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terça-feira, 15 de maio de 2012

A Manteiga em Portugal

Está à venda, desde há cerca de 15 dias, um pequeno livro que escrevi sobre «A Manteiga em Portugal. Pequena História».

Foi feito para acompanhar a Exposição sobre Lacticínios que está no Mercado de Santa Clara, em Lisboa, até dia 22 de Maio e que não devem perder.
É um pequeno livro, tipo «literatura de cordel», e foi publicado pela Apenas Livros, Lda. A sua venda reverte a favor da associação As Idades dos Sabores.
Esta história é pequena em texto mas muito longa no tempo.
O livro foi escrito num tempo limitado, pressionado pela data de inauguração da exposição e, consequentemente, ficou incompleto. Na realidade também não há histórias completas.
Espero um dia retomá-la com mais calma, porque é um tema muito interessante.

De qualquer modo, apesar dos defeitos já referidos (embora me tenham ensinado que não devemos dizer mal de nós próprios, porque para isso estão lá os outros), é a única história abrangente sobre manteiga, uma vez que se tem prestado a estudos muito interesantes mas parcelares, isto é, por regiões.
Vão ver a exposição que está quase a acabar e dêm uma olhadela ao livrinho. Pode ser adquirido no local ou através da editora.
PS. Já depois de publicado o poste tive a notícia de que a exposição se vai prolongar mais dois meses. De qualquer modo não deixem para o fim, porque é a melhor maneira de perder uma exposição.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

2 - A margarina em Portugal

Passemos agora ao caso português. A primeira produção de margarina foi feita pela firma Santos & Viana que, a 1 de agosto de 1921 pedia o registo do nome «Fábrica Nacional de Margarina» com sede na Rua da Praia da Junqueira, nº 4-5 em Lisboa[1]. Em 1934 esta empresa surgia como única produtora de margarina no Anuário Comercial desse ano. A fábrica mantinha-se no mesmo local e tinha escritório e depósito na Rua dos Correeiros em Lisboa, nº 152[2]. Em 1959 tinha depósito no Porto na Rua D. João IV, 624[3]. Esta fábrica funcionou até 1976, encontrado-se à data do encerramento localizada na zona de Sacavém.
Apenas em 1926 surgiu novo pedido de registo feito por uma firma de comerciantes Gomes & Vale, Limitada, estabelecidos na Rua Formosa nº 343 a 353, no Porto[4]. Esta empresa ainda hoje existe na mesma morada e dedica-se ao comércio a retalho em supermercados e hipermercados. A marca da margarina «Farmer», que se apresentava em caixas redondas, semelhantes às de manteiga, tinha no centro a imagem de uma menina e um menino holandeses e ao fundo via-se um moinho, igualmente holandês que fazia suspeitar da proveniência da margarina, embora tal não estivesse especificado. Os dizeres da caixa encontravam-se em inglês e português: «The nicest of all» e «Ask always for Farmer’s» e em baixo «Delight – Caseiro» e «Portugal».
No final do ano de 1926, a firma Estabelecimentos Jerónimo Martins & Filho, com sede em Lisboa na Rua Garret, 13 a 23 pedia o registo da margarina «Cowerd-Vaqueiro»[5], apresentada igualmente em caixa redonda com as palavras em inglês. A margarina era «prepared for tropical climate» e a empresa identificava-se como «sole importers». No ano seguinte era registada pela mesma empresa a marca da margarina «Deliciosa» «especial para pão», onde surgia uma holandesa com touca a barrar o pão para uma outra figura feminina.
Foi também em 1927 que a empresa holandesa de que falámos no poste anterior, a Naamloze Vennootschap de nieuwe margarine fabrieken, com sede em Rijswick, regista em Portugal a margarina «Padaria» «prepared for tropical climate» «especial para folhados»[6] e a margarina «Dutch Lady (Hollandesa)»[7].
Ainda nesse ano a mesma firma registou um produto com imagem semelhante à margarina importada pela Jerónimo Martins, mas designada «Salted Selected Butter» «prepared with margarine for tropical climate»[8]. Esta legendagem levantava sérias dúvidas se se tratava de manteiga misturada com margarina ou apenas margarina, o que levou a que varios países legislassem sobre este assunto, para evitar falsificações. Foi, como dissemos, esta uma das razões porque a expressão «butterine» foi alterada para «marguerine», nos países de língua inglesa.
O Grupo Jerónimo Martins iniciou a sua actividade na Indústria no início da década de 40, com a inauguração da Fábrica Imperial de Margarina, Lda. (FIMA), em 1944, em Sacavém, dedicada à produção de margarinas e óleos alimentares. Aí passou a ser produzida a margarina «Cowerd-Vaqueiro».
Durante o ano de 1928 vários comerciantes pediram registos de margarina de que se desconhece a origem. Foi o caso da firma Silva & Cª, comerciantes situados na Rua dos Douradores, nº 194-196, em Lisboa, que registaram a marca «Margarina Pastora»[9] e da firma A. Morais Nascimento, Limitada, que pediu para registar a «margarina Barqueiro»[10], ou da firma Buzaglo, Santos Moreira, Lda, que registou as margarinas das marcas «Buzaglo» e «Coroa»[11]. Já Isaac Esaguy importava da Holanda, em 1929, uma «Margarine de La Hollande pour les Pays du Sud», de que se dizia o único importador[12] , tal como a Companhia Comercial Portuguesa, Lda. que importava da Holanda a margarina das marcas «Diana»[13] e «Romana»[14].
No Porto foi registada a «Margarina Serrana» pela Sociedade de Alimentação[15], em 1929, e nos anos que se seguiram foram feitos outros registos que aqui não mencionamos para não alongar mais o texto.
 
