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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O restaurante Taínha em Matosinhos

Hoje já não existe e no seu lugar situa-se a Marisqueira Majára. Devia o seu nome ao proprietário José Taínha. 
Começou por ser um restaurante mas depois transformou-se em marisqueira quando o dono decidiu alugar uma outra parte do prédio e estender o espaço, acompanhando uma tendência de consumo de mariscos que entretanto se estendera a outros restaurantes da terra.
Foi neste restaurante que começou por trabalhar Henrique da Silva Torres que, mais tarde, iria abrir a Esplanada Marisqueira, igualmente em Matosinhos e posteriormente outras casas marisqueiras na Póvoa de Varzim.
Em 1960, quando encomendou para oferta aos seus clientes um pequeno livro de gravuras com imagens de Matozinhos, o negócio devia estar próspero.

Com um total de 6 vistas, tipo pequeno postal, mostrava os pontos mais interessantes da terra onde desenvolvia o seu negócio. Mas não se ficou por aqui. Nas traseiras de cada postal podem ler-se os principais pratos que então servia, designados Especialidades da Casa e que aqui mostramos.

O restaurante, situado na Rua Roberto Ivens, 603, tinha também acesso pela Rua do Godinho n. 343, o que sugeriu uma quadra promocional, com que encerrava a vasta ementa.

Nota:
A informação sobre o restaurante é escassa mesmo depois de consultarmos o livro «História da Restauração em Matosinhos (1800-2015)» disponível online.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Votos de Feliz Ano de 2016

 
Usando uns raros cartões com 110 anos envio a todos os votos de um Feliz Ano Novo.
 Dentro de um pequeno envelope forrado de um ardente papel encarnado encontram-se dois cartões feitos de um material plástico relevado, com aplicações de seda pintadas à mão. 
Os cartões têm a data de 25-12-1905 e 1-1-1906 e no exterior do envelope pode ler-se: «Souvenir de le premier jour de nouveau année de 1906». As mensagens de felicitações são amorosas e dedicadas à pessoa amada pelo Natal de 1905 e pelo novo ano de 1906. 
A sua raridade não se deve apenas à data mas sobretudo ao material com que são feitos, um tipo de plástico semelhante a marfim que, de acordo com a época, devia ser celulóide embora não o aparente. O uso deste tipo de material em cartão para felicitações foi mais tardio e encontrá-lo em Portugal em 1905 é seguramente uma surpresa.

Um Bom Ano para todos igualmente cheio de agradáveis surpresas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Um leque publicitário Mercier

Na primeira metade do século XX uma das formas de publicidade era feita em leques de papel. Este leque publicitário ao Champagne Mercier foi feito em Paris por um lequeiro J. Ganné, representante de uma indústria que teve grande divulgação em França a partir do século XVIII.
 O Champagne Mercier era produzida por uma casa de champanhe  fundada em Epernay em 1858 por Eugène Mercier (1838- 1904 ). O seu proprietário tinha 20 anos quando se lançou nesta aventura que foi coroada de sucesso.

Uma das suas preocupações foi precisamente com a publicidade de que foi um pioneiro. Foi ele que encomendou aos irmãos Lumière o primeiro documentário publicitário de sempre sobre a evolução da uva até ao champanhe, que foi apresentado de Exposição Universal de Paris de 1900.
No ano anterior tinha já apresentado um barril enorme que ganhou o 2º prémio na exposição e que ainda hoje se pode ver na casa mãe. Dele saía champagne da sua produção que os visitantes da exposição podiam experimentar.
Imagem tirada da Internet
As suas ideias para a divulgação do seu produto eram sempre revolucionárias, como a de oferecer champanhe para ser degustado a bordo de um balão fixo que se encontrava a 300 metros de altura.
Imagem tiradada internet
Visto assim, este leque, com características Art Deco, até parece um ideia simples.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Hotel Bragança em Cascais

