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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Festividades alimentares do dia de Todos-os-Santos

 A festa do dia de Todos-os-Santos é celebrada a 1 de Novembro, em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não, numa tentativa da igreja para não esquecer nenhum.
Ligada a esta festa existem rituais e hábitos alimentares que, em Portugal, variam de região para região, mas que têm muito em comum, em especial o peditório cerimonial feito por crianças. A esse peditório feito porta-a-porta respondia a população com ofertas alimentares, consoante as suas possibilidades e os hábitos da terra.
Embora tenha desaparecido em muitas regiões, era tradicional um grupo de crianças andar pelas terras a cantar canções às portas e a pedir o “Pão por Deus”. As pessoas que abriam as suas portas ofereciam maçãs, romãs, castanhas, rebuçados, nozes, bolos, como broas de milho, chocolates e até dinheiro.
Já no século XV a festa de Todos-os-Santos era designada Dia de Pão por Deus[1]. Nalgumas regiões também se chama a este dia o “Dia dos bolinhos”.

Na Beira Baixa era costume os padrinhos oferecerem aos seus afilhados o Santoro. Este é um pão comprido que se tornou uma oferta cristã, mas que deriva de um costume pagão, a oferenda dos mamphula ou pão Sírio, usada pelos romanos[2].
No Tortozendo, perto da Covilhã, esse bolo era alongado e levava azeite, mas por toda a Beira Baixa existia o hábito de fazer um pão deste tipo, nalguns locais em forma de ferradura. É a este pão que se deve a expressão «Pedir o Santorinho», usado nesta região, com o mesmo sentido de «Pão por Deus». Na freguesia do Castelo (Sertã) estes «bolos dos Santos» levam farinha de trigo e milho, ovos, mel ou açúcar, canela e erva-doce[3].
Em Castelo Branco, para além dos Santorinhos, é também tradição nesse dia comer as “papas de carolo” ou “papas de milho”, decoradas com canela.
Em Coimbra estas festividades têm o nome de «Bolinhos e bolinhós» e apresentam características diferentes no comportamento das crianças, que se estendem a toda a região. Nos anos 50-60 ainda havia crianças que passeavam por Coimbra com abóboras recortadas a cantarem a cantilena com o mesmo nome[4]. Em alternativa utilizavam uma caixa de sapatos, em papelão, em que faziam recortes que semelhavam os olhos, o nariz e a boca e com uma vela lá dentro. Este costume pagão, que parece ter origens celtas, não existia só na Irlanda, mas noutras regiões europeias, e viria a dar origem ao Hallowen.

 No Alentejo em Santa Luzia (Cercal do Alentejo) o dia chama-se «Dia dos bolinhos», sendo estes feitos com pão e preparados de propósito para oferecer às crianças que andam pelos montes[5].
Também no Algarve, em Odeceixe, eram feitos estes peditórios cerimoniais e oferecidas às crianças castanhas e broas, que levavam erva-doce, mel e azeite e que estas agradeciam com cantigas[6].

Em Trás-os-Montes e até na Ilha da Madeira e Açores existia este costume, pelo que podemos dizer que era generalizado, mas que se foi perdendo em especial nas grandes cidades.

As crianças quando vão fazer o peditório de porta-em-porta cantam várias melopeias. E a letra muda consoante a aceitação do seu pedido. Estas são de agradecimento, favoráveis aos donos da casa, quando recebem oferendas ou, nos casos em que nada recebem, de insulto aos mesmos. Aqui se transcrevem algumas:

Quando pedem:

Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus.

Ou:
Lá vai o meu coração
Sozinho sem mais ninguém
Vai pedir o Pão-por-Deus
A quem quero tanto bem

Pão por Deus
Que Deus me deu
Uma esmolinha
Por alma dos seus

Na região da Sertã, a cantilena é diferente:
Bolos, bolos,
Em honra dos Santos todos
Bolinhos, bolinhos,
Em honra dos Santinhos.

Ou na região de Coimbra:
Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu'estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz

Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de s'alevantar
P´ra vir dar um tostãozinho."

E a cantilena muda consoante recebem o seu donativo ou não :

Quando recebem alguma coisa:
"Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
ou
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho."