Em 1964 sugiu uma nova margarina a «Margarina Chefe», produzida pela Fábrica Nacional de Sabões, Lda.
Na década de 70 ambas as margarinas mais famosas, a «Vaqueiro» e a «Chefe», publicaram livros de receitas de que fazia parte o seu produto. Do lado da Margarina Chefe estava Bertha Rosa Limpo, autora do livro Pantagruel enquanto a responsável pela maior parte das receitas da Vaqueiro foi Francine Dupré. Desta luta de publicações ganharam as donas de casa que certamente experimentaram novas receitas numa época em que eram escassos o dinheiro e o número de publicações de culinária.
Data dos anos 60 a produção de margarinas suaves com alto teor de ácidos gordos insaturados, que tornava as mesmas mais moles e obrigava à utilização de embalagens de plástico. Ainda em 1958 surgiu em Portugal a margarina «Planta», em 1968 era lançada a «Flora», e nos anos 70 a «Becel», todas do tipo margarina para barrar. Da publicidade e das embalagens desapareciam as vaquinhas e surgiam as flores do prado.
Apesar desta produção, em 1968, no livro «Trabalha para ti. Vinte Industrias caseiras», ensinava-se a fazer margarina a partir da gordura de vaca ou boi. Começava-se por usar uma peneira para eliminar as gorduras e as peles e aquecia-se a gordura em banho maria a 45º durante 2-3 horas. Isto permitia separar a parte sólida da líquida, escorrendo esta última para uma vasilha onde solidificava. Esta pasta introduzia-se em sacos de pano e submetia-se a pressão para retirar a restante parte oleosa. Era este o óleo margarina enquanto o que ficava no saco era estearina. Colocava-se depois o óleo margarina numa batedeira com metade do seu peso de leite e outra porção idêntica de água. Após 15 minutos de centrifugação formava-se numa nata semelhante à do leite, que batida novamente, ia dar origem à margarina.
Nos últimos anos tem aumentado o consumo de margarina impulsionado pelo marketing, com publicidade insistente sobre o agradável sabor e as suas características que a tornam mais fácil ao barrar o pão.
A margarina, que presentemente é feita com óleos vegetais, tem sido apresentada como mais saudável por conter óleos ricos em ácidos gordos polinsaturados, mas a hidrogenização das gorduras transforma-as em formas trans, o que levanta problemas. Este tema das vantagens versus inconvenientes tem sido recorrente desde que a margarina fez o seu aparecimento no século XIX.
Para quem gosta de manteiga, como é o meu caso, é o tipo de discussão que me passa completamente ao lado.
Interessante é ser esta a história de um alimento que não existia e que foi criado pelo homem para colmatar as suas necessidades, numa época de dificuldades económicas.




