segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A Fábrica Schalck em Lisboa

O edifício ainda lá está na Calçada do Cascão, perto da Feira da Ladra, revestido a azulejos em tons amarelos, que brilham intensamente com a luz do sol. Este tipo de revestimento azulejar data do século XIX, numa altura em que o local era «Travessa de João Gascão», nome que já vinha do século XVII, de um comerciante aí estabelecido.
Foi numa das casas dessa calçada, no lado direito de quem desce, que se estabeleceu, em 1854, a Fábrica Schalck. Mais conhecida por produzir botões era chamada pelos habitantes locais, muitos dos quais para ela trabalhavam, no local e no domicílio, até meados do século XX, como «Fábrica dos Botões». Ainda hoje moradores do local recordam esses tempos.
Que foi uma grande fábrica para a época não há dúvida e, apesar da discrepância dos números encontrados o Inquérito Industrial de 1881 classificava-a nas 50 maiores de então. No relatório da visita às instalações eram referidos «138 operários internos, além de 60 que trabalhavam fora da fábrica».

Embora este tipo de industria estivesse classificada no sector da pregaria, para além da produção de pregos, e de botões de que já falámos, produzia também colchetes, ganchos para o cabelo e cápsulas para garrafas, boiões e frascos. Foi esta última actividade que me chamou a atenção para esta empresa. No meu livro «Licores de Portugal», a propósito da forma de fechar as garrafas, eu havia já escrito: «No final do século XIX existia já em Portugal pelo menos uma fábrica que produzia cápsulas metálicas para fechar garrafas; tratava-se da firma H. Schalck Sucessores que, em 1884, esteve presente na Exposição Agrícola de Lisboa; anteriormente a sua produção tinha sido agraciada com uma menção honrosa nas Exposições de Viena de 1873, de Filadélfia de 1876, de Paris de 1878 e do Rio de Janeiro de 1879.
Agora, o achado de uma factura de 1928, pôs-me novamente no encalce da história desta empresa. Vejamos alguns aspectos interessantes com ela relacionada. O proprietário da fábrica, Henrique Schalck tinha origem alemã e foi representante de várias empresas do seu país natal. Nela trabalhou um outro alemão Karl Emil Biel (1838-1915), que chegou a Lisboa em 1857.  Isso explica que, aquele que se tornaria um fotógrafo famoso se tenha estabelecido, em 1867, com uma Fábrica de Botões, na Rua da Alegria, no Porto após ter comprado uma propriedade a José Joaquim Pereira Lima, na Travessa do Luciano à Rua da Alegria.
A fábrica Schalck foi adquirida em 1917 pela Companhia Previdente, uma empresa fundada em 1825 por Francisco José Simões e que se dedicava à venda de ferragens. A loja situava-se na Rua do Comércio, 28 em Lisboa. De acordo com a factura que refiro, em 1828 a fábrica mantinha-se na Calçada do Cascão enquanto os escritórios ficavam no Largo do Conde Barão, 4, 1º andar. Era seu depositário em Setúbal Afonso H. O’Neill que tinha sede na Avenida Todi.
Para perceber o apogeu e queda desta fábrica temos que ter em consideração vários factores.
O negociante da praça de Lisboa, Henrique Schalck (1816-1875), era figura respeitada, o que levou à sua nomeação em Janeiro 1866 de «Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo», por carta existente no Registo Geral de Mercês de D. Luís I. Em 1844 casou com Virginia Charlotte Gerstlacher (1822-1907) de quem teve 7 filhos, e destes, foi o seu filho Fernando (1851-..) quem passou a dirigir o negócio após a sua morte. Virginia era filha de Isabel Maria da Conceição (1801-1876), filha da rainha D. Carlota Joaquina e de D. João VI.
Um dos filhos de Henrique Schalck, Vitor Henrique Schalck recebeu igualmente em 1904 o Grau de Cavaleiro da Real Ordem de Cristo (Registo Geral de Mercês de D. Carlos I). Foi este o encomendador de uma das mais interessantes casas de veraneio da linha do Estoril,  projectada em 1915 por Raul Lino, e cuja construção decorreu até ao início da década de 20. 
Fotografia tirada da internet do site Património Cultural
É provável que tanto as dificuldades no acabamento desta moradia de veraneio, como a aquisição da fábrica por uma empresa concorrente, a Companhia Previdente, em 1917, tenham a ver com uma ordem do Ministério das Finanças de 1916 em que na «Conta corrente dos bens dos inimigos à ordem do Ministro das Finanças», onde são mencionados os bens apreendidos a indivíduos ou empresas de alemães residentes ou com relações comerciais com Portugal, é mencionado o nome de Victor Henrique Schalck.
Para quem estiver interessado em seguir a evolução da Companhia Previdente e, de como o seu destino se tornou a ligar à família O’Neil, deixo o link para o excelente artigo do blog «Restos de Colecção» :

