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quarta-feira, 13 de março de 2013

As Bonecas Nestlé da Estevão Nunes

Esta folha de bonecas recortáveis em cartolina era oferecida pela Farinha Láctea Nestlé no início do século XX. Em subtítulo surgia a explicação de que esta era «um alimento completo para crianças de peito e também para crianças em geral e para doentes padecendo do estômago».
Apesar disso as designadas bonecas suíssas Nestlé destinavam-se evidentemente às meninas e eram «a alegria das crianças e o descanso dos pais».

No reverso do cartão eram apresentadas mais informações sobre as vantagens desta farinha e o seu modo de preparação. Não é contudo sobre este produto que quero falar hoje, mas sobre a tipografia onde estas imagens foram impressas.
Ao olharmos para as imagens somos levados a pensar que o cartão podia ter vindo directamente da Suíça, mas na realidade foi feito em Lisboa na Tipografia da Papelaria Estevão Nunes. Este nome já me havia surgido com frequência durante a investigação para o livro «Mesa Real» uma vez que foi nesta tipografia que foram feitos muitos das ementas e cartões para concertos da Casa Real, durante os reinados de D. Luís e D. Carlos. Eram também da sua responsabilidade toda a variedade de cartões para convites assim como de planos de mesa destinados a estudar a posição dos convidados à mesa, antes dos banquetes.
Foi ainda no reinado de D. Luís que foi nomeado Fornecedor da Casa Real (18 de Julho de 1874)[1], título que, embora não incluísse qualquer obrigação de compra pela Casa Real, era um atestado de qualidade e distinção muito almejado pelas empresas na época.

Neste cartão menciona-se um prémio ganho pela Farinha Nestlé na Exposição Internacional de Bruxelas em 1910, pelo que deve ser de data aproximada.

No livro Os Fornecedores da Casa Real (1821-1910)[2] o autor apresenta um cartão desta empresa, da sua colecção, onde se pode ver que Papelaria se situava na Rua do Ouro 56-60 e Rua da Conceição 131-137 em Lisboa, e que tinha a Tipografia na Rua da Assunção, 18-24 e Rua dos Douradores, 101-11. Aliás a forma habilidosa como se apresentam estes endereços levam, numa primeira leitura, a fazer-nos crer na existência de vários locais pertença da firma uma vez que as oficinas e a  tipografia são apresentadas separadamente mas com a mesma morada.
Imagem retirada do livro Os Fornecedores da Casa Real
Para além de serem fornecedores da Câmara Municipal de Lisboa, eram-no também de vários Bancos e companhias, como declaravam nesse mesmo cartão.
Tinham contudo uma outra actividade, a editorial. Das sua tipografia saíram títulos como As Progressões Dolivaes - Demonstração e sua applicações a uma serie de 2.500 numeros[3], da autoria de Sallustio de Souzel, em que o autor apresentava o «mundialmente famoso método Dolivaes para roletas de cassinos, criado por Dolivaes Nunes em Portugal», a Casa com duas portas é má de guardar, uma comédia em verso sobre a mocidade de D. Nuno Álvares[4], ou o relatório da comissão dos festejos na Rua Áurea apresentada aos subscritores no Tricentenário de Camões, feito pelos Thesoureiros da Comissão Estevão Nunes & F.os[5], entre outros.
Fica por aqui a conversa sobre esta empresa, cuja qualidade de trabalho já me havia surpreendido ao constatar que as ementas da sua responsabilidade, impressas no final do século XIX, em nada ficavam a dever às de origem francesa, consideradas paradigma da época.


[1] Mesa Real, p. 223.
[2] Da autoria de Lourenço Correia de Matos, publicado em 2009 pela Dislivro Histórica.
[3] Typographia da Papelaria Estevão Nunes & Filhos, 1909.
[4] Da autoria de Calderón de la Barca, tradução de Francisco Serra. Papelaria Estevão Nunes, Lisboa, 1901.
[5] Lisboa, 1880.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma ementa poética

