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terça-feira, 12 de junho de 2012

As festas da cidade de Lisboa em 1935

Em vésperas do dia de Santo António mostro-lhes o ambicioso plano das Festas da Cidade de Lisboa durante os santos populares, em 1935, divulgado amplamente pelo Diário de Notícias.

As festas começaram no dia 7 de junho com uma feira no Terreiro do Paço e no dia 8 houve um torneio medieval nos claustros do conventos dos Jerónimos.
O torneio foi idealizado por Leitão de Barros, o realizador das Pupilas do Senhor Reitor e dele fizeram parte «gentis grupos de senhoras da sociedade, artistas do teatro português e cavaleiros».
A descrição do torneio «O magriço e os doze de Inglaterra», em que os 12 cavaleiros portugueses defenderam as damas inglesas ofendidas, numa obediência ao código da cavalaria, foi feita por Rocha Martins.
Foi sensacional a chegada das gentis meninas que fizeram de damas da corte de D. João I e que foram vestidas com trajos da época pela Casa Garnier, de Paris, tendo toda esta figuração ficado a cargo da Revista Eva.
À tarde os membros do Corpo Diplomático visitaram os bairros de Lisboa Antiga sendo recebidos, entre outros, por Gustavo de Matos Sequeira.
Houve também um concurso de montras em que a Antiga Casa José Alexandre, situada na rua Garrett, expôs jarras com desenhos alegóricos às marchas, com quadras, da autoria de Leopoldo Battistini.
No dia 9 de junho realizaram-se as marchas populares, com início às 22 horas no Terreiro do Paço. Na origem destas esteve um costume antigo. Depois das festas de Santo António e S. João ia-se à fonte ou ao chafariz lavar a cara. Isso fazia-se em marcha, dois a dois, em pares de namorados, ou, às vezes pais e filhos, indo estes atrás. Foi, segundo o articulista, a génese das marchas nos séculos XVII e XVIII.
Aqui fica um pequeno resumo das festas da cidade de Lisboa, em 1935. Só têm que as comparar com as de hoje.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quinta-Feira de Espiga


Para quem não se lembra hoje é 5ª feira de espiga. Para os que vivem nas cidades não é fácil ir apanhá-la. Resta-lhes comprar um raminho para recordar a tradição. Mas até esta está a mudar.
Apressem-se a comprar um ramo com papoilas, antes que acabem. A maioria dos ramos este ano vem com uma flor encarnada espinhosa a substituir a papoila. Espantei-me e perguntei à vendedora o que fazia ali aquela flor. Respondeu-me em brasileiro que as pessoas agora preferiam assim porque duravam mais que as papoilas.
Não respondi. Não adiantava explicar-lhe que todos os elementos do ramo têm uma simbologia, sobre a qual já falei anteriormente.
A papoila encarnada simboliza a vida e o amor e, como flor pouco duradoura, faz-nos lembrar a nossa efemeridade.
Aproveitem. Tenham um dia feliz.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Porque não precisamos do Halloween

As festividades do Halloween têm poucos anos em Portugal. Tendo como base as tradições irlandesas, de origem céltica, foram absorvidas pela cultura americana que lhe conferiu o carácter comercial que hoje é conhecido. Só a industria e comercialização de fatos e adereços ligados a esta festividade calcula-se em milhões de dólares.

Estas celebrações têm-se estendido a toda a Europa, vindo a substituir as festividades existentes nos vários países.
O facto do Halloween serem celebrado a 31 de Outubro e o dia de Todos-os-Santos ser a 1 de Novembro, nada altera, ainda menos numa época de crise em que a própria Igreja admite rever os seus dias santos.

Ligada às festividades do dia de Todos-os-Santos existem rituais e hábitos alimentares que, em Portugal, variam de região para região. Em comum têm o facto de começarem com um peditório feito porta a porta por crianças. Este era feito em forma cantada, variando as melopeias de acordo com as regiões.
Era costume a população responder com a oferta de vários alimentos, de acordo com as tradições da terra e as possibilidades de cada um. Assim, ofereciam maçãs, romãs, castanhas, rebuçados, nozes, bolos, como broas de milho, chocolates e até dinheiro.
Guardadas as ofertas nas suas sacolas as crianças retribuíam cantando uma nova cantilena de agradecimento e elogio aos donos da casa. Nos casos em que os pedidos não eram atendidos, os donos da casa eram igualmente “presenteados” com uma cantilena, mas desta vez insultuosa.
A estes peditórios cerimoniais chama-se pedir o “Pão por Deus” ou «pedir os santorinhos» consoante as regiões. Na região de Coimbra chama-se pedir «bolinhos e bolinhós». Neste caso era tradicional os jovens apresentarem-se com abóboras ocas, recortadas, com uma vela lá dentro, a cantarem a cantilena. Em alternativa utilizavam uma caixa de sapatos, em papelão, em que faziam recortes que semelhavam os olhos, o nariz e a boca, contrastados pela luz da vela. Este costume pagão, que parece ter origens celtas e que foi absorvida pelos romanos, não existe só na Irlanda, mas noutras regiões europeias, como em França.