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O intervalo das criadas

 
Esta bela fotografia surge num livro de recortes (scrap book soa muito melhor, mas evito usar estrangeirismos) e mostra-nos um momento raro de conversa entre duas criadas.
As fotografias não são habituais neste tipo de livros onde predominam os cartões e “papéis” identificados como belos, que contribuem para a estética do conjunto.
Neste, contudo, até rótulos de cerveja antigos aparecem, o que se justifica pelo seu colorido, um tema contrastante com os anjinhos e flores dispersas pelas páginas.
Ao lado desta foto surge uma outra de uma senhora aparentando ser a patroa, o que justificaria a legenda escrita à mão: «As criadas a tagarelar e a patroa vai ralhar...». Este apontamento de humor terá saído, muito provavelmente, das mãos de um elemento mais jovem feminino da família, que era quem habitualmente  fazia estes livros, nos finais do século XIX e início do século XX. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O "pau-roxo" ou cenoura-roxa

Dois tipos de cenoura-roxa
 Quando há dias vi na televisão uma feira do “pau-roxo” em Castro Verde decidi investigar este tipo cenoura que nunca tinha experimentado. Na região cultivava-se esta cenoura-roxa há muitos anos. Quando a sua cultura começou a cair a autarquia local decidiu investir na compra de sementes e agora podemos já encontrar vários agricultores que a produzem.
As duas cenouras-roxas em corte
É verdade que já a tinha visto visto à venda no Mercado da Ribeira, mas são cenouras de importação. São sobretudo destinadas aos restaurantes que gostam de mostrar alimentos diferentes.
Salada de cenouras roxas
Escolhi a palavra «diferente» com cuidado, para evitar «novos». Porque este tipo de cenoura nada tem de novo. Na realidade é a forma mais primitiva da cenoura.
Codex Napolitano, séc. VI
E tem milhares de anos. Em templos egípcios surge representada desde 2000 aC. E os afegãos fizeram menção à cenoura-roxa em 900 dC. Do Afganistão, berço da diversidade das cenouras, passou para a Turquia onde começou a ser domesticada. Da Ásia Central a cenoura foi trazida para o Ocidente pelos árabes no século X e no século XII já eram cultivadas em Espanha.
Outro tipo de cenoura-roxa. Foto tirada da internet
 Foram estas plantas que vieram para o Ocidente que se tornam mais claras, amarelas e depois laranjas. As culturas orientais levadas para o Norte da Ásia e para o Japão mantiveram as caracteríticas purpuricas, de que existem muitas variantes.
Interior de cozinha, Beucklaer, 1566
Quanto à cenoura laranja, com ao conhecemos hoje, é mais recente e os  primeiros registos que se conhecem encontramos-los em pinturas holandesas do século XVI e XVII, mostrando-nos que esta variedade era já cultivada nesta região.
Mulher no mercado com frutas e legumes, Beucklaer , 1564
Vamos encontrá-las na pintura na obra de vários autores, apresentadas nas múltiplas variantes púrpuras e nas mais modernas e "ilustres" variantes laranjas.
A diferença fundamental reside na sua composição, rica em anti-oxidantes lipofílicos (os carotenóides) e hidrofílicos (compostos fenólicos). As variantes laranja contém α e β carotenos, as amarelas contém luteína e as de cor vermelha tem sobretudo antocianinas. Do ponto de vista nutricional as cenouras roxas têm mais vitamina A, B, C e E, e também Pectato de Cálcio que é uma boa fonte de fibras, ajudando a baixar o colesterol.
Cotan 1602
No que respeita ao gosto apenas experimentei duas variantes roxas. São menos doces e o gosto pareceu-me menos intenso. O aspecto de acidez ou ligeiro picante realçado por algumas pessoas não me pareceu evidente. Por alguma razão as cenouras de cor laranja, tão diferentes também entre si, predominaram e penso que não se deverá apenas ao facto de a sua cultura ser mais fácil.
Joachim Witewael (1566-1638)
Vamos ver por aí cada vez mais cenouras roxas. Talvez seja bom misturá-las. Mas as cenouras laranjas podem estar descansadas. Apesar de mais fracas do ponto de vista nutricional, não irão ser abandonadas.
Cenouras. Pormenor do quadro de Joachim Witewael