 Chamou-me à atenção a beleza desta ementa transformada em papel de suporte para uma poesia dedicada ao 14º aniversário de uma menina, de nome Palmira Guimarães Romano. A festa de aniversário decorreu no Porto a 14 de Outubro de 1903 e a poesia foi escrita por seu pai, Joaquim Ferreira d’Almeida Romano Júnior, de que apenas consegui descobrir que frequentou a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto de 1897 a 1899.
 A ementa, destinada muito possivelmente para distribuição em restaurantes que consumissem os produtos nela anunciados, foi feita pela firma Menéres & Cª para o vinho do Porto «Victoria». No fundo da ementa uma frase simples dizia: «Após a refeição bebei um cálice de vinho Victoria».
Do lado direito podia ver-se a imagem de uma garrafa do referido vinho e, do lado esquerdo, uma fita em espiral abraçava as várias medalhas ganhas nas exposições mundiais, com indicação das datas: Lisboa 1884, Paris 1889, Chicago 1893, Anvers 1894, Filadelfia 1876 e Bordéus 1895.
 A empresa que comercializava este vinho tinha começado em 1874 pela mão de Clemente Joaquim da Fonseca Guimarães que fundou a firma Clemente Menéres & Cª, após o regresso do Brasil onde esteve de 1859 a 1863.
Destinada inicialmente à produção de rolhas de cortiça, posteriormente alargou a sua acção e passou a comercializar vinhos, vinhos do Porto, malvasia e licores, que produzia ou representava. Em 1895 após a morte da primeira mulher a designação passou a Menéres & Cª, mas esta sociedade foi extinta em 1905, dando origem à Companhia Vinícola do Porto e em 1908 à Companhia Vinícola Portuguesa.
 A poesia tem a data de 1903 que corresponde precisamente ao período «Menéres & Cª». A parte superior do papel de ementa apresenta-se decorada com sete leques, em estilo Arte Nova, que representam figuras femininas correspondendo aos sete pecados capitais.
Damos relevo à «Gula», mais adaptada à temática deste blog, mas todas elas são interessantes. Uma utilização diferente de uma ementa.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Há uma linha que une o Palm Beach e a Tágide

Na década de 1940 as zonas de Estoril e Cascais fervilhavam de actividade. Aí chegavam e viviam, durante algum tempo, refugiados internacionais que fugiam à guerra. Numa época em que Portugal se tornou um centro de espionagem era aqui que se concentrava a fina flor da aristocracia, onde se incluíam reis e príncipes, mas também magnatas ou outros industriais. Procuravam um país em paz, numa Europa turbulenta e Portugal transformou-se num destino mítico. Acompanhando a moda vieram depois figuras importantes ligadas a outras áreas, como a do cinema ou da escrita.
Esta internacionalização levou ao desenvolvimento de novos hotéis e de restaurantes modernos na que chamamos «a linha».

Falamos hoje do Palm Beach, restaurante e boite, como então se dizia[i], onde se organizavam bailes com orquestras, que tinham lugar também no Casino.

Situado na Praia da Conceição, em Cascais, começou a sua actividade na década de 1940. Há um pedido de registo da marca «Palma Beach» feito em Setembro de 1943[ii], mas não consegui confirmar se corresponde a este estabelecimento.
É provável que o Palm Beach pertencesse aos mesmos donos da Tágide, um restaurante que tinha também espectáculos de «music-hall». Este último, em 15 de Maio de 1958, promoveu um espectáculo no Coliseu do Porto, onde estiveram entre outros Madalena Iglésias.

Mas pela Tágide passaram artistas como Charles Aznavour, ainda jovem, e outros.
Numa ementa do Palm Beach de 1978 encontrámos entre os batidos duas variedades: «Tágide» e «Palm Beach».
Por outro lado, na contracapa do programa de music-hall de 1958 constata-se uma publicidade explícita aos dois locais: «Se almoçar no Palm Beach jantará no Tágide». O primeiro é designado como «restaurante- bar-boite» e o segundo como «boite de nuit-restaurante de luxo».
Em comum, ambos os locais eram servidos por um dos grandes distribuidores de vinhos dos anos 40, A. Serra Campos Ferreira[iii] que, em publicidade publicada no programa de music-hall, nos revela as mesmas bebidas que eram vendidas na Tágide.