Lamentavelmente os jovens hoje preferem o Halloween de origem americana às nossas tradições, mesmo quando as origens parecem ser as mesmas e o ritual semelhante.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Os Beijinhos, uns bolos que esquecemos


Recebi de presente um saquinho de “beijinhos”. Fiquei radiante porque há anos que não os via.
Se perguntarem aos mais novos já ninguém conhece uns bolinhos chamados «beijinhos». Experimentem e perguntem aos mesmos se conhecem os bolos americanos, agora vendidos em franschising, e que dão pelo nome de “cup cakes”. Todos conhecem e, se não é ainda o caso, vão conhecer ou vão querer comer. Não é que sejam a mesma coisa. De comum só têm a cobertura colorida, mas é esse o seu atractivo.

Os beijinhos são uns doces tradicionais feitos com uma base tipo pastilha, feita com massa idêntica à das línguas de gato e decoradas com um glacé colorido.

A diferença entre as línguas de gato e os beijinhos é que as primeiras são feitas com duas pastilhas que, ao cozerem no forno se juntam, dando a forma da língua, enquanto os beijinhos são feitos apenas com uma pastilha. Por outro lado as línguas de gato não recebem qualquer cobertura, enquanto os beijinhos são cobertos com um glacé colorido.

Há alguns anos atrás no dia de Todos os Santos, nas aldeias, os jovens iam pedir o «Santorinho» ou o «Pão por Deus». Levavam sacos de pano que iam enchendo com os presentes das pessoas que visitavam. Normalmente frutos secos, nozes, línguas de gato, beijinhos, etc.
Tudo isso se perdeu e em substituição importámos o Halloween.

Digam lá se não é a isto que se chama ser saloio.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quinta-Feira de Espiga

Hoje é Quinta-Feira de Espiga. Descobri no caminho para casa.

Passei de carro por um lugar na Calçada do Combro e vi um raminho de espiga.
Entrei na minha mercearia e lá estava um raminho único. Pertença da dona da loja não estava à venda, mas perante a minha desilusão teve a amabilidade de dividir o seu ramo comigo. É por isso que na foto surge um ramo tão esquálido.
Mas fiquei contente. Cumpria-se uma tradição que tento repetir todos os anos, mas que em Lisboa se torna cada ano mais difícil.

Recorda-me os meus tempos de Liceu na Covilhã.
Naquele tempo era feriado no dia da Espiga. Um grupo de amigos juntava-se e íamos para o campo apanhar a espiga. Tenho mesmo a ideia de ter ido em viagens organizadas pelo Liceu. Após a colheita fazíamos um pic-nic e voltávamos para casa com os raminhos.

A “Quinta-Feira de Espiga” ou “Dia da Espiga”, corresponde à quinta-feira de Ascensão, em que a Igreja comemora a ascensão de Jesus Cristo ao Céu.

Os ramos de espiga, embora tenham uma composição variável deviam incluir espigas de trigo, de cevada ou centeio, malmequeres amarelos ou brancos, papoilas, um raminho de oliveira em flor, um raminho de alecrim ou de rosmaninho. Nalgumas regiões incluíam também ramos de videira, mas não na Beira Baixa.

Os vários elementos que a compõem têm um valor simbólico. A espiga de trigo simboliza o pão, a abundância, o raminho de oliveira representa a paz, a papoila o amor e o malmequer amarelo o ouro ou dinheiro.

Crê-se que esta celebração tenha origem nas antigas tradições pagãs e esteja ligada à tradição das Maias.

Teófilo Braga refere que a Quinta-Feira de Espiga se designa Quinta-Feira da Hora, no Porto, porque havia uma hora, o meio-dia, em que tudo parava.

Manda a tradição que se guarde o raminho durante um ano.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Romã e o Dia de Reis

É tradição portuguesa comer romã no Dia de Reis.

Diz a tradição que, quem o fizer, terá abundância todo o ano.