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Museu Virtual: Serviço de Chá, modelo cúbico

Nome do Objecto: Serviço de Chá
Descrição: Conjunto incompleto para chá composto por: 1 bule, 1 açucareiro, 1 chávena e dois pires. Tanto o bule como o açucareiro apresentam base quadrada e forma respectivamente cúbica e paralelepipédica, com tampas idênticas, sem botão superior, existindo apenas duas reentrâncias laterais, de cor alaranjada, para deslocação das mesmas. Pega embutida no corpo geométrico, sem proeminência, igualmente visível pela presença da cor alaranjada. Tanto as chávenas como os pires são octavados. Decoração do tipo craquelé acentuada a preto, contrastando com  triângulos laranja no cantos das peças e asa da chávena.
Material: Porcelana.
Época: cerca de 1930 (entre 1920 e 1940).
Marcas: «Coimbra Portugal» (empresa Porcelana de Coimbra). O bule tem escrito na base o modelo: «Cúbico» e a pintura: «A. L. 1.015».
Origem: Mercado português.
Grupo a que pertence: Utensílios domésticos. Equipamento culinário.
Função Geral: Recipientes para o serviço ou consumo das bebidas
Função Específica: Servir e consumir chá.
Nº inventário: 1379 A a E. 

Objectos semelhantes:
1 – Uma leiteira deste conjunto existe na colecção do Museu Nacional do Azulejo.
2 – Um serviço de café composto por cafeteira, leiteira, açucareiro, 6 chávenas e 6 pires idêntico, com peças de porcelana moldada, de formas cúbicas, do modelo cúbico, mas com decoração diferente (Ref. L.B. 5048) foi apresentado no blog: «Moderna uma outra não tanto». O serviço tinha para além destas peças um prato para bolos e uma compoteira.
NOTAS:
Este tipo de modelo de bules cúbicos teve a sua origem em Inglaterra, tendo sido Robert Crawford Johnson (1882–1937) o responsável pelo seu desenho que registou em 1916 (Patente Nº 693783)  com o nome de "Cube Teapots Ltd", firma situada em Campbells Yard em Leicester. Os primeiros serviços feitos por esta firma eram em casquinha, feitos na própria empresa, em Leicester, e posteriormente foram produzidos em Birmingham por Napper & Davenport.
V & Albert Museum
A primeira produção deste tipo de bules inovadores em cerâmica só se veio a dar cerca de 1925, sendo a primeira fábrica a produzir este serviço a "Arthur Wood" situada em  Stoke-on-Trent, mas muitas outras se seguiram como “T G Green”  e a ” Wedgwood & Co Ltd”. Mas se as primeiras fábricas produziram o modelo sob licença, seguiram-se muitos outros modelos em cerâmica produzidos por fábricas inglesas mas também europeias que copiaram a forma, alterando a decoração.
Neste período desenvolveu-se a moda das casas de chá em Inglaterra e as viagens por cruzeiro em grandes paquetes. O “design” do serviço tornavam-no ideal para estas funções por ser mais facilmente armazenado, ser mais resistente e tinha a vantagem de pingar menos (um assunto a que os ingleses foram sempre sensíveis e os portugueses ainda hoje não compreenderam). As suas formas geométricas facilitavam também a sua disposição em tabuleiros, com que alguns eram vendidos, pelo que rapidamente começaram a ser usados nos grandes paquetes da linha Cunard e noutros.
O grande transatlântico Queen Mary possuía serviços deste tipo em porcelana, com tabuleiros em bakelite, para servir o chá nos decks e cabines da 2ª e 3ª classe, enquanto na 1ª classe os serviços eram em casquinha.

Em Portugal é desconhecida a autoria destes modelos mas, os vários exemplares conhecidos foram todos produzidos pela empresa de Porcelana de Coimbra, no período referido (1920-1940).

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Etiquetas espertalhonas

 
  Confesso que fiquei surpreendida com a identificação deste pacote de rótulos como sendo «etiquetas espertalhonas».

