terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Dona de Casa em música

Pela voz da cantora Lina Maria e com acompanhamento musical da orquestra de Tavares Belo, foi gravado pela Rádio Triunfo um disco de 45 rotações intitulado «Dona de Casa».

Não encontrei qualquer registo à data mas parece tratar-se de uma gravação dos anos 60. A foto da capa é da autoria de Augusto Cabrita que foi também o responsável por outras capas de discos de sucesso na época, como os da Amália Rodrigues e de Simone de Oliveira.
Dona de Casa - Roy Lichenstein
A ideia de «dona de casa» implicava que a mulher não exercia qualquer profissão fora de casa. A sua actividade ficava assim circunscrita ao interior do domicílio, nas suas várias facetas de mãe, mulher, mas sobretudo exercendo funções domésticas. Este último aspecto começou a desenvolver-se no final do século XIX com a redução progressiva do número de criadas.
Com a simplificação das funções domésticas por via da industrialização, no período posterior à segunda guerra mundial, começou a esperar-se mais uma feminilização da mulher no interior doméstico. A publicidade dos anos 50 a 70 apresentavam um dona de casa cuidada, exercendo a sua actividade no lar com saltos altos, cabelo arranjado e vestida com elegância.

Em Portugal o concurso «Mulher Ideal Portuguesa», iniciado em 1966 e que se manteve até 1973, pretendia escolher uma dona de casa que soubesse cozinhar, mas que fosse também elegante e culta. Nos seus conhecimentos exigia-se mesmo que soubesse fazer cocktails e tivesse noções de decoração doméstica. Da iniciativa do Clube da Donas de Casa, de que fazia parte a directora da revista com a mesma designação, incluía no júri outros nomes como o de Maria Emília Cancela de Abreu, então directora da revista Banquete.

Na foto seleccionada para a capa do disco, Lina Maria surge sóbria mas elegantemente vestida, com uma saia preta e blusa branca e com sapatos de salto alto. A mão anelada segura num bloco de apontamentos onde regista os seus próximos passos, mostrando ser uma dona de casa organizada.
Sentada no escadote, onde está pendurado um pano do pó, tem a seus pés um balde e um alguidar de plástico, símbolos da modernidade doméstica, na época.
Uma imagem surpreendente para os nosso dias, que então fazia todo o sentido. Ou não fosse Augusto Cabrita um conceituado fotógrafo.

sábado, 3 de setembro de 2011

Objecto Mistério Nº 26. Resposta: Tesoura para cortar ovos quentes

O último objecto mistério apresentado corresponde a uma tesoura para cortar ovos quentes.

Apertando as suas “orelhas” surgem uns dentes que permitem cortar a parte de cima do ovo, tornando o corte da casca mais regular. Torna-se assim mais fácil chegar à gema e misturar a gema com a clara.

Quem não tem este objecto corta a parte de cima do ovo com uma faca, que depois roda. O resultado é o mesmo, mas a casca restante fica sempre mais irregular.

Não se pode dizer que os portugueses tenham muito o hábito de comer ovos quentes. São poucos os que o fazem, ao contrário dos franceses e ingleses.
Contudo, existem em Portugal vários modelos de oveiros, em cerâmica e porcelana, que mostram que tiveram algum uso em Portugal.
A mim os ovos quentes lembram-se sempre pequenos almoços de Domingo. É verdade que também eu me tenho esquecido deles, mas houve tempos em que cheguei mesmo a fazer uma pequena carapuça para tapar os ovos quentes no Inverno. Era uma época em que os dias eram maiores e o tempo passava mais devagar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Objecto Mistério Nº 26

Aqui lhes apresento um novo objecto mistério.

Este é dos fáceis, embora o seu uso não esteja muito nos hábitos dos portugueses.

É feito em aço inoxidável e a circunferência da roda tem 6,5 cm.

Para que serve?

domingo, 28 de agosto de 2011

Um livro de Receitas de Conservas da Graciet & Cie


Foi um francês, Nicolas Appert, o responsável pelo método de conservação dos alimentos que se viria a chamar «conservas».
Foi em resposta a um prémio oferecido pelo governo de Napoleão, para conseguir conservar os alimentos e assim poder alimentar os seus soldados, que Appert escreveu o livro L'Art de conserver pendant plusieurs années toutes les substances animales et végétales, publicado em 1810.
Mas o método de conservação de Appert era feito em frascos de vidro de boca larga. Seria um inglês, Peter Durand, quem iria conceber as latas em folha-de-Flandres para conservação dos alimentos.
Os franceses tiveram uma industria próspera de conservas, sobretudo a partir do final do século XIX.
Este pequeno folheto é um livro de receitas de atum oferecido pela Fábrica Graciet & Cie então situada em Bordéus.
A fábrica, que tinha filiais em África, em especial no Senegal, tornou-se ela própria, em 1971, numa filial de uma outra grande empresa de conservas: a Compagnie Saupiquet.
Esta, por sua vez, remontava a 1871 e a sua história foi de sucesso. Contudo, acabou também por ser adquirida por outras empresas, naquele jogo do gato e do rato, que se transformou na história actual da industria mundial e a que eu acho pouquíssima graça. Por isso fico por aqui.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Bovril. O Rei da Cozinha

Já anteriormente falei sobre o Bovril, um suplemento alimentar, então a propósito dos seus frascos.
Volto hoje a mencioná-lo para apresentar um cartão publicitário. Muito ao gosto “fim de século” representa um menino vestido de cozinheiro com fato e touca adequados. Tendo na mão um frasco de Bovril experimenta, com uma colher, o seu cozinhado, feito num fogão a lenha.

