domingo, 28 de abril de 2013

Portugal Gastronómico na Exposição de Paris de 1937

Este folheto desdobrável intitulado «Le Portugal Gastronomique» foi feito para a Exposição Internacional de Paris de 1937. A verdadeira designação desta mostra, de acordo com o tema, foi a de Exposição Internacional de Artes e Técnicas e teve lugar entre 4 de maio e 27 de novembro desse ano.
Os pavilhões dos vários países participantes foram construídos ao longo do rio Sena e representaram projectos dos mais destacados nomes da arquitectura da época, como Alvaar Aalto que desenhou o pavilhão da Filândia e Mallet-Stevens que desenhou o Pavilhão da Electricidade.
Portugal fez-se representar ao mais alto nível com um belo pavilhão de pendor nacionalista, com o projecto do arquitecto Keil do Amaral.

 O edifício com dois pisos, tinha uma sala destinada às colónias, uma exposição de artesanato, uma sala com as descobertas científicas, outra com produtos agrícolas e uma destinada ao Turismo, entre outras. Em frente do pavilhão estavam atracados dois barcos: um rabelo e um saveiro.
A decoração interior esteve a cargo de Carlos Botelho (1899-1982), mais conhecido como pintor, em especial pela sua visão poética da cidade de Lisboa. Mas Botelho era plurifacetado e foi também ilustrador e caricaturista. Foi um dos pioneiros da banda desenhada em Portugal sendo da sua responsabilidade, entre 1926 e 1929, as imagens do ABCzinho.
Trabalhou em várias mostras internacionais.como no pavilhão de Portugal na Exposição Internacional e Colonial de Vincennes, Paris, 1930-1931, no stand de Portugal na Feira Internacional de Lyon, 1935, etc.
A partir de 1937 passou a fazer parte do SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), mais tarde denominado SNI (Secretariado Nacional de Informação), juntamente com Bernardo Marques e Fred Kradofler. Foi com estes que trabalhou em vários pavilhões de Portugal, como neste da Exposição Internacional de Artes e Técnicas em Paris, onde chegou a ganhar um prémio.
Com este folheto percebemos que a sua acção foi mais vasta e que participou também no grafismo da propaganda distribuída. Este folheto extraordinariamente bem concebido, com capas a encarnado e verde em que o local do escudo é ocupado por produtos alimentares portugueses, tem a sua assinatura.
O texto é da autoria de Albino Forjaz Sampaio e é uma elegia à comida tradicional portuguesa, descrita por regiões, a começar pelo norte do país. Terminava com um convite desafiador aos estrangeiros, onde dizia que se os portugueses tinham partido à descoberta do mundo em pequenas naus, que esperavam para também eles partirem à descoberta de uma gastronomia quase desconhecida.

Uma visão de Lisboa por  Carlos Botelho
No lado oposto ao texto surgia um mapa de Portugal onde se podiam ver as imagens típicas dos habitantes das várias regiões acompanhados pelos alimentos tradicionais de cada uma delas. As representações, ordenadas e explícitas, onde predominam vários tons de verde e encarnado, são belíssimas. Regozijo-me por ter chegado às minhas mãos um exemplar em tão perfeito estado, que partilho com imenso prazer.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Museu Virtual: Prato para Acepipes (Hors d’oeuvre)

 
Nome do Objecto: Prato para Acepipes.

Descrição: Prato de grandes dimensões (diâmetro de 35 cm) com uma cavidade central circular rodeada por 6 outras, em feitio de concha de vieira. Vidrado azul com bordadura em tons de azul escuro e amarelo. No centro de cada cavidade apresenta-se um ramo de flores em tons rosa e violeta e folhas verdes no estilo designado «louça de Alcobaça».

Material: Faiança vidrada.

Época: Década de 1950.

Marcas: Vestal Alcobaça. Made in Portugal. Hand Painted. Assinado: A. Marques.

Origem: Adquirido na região de Lisboa.

Grupo a que pertence: Equipamento Culinário.

Função Geral: Recipiente para o Serviço ou Consumo dos Alimentos.