Não se trata de etiquetas simples mas sim de um conjunto de rótulos identificadores de várias funções ou utilidades. Não é necessário escrever nelas porque apresentam declarada a sua utilidade, como se as mesmas tivessem conhecimento das nossas necessidades.
Achei a expressão engraçada porque estabelece a diferença entre esperto e espertalhão. No dicionário «esperto» é definido como: sagaz, vivaz, vivo, hábil, inteligente, industrioso, enquanto a expressão popular «espertalhão» se aplica a quem é sagaz, esperto, finório, astuto.  
Isto é: a quem usa a esperteza para tirar vantagem. Neste sentido pode ser-se esperto e não utilizar essa capacidade, mas o espertalhão usa-a em seu proveito.
 Dito isto, resolvi armar-me em esperta e mostrar-lhes estas etiquetas espertalhonas porque estou certa que também as  desconhecem.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A Confeitaria «A Lisbonense», na Covilhã

Pormenor de fotografia do Pelourinho vendo-se à esqª a montra e porta da Confeitaria Lisbonense
Só numa das últimas idas à Covilhã descobri que já não existia a confeitaria «A Lisbonense». No meu tempo de liceu, fazia um desvio depois das aulas, antes de voltar para casa para passar por lá e comer um mil-folhas. Naquele tempo era um pastel folhado de grandes dimensões, recheado com um verdadeiro creme pasteleiro e coberto com um glacé branco e de chocolate, marmoreado, com um ligeiro toque a limão, delicioso.
O milfolhas mais parecido que encontrei na internet mas com 3/4 do tamanho
Nunca mais comi um mil-folhas como aquele. Ao longo dos anos fui também constatando que, quando pedia um bolo semelhante numa pastelaria, ele ia sendo cada vez mais pequeno e cada vez menos saboroso. Acabei por desistir e já não me lembro quando comi o último.
Quando vi o edifício em obras e a confeitaria fechada pensei que tinha que reavivar esta memória. Soube que o último proprietário ainda era vivo e na última ida à Covilhã consegui finalmente falar com ele. Refiro-me ao sr. José Correia Cunha, nascido na Sortelha em 1929, e portanto hoje com 85 anos. Contou-me que a confeitaria foi fundada em 1912 por um espanhol, Francisco Munhoz Gomes, com quem o sr. José Correia começou a trabalhar em 1948. 
O sr. José Correia em frente à Confeitaria, vendo-se as duas portas, no edifício agora em obras
Na mesma data entrou também ao serviço o pasteleiro Joaquim Duarte de Oliveira que seria o responsável pelos bolos que tornaram aquela casa tão apreciada. No atendimento estava o sempre gentil sr. José Correia que ainda hoje recorda todas as pessoas da Covilhã. E, a avaliar pelas pessoas que o cumprimentavam, quando com ele se cruzavam, pode-se perceber que deixou uma boa recordação nos seus clientes.

O proprietário inicial, também conhecido por “o espanhol” morreu em 1956, e a  confeitaria passou para as mãos de Artur de Almeida Campos, o maior empresário de restauração e hotelaria daquela zona, nessa época. Em 1969 constituiu-se uma nova sociedade de que faziam agora parte o sr. José Correia e o pasteleiro Joaquim Oliveira.
A confeitaria «A Lisbonense», situada no Largo do Município, 31-32, era um espaço de pequenas dimensões para os nossos padrões actuais. Lembro-me de ser um espaço rectangular com uma pequena montra e com o balcão à esquerda da entrada e mesinhas na parede oposta. Segundo o sr. José Correia anteriormente o balcão ficava atravessado e, por trás, ficavam as mesas, junto a uma lareira eléctrica.

Em 2008 a casa fechou para o edifício ir para obras que se arrastam até aos dias de hoje. Com o fecho da casa acabaram os pastéis de molho que aí se compravam, as  empadas e os deliciosos folhados de carne, bem como  os doces regionais. 
O sr. José Correia lembrou-me alguns que eu já havia esquecido como os bábas, com calda de açúcar e rum, com uma pequena tampa de massa no cimo, sobre um pico de chantilly, e que nesta casa se chamavam os Hermínios; os bolos de arroz com o seu papel envolvente, feitos mesmo com farinha de arroz; as gargantas de freira; os fios de ovos; as lampreias de ovos; os bolos de amendoim feitos com uma massa achocolatada misturada com amendoins sobre uma folha de folhado e que eram designados «farta-brutos»; as pirâmides de chocolate e os ratinhos feitos igualmente com a massa de bolos secos, moída e com chocolate e tantos outros que já não recordo.


Quando as obras acabarem já não restará nada do local excepto as recordações do sr. José Correia, que agora passeia os seus tempos livres pelo Pelourinho, e a dos clientes mais antigos, como eu. Para quem não conheceu este espaço fica esta memória.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Dia de Reis

Pequeno bolo rei, um sinal dos tempos modernos, e brindes antigos do bolo, sinais de outros tempos. Feliz dia de Reis.