Em 15 de maio de 1895 o novo proprietário, Victor Lestage, anunciava a mudança de mãos de um dos principais hotéis de Cascais.
Na segunda metade do século XIX surgiram nesta vila alguns hotéis como o Hotel União, que pertencia a Bernardo Soutelo e o Hotel Lisbonense também conhecido por Hotel Neto, do nome do seu proprietário. No final do século, em 1893, existiam o Lisbonense, o Globo e o Central.
No Anuário Comercial de 1894 surge referido o Hotel Bragança pela primeira vez. Na realidade não era um novo hotel. Tratava-se do Hotel Central que pertenceu a Felice Petracchi que o vendeu a Victor Lestage, que então lhe terá alterado o nome.
Cascais no final do Século XIX
Neste papel de propaganda, o novo proprietário informava que o hotel estava muito bem localizado, embora não mencionasse o local, mas dizia ter magníficos quartos com vista para a baía. No que se refere à alimentação não deixou o novo dono cair a boa fama que Petracchi tinha dado ao restaurante do Hotel, havendo referências que continuavam a ser bem servidos os fregueses.
As refeições podiam ser servidas em reservados, para quem desejasse, na sala de jantar ou mesmo no exterior no jardim. No restaurante servia-se «à la carte», isto é, por escolha da lista, mas tinha também «meza redonda». A mesa redonda era um tipo de serviço com hora e prato fixo. À hora determinada, no caso deste restaurante às 6 horas da tarde, era servido um prato já confeccionado, igual para todos. A expressão mesa redonda significava que as pessoas se sentavam todas numa mesma mesa, à medida que iam chegando, mas podia não ser assim. O preço era fixo e no restaurante do Hotel Bragança era de 600 réis ao almoço, incluindo meia garrafa de vinho, e de 800 réis ao jantar.
Em 1907, no «Manual do Viajante em Portugal», Cascais era referida como uma pequena vila cuja importância lhe advinha de ser o balneário marítimo da sociedade elegante de Lisboa e nele vinha mencionado o Hotel Bragança, seguido do Central e do Globo, e confirmando que ainda existia.

Não me foi possível encontrar alguma foto do hotel para ilustrar o texto, mas voltarei ao tema para explicar porque razão se deu esta transferência de propriedade.

domingo, 7 de junho de 2015

A crise de fome em Cabo Verde em 1921

A partir de 1900 foram várias as crises de fome relacionadas com factores climatéricos e outros, que levaram à falta de trabalho e carências alimentares em Cabo Verde. As datas registadas são várias: mencionam-se as de 1900-1904, 1908, 1912-1914, 1917 e novamente em 1921.
Na realidade a partir de 1913 os Estados Unidos, para onde tinham já partido vários emigrantes, proíbiram a entrada de pessoas analfabetas e a crise agravou-se. Muitos tinham já partido para o Brasil e faziam parte do grande contingente de portugueses aí emigrados. Só entre 1901 e 1950 quase um milhão de portugueses emigraram para o Brasil.
Mindelo. Paços do Concelho. Imagem publicada em Buala
Quando em 1921 a sessão da Câmara no Mindelo é invadida pelo povo que clama fome e falta de trabalho, são feitos pedidos a Portugal. Em Diário da República de 23 de Junho de 1921, o Ministério das Colónias publica  o Decreto nº 7.608 em que atendendo à crise alimentar provocada pela escassez de produção agrícola é necessário um socorro urgente à população,  sendo concedido um crédito extraordinário de 600.000 escudos. Era quantia insuficiente uma vez que o Governador de Cabo Verde havia pedido à metrópole 3.000.000 escudos para as despesas indispensáveis.
Os emigrantes portugueses pelo Mundo cotizaram- se para ajudar. No Brasil, em 1921, o Boletim Mensal da Câmara do Rio de Janeiro dava conta das várias iniciativas a favor dos desvalidos de Cabo Verde, em que se incluíram representações no teatro da cidade, conferências com venda de documentos impressos, etc. que levaram a arrecadar um total de 42.735$90.
Foto de Amândio António Lopes, 1922
Nos Estados Unidos, em New Bedford, foi criada uma «Comissão Central de Socorros aos famintos de Cabo Verde», encabeçada por Euclides Goulart da Costa, então vice-cônsul em Nova Iorque, interessante figura da nossa diplomacia, de que voltaremos a falar. A comissão pretendia angariar fundos para adquirir víveres e enviá-los aproveitando os veleiros que navegavam entre New Bedford e os portos de S. Vicente e Praia. Assim a partir de Junho de 1921 abriram um concurso para aquisição de farinha, feijão, arroz e outros géneros que entrariam em Cabo Verde livres de direitos.
Em papel anexo Goulart da Costa escreveu. «A subscrição rendeu US$  5.163,50 com que se adquiriram cerca de 150 toneladas de farinha, milho e feijão remetidos pelo vapor S. Vicente em Setembro de 1921».
O apelo de solidariedade tinha funcionado.