Diário Popular 5/11/1960
Campos Ferreira teve grande actividade comercial em várias empresas[iv], tendo vindo a casar com a filha de Elpídio Martins Semedo, fundador da Semedo & Filhos que viria a dar origem às Caves do Solar de São Domingos, ainda hoje existentes na Anadia.
Campos Ferreira á direita, com Guilherme Pereira de Carvalho ao centro e Jacques Dutailly, no Faia, em 8/1/1953

Numa das fotos a que tive acesso Campos Ferreira aparece com Guilherme Pereira de Carvalho, uma interessante figura do tempo de Salazar e que trabalhou no Secretariado da Propaganda Nacional, com António Ferro. Foi responsável pela vinda de vários artistas internacionais a Portugal e é aqui que entra Campos Ferreira, que surge ligado a artistas que actuaram na Tágide, numa ligação que não me é possível comprovar de outra forma.
O restaurante Tágide sofreu uma transformação profunda em 1973 perdendo-se os elementos que permitiriam completar este puzzle. Novamente alterado em 2007 mantém-se em funcionamento activo, mantendo a soberba vista sobre Lisboa.

Quanto ao Palm Beach, que chegou a fazer com a que a «Praia da Conceição» mudasse o nome para «Praia do Palm Beach», manteve-se uma discoteca de sucesso nos anos 60 e 70. Foi depois um local de musica rock por onde passaram muitos DJ, até que ficou abandonado no início do século XXI. Já neste século transformar-se-ia na "Pizzaria Capriciosa".
Em definitivo, rompia-se a linha invisível que os ligou nas décadas de 40 a 70.



[i] Boite foi a designação que se usou para designar os locais dançantes até há cerca de 5-10 anos. A palavra discoteca que hoje se usa destinava-se a lojas de venda de discos.
[ii] Publicado no Boletim da Propriedade Industrial por Palm Beach Company. em Setembro 1944.
[iii] Juntamente com J. A. da Costa Pina; J. Cândido da Silva, A. L. Simões e Pina; J. Nunes da Silva e Vinalda, numa época em que por Lisboa faziam escala as tropas americanas a caminho dos Estados Unidos.
[iv] Foi sócio gerente da Semedo & Filhos, Lda, da Fábrica de Licores Mundial, da Sociedade Comercial Reicarrera, Lda e da Sociedade Comercial Semira, Lda.

domingo, 30 de setembro de 2012

Confraternização do Curso Médico de 1923

 Quando olhei para estes três documentos que resumem o Programa da Reunião do Curso de Medicina de Lisboa de 1918-1923, não pude deixar de constatar como tudo mudou.
 O encontro, que comemorava o 22º aniversário do curso, durou o dia inteiro. Começou com um missa às 10 horas da manhã, a que se seguiu a visita ao Laboratório Victória e aos novas pavilhões do IPO e foram almoçar no restaurante Faroleiro no Guincho.

À tarde visitaram o novo Hospital da CUF, o Hospital Júlio de Matos e a Maternidade Alfredo da Costa.
 O encontro terminou com um banquete no Café-Restaurante Tavares. Da ementa deste último, que se apresenta, fazia parte o «Lombo de Vaca à Testut» que explico, para quem não é médico, era o autor do livro de Anatomia da época. No meu tempo já não se usava e estudávamos pelo Rouvière.
 Recordo a propósito o único jantar de curso a que fui. Comemorava-se o 25º aniversário do final do curso e por grande insistência de uma colega lá fui. Quando chegamos ao hotel onde ia decorrer o jantar estavam todos os colegas numa sala que ficava ao fundo de uma escadaria. Quando chegamos ao cima da escada olhamos para baixo e ela diz-me: «Vamos embora». Nessa altura eu não concordei e avançamos estoicamente.
 Eu não via a grande maioria das pessoas há 25 anos. A parte feminina, de cabelos arranjados e pintados, ainda conseguia disfarçar o quarto de século que havia já passado, mas os homens, então sem esses disfarces, mostravam o cabelo branco e as suas barrigas.

Falávamos uns com os outros, sem recordar já os nomes e a frase mais repetida era uma mentira galante: «Estás na mesma».
Não foi fácil e no final pensei: «Talvez fosse melhor vir todos os anos. Assim habituava-me progressivamente». Nunca mais voltei. Estou à espera do 50º aniversário de curso.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma ementa com história do Palace Hotel da Curia

