sábado, 30 de janeiro de 2016

Um almoço rápido

 
Vi há dias um programa do Gordon Ramsey em que ele fazia umas pequenas panquecas com milho de lata, cebolo e pimento. Hoje almocei sozinha e decidi experimentar e fiz uma massa semelhante à dos crepes, com farinha com fermento, ovo, leite, sal e pimenta. Juntei alcaparras, pimento picante cortado aos pedaços sem as sementes, anchovas picadas e cebolinho. Coloquei pequenos montinhos numa frigideira e obtive uma espécie de pataniscas.
Depois que fiz o dicionário gastronómico (Do comer e do falar…) fiquei com mais dúvidas quanto ao uso adequado das palavras. Sinto uma maior responsabilidade e tenho sempre receio de estar a usar os termos de forma incorrecta. Na realidade esta palavra «patanisca» é tão misteriosa que não se sabe a sua etimologia.
Quando falamos em patanisca os portugueses entendem sempre que se trata de pataniscas de bacalhau, mas se fosse verdade não precisávamos de acrescentar “de bacalhau”, porque estava implícito. Assim sendo, concluo que existem outras pataniscas, inclusivamente vegetarianas, como esta esteve para ser antes de lhe juntar as anchovas.
Acompanhei as pataniscas, (ou panquecas se quiserem) com salada de rúcula com gomos de laranja, polvilhada com noz e temperada apenas com azeite. Duas colheres de iogurte grego simples (embora possa ser temperado) ajudaram a completar o prato e a comer as ditas pataniscas.
Para sobremesa comi uma taça de ricota com lemon curd, que tinha feito há poucos dias. Um almoço simples, rápido e delicioso e que não precisa de receitas. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A guerra, a fome e o humor, um triângulo estranho

Parece-me que há 10 anos que não como um bocado de porco. Simplicissimus.
Dificilmente associamos o humor à guerra e à fome. Foi contudo uma das estratégias usada durante a I Grande Guerra como forma de propaganda da guerra, tanto pelos alemães como pelos aliados.
Os dias sem carne seriam suportáveis...se houvesse carne nos outros dias. Simplicissimus. 1915
Foi a primeira vez que se formaram grupos organizados ou associações que tinham como fim tornar as massas populares mais receptivas à ideia da guerra e minimizar a visão negra que dela tinham as populações envolvidas.
Que se passa? É horrível! Sonhei que tinha perdido o meu cupão de cerveja.
Os meios utilizados para manter a opinião pública do lado dos decisores políticos foram variados, em especial o uso de cartazes, de postais e a divulgação em revistas e jornais.
Este assunto pouco actual foi-me suscitado pela leitura de um livro sobre este tema, designado «Peints para eux-mêmes» e com legendas em quatro línguas: inglês, italiano, espanhol e português.
O título retoma um anterior «Les Français peints par eux-mêmes» que tinha como subtítulo «Enciclopédia moral do século XIX», um conjunto de livros com início de publicação em 1839, mas que nada tem a ver com ele.
Gretchen faz-se fotografar diante de acessórios em cartão para o noivo na frente não suspeitar da escassez de víveres.
O mais interessante do livro é presença de um carimbo de pertença do “Comité de Propaganda Aliadófila” que se situava em Lisboa na Rua de Campolide, nº 146, 2º. Sobre esta associação, que existiu em vários países, nada consegui saber, o que não deixa de ser curioso.
O talhante Schinagel corta o seu primeiro nabo
As gravuras apresentadas reproduzem imagens publicadas em jornais e revistas de vários países, nos anos de 1915 e 1916, e entre eles saliento as publicadas na revista alemã Simplicissimus. Nesta revista, de grande qualidade gráfica, publicaram os seus textos escritores como Thomas Mann e Rainer Marie Rilke e ilustradores famosos.
Esta associação guerra e humor estava tão divulgada que, em 1917, em plena guerra, no Salon des Humoristes de Paris, o tema da exposição foi "A guerra e os Humoristas".
Miau. 10 de Março de 1916. Leal da Câmara
Para acompanhar o texto fui buscar algumas imagens nacionais como as ilustradas por Leal da Câmara para a revista «Miau», em 1916. Nesse ano a legislação nacional alterou-se terminando a liberdade de imprensa no que respeitava às notícias da guerra, situação que se manteria até 1919 quando regressaram ao país os soldados portugueses que tinham partido para França e entre os quais se encontrava o meu avô. 
Miau 1916. Ilustração de Leal da Câmara