sábado, 2 de maio de 2015

Uma lancheira de design

 Este objecto de design designa-se «Lunch Book» que se traduz por lancheira, uma instituição nos Estados Unidos, agora cada vez mais frequente em Portugal, trazendo de volta os anos do Estado Novo.
Na realidade «lancheira», que é sinónimo de «merendeira», aplica-se aos cestinhos ou caixas destinadas a levar a comida. Os americanos usavam caixas de lata, com uma pega, com desenhos de cores, sobretudo destinadas às crianças. Na minha infância lembro-me de um cestinho onde eu levava para a escola o lanche, uma vez que, como o nome indica, a isso se destinavam.

Hoje é usada como sinónimo de marmita, que na altura se destinava aos adultos para levarem o almoço para o trabalho. Com a nossa imprecisão de linguagem as duas palavras tornaram-se sinónimos, embora o não sejam. Quando muito a marmita vai dentro da lancheira, o que é verdadeiro sobretudo se pensarmos que hoje as lancheiras se transformaram em mochilas ou outros sacos do género.


A grande diferença no que respeita às marmitas está contudo nos modelos. Antigamente usavam-se caixas de alumínio ou esmalte, empilhadas e fixas por molas, enquanto agora são em plástico, coloridas e mais atractivas. E ganharam estatuto. As pessoas já não se importam de comer da marmita.

Voltemos à razão deste poste: a lancheira que é da autoria de Alessandro Garlandini e Sebastiano Ercoli e que ganhou o 1º prémio na competição para o tema na  Expo Milan 2015.
«Lunch Book» é um livro de receitas feito com pratos de papel que pode ser usado para comer durante a exposição. Cada prato, feito em papel 100% reciclável,  mostra uma receita de um diferente país.

A Expo Milano 2015 é uma exposição internacional que inaugura hoje (dia 1 de Maio) e se extende até 31 de Outubro. Os seus organizadores esperam que seja o maior evento sobre alimentação já realizado. Com uma área expositiva enorme , sob o tema Feeding the Planet, Energy for Life, serão mostrados os avanços tecnológicos e as preocupações a discutir vão no sentido de garantir alimentos seguros, suficientes para a população e que respeitem o planeta. Que mais se pode pedir?

Estarão presentes 140 países e espero que Portugal seja um deles. Eu infelizmente não vou estar e não vou ter acesso a esta «Lunch Box», um objecto efémero, que pessoalmente não seria capaz de utilizar e iria guardar como uma fina peça de porcelana.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Feliz Páscoa

Postal comercial de Páscoa  tridimensional 
Utilizando um postal comercial de há 60 anos, desejo a todos uma Feliz Páscoa.
Foi enviado pela Antiga Casa José Alexandre, numa época em que ainda se fomentava a ligação dos clientes às casas comerciais estabelecendo uma relação de proximidade. 
Duas micas pintadas sobrepôem-se à imagem de fundo dando uma imagem tridimensional
Este estabelecimento, fundado em 1823, situava-se na Rua Garret e foi sempre um estabelecimente de excelência, onde se ia quando se queria comprar algum objecto  de qualidade para a casa.
 Tinha as últimas novidades, mas também as marcas clássicas. Lembro-me ainda de ter ido à "loja nova", que foi aberta depois do incêndio do Chiado e se situava no edifício Imaviz, comprar peças do faqueiro Christofle, de que eram então um dos representantes em Portugal.
Ainda há pouco tempo se podia ver uma placa grande em cobre com a identificação da firma, na esquina do prédio onde existiu a loja, na Rua Garret. Desapareceu há poucos meses e a esta hora está já seguramente derretida, nesta voragem de roubos de metais, que se transformam rapidamente em  dinheiro, apenas uma das faces da crise deste país.

