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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Lançamento em Lisboa do livro «Do Comer e do Falar...»


No próximo dia 19 terá lugar o lançamento do livro «Do Comer e do Falar….tudo vai do começar» em Lisboa, sobre o qual já falei aquando do lançamento inicial em Coimbra.
O livro foi escrito por mim e pela minha amiga Maria da Graça Pericão e tem ilustrações de um outra amiga Maria do Rosário Félix. Conta ainda com umas «palavras prévias» de outra amiga, a Profª Inês de Ornellas e Castro.
 Para quem aprecia este blogue, e a quem eu não convidei directamente por falta de contacto, fica o convite. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O Grand Hotel Continental em Lisboa

Este hotel situava-se no Largo de S. Domingos 14, no palácio Regaleira. O edifício, construído no século XVIII, pertenceu durante mais de um século aos barões da Regaleira. Foi herdado por D. Ermelinda Allen (1768-1858), família de origem britânica estabelecida no Porto, que casou em 1791 com José Monteiro Almeida de quem tomou o nome. Em 1840 receberia o título de baronesa da Regaleira.
Escadaria do Palácio Regaleira. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921
Com uma vida social intensa recebia e dava festas na sua casa de Lisboa, vivência que repartia por outros locais como o palácio do Beau-Séjour, uma residencia de veraneio ou a Quinta da Regaleira em Sintra, entre outros. Foi sua herdeira a sobrinha Maria Isabel Allen, 2ª baronesa da Regaleira (1808- 1889) que casou com João Carlos de Morais Palmeiro e que viria a efetuar a venda destas propriedades progressivamente. Em 1898 seria a vez do palácio da Regaleira em Lisboa.
Largo de S. Domingos, 1968. Foto de Armando Serôdio. Arquivo Municipal de Lisboa
O edifício foi ocupado por vários estabelecimentos comerciais como uma vacaria e foi nele que se instalou também, no final do século XIX, o Grande Hotel Continental. Já aí existia em 1892 e continuava em funcionamento no final de 1897, não me tendo sido possível determinar com exactidão a data de encerramento. 
Era seu proprietário Manuel Gonçalves que se orgulhava, na publicidade ao hotel, da sua situação central junto ao Rossio e perto da estação de caminhos de ferro. Anunciava também que desde sempre existiam no hotel filtros Chamberland. Este “sempre” referia-se seguramente ao início do hotel uma vez que o filtro de porcelana Pasteur-Chamberland, fora inventado por Charles Chamberland em 1884. Destinava-se à purificação da água, eliminando bactérias, preocupação muito moderna na época.
Foto tirada da internet
O Grande Hotel Continental tinha um restaurante onde eram servidas refeições e cujos menus eram publicitados no jornal Diário Illustrado. Analisaram-se as ementas de 1892, 1894, 1896 e 1897 de que se apresentam como exemplos os menus de 7 de julho de 1892 e o de 29 de Março de 1896. Eram constituídos por potage, sendo a mais habitual a de crevettes e a canja de galinha. Seguiam-se os hors d’oeuvre com petits pâtes à la parisienne ou outros; o relevé com peixe em filetes ou outro; a entrée com fricandeau de veau ou lombo à jardineira; nos legumes eram servidos espargos, ervilhas ou favas; no rôti era frequente o peru assado. Seguiam-se depois os entremets e o dessert, onde surgiam os gelados e os choux variados.
As ementas eram quase sempre escritas em francês, como então eram moda, mas encontraram-se alguns pratos em português ou num misto das duas línguas ou ainda com palavras francesas aportuguesadas.
Os almoços, a primeira refeição do dia, eram servidos entre as 9 e as 12 horas e custavam 500 réis. Quanto aos jantares, eram servidos entre as 4 e as 8 horas e custavam 600 réis, incluindo meia garrafa de vinho e café. O restaurante possuía também gabinetes onde podiam ser servidos os jantares por 800 réis. Quanto aos aposentos o seu preço diário situava-se nos 1000 réis e acima e aceitavam também pensionistas.
É provável que o hotel já não funcionasse em 1901. Aí se alojou em 1902, o Liceu Nacional de Lisboa, que viria a dar a actual Escola Secundária de Camões, que chegou a partilhar o edifício com uma vacaria e uma loja de mobílias. O projecto de uma nova construção para o Liceu, por Ventura Terra, em 1907, levou à mudança do estabelecimento de ensino deste local.  Mais tarde aí esteve também em funcionamento um teatro (Teatro Rocio Palace).
Interior do Regaleira Club. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921
Nos anos 20, no mesmo local, funcionou o Regaleira Club que tinha igualmente serviço de restaurante que começava às 19 horas e que era acompanhado de variedades e musica de Jazz-bands. A partir das 20 horas podia ouvir-se musica tocada por um quinteto dirigido pelo violinista F. Remartinez. Foi um dos mais famosos clubes de Lisboa com uma grande beleza interior documentada em fotografias da época
Desde Maio de 1939 aí funciona a ordem dos advogados que recuperou o edifício.
Pelos escritos que foram consultados deduzo que existia um total desconhecimento deste hotel, havendo apenas referência no local ao Regaleira Club, pelo que achei importante, dá-lo a conhecer.
Bibliografia: 
- ABC , 7 de Junho de 1921.
- Vaz, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa, Tese de mestrado, 2008.
- Teixeira, Manuel Domingos Moura, Mundanismo, transgressão e boémia em Lisboa dos anos 20 – o club nocturno como paradigma, Tese de licenciatura, Universidade Lusófona, 2012.
- Diario Illustrado, 1892- 1900.