Em tempo de crise este conselho é mesmo de aproveitar. Mas como em tudo existem regras de que já falaremos.
A romã é, como é sabido, o fruto da romãzeira, o seu nome científico é Punica granatum L. e pertence á família das Punicaceae.
A árvore que dá este fruto é nativa da região que vai desde o Irão ao norte da Índia e aos Himalaias. Passou depois a ser cultivada na Índia central e do sul, no século I e mais tarde na região Asiática do Mediterrâneo, na Europa e em África.
No Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, que eu muito estimo, diz que vem do latim «romana« (mala), «maçã romana» e que a palavra romãa já era usada antes de 1377. No meu atrevimento de ignorante, acreditaria mais que vem da palavra árabe «rumman», que é mencionada no Corão várias vezes.
É que a etimologia analisada nas outras línguas nada tem a ver com a nossa. Os ingleses chamam-se “pomegranate”. Em latim clássico o fruto era conhecido por malum punicum ou malum granatum. A palavra malum significa maçã e granatum deriva de granum “grão” com o significado de muitos grãos. Também o nome desta fruta, nas outras línguas ocidentais, deriva de adaptações de malum granatum, como por exemplo «grenade» em francês ou «melagrana» em italiano, sucessor directo do latim milgroym e ainda «granada» em espanhol.
A palavra «rumman» continua a ser usada nos países arábes e encontramo-la em receitas como a sopa iraquiana de romã (Shorbat Rumman) ou no sumo de romã, que se pode beber na rua, em vários países arábes, como em Marrocos, onde tem o nome de «Asseer Del Rumman».

A romã foi sempre considerada um símbolo de fertilidade que se devia à grande quantidade de sementes que existem na fruta e à forma harmoniosa como elas se dispõem na polpa do fruto. É esse sentido que é atribuído à romã nos desenhos das colchas de Castelo Branco que, como sabem, tiveram as suas origens no Oriente. São de inspiração indo-portuguesa, existem vários tipos e é no modelo popular, ou nas colchas de noivado, que se reproduz mais frequentemente a romã.

Mas o fruto ganhou outros significados relacionados com o casamento e o amor. Com o tempo passou também a atribui-se-lhe um sentido de abundância que passou a englobar a prosperidade e a riqueza. O povo, como o seu sentido prático, diz que no «Dia de Reis deitam-se três bagos de romã no lume para o ter aceso, três bagos na caixa do pão e três no bolso do dinheiro para ter dinheiro e pão (Teófilo Braga, em «O povo Português suas crenças e costumes»).


Mas o costume que eu recordo desde pequenina, na Covilhã, era o de comermos romã no dia de Reis, para termos fartura. Mas para isso era necessário guardar a coroa da romã, juntamente com uma moeda atada, numa gaveta. No ano seguinte, depois dos Reis, dava-se a moeda a um pobre e repetia-se o ciclo. Na altura era uma moeda de um ou dois tostões, já não me lembro bem. Hoje não sei a que deve corresponder.
Em Portalegre existia também esse costume e encontrei também referência ao mesmo em Castelo de Vide, onde é tradição pelo dia de Reis comer uma romã. Aí primeiro comem-se cinco grãos dizendo: "Em louvor dos Santos Reis", e pede-se um desejo que não pode ser revelado. Daqui concluo que pelo menos nos distritos de Castelo Branco e no de Portalegre se associava a romã ao Dia de Reis, mas é possível que o mesmo se passe noutros lugares.

Em minha casa comia-se a romã em salada, com açúcar, canela e um fio de vinho do Porto. Mastigavam-se as sementes e saboreava-se o suco. Algumas pessoas engoliam as sementes, outras deitavam-as fora. Mas estava cumprido o ritual.

Para quem não esteja familiarizado como fruto devo dizer que a melhor maneira de o descascar é cortar a casca finamente em gomos, como uma laranja. Depois separam-se os gomos e retira-se a pele divisória.
Para quem não goste de comer as grainhas pode fazer sumo. A maneira mais prática de extrair o sumo é cortar a romã ao meio e espremê-la no espremedor de laranjas. Pode também amassar-se bem a romã inteira no chão ou numa pedra, depois fazer um corte e espremer o suco. Se não lhes agradar qualquer destes métodos, ainda têm outra alternativa. podem pôr os bagos num passador, esmagar as sementes e extrair o sumo. Este pode beber-se ou fazer geleia.
É que para além de ser muito agradável são-lhe atribuída imensas propriedades fitoterapêuticas. Em primeiro lugar é anti-oxidante, o que leva a crer que tem um efeito benéfico como protector vascular, por reduzir o colesterol LDL (ou mau colesterol). Para além disso são lhe atribuídas outras virtudes como anti-envelhecimento e efeitos neuroprotectores na Doença de Alzheimer. Passo por cima de alguns dos seus mencionados atributos mas não posso deixar de mencionar um estudo em que foi demonstrado efeito antibacteriano, sobre estirpes de Staphylococcus aureus de origem humana, em que o seu efeito antibacteriano foi superior ao de alguns antibióticos testados. Interessante.
Mas o post de hoje era sobre o Dia de Reis. Não se esqueçam de comer romã. Depois não digam que eu não avisei.