Afinal afastei-me do tema. Queria apenas desejar uma Páscoa Feliz com muitas amêndoas.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Chá das 5 d'A Mariazinha

A conhecida «Casa de Café A Mariazinha», que hoje tem sede em Alvalade, começou os seus dias na Rua Barros Queirós nº 26 e 28, em 1934. Foi fundada por Jerónimo Pinto Valente Coutinho, que deu à loja o nome de sua filha, que registou como marca ainda em Dezembro de 1933.
A venda de cafés era o ponto forte da casa, como o nome indicava, e no seu catálogo podiam ver-se várias qualidades de café, para além do lote especial d’A Mariazinha. Mas vendia também chás, cacau, chocolate e uma grande variedade de farinhas, vendidos a granel, que o cliente podia levar em sacos de papel ou em atraentes caixas em folha-de-flandres litografadas.
Falamos hoje apenas no Chá das 5 d’A Mariazinha anunciado como sendo «dum aroma e sabor sem igual é um doce prazer para quem o toma».
O chá das 5 foi registado em 1938 e surgia já na publicidade do catálogo da Mariazinha de 1939. 
Tal como o cartaz em vidro pintado, ainda hoje existente na loja da Avenida Rio de Janeiro, apresentava um casal sentado à mesa a partilhar um chá e bolinhos secos servidos num cesto. 
Muito a propósito um grande relógio sobrepõe a imagem e nele podemos ver que marca exactamente as 5 horas.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

As passas de uva de Málaga em Portugal

Apesar de sermos um país vinícola as passas de Málaga tiveram, durante muito tempo, grande aceitação em Portugal. A principal variedade de uva utilizada na província da Andaluzia para a transformação em passas, é a de uvas Moscatel de Alexandria. A variedade moscatel era já conhecida desde a dominação muçulmana, mas a sua disseminação deu-se na bacia mediterranica durante o século XVII e início do século XVIII.
Biblioteca Nacional de Madrid
No século XIX era cultivada em toda a Andaluzia e a sua produção e exportação aumentaram progressivamente e tornaram-se numa actividade económica importante da região. Contudo a partir de 1870 assistiu-se a uma reversão do processo, no que respeita à produção de passas. À crise económica mundial, juntaram-se os aumentos de impostos, a competição com outros mercados (ex. passas da Califórnia), a filoxera, etc. Começou a haver excesso de produção com baixa de preço nos mercados, pelo que muitos agricultores começaram a arrancar as cepas e a plantar cana-de-açúcar.
Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
A acompanhar o desenvolvimento desta produção frutícola surgiu em Málaga, a partir de 1830, uma produção litográfica e impressora destinada à publicidade de empresas, cartazes, cartões, etiquetas, produção de leques, etc. No final do século XIX a qualidade e o número de litografias nesta cidade colocavam-nas entre as mais importantes de Espanha.
Desenhos para caixas de passas. Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
A gravura apresentada no início do poste e encontrada em Portugal faria provavelmente parte de uma das embalagens de passas produzidas pela firma «Hijo de Martins Alcausa». Encontrámos notícia da existência desta firma no jornal O Sol, de Madrid, de 15 de Dezembro de 1918. Nela se elogiava esta casa que havia sido fundada em 1870, contrariando a tendência descendente de produção deste tipo de frutos. Então com 48 anos a firma era conhecida pela sua variedade de «frutos verdes e secos», que exportava para vários países como França, Brasil e Portugal. De entre os vários tipos de frutas eram referidos os figos, os limões e as passas. Infelizmente esta bela litografia, não tem identificação do local de produção mas terá sido seguramente produzida por uma das várias litografias existentes na cidade
Gravura de caixa de passas. Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
Na tese apresentada por Alfonso Simón Montiel sobre «Los orígenes del diseño gráfico en Málaga 1820-1931», o autor refere que o conceito para as caixas de passas de Málaga é bastante homogéneo, evidenciando-se mais o nome do produto «pasas moscatel de Málaga» do que o nome do produtor. Embora as formas das embalagens pudessem ser variadas a mais frequente era a rectangular. No que respeitava aos motivos o recurso a imagens de toureiros ou figuras femininas típicas espanholas, numa segunda fase com evidente estética modernista, foi o mais utilizado. 
Para além dos modelos humanos, a representação de imagens da cidade, com formas arquitectónicas ou imagens de locais típicos como a catedral ou o porto, foram outros dos motivos utilizados nas embalagens de passas de Málaga. É este último o tema aqui apresentado e foi também nestes, segundo Alfonso Montiel, que se começaram a utilizar as novas técnicas fotomecânicas que imprimiam maior realismo às imagens, o que explica a beleza desta gravura.

