  Simeon Chardin (1763) presente no Museu do Louvre. Não esquecendo a nível nacional a sua representação por Maluda, num dos mais felizes dos seus quadros e de que já falei anteriormente.
Maluda, 1984



[1] Lorenzo Nigro; Federica Spagnoli. Pomegranate (Punica granatum L.) From motya and its deepest oriental roots. [Vicino Oriente XXII (2018), pp. 49-90]. Consulta online.
[2] José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.
[3] Lorenzo Nigro; Federica Spagnoli. Pomegranate (Punica granatum L.) From motya and its deepest oriental roots. [Vicino Oriente XXII (2018), pp. 49-90]. Consulta online.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Pudim Selvito da Flor da Selva


O pacote de “Pudim Selvito” está ainda cheio. É um pudim de baunilha, em pó, corado artificialmente e a que bastava juntar leite e açúcar e levar ao lume brando para engrossar. Depois era só pôr numa forma e deixar arrefecer. Para fazer creme bastava aumentar a quantidade de leite e seguir a mesma receita.
Era uma modernidade para a época que, pelos vistos, chegou até aos dias de hoje. Na época, a década de 1950, existiam outros pudins deste tipo, sobre um dos quais já falei: o pudimJané.
Este era distribuído pela firma A Flor da Selva, Lda. que se situava na Rua da Esperança, 50, em Lisboa e que foi fundada em 1950 por Manuel Alves Monteiro, natural de Paderne, Melgaço. De acordo com a informação da empresa[1] que ainda hoje existe, pertença dos filhos Vasco Faria Monteiro e Jorge Faria Monteiro, o pai veio para Lisboa aos 13 anos trabalhar na distribuição numa mercearia. Foi recebido, em 1937, por seu tio materno o grande fotógrafo Manuel Alves San Payo, que seria responsável pela fotografia oficial de Salazar e por muitas outras de qualidade que deixaram registos da época.
Pacote de açúcar
A essa actividade associou estudos nocturnos no Ateneu Comercial. Logo que lhe foi possível adquiriu uma quota no estabelecimento de cafés Ferreira & Maurício, Lda., de nome comercial “Flor Africana” que ficava na Rua da Rosa nº 113, em sociedade com Manuel Ferreira. Em 1950 fundou uma nova empresa a designada A Flor da Selva, Lda., com loja na Rua da Esperança nº 50, em Lisboa.
Imagem no registo inicial de 1951
Neste período é possível encontrar em Portugal muitas marcadas e imagens associadas a África, como aconteceu com esta empresa. A marca “Flor da Selva” só foi contudo registada em Agosto de 1951[2]. A insígnia da firma foi a imagem de uma mulher africana a beber café desenhada por seu primo Nuno San Payo, filho do fotógrafo Manuel San Payo. Nascido no Brasil (1926-2014) formou-se em Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Foi também pintor, cenógrafo, desenhou cartazes e ilustrou vários livros e revistas[3].
Registo inicial em 1958
Nuno San Payo adaptou a imagem desenhada para a Flor da Selva com pequenas variações. Embora a principal produção da empresa seja hoje a torrefação do café, numa fase inicial a oferta de produtos era mais alargada como se constata pelo registo da marca que abrangia: «café, chá, farinha, especiarias e sucedâneos do café». O registo da marca “Selvito” da Flor da Selva foi feito em 1958[4]. Sabemos que não se aplicava apenas ao pudim mas a outros produtos por existir uma maqueta para o desenho de uma carrinha automóvel com publicidade às “Especiarias Selvito”. 
Também aqui o tema africano foi utilizado com um jovem negro em ambiente tropical, com palmeiras, apontando para um pudim voador. Uma imagem que me faz lembra o Vicente desenhado por Sara Afonso para as Novas Aventuras de Mariazinha em África, escrito por Fernanda de Castro, uma das minha leituras de infância mais queridas.
A empresa mantém-se ainda hoje pelas mãos dos filhos e netos do fundador.