sábado, 4 de julho de 2015

Festival do Silêncio em Lisboa

Vai já na 5ª edição e eu não tinha dado por ele. Vai repetir-se entre os dias 2 e 5 de Julho nas Ruas da Boavista / Rua de S. Paulo / Cais do Sodré.
O programa é vasto e não vou falar nele. Quero no entanto mostrar-lhes a forma de participação dos habitantes da zona.
Trata-se da representação de palavras escritas em painéis de grande formato, formando ou não frases. Transmitem ideias sobre a cidade de Lisboa e a sua vivência.
Mostram o gosto dos cidadãos pelo local que habitam mas também preocupações. Não é por acaso que a palavra silêncio aparece várias vezes. Não se deve ao nome da iniciativa mas às preocupações dos cidadãos com o seu sossego, numa zona invadida por visitantes de outros locais, que não respeitam o silêncio e tornam infernal a vida dos locais.
No fundo queremos dizer que, apesar de tudo, os que aqui vivem têm forçosamente que ser mais importantes que os visitantes ocasionais. E que a cidade antiga tem que continuar a ser habitável e não ser transformada numa Disneylândia como está a acontecer à Baixa Pombalina.

domingo, 28 de junho de 2015

As festa populares no «Poema de Lisboa»

Augusto de Santa-Rita, nasceu em Lisboa em 1888 e aqui faleceu em 1956.
O livro «O Poema de Lisboa», edição da Câmara Municipal de Lisboa, é a sua última obra, publicada no ano da sua morte. Nele surge esta imagem que retrata as festas populares de Lisboa, com uma cena colorida e alegre que nos transporta para os bairros antigos da cidade.
Terminava com um livro para adultos, quem tanto colaborou, com sucesso, nos projectos de educação infantil propostos pelo Estado Novo.
Em 1920 publicou «O Mundo dos Meus Bonitos» com  ilustrações de Cotinelli Telmo. Em 1925 entrou para o jornal O Século, para director do suplemento infantil, Pim-Pam-Pum, que teve publicação semanal durante os 15 anos que se seguiram. Para além do pequeno jornal surgiu uma colecção de livros infantis intitulados  Biblioteca Pim-Pam-Pum, em que o próprio colaborou.

Refiro apenas o P Á-T Á-P Á, publicado em 1928, livro de poesias infantis, com ilustrações de Eduardo Malta e o CÓ-CÓ-RÓ-CÓ, igualmente ilustrado por Eduardo Malta, dois livros belíssimos.

A estes seus interesses não seria alheia a amizade com Fernanda de Castro, cuja casa frequentava com outros autores e artistas da época.
Ao livro CÓ-CÓ-RÓ-CÓ, agora em exposição no Centro de Artes Culinárias, voltarei um dia.
Hoje ficamos pelo mundo dos crescidos com os dias de festas populares que se prolongam nos próximos dias.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Reviver o passado … em Lisboa

A minha amiga Isabel Kiki ofereceu-me uma foto de família que mostra um almoço de aniversário que teve lugar numa casa da Avenida Defensores de Chaves, em 1943.
Festejava-se o aniversário de uma pessoa amiga e, sobre a mesa, pode ver-se um serviço de pratos que conseguimos identificar. Trata-se de um modelo da Fábrica Sacavém, com flores azuis, de que desconheço a designação.
Recreamos o momento ao colocarmos o prato de sopa sobre os dois pratos que seriam para peixe e carne, respectivamente com a visão que cada um dos convivas teria. Um exercício de estilo. Só fica a faltar a ementa.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Exposição «Varinas de Lisboa. Memórias da Cidade»