Quando olhei pela primeira vez para esta ementa da Curia comecei apenas por achar interessante o grafismo Art-deco. Na capa uma jovem, com vestido de cocktail, abre descontraidamente uma garrafa de champanhe cuja rolha atinge a ponta do nariz do seu acompanhante, quase lhe fazendo saltar a cartola da cabeça. Um humor inofensivo e ligeiro.
Em título podia ler-se “Paraíso- Piscina Bar» e em baixo um escudo com um cisne e as iniciais CPSC.
No interior encontrava-se a ementa do almoço do dia 8 de Julho de 1935, constituída exclusivamente por pratos portugueses. Após os Aperitivos Variados seguia-se uma Sopa à Portuguesa, Sardinhas Assadas, Caldeirada da Murtosa, Pato da Curia com Arroz, Leitão da Bairrada, um Creme à Portuguesa e frutas da região. Como bebidas foram servidos vinho branco e tinto das Caves da Piscina e espumante da Bairrada. No final foram servidos café e cigarros.
Na página oposta, em branco, surgia a uma dedicatória onde se podia ler: «Bem hajam os que trabalham para o bem de todos nós e para o engrandecimento da Pátria».
Seguia-se a assinatura, que me deu algum trabalho a identificar, até perceber que se tratava de «Alexandre d’Almeida».
Fez-se luz no meu espírito e percebi que se tratava de um almoço de homenagem aos trabalhadores do Palace Hotel da Curia, feito por Alexandre de Almeida.
Alexandre de Almeida (1885-1972) foi um grande industrial hoteleiro português, cuja início de actividade na hotelaria se situa em 1917. Contudo só em 1921 adquiriu o Palace Hotel da Curia. Nos anos seguintes, entre 1922 e 1926, o edifício já existente seria ampliado, num novo projecto da autoria do arquitecto Norte Júnior.

Só mais tarde, nos jardins circundantes ao Hotel perto do campo de ténis foi projectada pelo arquitecto Raul Martins uma piscina de dimensões olímpicas. Este arquitecto foi também o responsável pelos projectos lisboetas do Cinema Jardim e pelo antigo Cinema Europa.
O conjunto da piscina e edifício com as áreas de apoio ao seu serviço, de linhas modernistas, foi concebidas para dar a ideia de se estar no convés de um grande navio, em que a “torre”, alberga os chuveiros, o restaurante, um bar, etc. Designado “Paraíso’ ou ‘Piscina Praia’ foi inaugurado em 1934.
Alexandre de Almeida foi um precursor no campo hoteleiro nacional com preocupações de qualidade e modernidade e uma visão internacional que fez com que o conjunto dos seus hotéis atingissem um alto nível. Quando morreu deixou aos seus descendentes, agora na terceira geração, um importante conjunto de hotéis icónicos, de que o Palace Hotel da Curia faz parte.
Esta homenagem aos trabalhadores no primeiro ano da existência da moderna piscina, em 1935, se estou certa na minha interpretação, revela-nos também um homem com preocupações humanísticas e de liderança de pessoal, que à época, era também seguramente inovador.

Nota: Sobre este hotel sugiro que leiam o artigo no blog Restos de Colecção

terça-feira, 8 de março de 2011

Uma ementa de Carnaval

Hoje é 3ª feira de Carnaval e por coincidência, encontrei  agora este folheto da Casa Almeida & Oliveira, Lda. Designada "A Casa do Carnaval", existe desde 1889. Situada em Lisboa, na Travessa de S. Domingos, 8 a 14, ainda hoje vende objectos para Carnaval, fogos de artifício, artigos para os Santos Populares e adornos de Natal.
Neste folheto podemos encontrar os objectos à venda em 1972. Lá estão as inevitáveis máscaras para crianças e adultos, os saquinhos de arremesso, os globos com caras cómicas, as pistolas de plástico para água ou para água de colónia, os bonés e chapéus de fantasia, etc.
Mas o que me chamou à atenção foi o capítulo dos “Doces” e o dos “Alimentos diversos”.
Aqui lhes deixo uma amostra da extensa variedade.
Um tipo de brincadeira inofensiva que vai caindo no esquecimento.