[2] BPI, Nº 10, 20 de Agosto de 1951.
[3] Como no Jornal da Mocidade Portuguesa, Camarada, Lusito e Diabrete.
[4] BPI, Nº 3 de 10 Maio de 1958.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Hotel Alexandria em Menton

Ao folhear um exemplar da revista La Constrution Moderne de 1885 deparei-me com a planta de um hotel de grandes dimensões em Menton. O livro apresentava apenas as gravuras com legendas. Na apresentação do edifício era designado como «Hotel de Voyageurs à Menton», mas seria mais tarde conhecido como Hotel Alexandra.
Nunca tinha ouvido falar de Menton e, no entanto, é uma cidade muito antiga, situada nos Alpes Marítimos e cuja topografia em anfiteatro do mar às montanhas a transformou num procurada colónia balnear. Esteve primeira ligada a Itália, depois ao principado do Mónaco até 1848 e passou para a posse da França em 1860.
Planta do subsolo onde se encontrvam as cozinhas
Entrou na moda como estância de veraneio no século XIX com a chegada de viajantes ingleses e russos à Côte d’Azur. Serviu de encontro de príncipes e viajantes endinheirados que aproveitavam passar o Inverno junto ao mar em grandes hotéis de luxo como o "Winter Palace", o "Riviera Palace" e claro este Hotel Alexandra. 
Planta do rés-do-chão onde se situava a sala de jantar
São construídos os primeiros hotéis “à inglesa” em Nice e Menton, de inspiração oriental, por influência colonial, rodeados por jardins que acolhiam os viajantes, sobretudos vindos do outro lado da Mancha, inicialmente (na segunda metade do século XVIII) para fazer o Grand Tour, as viagens em Itália. Com a chegada do comboio á região no século XIX começaram a instalar-se e modificaram a vida local.
Planta do 1º piso com o jardim de Inverno
Menton deve muito do seu desenvolvimento a um médico inglês James Henry Bennett que aí chegou em 1859 para se tratar de tuberculose. Tendo tido sucesso publicou dois livros sobre o tema: Sur le traitement des maladies pulmonaires, par l’hygiène, le climat, et la médecine, et ses rapports avec les doctrines modernes e L’hiver et le printemps sur les côtes de la Méditerranée.
Corte do Jardim de Inverno
Estas obra, traduzidas em várias línguas, levaram a que o número de residentes tenha aumentado consideravelmente o mesmo acontecendo com as instalações hoteleiras. E, se em 1861 a pequena vila não tinha mais de 2 ou 3 hotéis em 1875 passava para 30.

O Hotel Alexandra foi inaugurado em 1884 de acordo com um projecto do arquitecto parisiense Gustave Rives, que rompeu com as tradições do hotel maciço. Embora de grande dimensões apresenta recortes em que sobressaem as áreas sociais. 
No subsolo situavam-se as grandes cozinhas e áreas de serviço como era moda no século XIX, todas as dependências possuindo janelas. 
A sal de jantar
No rés-do-chão ficava a grande sala de jantar, precisamente sobre a cozinha, uma pequena sala de refeições, os salões, a sala de bilhar, a sala de leitura, etc. Era aqui que tinha início o jardim de Inverno que se estendia para o piso superior. Nos andares superiores ficavam os quartos.
Um dos salões
Foi o jardim de Inverno que me fez começar a escrever este poste. Esta forma de interiorização da Natureza, tão ao gosto oitocentista, servia também para tomar refeições nalgumas situações e habitações.
Jantar em Casa da Princesa Matilde
Sobre este tema recordo a bela pintura de Charles Giraud o jantar em casa da Princesa Matilde Bonaparte, onde a refeição teve lugar num jardim de Inverno e sobre o qual tanto há a dizer.
Jardim de Inverno do Hotel Krasnapolsky
E agora que se aproximam as férias recordo o Jardim de Inverno do Hotel Krasnapolsky, em Amesterdão, onde eu comi o melhor pequeno-almoço de que me lembro. Não terá sido influência do espaço?

Bibliografia:
Bottaro, Alain. La villégiature anglaise et l’invention de la Côte d’Azur. Consulta em linha em: http://journals.openedition.org/insitu/11060
Planat, P. (Director). La Construction Moderne. 24 de Outubro de 1885