Milly Possoz
Termina já no dia 24 de Maio a exposição sobre esta figura feminina tão representativa da cidade de Lisboa e que está presente no Museu da Cidade, agora designado Museu de Lisboa, no Palácio Pimenta.
Tapeçaria com desenho de Mário Dionísio
Chegadas à capital no final do século XIX percorriam as ruas da velha Lisboa vendendo o peixe que descarregavam das traineiras do Tejo.
Os seus pregões e a sua imagem permanecem na memória de quem as conheceu.
Desenhos de oleados de canastras
Pessoalmente recordo a admiração pelo equilíbrio da grande canastra sobre a cabeça e os oleados de plástico amarelo pintados, de formas variadas, que forravam o interior da canastra. Serviam para manter o peixe fresco e protegiam as varinas da água, ao mesmo tempo que as diferenciavam e mostravam o seu gosto estético.
A exposição, que foi também uma homenagem às varinas ainda vivas, é extremamente diversificada e interessante.
Ficam algumas imagens e o aviso de que se forem rápidos ainda podem visitar a exposição que termina já no próximo domingo. Não percam!  

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Padaria Ingleza representante do Chá Horniman's

Regresso ao tema da Padaria Ingleza, de que já falei anteriormente, a propósito do chá Horniman’s. Por coincidência, na minha última ida ao Porto, onde faço sempre um périplo por alfarrabistas e velharias já meus conhecidos, consegui encontrar um «Guia Ilustrada de Lisboa», com um anúncio da Padaria Ingleza e uma caixa de chá da Horniman’s.
Sendo ambas da mesma época, isto é, dos finais do século XIX, é forçoso que as relacione.
O chá Horniman’s tem uma história muito educativa e o comércio original deste famoso produto foi iniciado por um comerciante inglês John Horniman (1803- 1893) que fundou a empresa com o seu nome, em Newport na ilha de Wight, em 1826.
John e o seu irmão foram educados numa escola Quaker e logo após o seu casamento aderiu a esta forma de protestantismo, o que é relevante nesta história, por justificar o seu envolvimento social como benemérito e a sua honradez comercial que lhe granjearam um bom nome.
Imagem tirada da internet
Na altura em que John fundou a “Horniman's Tea Company” o chá era vendido avulso e frequentemente adulterado para proveito dos seus vendedores. Para provar a sua honestidade Horniman começou a vender o seu chá selado, embalado por processos mecânicos, o que baixou o preço da produção e melhorou a qualidade do produto que passou a ser vendido em pacotes e caixas que impediam a manipulação posterior do produto.
Imagem tirada da internet
Contudo um grande incremento de vendas deu-se quando começaram a surgir na revista médica «The Lancet» uma série de artigos sobre adulterações de alimentos. Publicados entre 1851 e 1854 foram estudados muitos dos alimentos consumidos na época e entre eles o chá. E os ingleses descobriram, aterrorizados que até o seu sagrado chá era manipulado, sendo-lhe adicionado vários outros produtos para lhes alterar a cor e aumentar o lucro. Com surpresa constataram que dos chás analisados, apenas o Horniman’s estava imaculado. É por essa razão que nas embalagens e na publicidade ao produto aparece a expressão «pure tea».
As vendas não pararam de crescer e a empresa mudou-se para Londres, logo em 1851, para junto do porto e começaram a exportar. No final do século eram já a maior empresa de comércio de chá mundial.
O prestígio do chá Horniman's (imagem tirada da internet)
É aqui que entra John Broomfield que juntamente com a sua mulher Ann, que depois lhe seguiu no negócio, se tornaram os primeiros representantes e vendedores do chá Horniman’s em Lisboa.
No século XIX os portugueses ainda bebiam preferentemente chá verde, mas rapidamente, por influência do comércio inglês iriam passar para o chá preto. Na Padaria Ingleza era vendido o chá preto e verde da então designada Horniman &  Co. 
Após o afastamento voluntário de John que entregou o negócio aos seus filhos William Henry (1831-1900) e Frederick John (1835-1906), passando a firma a ser identificada pelas iniciais “'W.H. & F.J. Horniman” que são as que surgem na tampa desta caixa, o que a data em 1889, aproximadamente.
 Ignoro se a lata foi feita em Inglaterra e destinada a exportação, uma vez que em duas das faces surgem rótulos em francês e em português e não está identificada. Nessa segunda hipótese atrevo-me a pensar que poderia ter sido feita na latoaria da Viúva Ferrão, à época vizinha de rua da Padaria Ingleza original.
Marcador de livros mais tardio com publicidade ao Chá Horniman's