Do outro lado do cartão podem ler-se as vantagens do produto referido como um «nutrimento de muito valor e de magnífico paladar».

Numa época de preocupações económicas, salientava-se a sua vantagem para a confecção de pratos em que se podiam utilizar «materiais mais modestos» e mesmo assim conseguir sucessos culinários.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Um livrinho da Fábrica de Chocolates Regina

Quando eu andava na escola havia uma menina que se chamava Regina e que era filha de um jogador de futebol de nome Cabrita, numa altura em que o Clube de Futebol da Covilhã esteve na primeira divisão.
Constava que se chamava Regina porque era afilhada dos donos da Fábrica de Chocolate com o mesmo nome. Nunca confirmei esta informação mas pensei sempre que devia se priviligiada e que devia comer mais chocolates que qualquer um de nós. Nessa altura apenas se ofereciam e comiam chocolates na altura das festas.
Mais tarde, já na época do liceu, lembro-me de ter de decidir, de acordo com a minha semanada, entre um chupa-chupa cilíndrico, verde ou encarnado embrulhado num papel transparente com riscas da mesma cor, diagonais, que custava 5 tostões e uma tablette de chocolate, com um recheio cremoso, com sabor a frutas, que custava 10 tostões.

Pelo caminho ficavam ainda os lanches em que abríamos os «pães de quartos», semelhantes a carcaças, e colocávamos lá dentro uma barra de chocolate Coma com Pão.
Fundada em Novembro de 1927, a Fabrica de Chocolates Regina, logo nos anos 30 , lançou uma caderneta de cromos de rebuçados com figuras do football.

O pequeno livrinho (8,5 x 5,5 cm) que aqui apresento é na realidade uma caderneta de cromos, uma vez que deixa espaço para a colocação dos mesmos. Embora pareça anterior, deve datar do início dos anos 50, data em que Walter Disney produziu o filme infantil de grande sucesso «Cinderela».
Das várias versões da Cinderela esta corresponde à de Walter Disney como se pode ver pelos nomes dos participantes, onde se encontra o rato Jac (tradução de Jak), Lúcifer o rato e Bruno, o cão.
Na contracapa podem observar-se estes vários intervenientes e a publicidade ao chocolate «Reizinho», que era uma novidade da Regina.
Nunca foi colado qualquer cromo e o possuidor da caderneta resolveu o problema desenhando a lápis a sua versão da história.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Paisagens alimentares hospitalares

Neste mês de Agosto, em que as pessoas procuram destinos exóticos, fui parar a uma cama de hospital.

Porque este não é um blog pessoal, passo sobre a experiência para me focar apenas no problema da alimentação.

Nos últimos tempos, desde que escrevi o livro «Receitas e Truques para Doentes Oncológicos» tenho feito conferências em vários hospitais sobre o tema da alimentação do doente oncológico.

Descubro agora que, para além de alguns pontos que distinguem os vários tipos de dietas, os erros cometidos são os mesmos.

Com o corpo e o espírito enfraquecido o doente entrega-se ao cuidado do hospital para o alimentar. Confia nele e aguarda que à hora programada a refeição chegue.

No caso concreto, que não especificarei, a refeição chegava, quente e em quantidade suficiente. Exagerada mesma para o apetite. A qualidade dos produtos era boa. Que tenho então eu a dizer?

Durante 8 dias foi-me dada a mesma sopa de cenoura. Talvez não fosse mesmo igual porque me queixei e veio outra. Mas a base era a mesma: uma base alaranjada de abóbora/cenoura, onde num dia finalmente sobrenadavam dois bocados de couve. A sopa nunca foi branca, ou verde ou amarela ou às cores.
Comecei a ficar traumatizada. Hoje, já em casa, ainda estou porque não deixo de pensar nisto e não consigo esquecer o cheiro.
Não vou falar em mais pormenores mas o problemas que acompanham a falta de apetite do doente são agravados pelos seguintes factores:

1 - A falta de variedade, que costumo, nas minhas comunicações,  documentar com um slide que tirei da net «Food Bingo», que representa a facilidade de fazer bingo, pela repetição.

2 - Alimentos duros, que cansam a mastigar.

3 - Falta de molhos que misturem tudo (proteínas, hidratos de carbono, etc).

Fico por aqui. Estou ainda muito cansada.