Função Específica: Recipiente para servir Acepipes.

Nº inventário: 1077

Objectos semelhantes: Ainda não classificados.
NOTAS:
A Fábrica Vestal iniciou a sua actividade em 1947 e teve o seu maior desenvolvimento na década de 1950 a 1960, período a que deve corresponder este prato.
Os hors d’euvre, segundo Flandrin[1], surgiram no final do século XVII. Esta designação referia-se ao facto de ficarem «de fora» dos pratos principais, quando falamos da sua localização sobre a mesa. Durante os séculos XVII e XVIII eram mais frequentemente servidos quentes e faziam parte tanto do 1º como do 2º serviço à francesa. Não se encontra referência a eles nem no livro de Domingos Rodrigues nem no de Lucas Rigaud.
No século XIX passaram para o início da refeição e apresentavam-se mais frequentemente frios. Durante o século XX podiam ser servidos como pratos quentes ou frios e eram apenas servidos antes do almoço. Até à década de 1970 faziam parte da ementa dos almoços de todos os bons restaurantes e eram também servidos nas casas de família, em dias de visitas, razão porque se encontram tantos modelos de pratos para acepipes em Portugal, de faiança, porcelana ou vidro.



[1] Flandrin, Jean-Louis. L’Ordre des Mets, pp. 120-123.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A Aviação e o Chá

Ofereceram-me hoje esta interessante gravura que retrata o interior de um pequeno avião que sobrevoa Londres.
Em primeiro plano podem observar-se duas senhoras de calmo sorriso que apreciam o chá oferecido por um “steward”, identificado na lapela e vestido a rigor. As indumentárias femininas remetem-nos para a década de 1920-30.
A gravura apresenta a assinatura de C E Turner que corresponde ao nome de Charles Eddower Turner (1893-1965) que serviu na Royal Air Force durante as duas guerras. Esta sua actividade colocou-o em posição priviligiada para representar cenas de batalha, barcos e aviões.
Para além da representação artística da guerra, com publicações em revistas como o Illustrated London News e a Sphere ficou também conhecido pela sua actividade em campanhas publicitárias, a mais conhecida de todas para a linha de navios Cunard.
Esta gravura corresponde precisamente a esse período de acalmia entre as duas Grandes Guerras, quando se pensava que os problemas na Europa havia acabado e era possível sair de casa simplesmente para beber um chá a bordo de um avião.

domingo, 14 de abril de 2013

Lisboa de Ontem e de Hoje: A Tenda Cunhal das Bolas

Em 1910 a firma António Nunes & Silva, comerciantes, estava estabelecida na rua da Rosa, nº 169, em Lisboa, quando registou a sua marca «Cunhal das Bolas» para os produtos que comercializava.

A loja designava-se «Tenda Cunhal da Bolas» e vendia produtos próprios de mercearia, cereais e legumes, mas funcionava também como depósito de vinhos e alcoóis vendendo aguardentes e licores, como se podia ler na fachada.
A ilustração da marca representava a própria mercearia com as duas portas abertas onde, ao fundo, se adivinhava a figura do proprietário António Nunes da Silva, por detrás do balcão.

Agradou-me a simplicidade e o realismo da imagem e fui de propósito ao Bairro Alto para fotografar o local, mas as obras do Hospital de São Luís dos Franceses, que passaram a englobar todo este edifício, não deixaram rasto da mercearia.
Não foi fácil localizá-la porque já não existem estas portas e os números de polícia no local saltam estes números.
Fotografei a parede lisa com o restante cunhal da bolas e fica aqui a imagem para memória.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O livro «Doces e Cozinhados» ou o «Isalita»