Quando os donos da casa não dão nada:
Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
ou
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto
ou
Esta casa cheira a pão
aqui mora algum papão
ou
Esta casa cheira a breu
Aqui mora algum judeu[7]



[1] Braga, Teófilo, O povo português nos seus costumes, crenças e tradições, vol II, p. 222.
[2] Braga, Teófilo, O povo português nos seus costumes, crenças e tradições, vol II, p. 223.
[3] Dias, Jaime Lopes, Etnografia da Beira, vol VII, p. 155.
[4] Informações fornecidas pela minha amiga Cecília Rosa, que viveu em Coimbra.
[5] Oliveira, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, p. 183
[6] Oliveira, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, pp.182-183.
[7] Informação fornecida por uma senhora de 90 anos que dizia que se lembrava deste costume desde sempre e desta rima que tinha caído em desuso após a 2ª Guerra Mundial.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Fábrica Santo António. 2 - Os produtos

Na sequência do post anterior, falamos hoje nos produtos comercializados pela Fábrica Santo António, no Funchal.

Com referimos, a principal produção desta fábrica, no seu início, foi de bolachas.
Ainda hoje a variedade de bolachas fabricadas é grande e nela se incluem as bolachas Petit-Beurre, Maria, digestiva de aveia, dietética de amêndoa e de avelã, gengibre e integral.

Para além disso produzem também biscoitos como os biscoitos de canela e de mel e outros.
Produzem também rebuçados como os de eucalipto e os típicos rebuçados de funcho.
No campo da compotas a variedade é grande, sendo interessante notar a utilização de frutas tropicais e semi-tropicais usadas na sua confecção. Assim podemos encontrar, a par de doces mais tradicionais como os de amora ou limão, os doces de tamarilho, pitanga, manga, banana e maracujá, papaia e maracujá, etc.
Frasco de doce tendo em baixo o tecido típico da Madeira, que cobria os frascos, agora substituído por papel idêntico

E como é evidente uma das suas maiores vendas está no tradicional bolo de mel de cana de açúcar da Madeira, cujo berço madeirense se atribui ao Convento de Santa Clara do Funchal, onde começou a ser produzido, pelo menos desde o século XVII. Este bolo, resultado do encontro entre o doce e as especiarias, não foi durante muito tempo considerado, tal como outras doçarias, um manjar popular. Era então associado à época natalícia, mas hoje está disponível todo o ano. Tendo como característica uma longa duração, pode ser consumido tardiamente em relação ao seu fabrico.
João José Abreu de Sousa*, afirma que o bolo de Mel de cana de açúcar nasceu no convento franciscano masculino de Monchique, no Algarve. Foi frei Jordão do Espírito Santo, quem, nos finais do século XV, embarcou para a Madeira levando consigo esta receita. Seriam as freiras franciscanas do Convento de Santa Clara que, ao tomarem conhecimento desta, lhes adicionaram as especiarias vindas do Oriente, com destaque para o cravinho, iniciando assim uma tradição na doçaria madeirense.
Nota final:
Estes meus post tiveram origem numa visita à Ilha da Madeira, há cerca de 2 semanas.
Hoje, perante as notícias da tragédia que atingiu a Madeira, interrogo-me se a fábrica, situada junto a uma das ribeiras que atravessa o Funchal e de que se podem ver as grades que o ladeiam na foto do post anterior, terá sido poupada à destruição.

* João José Abreu de Sousa, O bolo de Mel - Ex libris da Doçaria Madeirense, Funchal, Associação Cultural Memórias Gastronómicas, 2008.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Bolo de Mel de Cana da Ilha da Madeira

A cana-de-açúcar, importada de Sicília, foi cultivada na ilha da Madeira a partir da 2ª metade do séc. XV.
No século XVI existiam cerca de 33 engenhos, a maioria de reduzidas dimensões, mas no século XIX apenas 5 destes se dedicavam realmente à produção de açúcar.
A produção do açúcar, bem como dos derivados da cana, como o mel de cana, foi importante do ponto de vista económico para a Ilha e tem-se mantido até aos dias de hoje.

O mel de cana é utilizado no Carnaval, para acompanhar os "sonhos" e as "malassadas", doçarias consumidas nessa época.

É também com mel de cana que se confecciona o célebre “Bolo de mel da Madeira”, a que se associa a farinha, açúcar, gordura, especiarias e frutos secos.
Depois de cozidos e frios, embrulham-se em papel vegetal ou celofane e guardam-se em caixas. Estes bolos podem conservar-se durante um ano inteiro.
Tradicionalmente o bolo de mel era preparado nas casas a 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, para estar presente na mesa, no dia de Natal.

Hoje é possível consumi-lo durante todo o ano graças à produção de várias marcas que competem entre si pela originalidade das embalagens.
Marcados com um selo que os autentica, desde 2006, apresentam várias formas, em caixas, em cestos com forma de coração ou até mesmo com a forma da própria ilha.
Nas fotos mostramos alguns das variedades disponíveis no mercado, para os apreciadores desta doçaria.