domingo, 25 de julho de 2010

Duas ementas do Hotel de L'Europe em Lisboa

Adquiri hoje duas ementas do Hotel de l’Europe. Nelas se registam o cardápio dos jantares dos dias 9 e 17 de Junho de 1900.
Como era moda na época estão escritas em francês. O próprio papel onde foram manuscritas é francês, oferta promocional do Licor Bénédictine, mostrando nas suas gravuras cenas com oficiais franceses que saúdam as suas vitórias com o licor anunciado.
Vejamos a que hotel se referem estas ementas.
O Hotel de L’Europe foi inaugurado em Lisboa, em 1845, no Palácio Barcelinhos, na Rua do Carmo 2, pertença de uma francesa, Madame Langet. Tratava-se do mesmo edifício em que se instalaram os Grandes Armazéns do Chiado.
Foi um hotel importante que tinha a preferência de hóspedes famosos durante as suas visitas a Lisboa, como a grande artista Sarah Bernhardt. Mas era também frequentado por portugueses, sendo ponto de encontro de alguns dos implicados na revolução republicana de 5 de Outubro de 1910.
Viria a fechar em 1912. Em 1921 ressurgiria com o mesmo nome, agora propriedade de Alexandre de Almeida, na Praça Luís de Camões nº 6, fazendo esquina para a Rua do Alecrim e a Rua das Flores. Para simplificar, correspondia ao edifício que hoje é ocupado pelo moderno Hotel do Bairro Alto.
A cronologia permite-nos assim concluir que as ementas se reportam ao primeiro Hotel de L’Europe, onde se comia comida francesa, tal como viria a suceder no segundo hotel. Em prospecto turístico publicitário, não datado mas dos anos 30-40, com hotéis recomendados do grupo Alexandre de Almeida salientava-se, referindo-se a este último, a instalação moderna dessa instalação hoteleira, a «cuisine française» e a «cave soignée».
Como se pode constatar a estrutura da refeição começava com uma sopa, seguida de um prato de peixe, um prato de carne, um prato de legumes, e a coroar a refeição: o prato de assado. Vinha depois a salada, um doce, que num dos casos era um gelado de chocolate e no outro um doce de arroz com molho de frutos e no final o «dessert».
E o próprio papel de ementa recomendava: «Após a refeição um cálice de Bénédictine», o licor de ervas francês, inventado no final do século XIX por Alexandre Le Grand, baseando-se no licor produzido pelos frades beneditinos da abadia de Fécamp.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Uma ementa de "A Garrett"

Segundo afirma Cecília Barreira, as pastelarias mais importantes dos anos vinte, em Lisboa, eram a Bénard, a Bijou, a Ferrari, a Pastelaria dos Grandes Armazéns do Chiado e a Garrett.
É sobre esta última que falaremos a propósito de uma ementa.

A refeição foi servida em Torres Vedras a 22 de Agosto de 1926. Ainda muito ao gosto francês, que imperara no século XIX nas mesas requintadas, apresenta-se toda escrita em francês. Era constituída por Poisson, Entrée, Entremet e seguida de Dessert, e os pratos que a compunham encontram-se descriminados no verso.
A face anterior da ementa tem um grafismo Art Deco e foi feita na Litografia de Portugal, em Lisboa. Nela a “Garrett” é designada por Patisserie et Restaurant.

Qual era esta Garrett?
Mário Costa no «Chiado Pitoresco e Elegante» refere-se à Casa Garrett, situada no Chiado, no local onde viria a instalar-se o Hotel Borges, uma pastelaria do italiano Rembado que, em 1885, se transferiu para a Rua dos Capelistas tomando o nome Patisserie Garrett.
Mas em 1918 foi inaugurado no Chiado, no Largo das Duas Igrejas, a Pastelaria Garret, também conhecida por A Garrett do Chiado. Situava-se no prédio onde esteve a livraria do Diário de Notícias e está hoje a Maison Hermes.
Foi restaurante, pastelaria e casa de chá sendo um local muito concorrido pela sociedade lisboeta, onde era servido chá e havia concertos diários de boa música. Este local de encontro das «primeiras elegâncias femininas», nas palavras do Dr. João Ameal, foi à falência em 1934.

Para mim está instalada a dúvida, tanto mais que desconheço quando terminou a Patisserie Garrett da Rua dos Capelistas.
Por coincidência encontrei em arquivo menção a uma partitura de um fox trot “Foxy Maid”, da autoria de José Maria Navarro, publicado pela Sassetti e que foi um grande êxito do Quinteto Iberia, da Patisserie et Restaurant A Garrett.
Este achado faz-me pensar que é provável que a nova Pastelaria Garret, acompanhando a moda da utilização de língua francesa nas actividades sociais, tenha absorvido a designação da anterior casa, provavelmente já desaparecida. A falta de tempo para uma avaliação mais profunda, pode vir a revelar-me estar enganada. Se tal acontecer darei a mão à palmatória.