Quando se designa um livro pelo autor significa que o título do livro se tornou secundário devido à sua divulgação, e que basta essa referência para imediatamente ser reconhecido. Na área da culinária portuguesa isso aconteceu apenas com o “Oleboma”, apesar de este ter escrito dois títulos e com a “Isalita”.
 Em qualquer um dos casos nem se trata do nome dos autores mas de pseudónimos que estes utilizaram jogando com as letras dos seus nomes. Ao primeiro voltarei com mais tempo, mas hoje falo da “Isalita” que foi o meu primeiro livro de culinária. Guardei-o religiosamente e ao longo da minha vida ofereci vários às minhas afilhadas e às filhas das minhas amigas que se interessavam por este tema.
 Na realidade o título do livro é «Doces e Cozinhados» e mesmo quando a minha biblioteca começou a aumentar continuei a recorrer a ele inúmeras vezes. Vendo agora à distância é bem possível que a forma rápida como eu escrevo as receitas, directa e sem floreados, nem grandes explicações, tenha a ver com o modo como as receitas se apresentam na Isalita.
O "meu" primeiro  Isalita
A primeira edição saiu em 1925 e foi publicada pelo Centro Tipográfico Colonial, a que se seguiu a publicação pelas Livrarias Aillaud e Bertrand, sem data ou número de edição. A 4ª edição, de 1935, já foi feita pela Livraria Bertrand, que manteve a publicação desta obra até 1951. A partir desta data foi a Livraria Sá da Costa que o passou a editar e vai agora na 28ª edição que saiu em 2006. Foi portanto um livro de sucesso e devo dizer que fiquei surpreendida ao descobrir que há 7 anos que não era publicado.
O livro ficou a dever-se à colaboração de duas amigas, que publicaram os seus conhecimentos culinários: Maria Isabel de Sousa Campos Henriques e Angela Carvajal y Pinto Leite Telles da Silva (Angelita). O nome «Isalita» resultou da abreviação de “Isabel” e “Angelita”.
Angelita, como era conhecida morreu em 1990 com 99 anos e era neta do Duque de Abrantes (Grande de Espanha) e filha de Manuel Carvajal Jimenes de Molina Giron [1] e de uma senhora de apelido Pinto Leite.
Maria Isabel era filha do engenheiro Álvaro de Sousa Rego que foi director geral dos Caminhos de Ferro e que faleceu em 1946[2]. Casou com o Eng. Artur de Campos Henriques que era chefe de divisão da C.P. Apesar da sociedade das duas amigas era Maria Isabel a responsável pela execução das receitas que eram experimentadas anteriormente na sua casa, como confirmou uma sua empregada doméstica Maria Augusta Velhuco em entrevista recentemente dada[3].
Seguindo o índice do livro vemos que começa por Explicações sobre alguns termos de Cozinha, seguem-se as receitas de “Hors d’Oeuvre”, Sopas, Molhos, Ovos, Peixes, Aspics, Entradas, Souflés, Carnes, Galantines e Mousses e vários capítulos dedicados aos legumes.
Na parte dos doces, após explicar os pontos de açúcar, dá várias receitas onde vamos encontrar os Doces de Fim de Jantar e os Doces para Chá, entre outros.
Termina com uma apresentação de Menus Diários com exemplos de sequências para almoço e para o jantar, seguida de Menus Escolhidos, onde nomeia ementas mais completas e sofisticadas para dias especiais.
Tenho uma dívida de gratidão para com “Isalita” que me ajudou a aprender a cozinhar de forma simples, tal como fez com milhares de portuguesas, que seguramente se identificam nas minhas palavras.



[1] A quem D. Carlos concedeu o título de Conde de Jimenez de Molina em 12/01/1893. ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, liv. 6, fl.56.
[2] Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1393, 1 Janeiro de 1946.
[3] Luís, Sara Belo, «Recordações de Isalita» in Visão Gourmet, Outono/Inverno 2012.

domingo, 7 de abril de 2013

Um almoço de espargos e túberas

O meu amigo Afonso comprou na província um ramo de espargos selvagens e túberas e aproveitámos para fazer um almoço de regresso aos tempos antigos.