[1] BPI, 1921, nº 8, 5 de junho, p. 521.
[2] Anuário Comercial de Portugal, p. 1081.
[3] Anuário Comercial de Portugal, 1959, p. 1847.
[4] BPI, 1926, nº 10, 28 fevereiro, p. 373.
[5] BPI, 1926, nº 12, p. 458.
[6] BPI, 1927, nº 3, p. 103.
[7] Ibidem.
[8] BPI, 1927, nº 7, setembro, p. 282.
[9] BPI, 1928, nº 7, outubro, p. 330.
[10] BPI, 1928, nº 7, p. 333.
[11] BPI, 1928, nº 9, p. 425,
[12] BPI, 1929, nº2, p. 57.
[13] BPI, 1929, nº 2, p. 63.
[14] BPI, 1929, nº 8, p. 328.
[15] BPI, 1929, nº 5, p. 189.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

1 - As origens da margarina na Europa

A história da margarina encontra-se melhor documentada do que a da manteiga, seguramente por ser mais recente.
Podemos dizer que começou com os trabalhos de Michel Eugène Chevreul (1786-1889), um químico francês que se dedicou ao estudo das gorduras. A ele se deve a palavra colesterol a que, em 1815, chamou colesterine.
Foi o estudo das gorduras animais que o levou à identificação dos constituintes gordos existentes no sebo e permitiu o desenvolvimento do fabrico de velas mais duráveis e de sabões. Publicou vários estudos sobre as gorduras animais que terão estado na base do trabalho de um outro químico francês Hippolyte Mège-Mouriés (1817-1880) que é considerado o inventor de uma manteiga sintética, a margarina, da qual registou a patente em 1869.
Numa altura de dificuldades económicas em toda a Europa, a chamada «manteiga dos pobres» pareceu uma boa ideia e teve reconhecimento imediato. Recebeu, à semelhança do que se passou com Appert com a invenção das conservas, um prémio do governo francês, na pessoa de Napoleão III.

Mège-Mouriés formou a Societé Anonime d'Alimentation, em Aubervilliers, que produzia a margarina Mouriés. Após o registo da patente em França, segui-se o registo em Inglaterra e em 1873 nos Estados Unidos, data em que um industrial começou a  produção nesse país.
Em 1871 Mège-Mouriés vendeu o seu projecto ao maior fabricante de manteiga holandês Anton Jurghens que construiu a primeira fábrica de margarina, desenvolvendo e aperfeiçoando a técnica até então conhecida. Seria também o responsável por uma outra inovação que foi a de vender a margarina embrulhada em papel identificador o que, para a época em que os alimentos eram vendidos a granel, foi uma novidade.
A Jurghens se juntou mais tarde van den Bergh, um outro importante fabricante, e foram estes os pioneiros do fabrico de margarina na Holanda, então concentrada na cidade de Oss. A partir de 1879 e até 1900 assistiu-se a um aumento exponencial de fábricas de margarina, nesse país. A Holanda era na altura o maior fabricante e exportador de manteiga, não sendo pois de estranhar que tenha sido também este país que mais rapidamente aderiu ao fabrico da margarina, por as técnicas terem semelhanças.
Na história da margarina teve também um papel importante Johannes Theodorus Mouton (1840 1912) que fundou em 1879, uma fábrica de «manteiga-margarina» em Haia. Foi um grande defensor das qualidades da margarina que começavam então a ser postas em dúvida e lutou pelo registo de patentes que não existiam na Holanda antes de 1900. Em 1889 transferiu a fábrica para Rijswijk, porque a anterior era já pequena para a produção. Foi adquirida em 1911 tendo mudado o nome para «A nova fábrica de Margarina nv de Responsabilidade Limitada» (Naamloze Vennootschap de nieuwe margarine fabrieken), em Rijswijk. Seria esta fábrica a primeira a exportar margarina para Portugal, como veremos.
Em 1927 deu-se a fusão da firma Jurgens com o concorrente Van den Bergh para formar a «Margarina Unida». Em 1928 juntou-se a Naamloze Vennootschap de nieuwe margarine fabrieken. Seriam estas empresas a base da Unilever.
Na Europa a produção de margarina estendeu-se rapidamente a vários países. Na Dinamarca foi Otto Monsted que começou a produzir margarina em 1870-1871, tornando-se este país, dentro de pouco tempo o maior consumidor de margarina. Na Alemanha a primeira fábrica Frankfurter Margarine-Gesellschaft, foi construída em 1872. Na Áustria em 1874 surgiu um fábrica designada Sargs num cidade perto de Viena. Pelo contrário a Inglaterra, para onde era exportada muita da margarina holandesa e dinamarquesa, foi dos últimos países a iniciar o seu fabrico. Este teria lugar em Godley, em 1889, com a firma Dane Otto Monsted.
Para terminar, devo dizer que nos países de língua anglo-saxónica foi designada «butterine», expressão que se prestava a confusões com a manteiga (butter) pelo que, em 1887, o parlamento inglês decidiu proibir esta designação passando a chamar-se «marguerine».
Sobre o caso português falaremos no próximo poste.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Exposição sobre lacticínios

É hoje inaugurada no Centro de Artes Culinárias no Mercado de Santa Clara, em Lisboa, uma Exposição sobre Lacticínios.
Aproveite e vá ver objectos pouco usuais relacionados com este tema e comprar lacticínios diferentes.