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Lisboa-Cacilhas-Lisboa

A partida

Pescadores no antigo cais

Os últimos restaurantes de Cacilhas

O regresso à cidade

sexta-feira, 20 de março de 2015

O licor «Cae Bem» de Francisco Dias

Garrafa Licor Cae Bem
Francisco Dias era o nome do proprietário da fábrica de licores que, em 1931, estava estabelecido no largo da Portas do Sol, 6 e 7, em Lisboa. O edifício já não existe, sacrificado à necessidade de largueza e amplitude de visão do largo,  mas as fotografias da época mostram a suas grandes dimensões.
Fábrica de Francisco Dias à esq. Largo das Portas do Sol. Foto de Eduardo Portugal, 1939, Arquivo fotográfico da CML
A empresa, como então era moda, tomou o nome do seu proprietário «Francisco Dias» que em 1935 mudou a designação para «Francisco Dias, Limitada». Foi nesse ano que registou igualmente a insígnia que consistia numa estrela de cinco bicos, dentro de um círculo de onde saíam múltiplos raios, e tendo no centro as letras «FD» e que aparece nos rótulos da garrafas.
Um dos seus primeiros produtos, registado em 1931, foi o «Creme de Licor Cae Bem», de que finalmente consegui arranjar uma garrafa. Com uma imagem moderna, adequada à época, uma jovem de cabelo curto brindava com um cálice na mão, enquanto a outra se apoiava numa mesa sobre a qual se pode ver uma garrafa de licor. Seguiu-se, ainda em 1931, o «Creme de Anis Escarchado», em que o rótulo recortado mostrava um casal em traje de cerimónia, a brindar com duas taças, sobre uma fruteira gigante repleta de frutas.
Rótulo mais tardio do Creme de Licor Cae Bem © AMP
Em 1935 para além de uma «Aguardente fina» registou a marca «Chega-m’isso», um creme em que utilizava novamente no rótulo um casal a brindar, desta vez tendo a figura feminina um copo e a masculina uma garrafa na mão. A última marca detectada foi designada «Pretinha», não sendo explicitado de que tipo de bebida se tratava, mas produziu também um licor designado «Lutador» e ginjinha.
Rótulo Licor Lutador © AMP
Em 1944 o seu nome constava da lista de fabricantes de licores publicada pelo «Grande Anuário de Portugal» e o achado de um rótulo desta firma da década de 1950 mostra-nos que produziam então um «Creme Escarchado de Laranja» e que a empresa se situava ainda no largo das Portas do Sol.
Rótulo Fina Ginginha © AMP
No «Guia Profissional de Portugal», de 1964, pode ver-se um anúncio seu, como fabricantes de licores e xaropes mas tinha-se já mudado para a Travessa de S. Tomé, 7, em Lisboa. Existia ainda em 1971, de acordo com o «Informador Comercial e Industrial de Lisboa».

Esta empresa utilizou também garrafas com o seu nome em relevo no vidro. Refiro-me a uma garrafa com o feitio aproximado de uma guitarra, em que surge, na metade inferior, um círculo onde pode ler-se «Francisco Dias – Lisboa». No que respeita à utilização de garrafas figurativas comercializaram pelo menos o jogador que era representado com uma bola entre os pés e onde, na base, se identifica o nome Francisco Dias em relevo, enquanto na frente o rótulo mostra a marca «Chutador».
Garrafa figurativa
Esta firma lisboeta pode ser utilizada como exemplo na utilização de rótulos muito ingénuos, coloridos e divertidos que foi a característica visível mais marcante dos licores populares produzidos desde o final do século XIX e durante a primeira metade do século XX.

Bibliografia: Pereira, Ana Marques, Licores de Portugal (1880-1980).