A minha mãe que era do Entroncamento adorava espargos selvagens e, nas poucas vezes que os conseguia arranjar fazia-os com ovos. Têm um gosto intenso, sobretudo se os compararmos com os de cultura, e fiquei sempre com um fascínio por este prato simples.
Quanto às túberas, também conhecidas por "trufas brancas" (embora sejam de outra família) ou criadilhas, são um fungo que cresce debaixo da terra e que pertence à família das Terfezias. Conheci-as pela primeira vez em 1977 em casa da Tia Anica, em Martim Longo, sobre quem um dia gostaria de falar. Relembrar o que se comeu há tantos anos atrás comprova a excelência daquelas refeições, feitas em plena Serra do Caldeirão, durante o Serviço Médico à Periferia.

Fiquei sempre com a ideia de que as túberas existiam apenas no Alentejo mas ao fazer uma pesquisa na internet descobri que afinal existem por todo o país e como não eram exploradas há muitos anos existem em abundância em vários locais. Daí os festivais de «criadilhas», como as designam nas Beiras, espalhados por várias terras, a que associam outros cogumelos.
Mas voltemos ao almoço que foi muito simples. Começámos pelos espargos que foram preparados cortando à mão as partes duras. Depois cortei a parte das cabeças e piquei os talos. Alourei em azeite e alho as cabeças que reservei. Alourei os talos picados e juntei os ovos mexidos a baixa temperatura. Foram servidos com as cabeças dos espargos por cima.
Quanto às túberas o principal problema tem a ver com a sua preparação. Apesar de dizerem que são mais saborosos com casca não vale a pena arriscar. Tem que ser bem esfregados por fora e depois descascados. Não é por acaso que a principal variedade se integra na família Terfezia Arenaria. Na realidade elas estão cheias de areia incrustada na pele e mesmo bem lavados com escova não se consegue tirar toda.
Há várias receitas e a opção por as comer com ovos é boa mas para não repetir optámos por fazer um risoto. Foram cortadas às rodelas e em seguida procedemos como para qualquer outro risoto.

O resultado foi um almoço vegetariano diferente, muito agradável. Um regresso a um tempo que não vivemos mas em que se aproveitavam produtos selvagens que a natureza oferecia. Para quem vive nas cidades só têm que descobrir onde os comprar. Estamos na época destes produtos. Aproveitem!

PS: As fotografias dos pratos inexplicavelmente perderam-se no computador. As apresentadas foram tiradas pelo Afonso Oliveira, a quem agradeço.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os licores cordiais

  

A Pharmacopea Lusitana, uma importante obra médica portuguesa do século XVIII, da autoria de D. Caetano de Santo António que foi responsável pela Botica do Convento de S. Vicente de Fora, ajuda-nos a compreender a utilização dos medicamentos à base de álcool, como os licores, dos xaropes e julepes e do seu papel terapêutico como cordiais ou estomáquicos.

A expressão «cordeal» aplicava-se a medicamentos que faziam bem ao coração e a de «estomáquico» definia que era bom para o estômago.

Estas características eram atribuídas aos licores na sua fase inicial, em que foram utilizados como medicamentos. A designação de cordial surge ainda aqui neste anúncio de 1914, mas iria deixar de ser usada mais precocemente. Pelo contrário perdurou na língua inglesa onde se continuam a designar os licores por “cordials”.
 A segunda imagem é de uma publicidade, discretamente apresentada como notícia, publicada na revista Modas e Bordados de 1941, quando era sua directora Maria Lamas. Tratava-se do «Cordeal de Vitacola» a que se atribuía um rico paladar a velho vinho do Porto sendo recomendando um cálice após o jantar. Apresentado em garrafas era «vendido nas boas mercearias, drogarias e farmácias». Este licor era um produto do Laboratório de Química Luso-Alemã, que produzia desde 1935 o «Vitacola: poderoso tónico restaurador enérgico, muscular e cerebral».
Quanto à designação de «estomáquico» ou «estomático» seria substituída a partir das primeiras décadas do século XX pela de «digestivo», que sublinhava o seu efeito auxiliar na digestão, quando tomado após esta.
Esta ideia não é tão absurda como parece e na prática muitas pessoas o confirmam, como descobri há dias numa conversa com pessoa amiga.