Bibliografia:
- Montiel, Alfonso Simón, Los Orígenes del diseño gráfico en Málaga 1820-1931, Tese de doutoramento, Universidade de Málaga, 2007.
- Del Rio, Pilar,  La litografía artística para uso comercial en Málaga, em i+ DISEÑO, Universidade de Málaga.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Associação de ideias: cesteiras algarvias

Esta gravura de Mário Costa (1902-1975) trouxe-me à ideia uma boneca que representa esse ofício.
Sentada num banco, feito com um pedaço de tronco de árvore, a boneca feita em pano, foi-me oferecida há alguns anos por amigos que sabiam que eu a ia apreciar. Foi feita por Filipa Faísca, hoje octagenária que, na serra algarvia, em Querença perto de Loulé, reproduz figuras populares.
 
Iniciou a sua actividade em pequenina fazendo estas bonecas de pano que então se chamavam «bonecas de trapos». Os modelos recordam-nos profissões rurais locais caídas em desuso e os trajes são reproduzidos com rigor. Para acompanhar cada boneca a sua autora criou unas quadras que exemplificam a actividade.
Neste caso:
«Num pisador com geito
o esparto vou pisando,
faço baraço a preceito
e alguns tostões vou ganhando».


E desta maneira simples se vai conservando a memória de um povo.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Desventuras de um Chocolateiro

A história é contada em três cartões comerciais do final do século XIX. Os cartões comerciais funcionavam como um cartão de visita da empresa e existem desde o século XVII em Inglaterra. Hoje conhecem-se alguns do século XVIII, mas foi no século XIX que mais se divulgaram. Apresentavam-se muitas vezes como colecções que contavam uma história ou tinham fins didácticos. Na realidade eram uma forma de publicidade que ajudava a divulgar o negócio.
 
Não sei se esta colecção está completa mas a história é bem perceptível. Uma menina de ar doce aproxima-se de um menino chocolateiro que com a sua colher de pau mexe uma grande caçarola de cobre onde o chocolate borbulha. A chávena na mão da menina dos lacinhos azuis faz-nos compreender que deseja beber o doce néctar. Mas não chegam a acordo e lutam em cima de um pequeno banco que facilita o acesso à bebida. 
Desequilibrados fazem a chávena voar e o chocolateiro fica todo coberto com a bebida entornada, transformando-se num “chocolateiro de chocolate”, enquanto a menina foge a correr.
Estas histórias costumam ter um final moral que não se adivinha aqui. É apenas distrativa e serve de publicidade à «Pharmacia e Drogaria Félix & Filho», no Porto.
Situada no Largo de S. Domingos 42 a 44 vendia: Pastilhas digestivas de Moura para o sofrimento do estômago, Pastilhas vegetais de Moura para os vermes, cápsulas antiténicas de Moura para a bicha solitária, Peitoral de Moura para a tosse, Balsamo e Licor anódino de Moura para as dores e o Licor de Barreswill de efeito certo no “fluxo diarrheico da hectasia tuberculosa” (1).
Hoje no local desta farmácia situa-se a «Farmácia Moreno» que na sua fachada ostenta a data de início em 1804. Em 1894 no Comercio do Porto Ilustrado surgia a designação comercial «Pharmacia de S. Domingos» e o seu proprietário era o Dr. Moreno, médico e farmacêutico pela Escola Médico Cirúrgica do Porto que terá sido sucessor de Félix & Filho. Tratava-se do Dr. Rodrigo de Sousa Moreno, uma figura conceituada no Porto, que foi lente da Faculdade de Cirurgia do Porto e administrador do Concelho de Gondomar. Era filho de pai espanhol, que casou com uma portuguesa e foi-lhe concedida carta de naturalização em 1886(2).
Fotografia tirada da internet
Nos anos que se seguiram a farmácia teve vários directores técnicos e, a partir de 1961 e até 1974, surgiu nessas funções António Moreno Júnior (3). Presentemente uma nova firma tomou a seu cargo a função de manter esta farmácia que se inclui no roteiro das farmácias históricas do Porto e cuja bela fachada em ferro, em estética Art Nouveau, com o símbolo de Hígia (a taça que representa a cura) e a a serpente (que representa a sabedoria), aqui em duplicado, merece uma visita.
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(1) Charles Louis Barreswil (1817-1870), químico francês, uma figura fascinante que morreu ignorado. Em 1846 criou um reagente cupropotássico para determinar a glicose em soluções, sendo precursor do estudo da glicemia. Trabalhou com Claude Bernard sobre substâncias alimentares e fenómenos químicos da digestão. Foi também precursor de processos químicos para fotografia.
(2) ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Luís I, liv. 41, f. 151.
(3) Agradeço ao actual Director Técnico, João Alexandre Almeida, as informações complementares sobre a farmácia.