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A Fábrica Schalck em Lisboa

O edifício ainda lá está na Calçada do Cascão, perto da Feira da Ladra, revestido a azulejos em tons amarelos, que brilham intensamente com a luz do sol. Este tipo de revestimento azulejar data do século XIX, numa altura em que o local era «Travessa de João Gascão», nome que já vinha do século XVII, de um comerciante aí estabelecido.
Foi numa das casas dessa calçada, no lado direito de quem desce, que se estabeleceu, em 1854, a Fábrica Schalck. Mais conhecida por produzir botões era chamada pelos habitantes locais, muitos dos quais para ela trabalhavam, no local e no domicílio, até meados do século XX, como «Fábrica dos Botões». Ainda hoje moradores do local recordam esses tempos.
Que foi uma grande fábrica para a época não há dúvida e, apesar da discrepância dos números encontrados o Inquérito Industrial de 1881 classificava-a nas 50 maiores de então. No relatório da visita às instalações eram referidos «138 operários internos, além de 60 que trabalhavam fora da fábrica».

Embora este tipo de industria estivesse classificada no sector da pregaria, para além da produção de pregos, e de botões de que já falámos, produzia também colchetes, ganchos para o cabelo e cápsulas para garrafas, boiões e frascos. Foi esta última actividade que me chamou a atenção para esta empresa. No meu livro «Licores de Portugal», a propósito da forma de fechar as garrafas, eu havia já escrito: «No final do século XIX existia já em Portugal pelo menos uma fábrica que produzia cápsulas metálicas para fechar garrafas; tratava-se da firma H. Schalck Sucessores que, em 1884, esteve presente na Exposição Agrícola de Lisboa; anteriormente a sua produção tinha sido agraciada com uma menção honrosa nas Exposições de Viena de 1873, de Filadélfia de 1876, de Paris de 1878 e do Rio de Janeiro de 1879.
Agora, o achado de uma factura de 1928, pôs-me novamente no encalce da história desta empresa. Vejamos alguns aspectos interessantes com ela relacionada. O proprietário da fábrica, Henrique Schalck tinha origem alemã e foi representante de várias empresas do seu país natal. Nela trabalhou um outro alemão Karl Emil Biel (1838-1915), que chegou a Lisboa em 1857.  Isso explica que, aquele que se tornaria um fotógrafo famoso se tenha estabelecido, em 1867, com uma Fábrica de Botões, na Rua da Alegria, no Porto após ter comprado uma propriedade a José Joaquim Pereira Lima, na Travessa do Luciano à Rua da Alegria.
A fábrica Schalck foi adquirida em 1917 pela Companhia Previdente, uma empresa fundada em 1825 por Francisco José Simões e que se dedicava à venda de ferragens. A loja situava-se na Rua do Comércio, 28 em Lisboa. De acordo com a factura que refiro, em 1828 a fábrica mantinha-se na Calçada do Cascão enquanto os escritórios ficavam no Largo do Conde Barão, 4, 1º andar. Era seu depositário em Setúbal Afonso H. O’Neill que tinha sede na Avenida Todi.
Para perceber o apogeu e queda desta fábrica temos que ter em consideração vários factores.
O negociante da praça de Lisboa, Henrique Schalck (1816-1875), era figura respeitada, o que levou à sua nomeação em Janeiro 1866 de «Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo», por carta existente no Registo Geral de Mercês de D. Luís I. Em 1844 casou com Virginia Charlotte Gerstlacher (1822-1907) de quem teve 7 filhos, e destes, foi o seu filho Fernando (1851-..) quem passou a dirigir o negócio após a sua morte. Virginia era filha de Isabel Maria da Conceição (1801-1876), filha da rainha D. Carlota Joaquina e de D. João VI.
Um dos filhos de Henrique Schalck, Vitor Henrique Schalck recebeu igualmente em 1904 o Grau de Cavaleiro da Real Ordem de Cristo (Registo Geral de Mercês de D. Carlos I). Foi este o encomendador de uma das mais interessantes casas de veraneio da linha do Estoril,  projectada em 1915 por Raul Lino, e cuja construção decorreu até ao início da década de 20. 
Fotografia tirada da internet do site Património Cultural
É provável que tanto as dificuldades no acabamento desta moradia de veraneio, como a aquisição da fábrica por uma empresa concorrente, a Companhia Previdente, em 1917, tenham a ver com uma ordem do Ministério das Finanças de 1916 em que na «Conta corrente dos bens dos inimigos à ordem do Ministro das Finanças», onde são mencionados os bens apreendidos a indivíduos ou empresas de alemães residentes ou com relações comerciais com Portugal, é mencionado o nome de Victor Henrique Schalck.
Para quem estiver interessado em seguir a evolução da Companhia Previdente e, de como o seu destino se tornou a ligar à família O’Neil, deixo o link para o excelente artigo do blog «Restos de Colecção» :