PS.
Para mais pormenores consulte o site do Centro de Artes Culinárias que está em link.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Iogurte Caseiro


Numa altura em que nos alimentos se encontram cada vez mais aditivos é importante ler os rótulos das embalagens. Mesmo que só nos dêem parte da informação, os dados básicos estão lá.

Em relação aos iogurtes tenho que reconhecer que a maioria das pessoas não gosta verdadeiramente de iogurte, mas de um creme, derivado do leite, com sabor a outras coisas. É por isso que é tão difícil comprar iogurtes simples, ao contrários dos outros que enchem prateleiras imensas. Este poste não é, portanto, para essas pessoas.
Alguns contudo, os verdadeiros apreciadores de iogurte, sabem que dificilmente os melhores iogurtes do mercado são comparáveis aos gregos. Falo do verdadeiro iogurte grego e não dos «tipo grego» que agora inundam os expositores. Quando pergunto num supermercado por iogurtes gregos (que só se encontram numa única cadeia de supermercados) apontam-me os outros e espantam-se com o que consideram ser a minha confusão.

Para não ter que me deslocar comprava esses do «tipo grego» até descobrir que, uma pequena embalagem, tinha 12 g de açúcar. Isto é, trazia já 2 pacotes de açúcar. Verifiquei depois que algumas variedades chegam a ter 4 pacotes de açúcar.

Há alguns anos atrás eu fazia iogurtes na iogurteira, objecto que todas as pessoas tinham em casa e que abandonaram. Agora, após ter experimentado os iogurtes caseiros em casa de uma amiga minha, feitos no forno, decidi experimentar. E o resultado foi tão bom que não quero deixar de partilhar a receita.
Começa-se por comprar um iogurte simples. Optei por um iogurte natural açucarado da Danone (13,5 g de açúcar), que se vendem em embalagens de dois.
Ligo o forno a 150º C enquanto preparo a mistura e o leite aquece. Aquece-se um litro de leite até cerca de 70ºC, isto é, quando começa a fumegar e antes de ferver. Se estiver demasiado quente tem que se deixar arrefecer para não destruir os lactobacilos.
Junta-se o leite a uma mistura de 1 iogurte mais 1 colher de leite em pó (usei o leite Molico magro), que se bate ligeiramente.
Despeja-se a mistura em cerca de 8-9 frascos de iogurte (utilizo uma caneca com asa que dá aproximadamente o volume da cada um). Colocam-se num tabuleiro com água quente (não a ferver), em banho-maria) e metem-se no forno que deve estar a cerca de 100-110 ºC, cobertos com uma prata. Ficam a essa temperatura 10 minutos, desliga-se o forno, tapa-se a prata com um pequeno cobertor para manter o calor e deixam-se ficar durante cerca de 4-6 horas, isto é, até o forno arrefecer.

Obtém-se um iogurte com uma estrutura cremosa, bastante sólida e muito saborosos, que não necessitam de açúcar. Pode juntar-se fruta ou doce para quem gostar.
Guardo-os no frigorífico tapados com folha de prata e duram cerca de 10 dias. Depois começam a ganhar bolor porque não têm conservantes.
Experimentei juntar-lhe framboesas esmagadas mas o gosto que se obtém é demasiado subtil e não compensa, o que também nos mostra que o sabor a fruta dos comerciais só pode ser obtido com aditivos.

Conclusão: estes iogurtes são mais baratos, mais saudáveis e mais saborosos.
Que mais se pode pedir?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um papel de gelado Mayflower

Um dos meus gostos é descobrir o rasto de velhos papéis. Este foi um desafio difícil sobre o qual consegui pouca informação.
Trata-se de um invólucro em papel de um gelado americano, que se encontrava por mero acaso no meio do espólio de portugueses que viveram nos Estados Unidos nos anos 30. Regressados a Portugal trouxeram os seus haveres que consideravam importantes mas, perdido entre estes, estava este insignificante papel.
O gelado foi produzido pela empresa Mayflower Ice Cream Company, situada no lado oeste da Avenida Vernon, perto da Avenida 43, em Long Island, Queens.