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Parabéns ao sr. Wilbur Scoville

Hoje ao abrir o Google deparei-me com o desenho de um senhor de bigode rodeado de pimentos vermelhos. Trata-se de uma homenagem do Google a Wilbur Scoville (1865-1942), um farmacêutico americano que, em 1912, criou a escala de Scoville e que faria hoje 151 anos, se fosse vivo.
Os vários tipos de pimentos contém CAPSAICINA que é a substância responsável pela sensação de ardência ou pungência dos frutos das pimentas (p.143).
E se quizer saber o que são as UNIDADES DE PICANTE SCOVILLE só tem que procurar na página 487 do livro «Do Comer e do Falar…».
Mas eu digo-lhe: É uma escala para avaliar a ardência ou pungência das pimentas desenvolvida por Wilbur Scoville nos Estados Unidos em 1912; varia de 0 (pimentão) até 300.000 (‘Habanero’).
Poster e rótulo no centenário da escala de Scoviille apresentado no blogue KillerArtWorx
Não se pode negar que é o momento mais picante deste blogue!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Os nogados

O meu amigo Nuno já me tinha prometido trazer nogado do Alentejo. Este veio de Estremoz mas é feito noutros locais desta província e também no Algarve e nos Açores pelo Natal. É localmente designado “Nogados” tal como no espanhol “Nuégados”.
É um doce antigo e o Dicionário da Academia Espanhola defini-o como uma massa cozida no forno, feita com farinha, mel e noz, mas que pode também ser feita com pinhões, amêndoas, avelãs e sementes de cânhamo. É curioso porque estas últimas, que são as sementes da Cannabis sativa, eram usadas pelo seu gosto a noz e hoje voltam a sê-lo por serem consideradas uma das sementes que estão na moda, incluídas na designação absurda e inadequada de “superalimento”.
Sementes de cânhamo. Foto tirada do site Sociedadevegan.com
Mas a receita usada em Espanha é diferente da alentejana porque neste caso leva farinha e a massa é feita em pequenos rolinhos que são cortados e fritos e que só depois são introduzidos na calda de mel e açúcar.

Muito diferente como se pode constatar do que consideramos o verdadeiro nogado. Este é um doce elaborado com mel, açúcar caramelizado e amêndoas, nozes ou avelãs e a etimologia vem do francês nougat. Em França já há referência ao “nogas” em livros de Medicina do século XVI como na Paraphrase sur la Pharmacopoee (1595) e no Brief Traicté de la pharmacie provinciale et familiere (1597).
Nos dicionários franceses encontramo-lo pela primeira vez no Dictionnaire de L'Académie française, (1762), na sua 4ª edição, que o define como uma espécie de bolo feito de amêndoas ou de nozes com caramelo. E diz que não tem plural.
Nougat. Fotografia tirada da internet.
Quanto ao Padre Rafael Bluteau, cujo dicionário foi publicado ente 1712 e 1723, não o refere como doce e menciona um autor espanhol que designa nogado como um molho feito com nozes.
Conclusão: Da próxima vez que comer um nogado pense que nada é simples na vida. Nem a definição de nogado.
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P.S. Apenas uma pequena parte disto encontra-se definida no livro «Do comer e do Falar…» que vai ser lançado amanhã. Mas depois de comer este doce não resisti em desenvolver o tema, embora fique ainda muito por dizer.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Ambientes decorativos em Portugal (séc. XVIII-XX)

Vai ter início a 17 de Fevereiro o curso mencionado que terá lugar no Museu Conde de Castro Guimarães (MCCG) em Cascais. 
Com uma frequência semanal e com a duração total de cinco sessões, será ministrado pelo Prof. Dr. Gonçalo Vasconcelos e Sousa.
A logística do curso está a cargo da minha amiga Drª Cristina Gonçalves do MCCG e, para os interessados, aqui fica o convite e o programa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Interiores domésticos nos anos 50