No início do século XIX, nos Estados Unidos, o leite começou a ser produzido em destilarias que aproveitavam os excedentes da produção do whisky para alimentar as vacas. Este leite tinha uma qualidade deficiente e esteve na origem de surtos infecciosos dos que se atreviam a bebê-lo. Apenas em 1895 as máquinas industriais para pausteurizar o leite foram introduzidas nos Estados Unidos, obviando a muitos destes problemas.

Após a Grande Depressão o presidente Roosevelt implementou vários projectos de desenvolvimento entre os quais, um destinado a empregar artistas, o Works Progress Administration (WPA), que teve início em 1935. Estes foram utilizados em várias campanhas publicitárias como as que se destinavam a fomentar o consumo do leite e de que este poster é um exemplo.
Nessa época o fornecimento de leite, manteiga e gelados, isto é de lacticínios,  a Nova Iorque era feito por leitarias locais, entretanto desaparecidas. De entre as mais conhecidas salientava-se a R. H. Renken Dairy, a Sheffield Farms e a Mayflower Ice Cream Company.
Esta última ainda existia em 1945, ano em que publicou um anúncio no jornal Long Island Star Journal de 4 de Agosto, pedindo raparigas, mesmo sem experiência para trabalhar na fábrica, com um horário de 40 horas semanais.
O edifício persiste ainda hoje e este pequeno papel de gelado também.
PS. Dedico este poste ao meu mais fiel leitor, um desconhecido residente nos USA, em Mountain View, California.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O iogurte BUL-BUL


Tenho este pequeno pote de louça há vários anos.
A pequena cartela, a azul, com as palavras “BUL-BUL” permaneceu para mim uma incógnita. Quando há alguns meses uma pessoa que tinha um destes potes para vender me perguntou se eu sabia o que era, tive que confessar a minha ignorância.  Só há cerca de uma semana o mistério se esclareceu.

É verdade que estava arrumada ao lado de outros potes de iogurte e que eu nutria a vaga esperança de que pertencesse à mesma classe. Talvez porque “BUL-BUL” me remetia para a palavra bulgaricus usada para os lactobacillus que, juntamente com os streptococcus thermophilus, são responsáveis pela coagulação e acidificação (transformação da lactose em ácido láctico) do leite, transformando-o em iogurte.

Este fenómeno era conhecido, de forma empírica, pelos povos nómadas das regiões da Ásia central que transportavam o leite fresco em sacos feitos de pele de animais o que, juntamente com o calor, o transformava num alimento coagulado.
À Europa o iogurte só terá chegado no século XVI, trazido do Império otomano e daí a etimologia turca da palavra.
Quanto a Portugal não sei ainda dizer concretamente quando foi conhecido,  mas em 1910 a Nutrícia de Lisboa já tinha, entre os seus alimentos higiénicos, o «Lactofermento, uma cultura seleccionada de bacillus búlgaros e paralácteos».

Quanto à comercialização do iogurte no nosso país é mais difícil definir uma data. O «Bul-Bul» foi contudo um dos primeiros iogurtes a ser registado como marca, em 1943, pela cidadã inglesa B. Sacks residente em Lisboa, na Rua do Ataíde, Nº 26.

O pedido de registo, feito inicialmente para iogurtes, sucos de carnes, compotas de frutas e geleias, foi posteriormente, por necessidade de ser incluído numa classe, apenas registado para iogurte.

Mais interessante é o facto de o pote manter ainda a sua tampa primitiva e de ter no fundo a marca, onde se pode ver que foi feito na Fábrica de Sacavém, no período Gilman & Co.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A Manteiga Burnay

A Manteiga Burnay, de reconhecida fama durante o primeiro quartel do século XX, era produzida pela Empreza A.C. Burnay Limitada, que tinha uma fabrica de centrifugação no Santo da Serra, na Ilha da Madeira.

A empresa foi fundada por Adolfo Constant Burnay em 1895, o primeiro desta família que se fixou na Madeira. Era filho de Carlos Constant Burnay, primo do conhecido banqueiro Conde de Burnay.
Adolfo Burnay casou com D. Maria Matilde de Menezes Cabral, natural de Santa Cruz, vindo a estabelecer-se na Vila de Santa Cruz (1).
A fábrica de lacticínios começou de forma modesta, produzindo apenas o leite produzido pelas suas vacas, mas a pouco e pouco passou «a adquirir todo o leite que os criadores de gado da localidade podiam ceder e pagando-o a 20 réis o litro» (2).

A década de 20-30 corresponde ao período áureo da produção de lacticínios na Madeira. Em 1934 -1935 registava-se a produção de 840 toneladas de manteiga, das quais 660 destinadas á exportação, tornando-se esta na actividade mais rentável do sector agrícola.
Nesta década existiam na Ilha da madeira 22 fábricas de produção de manteiga, das quais sete na freguesia de Santa Cruz. Dispersas pela ilha da Madeira existiam mais de 30 postos de desnatação, alguns dos quais pertencentes a Adolfo Burnay.
Na grande maioria tratavam-se de pequenas fábricas, onde se destacavam três de maiores dimensões: a aqui referida de Adolfo Burnay; outra fábrica de Pedro A. de Gouveia, designada pela Fábrica da Fajã da Ovelha, que produzia a manteiga “Águia”, e a da Firma Martins & Rebelo.

A manteiga Burnay era considerada de grande qualidade, sendo vendida em Lisboa nos melhores estabelecimentos e a um preço elevado.
Revista Brasil-Portugal, 1909.
Em publicidade publicada na revista Brasil-Portugal, de 1909, constata-se que o agente geral em Lisboa era João Bastos Júnior, com sede na Rua dos Franqueiros, 235 e entre os depositários/vendedores encontravam-se as melhores casas de comércio alimentar lisboeta, de entre as quais saliento a Jerónimo Martins, na Rua Garret e José Afonso Viana, ao Largo Camões, fornecedores da Casa Real.
Bons tempos para os lacticínios madeireneses.

1) Clode, Luis Peter, Registo Genealógico das Famílias que passaram à Madeira, 1952.
(2) Silva, Fernado Augusto e Menezes, Carlos de Azevedo, Elucidário Madeirense. 1978.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O quarto de Leite Vigor

Na minha infância, na Covilhã, o leite era distribuído à porta por um leiteiro que vinha das Cortes. Era o sr. Diamantino que trazia um cântaro de leite em cobre, e o vendia mediando-o com medidas de alumínio de litro e meio litro. A minha mãe fervia-o depois em fervedores, esse utensílio que desapareceu das casas. O leite gordo, formava depois de fervido cerca de um centímetro de nata que se separava e guardava numa taça. Com ele se fazia depois um delicioso bolo de nata. É por isso que nunca consegui beber leite magro, nem tão pouco meio-gordo.
O que hoje se chama leite gordo parece-me ainda magro.
 Foi na minha adolescência, quando vim para Lisboa, que o “quarto de Vigor” passou a fazer parte da minha vida. Depois desapareceu. Agora surge novamente em força impelido por campanhas publicitárias.
As fotos que apresento integram-se nesse esforço e foram tiradas da televisão da SIC  Radical.
O leite Vigor iniciou a sua produção em 1951, embora o registo da marca da fábrica inicial date de 1948. O conhecido Leite Vigor Pasteurizado, era vendido em garrafas de meio litro e de 1/4 de litro, sendo estas as mais famosas. O negócio da sua distribuição tinha como público alvo a comunidade inglesa da linha do Estoril e Cascais e reproduzia o hábito inglês de vender leite ao domicílio em garrafas de vidro.

No ano 2000 a Lacticínios Vigor S.A. foi adquirida pela Lactogal e em 2005 a fábrica inicial de Odrinhas, na região de Sintra, fechou e transferiu-se para Oliveira de Azeméis.
Foi nos anos 80 que desapareceram as garrafas de 1/4 em vidro e o leite passou a ser vendido em embalagens de cartão. Foi nessa altura que se perde a mística do "¼ de Vigor" que se pedia nos cafés. Quando o leite passou a ser servido a copo deixou-se de saber qual o leite que se bebia.
Guardo ainda uma garrafa das antigas, que pensei não fossem reeditadas. Mas surgiram novamente.
Deixo-lhes as imagens que contam uma história que não é de todo clara. Feita ao gosto dos anos 60, mostra uma a criança que chora e a mãe consola-a mostrando-lhe as garrafas de Vigor. No fim surge o leiteiro com as garrafas, o que para mim faria mais sentido no início. Mas talvez a história não interesse. O engraçado é mesmo o grafismo.