Imagens de felicidade doméstica enviadas por correio em datas festivas, na década de 1950. 
Lembro-me ainda de o meu avô nos enviar postais deste tipo pelos aniversários que muito nos agradavam e que guardávamos com cuidado. Onde estarão hoje?
Eram considerados uma beleza e muito apropriados à efeméride, com a presença da família completa ou de apenas de um único elemento, o homenageado. 
Neles estão presentes os pilares da felicidade doméstica, a família, um interior confortável (a presença da lareira, das cortinas, etc.), a partilha comum, por exemplo do chá, a utilização de objectos modernos, como o telefone, a presença de flores por todo o lado, desde o chão, junto ao telefone ou junto à lareira ou mesmo formas aéreas, como no interior desta.
Os tons desvanecidos das imagens, em rosa ou azul, acentuavam um ar romântico e intimista. Imagens com mais de meio século. Dá que pensar!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Lançamento em Lisboa do livro «Do Comer e do Falar...»


No próximo dia 19 terá lugar o lançamento do livro «Do Comer e do Falar….tudo vai do começar» em Lisboa, sobre o qual já falei aquando do lançamento inicial em Coimbra.
O livro foi escrito por mim e pela minha amiga Maria da Graça Pericão e tem ilustrações de um outra amiga Maria do Rosário Félix. Conta ainda com umas «palavras prévias» de outra amiga, a Profª Inês de Ornellas e Castro.
 Para quem aprecia este blogue, e a quem eu não convidei directamente por falta de contacto, fica o convite. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O Hotel Astória em Coimbra

Podendo escolher opto sempre por hotéis antigos. Podem ser menos práticos, com quartos mais pequenos e menos funcionais mas quando ganharam charme com a idade são, como as pessoas, mais interessantes.
Numa ida a Coimbra foi o Hotel Astória o escolhido. Já lá tinha ficado anteriormente mas vejo agora que a última vez foi há muito tempo porque a minha memória estava já um pouco esbatida. O hotel existe desde 1925 e o edifício, projecto do arquitecto Adães Bermudes, construído entre 1915-1919,  não foi concebido inicialmente para esse fim.
Quando Alexandre de Almeida o adquiriu para hotel pediu ao arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira que o adaptasse a essa nova função. Este espaço de tempo explica porque a sua fachada tem características Arte Nova enquanto no interior predomina a Art Deco. 
A cadeia de hotéis que Alexandre de Almeida, um homem de visão para o turismo, viria a construir incluía além deste o Palace Hotel do Bussaco, o Palace Hotel da Curia, e em Lisboa o Hotel Europa (de que já falei a propósito de uma ementa), o Hotel Metróple e o Hotel Francfort.
O Hotel Astória já viveu melhores dias. O restaurante, onde me lembro de ter jantado algumas vezes, está agora fechado. A sua beleza pode contudo apreciar-se pela manhã, uma vez que é aí que são servidos os pequeno-almoços. A sala não sofreu grandes alterações mas desapareceram os belos candeeiros de tecto Art Deco, visíveis em fotografias antigas, substituídos por candeeiros modernos.
As salas de entrada mantém a sua beleza com alguns apontamentos de época, como as pequenas secretárias onde as pessoas escreviam os seus bilhetes postais durante as viagens, ou a zona de leitura situada na mezzanine.
Precisa contudo de algum investimento. Nem precisa de obras ou de gastar muito dinheiro. O que é necessário é uma mão sensível que enriqueça os quartos com quadros Art Deco e colchas condizentes para tornar o ambiente mais quente. Que retire do armário de souvenirs a louça de Coimbra que, aposto, nenhum turista alguma vez comprou. E pouco mais será necessário para acentuar o ar de época para que os quadros com postais antigos da cadeia de hotéis nos remetem.
A experiência de subir num antigo elevador sentado no seu banco de madeira é hoje rara e recorda-me algumas lojas de Lisboa da minha infância, quando o tempo era mais lento.
O serviço é discreto mas impecável com uma disponibilidade do responsável pelo hotel nos ouvir quando o abordamos na recepção. 
Em conclusão: uma experiência positiva, mas que deixa um amargo de boca, como quando olhamos para uma pessoa bonita mas descuidada. Quando afinal é preciso tão pouco para melhorar. Foi-nos dito que aguardam obras. Não é preciso. Retomando a analogia da pessoa, um novo penteado e um baton nos lábios e a imagem modifica-se imediatamente. Alexandre de Almeida não gostaria de ver assim o seu hotel.